Foi em uma Bienal do Livro no Rio de Janeiro que, à procura não de uma biografia de Ernest, mas de testemunhos a seu respeito escritos por quem o conhecera, que encontrei um livro de Kevin Jackson: “Constelação de Gênios – uma biografia do ano de 1922”. Nele, encontrei dezenas de citações sobre Ernest com datas definidas. Na introdução, o autor cita Ezra Pound que se referiu ao ano de 1922 como o Ano Um de uma nova era. Segundo Ezra, a Era Cristã teve fim no dia 30 de outubro de 1921, o dia em que James Joyce escreveu as últimas palavras de Ulisses. Embora Constelação não fosse um livro que falasse de Ernest por quem o conhecera pessoalmente, julguei muito interessante os detalhes e comentários, iluminando alguns fatos narrados pessoalmente por ele em suas cartas.
A primeira notícia que aparece sobre Ernest em Constelação de Gênios” data de 9 de janeiro. Diz o texto, que localiza Ernest em Paris, que “O jovem jornalista americano Ernest Hemingway e sua nova esposa Hadley se mudaram para um pequeno apartamento no quarto andar da rue Cardinal Lemoline, 74, perto da Place Contrescape. Chegaram a Paris cerca de duas semanas antes, em 22 de dezembro de 1921, e ficaram hospedados no Hotel Jacob. Paris seria a base deles nos próximos dois anos, embora os dois tenham viajado bastante pela Europa nesse período.
Em suas memórias, Hemingway tende a exagerar o grau de pobreza animada do casal em Paris. O apartamento custava apenas 250 francos – cerca de 18 dólares, nas taxas de 1922 – e a renda garantida deles, proveniente apenas do acordo de casamento com Hadley, era de 3 mil dólares por ano. Além disso, Hemingway tinha um salário por conta de seu trabalho como correspondente internacional do Toronto Daily Star. Visto que ele estimava que um canadense ou um americano podiam viver confortavelmente com mil dólares por ano, sua renda era mais do que suficiente.
Sendo assim, mimados pelas taxas de câmbio, os Hemingway tinham dinheiro para contratar uma empregada, que limpava durante as manhãs e fazia o jantar para eles nas noites em que não comiam em restaurantes. No entanto, o apartamento era um pouco apertado, e Hemingway logo recorreu a um escritório alugado na rue Mouffetard. Ali trabalhava durante horas regulares e, assim, conseguiu escapar do destino comum daqueles que iam a Paris buscar visões artísticas e acabavam simplesmente bebendo e falando sobre trabalhos que viriam a fazer.
4 de fevereiro. Suíça. Ernest Hemingway reportou, em Les Avants, Suíça, o declínio do movimento turístico no país, o que aconteceu em grande parte devido a uma taxa desfavorável de câmbio: apenas 5 francos para um dólar. Em consequência, notou Hemingway, os resorts que costumavam ficar lotados de viajantes antes da guerra pareciam agora as cidades fantasmas de Nevada. O país, concluiu, estava pagando um preço não previsto por sua neutralidade nos tempos de guerra.
8 de fevereiro. Paris. Hemingway e sua esposa tomaram chá com Gertrude Stein e sua companheira, Alice B. Toklas, no estúdio delas na rue de Fleurus, 27. Poucos dias antes, Hemingway havia mandado para Stein uma carta de apresentação de Sherwood Anderson, um amigo em comum. Stein, que gostava de Anderson, respondeu calorosamente. Hemingway já sabia alguma coisa sobre as reuniões de Stein – assim como quase todo mundo que estava atualizado em relação ao vanguardismo expatriado norte-americano; ela era uma espécie de lenda. Além de seu próprio trabalho como escritora – que Hemingway logo admiraria apaixonadamente, e que promoveria onde conseguisse –, Stein era uma anfitriã conhecida pela sua generosidade a escritores, compositores e artistas visitantes: William Carlos Williams, Carl Van Vechten, Paul Bowles, Djuna Barnes, ...
