sexta-feira, 5 de abril de 2024

XI

           Mas há uma história mais que curiosa, na verdade trágica para qualquer escritor, e que está narrada por Ernest em “Paris é uma Festa”.  

“Não, eu ainda não me havia preocupado seriamente, pensei. Sabia que meus contos eram bons e alguém os publicaria, um dia, nos Estados Unidos. Quando abandonei o trabalho jornalístico, tinha certeza de que os contos seriam publicados. Mas todos que enviava eram devolvidos. O que me tornara tão confiante foi Edward O’Brien ter incluído o conto O Velho na antologia Os Melhores Contos e ter dedicado o volume daquele ano a mim. Ri-me disso e bebi mais cerveja. O conto não havia sido publicado em revista alguma e O’Brien rompera todas as normas, incluindo-o no livro. Ri outra vez e o garçom olhou para mim. Tinha graça porque, além do mais, ele escrevera meu nome errado. Era um dos dois contos que me haviam sobrado quando tudo o que tinha escrito até então foi roubado, na maleta que Hadley, em plena Gare de Lyon, quando ela embarcava para Lausanne, levando-me como surpresa todos os meus manuscritos, a fim de que eu pudesse trabalhar neles em nossas férias nas montanhas. Hadley colocara na maleta os originais, as cópias datilografadas e os carbonos, tudo em pastas de papel. 

O único motivo de eu ainda ter esse conto em meu poder foi Lincoln Steffens tê-lo enviado a um editor, que o devolveu. Estava em trânsito quando tudo o mais foi roubado. O outro conto que me restava intitulava-se no Michigan, escrito antes de Miss Stein ter vindo ao nosso apartamento. Nunca me dera ao trabalho de enviá-lo porque ela o considerava inaccrochable. Tinha ficado esquecido numa gaveta qualquer. 

Assim, depois que deixamos Lausanne e descemos para a Itália, só pude mostrar a O’Brien o conto sobre corridas. Ele era um homem gentil, tímido, pálido, com esmaecidos olhos azuis e ralos cabelos lisos, que ele mesmo cortava. Nessa época, morava como pensionista num mosteiro acima de Rapallo. Foram dias difíceis, pois eu não acreditava que pudesse escrever mais ainda. Mostrei-lhe o conto como uma curiosidade, assim como quem mostrasse a bússola de um navio que tivesse perdido de maneira inconcebível, ou como quem apanhasse seu próprio pé, ainda calçado, e feito alguma brincadeira a respeito de ele ter sido amputado num desastre.  

Quando O’Brien leu o conto, vi que ficou ainda mais arrasado do que eu. Nunca tinha visto alguém tão infeliz por outro motivo que não fosse a morte ou sofrimento insuportável, exceto Hadley quando me contou o que lhe acontecera. Ela chorava, chorava e nem sequer podia falar. Disse-lhe que, fosse qual fosse a coisa terrível que lhe tivesse acontecido, nada poderia ser tão ruim assim, e que, fosse o que fosse, não tinha importância. Não queria que se aborrecesse. Daríamos um jeito. Por fim, acabou me contando. Não acreditei que ela tivesse trazido os carbonos também. Arranjei alguém para me substituir no trabalho jornalístico, que me dava então bom dinheiro, e tomei o trem para Paris. Infelizmente, tudo era verdade mesmo e me lembro do que fiz naquela noite, depois de entrar no apartamento e verificar que era verdade. Mas isso já pertencia ao passado. Chink me ensinara a não cultivar as tragédias... Disse a O’Brien, portanto, que não se incomodasse. Talvez tivesse sido bom, para mim, perder os primeiros trabalhos. Disse-lhe todas aquelas mentiras que se usam para levantar o moral das tropas. Começaria a escrever outros contos, afirmei-lhe, e ao dizer isso, mentindo para que ele não se sentisse tão desolado, senti que era mesmo verdade”. 

 

Esta história inspirou o filme “As Palavras” (2012), roteirizado e dirigido por Brian Klugman e Leo Sternthal. Lembro-me que, quando assisti ao filme, lembrei-me dessa passagem da vida de Ernest, da perda de todos os seus trabalhos. Procurei na internet críticas e comentários sobre “As Palavras” e em nenhum li qualquer menção a Ernest, mesmo havendo uma cena em que um livro dele aparece no filme, sinal de que de fato o enredo tem, nessa passagem da vida de Ernest, inspiração.  

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...