quinta-feira, 18 de abril de 2024

XXV. ERNEST POR LEICESTER HEMINGWAY

 XXV 

Ernest por Leicester Hemingway 

 

O último livro que chegou-me às mãos, publicado em Portugal, foi escrito pelo irmão de Ernest, Leicester. Embora escrito por um membro próximo de sua família, o livro de Leicester tem todas as características de uma biografia fruto de uma pesquisa, e não um testemunho. Nada acrescentou de novo e pessoal ao que eu já lera sobre o meu jovem amigo. Assim, apenas poucos parágrafos do prólogo acabei por sublinhar. Os detalhes narrados do funeral de meu amigo permitiram-me acompanhar o seu sepultamento, mesmo tantos anos após ter ocorrido. 

 

Nessa manhã de 6 de julho, os membros da família Hemingway que puderam assistir ao serviço fúnebre achavam-se já no Idaho. Da dúzia de homens disponíveis que podia carregar com o féretro, só metade compareceu. Muitos foram os amigos que de longe vieram homenagear o homem que passara uma vida inteira a escrever do que a vida lhe ensinara em frases tão simples e belas que qualquer homem compreendia o que ele dizia e sentia. 

(...)  

A cova de Ernest fora aberta ao lado da de Taylor Williams, um velho amigo de caçadas. Durante anos, Taylor, cognominado de “Beartracks”, fora instrutor de tiro no Vale do Sol. Morrera dois anos antes e Ernest fora um dos que ajudara a transportar o féretro à última morada. Cada parcela de terreno no cemitério de Ketchum custa vinte e cinco dólares; a família Hemingway comprou seis. Ernest sempre gostara de espaço.  

(...) 

Em seguida, o padre Waldmann falou em inglês. Começou com uma meditação sobre a morte, pois haviam-lhe pedido para recitar os versos 3, 4 e 5 do primeiro capítulo do Eclesiastes: “Que ganha um homem com todo o seu labor debaixo do sol? Uma geração morre, outra nasce; só a terra fica para sempre”. Fez uma pausa. Em seguida prosseguiu com um novo pensamento, omitindo o verso seguinte que contém a passagem “O Sol também nasce”. 

Mary levantou os olhos. Mais tarde diria a amigos: “A minha vontade foi levantar-me e dizer: ‘Pare com a cerimônia!’”. 

Padre Waldmann continuou com a sua recitação em inglês: “Pai nosso! Suplicamos-Te que perdoeis o Teu servo Ernest...” Junto à cerca, as fitas de gravação giravam sem cessar registrando todas as fases da cerimônia, como se se tratasse de um espetáculo desportivo. De certa maneira, a cena era curiosamente teatral e nitidamente impressionante. 

Subitamente ecoou um sonoro “buum”. Todos os assistentes continuaram imóveis, apenas levantando as cabeças para ver o que acontecera. Mesmo por detrás do padre, perto do extremo superior da cova e não muito longe do grupo de jornalistas e fotógrafos, viram uma forma branca estendida no chão. Na extremidade, um par de sapatos apontava as biqueiras para os céus. 

Os assistentes fitaram aturdidos aquele vulto branco. O padre reencontrou o fio das palavras e continuou. Silenciosamente, o dirigente do funeral contornou o grupo, curvou-se e levantou o rapaz de altar caído a seus pés, preso de um choro compulsivo. Em seguida, levou-o para longe dali. 

“Como se chama o rapaz que desmaiara?” A pergunta sussurrada para além da cerca ouviu-se nitidamente na área do ofício fúnebre. A grande cruz coberta de flores brancas no extremo da sepultura caíra de lado, arrastada na queda. Ninguém se preocupou em endireitá-la durante o resto da cerimônia. A mim pareceu-me que Ernest teria aprovado tudo isso. Rezaram-se três ave-marias e três padre-nossos. Depois, cobriram o ataúde com um broquel de cor de bronze e baixaram-no ao fundo da sepultura, regando-o com bocados de terra que iria servir-lhe de última morada. 

Teria sido difícil para qualquer dos presentes, sabendo que Ernest vira e saboreara o vale vezes sem conta, não olhar à volta sem pensar no “Ergo os meus olhos para as montanhas”. Ao pé da cova de Ernest ergue-se um sinal simples. Debaixo dele repousa o corpo de um rude pastor. 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...