Stein tinha 48 anos, idosa o suficiente para ser mãe de Hemingway, e eram um par estranho por vários outros motivos além desse, mas logo começaram a conversar com facilidade e entusiasmo, um encantado com o outro. Hemingway escreveu a Anderson cerca de duas semanas depois dizendo que os dois estavam se dando tão bem “quanto irmãos”, enquanto Stein disse a Anderson que achava os Hemingway “cativantes”. Hemingway começou a aparecer no estúdio regularmente, ou fazia longas caminhadas à tarde com Stein no Jardim de Luxemburgo. Ela começou a instruí-lo: sobre escrita, sobre pintura e sobre o que os escritores podiam aprender com pintores. Seu próprio trabalho, disse ela para ele, havia sido profundamente moldado por um estudo de Cézanne, e Hemingway mais tarde alegaria que Cézanne era uma de suas grandes influências.
1922 foi o ano em que Hemingway embarcou seriamente em sua carreira como escritor; seus dois mentores mais importantes nessa profissão seriam Gertrude Stein e outro “americano-em-Paris” que conheceria algumas semanas mais tarde, Ezra Pound.
25 de fevereiro. Paris. Hemingway contou aos seus leitores canadenses sobre a grande colônia de aristocratas russos que fugiram da revolução e foram morar em Paris. Achava que eram encantadores, porém irritantes com o ar de esperança infantil e vã de que, de maneira alguma, a situação se resolveria sem que ninguém fizesse um esforço decisivo. As finanças deles eram um mistério, visto que poucos pareciam ter emprego e alguns viviam de forma absolutamente extravagante; sua fonte mais óbvia de sustento era a venda de joias e outros bens de família. Tantos badulaques russos eram vendidos nessa época que o preço das pérolas caiu. Hemingway temia pelo futuro desse povo.
9 de março. Paris. Hemingway escreveu ao amigo Sherwood Anderson enaltecendo Ulisses com fervor:
“Joyce tem a droga do livro mais maravilhoso do mundo. Deve chegar a suas mãos em tempo. Enquanto isso, dizem que ele e sua família estão morrendo de fome, mas é possível encontrar esse pessoal todas as noites no Michaud’s, onde Binney e eu só temos dinheiro para ir uma vez por semana.
Gertrude Stein diz que Joyce a faz lembrar de uma senhora em São Francisco. O filho dessa senhora ficou rico em Klondyke e ela vivia por aí com os braços no ar dizendo: ‘Ah, meu pobre Joey! Meu pobre Joey! Tem tanto dinheiro!’. Esses irlandeses dos infernos, eles têm de reclamar sobre alguma coisa, mas ninguém nunca ouve falar de irlandeses morrendo de fome.”
Um comentário singularmente de mau gosto, ou singularmente ignorante: Hemingway nunca ouviu falar da Grande Fome?
25 de março. Paris. Hemingway reportou uma agitação causada pelo Prêmio Goncourt dado a Batouala, um romance de René Maran: “Um negro”. Maran havia sido implacavelmente atacado por seu retrato do imperialismo francês, e particularmente por um prefácio ao romance que descrevia como comunidades africanas pacíficas de cerca de 10 mil pessoas haviam diminuído para menos de um décimo do tamanho original.
Hemingway não tinha dúvidas quanto às qualidades literárias da obra de Maran:
Você sente os cheiros do vilarejo, come seus alimentos, vê o homem branco como o homem negro o vê, e depois de ter vivido no vilarejo, você morre nele. É tudo o que há na história, mas quando a lê, você visualiza Batouala, e isso faz com que seja um grande romance.
10 de abril. Itália. O evento econômico chave do ano, a Conferência de Gênova, aconteceu no salão nobre do Palazzo San Giorgio; delegados de 34 nações se reuniram para debater e negociar os termos da economia mundial no pós-guerra.
Ernest Hemingway estava presente como repórter e enviou vários artigos – alguns com apenas um parágrafo, outros com algumas páginas – entre 10 de abril (“Canada’s Recognitions of Russia”) e 13 de maio (Lloyd George’s Magic”). Começou em estilo vívido: “Gênova está lotada, uma Babel moderna com um corpo de intérpretes suados tentando unir as perspectivas de quarenta países diferentes. As ruas estreitas fluem com multidões mantidas em ordem por milhares de tropas italianas...” A razão das tropas, explicou em um outro texto, era o medo de que a presença da delegação soviética provocasse revoltas comunistas e anticomunistas.
Foi durante essa conferência que Hemingway aprendeu a arte da telegrafia – espremendo o máximo de informações possíveis no menor número de palavras. Lincoln Steffens, um colega jornalista, registrou ter visto Hemingway olhando fixamente para um artigo recentemente enviado e ficado maravilhado com suas próprias novas habilidades: “Sem sobras, sem adjetivos, sem advérbios – nada além de sangue, ossos e músculos. É incrível. É uma nova linguagem.” Depois de sua experiência em Gênova, acreditava Steffens, o estilo de Hemingway mudou de uma vez por todas.
16 de abril. Itália. Foi desvelado ao mundo que a República de Weimar reconheceu oficialmente o novo regime russo no Tratado de Rapallo. Walter Rathenau, ministro das Relações Exteriores, supervisionou os procedimentos. O efeito foi dramático. No dia 18, Hemingway descreveu o alarme e o horror com que os italianos viram esse tratado, assinado por Rathenau e pelo enviado soviético, Tchitcherin. Os franceses ficaram igualmente perturbados, e a Grã-Bretanha, representada por Lloyd George, disse de maneira fatídica que isso só podia ser compreendido como um primeiro passo em direção a uma aliança entre soviéticos e alemães. A conferência de Gênova ficou às margens da dissolução, visto que a França ameaçou retirar-se imediatamente, exigindo que Lloyd George pressionasse Rússia e Alemanha a renunciarem o tratado.
Todo o primeiro dia da conferência, reportou Hemingway, foi marcado por uma explosão apaixonada por parte do chefe da delegação francesa, M. Barthou, que insistiu que a França nem começaria a discutir a questão do desarmamento; Tchitcherin então se levantou e insistiu que a questão era central aos procedimentos. Os franceses pareciam estar a ponto de se retirarem em protesto quando Lloyd George conseguiu acalmar o orgulho ferido de ambos os lados. Hemingway concluiu seus relatórios do mês com avaliações pessimistas das performances tanto dos russos quanto dos alemães.
No exterior, o tratado foi recebido com reações que iam de apreensão a horror absoluto. Mas enquanto algumas nações ocidentais tinham dúvidas quanto ao prospecto de uma aliança entre Alemanha e Rússia, elementos da direita alemã acreditavam que certos diplomatas estavam planejando secretamente uma submissão da Alemanha à regra bolchevique – uma suspeita que logo seria fatal para Rathenau.
27 de abril. Nova York. Primeira publicação, feita por Liveright, de The Enormous Room [O Quarto Enorme], de E. E. Cummings – ou, conforme o estilo que ele definiria para si próprio mais tarde, e.e.cummings. (...)
As críticas iniciais na imprensa convencional foram todas desdenhosas ou hostis, concentrando-se quase inteiramente no que entenderam como a política anarquista ou bolchevique da obra, em um momento em que havia um grande “pânico vermelho” em curso. Foi apenas no verão, quando várias revistas literárias deram sua opinião, que as qualidades formais do livro foram devidamente identificadas e apreciadas por pessoas como Gilbert Seldes, John Peale Bishop e o leal Dos Passos. A resposta mais prazerosa, apesar de concisa, veio de Ernest Hemingway: “É um dos grandes livros”.
2 de maio. Canadá. O Toronto Daily Star publicou um artigo de Ernest Hemingway cujo título era: “A Hot Bath na Adventure in Genoa”:
Loyd George diz que conferências são mais baratas do que a guerra, mas, até onde sei, Lloyd George nunca foi implodido por um banheiro italiano explosivo. Isso acabou de acontecer comigo. É uma das inúmeras diferenças entre nós...
O artigo irônico de Hemingway brincava com a discussão hilária que teve com o gerente do hotel um pouco depois da explosão – o próprio Hemingway ainda estava tão afetado por ela que mal conseguia falar. O gerente, com um discurso suave, porém ilógico, disse que o hóspede era na verdade um homem de sorte, muita sorte, porque afinal de contas tinha sobrevivido.
Uma testemunha, provavelmente exagerando, disse que a explosão foi tão poderosa que arremessou Hemingway pelo corredor. Hemingway disse apenas que foi atirado no chão de tábua; sentia dores, mas não estava seriamente machucado. Apesar dos ferimentos recentes, continuou produzindo com diligência, descrevendo em detalhes a concentração intensa de russos, que se debruçaram sobre documentos e cálculos até às 4 da manhã enquanto todos os outros delegados da conferência estavam na cama havia horas.
Com uma combinação de iniciativa e charme viril, Hemingway deu um jeito de obter um passe de imprensa para a delegação russa no Hotel Santa Margherita – um dos poucos 11 passes dessa modalidade que foram emitidos para os setecentos homens da imprensa. Não espanta que ele tenha considerado isso um de seus troféus mais valiosos. Já havia concluído que, apesar de odiar as coisas que os russos faziam e representavam, era forçado a ter uma admiração relutante por aqueles homens – a maioria deles esteve em exílios obscuros ou foram prisioneiros apenas quatro anos antes; uma admiração que se aprofundou ainda mais quando viu a forma incansável com que trabalhavam.
Seu relatório final da conferência, publicado em 13 de maio, era um retrato de admiração dos britânicos em Gênova intitulado “Lloyd George’s Magic” que começava com avaliações mordazes sobre o surgimento de outros representantes nacionais. Mas, quando trata de Lloyd George, Hemingway se abre em elogios sobre seu charme, seus olhos doces e reluzentes, seu rosto de menino e cabelos esvoaçantes. Assina o perfil lisonjeiro com um pequeno emblema: um desenho de Lloyd George feito por um menino italiano, desenho que o estadista autografou com indulgência para a criança.
Olhei para o desenho. Não era ruim. Mas não era Lloyd George. A única coisa que estava viva nele era a assinatura esparramada, galante, sadia, arrogante, descuidada e magistral, feita em um instante e feita para a eternidade; destacava-se dentre as linhas mortas do rabisco – era Lloyd George.
24 de junho. Milão. Hemingway viajou novamente para a Itália – um país agora destruído pela guerra civil – para revisitar os lugares que havia conhecido na guerra: Schio, lago Garda, Mestre e Fossalda.
Durante a viagem, também foi a Milão para conduzir a primeira de duas entrevistas com Benito Mussolini, o editor do jornal Popolo d’Italia. Considerando que Hemingway costumava admirar qualquer pessoa que já tivesse participado de batalhas – e visto que aceitou sem contestar os relatos de Mussolini sobre sua bravura em tempos de guerra –, ele se sentiu inclinado a simpatizar com o entrevistado. No artigo para o Toronto Daily Star, relatou:
Benito Mussolini, chefe do movimento Fascisti, senta-se à mesa diante do detonador que é o jornal bélico que ele edita, um jornal que espalhou pelo Norte e pelo Centro da Itália. De vez em quando, brinca com as orelhas de um cão de caça de estimação que se parece com um coelho de orelhas curtas, e mexe nos papéis que ficam no chão ao lado da mesa. Mussolini é um homem de rosto grande e escuro, com testa alta, sorriso lento e mãos largas e expressivas (...)
Mussolini foi uma grande surpresa. Não é o monstro que havia sido retratado. Seu rosto é intelectual, é o rosto típico dos atiradores “Bersagliere”, com seus olhos grandes, castanhos e de formato oval e boca de fala lenta.
O resto do artigo se dedicava principalmente a um rascunho rápido sobre a ascensão de Mussolini desde suas origens humildes.
Um artigo paralelo, publicado no mesmo dia no Toronto Star Weekly, abandonou toda pretensão de neutralidade. Ao mesmo tempo que Hemingway concedia que o ressentimento burguês contra o comportamento insultante e ameaçador dos militantes da classe operária logo após a guerra era bastante justificável, percebeu que o movimento Camisas Negras havia tomado vida própria: “Tinham gosto por matança sob proteção policial e adoravam isso”. Ao mesmo tempo, os comunistas se deram conta das forças oponentes e organizaram grupos de “Arditi del Popolo” – Camisas Vermelhas, para lutar contra Camisas Negras; enquanto isso, à burguesia, ciente de que a instabilidade produzida por esses conflitos estava mantendo o valor da lira drasticamente baixo, restou subornar seus antigos aliados a não fazerem nada.
A conclusão de Hemingway foi vigorosa: “A questão toda tem a aparência quieta e pacífica de uma criança de três anos brincando com uma granada sem pino.
[Seu relato de um encontro subsequente com Mussolini em Lausanne só foi publicado em 27 de janeiro do ano seguinte, mas vale a pena notar o quão radicalmente sua opinião sobre o líder havia mudado para pior: ‘Mussolini é o maior blefe da Europa... peguem uma boa fotografia do Signor Mussolini em algum momento e a estudem. Verão a fraqueza em sua boca que o força a franzir o rosto e fazer a famosa carranca de Mussolini que é imitada por todos os fascistas de 19 anos na Itália... e depois olhem para sua camisa preta e polainas brancas. Há algo errado, mesmo que seja atuação, com um homem que usa polainas brancas e camisas pretas’.]
1.o de julho. Paris. Wyndham Lewis visitou o estúdio de Pound e encontrou “um jovem de estrutura esplêndida, sem camisa e com um torso de um branco reluzente. Estava de pé, não muito longe de mim. Era alto, bonito e sereno, e estava repelindo, com suas luvas de boxe – para mim, com asserção indevida –, um ataque pungente de Ezra. Depois de um golpe final em seu deslumbrante plexo solar (do qual se esquivou sem esforço a estátua de calças), Pound caiu sobre o banco”. O jovem era Ernest Hemingway.
[Hemingway também registrou uma versão dessa reunião em Paris é uma festa de maneira bastante hostil a Lewis: “Seu rosto me lembrou o de uma rã, não uma rã-touro, mas uma rã qualquer. (...) Lewis não demonstrou maldade; apenas tinha uma aparência sinistra”. Hemingway adicionou que Lewis tinha olhos “de um estuprador malsucedido.”]
22 de julho. Canadá. O Toronto Daily Star publicou a história “A Veteran Visits the Old Front”, de Hemingway.
Era um texto triste, reflexivo e melancólico sobre o quão ruim foi a ideia de voltar, acompanhado pela esposa, aos lugares na Itália onde esteve durante a guerra; sobre a impossibilidade de encontrar lugares amados do passado, visto que o tempo de paz fazia com que virassem algo diferente e estranho – não por causa de seu abandono, mas por causa da novidade fajuta, da falta de associações emocionais com locais ou com estrangeiros que retornaram. “Tentei recriar algo para minha esposa e fracassei enormemente. O passado estava tão morto quanto um álbum danificado da Victrola. Caçar o ontem é uma perda de tempo – e se vocês precisam comprovar isso, retornem aos seus velhos frontes”.
12 de agosto. Paris. Hemingway publicou um artigo bem leve sobre “The Great Aperitif Scandal” em Paris. Na verdade, o artigo girava em torno de dois ditos “escândalos” sobre essas bebidas, que, conforme explicou para os que não eram familiarizados com modas alcoólicas parisienses, “são todas misturas patenteadas, contêm alta porcentagem de álcool e bitters, têm o gosto de uma maçaneta de bronze”.
O primeiro escândalo teve a ver com um aperitivo amarelo pálido comercializado com o nome de Anis Delloso. Apesar da cor, que de maneira decepcionante era mais sombria do que a cor da “Fada Verde”, bebida lendária do movimento decadentista, essa bebida era o bom e velho absinto – banido pelo governo francês seis anos antes. Quando todos ficaram sabendo, as vendas do Anis Delloso dispararam, e por algumas semanas inebriantes foi o aperitivo mais popular da cidade. As autoridades intercederam. Ainda era possível comprar aquela mesma mistura, mas não era mais feita com absinto.
O segundo escândalo teve um tom um pouco mais político. Com subsídio maciço do governo, as celebrações tradicionais do Dia da Bastilha daquele ano duraram, basicamente sem pausa – dependendo da energia dos foliões –, do meio-dia da quarta-feira, dia 13, até o meio dia da segunda-feira seguinte – cinco dias inteiros de bebida, dança nas ruas e todas as formas de comportamento selvagem. Maravilhoso; mas nos dias de ressaca que se seguiram, as pessoas começaram a se perguntar sobre os pôsteres anunciando várias marcas de aperitivos, usados para enfeitar a cidade toda ao lado da bandeira francesa. Será que o governo foi enganado e acabou dando milhões de francos em propaganda para os produtores das bebidas?
1.o de setembro. Alemanha. De Freiburg, Hemingway descreveu ao Toronto Daily Star sobre o colapso da moeda alemã, o marco. Descreveu o clima nacional predominantemente como sendo de “tristeza tenaz ou desespero histérico”. Todos os dias, explicou ele, os jornais publicavam a nova taxa de câmbio para o marco nas primeiras páginas; e nas grandes cidades, como Berlim e Hamburgo, os que ainda tinham dinheiro se lançavam em um surto enlouquecido de compra, adquirindo joias, peles, carros – qualquer coisa que retivesse valor enquanto o câmbio “escorregava por um tobogã”.
O estranho foi que houve poucos sinais de tal pânico frenético de compra nas cidades menores. Em Freiburg, onde Hemingway se hospedou em um hotel pagando cerca de vinte centavos por dia, as pessoas pareciam bem-alimentadas e razoavelmente contentes. O único sinal visível de mudança de circunstâncias foi a hostilidade em relação a todos os estrangeiros, dos quais o povo se ressentia por causa da força da moeda deles, e identificavam como os responsáveis pelo dilema da Alemanha. Os lojistas eram tão rudes quanto ousavam ser com os turistas, quase expulsando-os das lojas.
Os poucos relatos seguintes de Hemingway da Alemanha tomaram um tom mais impulsivo, para não dizer impetuoso: uma descrição cômica de uma viagem de pescaria na Floresta Negra e um estudo do jeito rude dos alemães que eram donos de pousadas. Retornou ao assunto da inflação em 19 de setembro. Em Kehl, trocou dez francos franceses por 670 marcos; dez francos eram cerca de noventa centavos de dólar canadense. Ele e a esposa gastaram livremente o dia inteiro e ainda tinham 120 marcos no final de dia. O jantar, composto de cinco pratos, que fizeram naquela noite no melhor hotel de Kehl, somou o equivalente a 15 centavos. Em um determinado momento, foram observados com anseio por um senhor de aparência distinta que estava claramente querendo as maçãs que estavam comprando.
Seu artigo final versou sobre as várias rebeliões brutais que estouravam pelo país todo, em geral dominadas pela polícia através do uso de armas de fogo. Os únicos que estavam bem, concluiu ele com tristeza, eram os aproveitadores: em particular, o aproveitador-chefe Herr Hugo Stinnes, que fez com que todos os materiais comprados da Alemanha pela França para ajudar na sua reconstrução fossem providos por... Herr Hugo Stinnes.
30 de setembro. Turquia. Em 30 de setembro, Hemingway chegou a Constantinopla, registrou-se no Hotel de Londres e quase imediatamente contraiu malária. No decorrer das duas semanas seguintes, enviou alguns comunicados agonizantes para casa e viu horrores que ficariam com ele durante muitos anos.
Outubro. Turquia. Hospedado o mês todo em Constantinopla – “uma grande cidade em expansão de um milhão e meio, repleta de um elemento desesperado” –, Hemingway enviou cerca de vinte histórias para o Toronto Daily Star em outubro. Havia chegado na cidade quase na mesma época de inúmeras tropas britânicas – reforços cujas presenças garantiam aos locais em que a Grã-Bretanha estava pronta para lutar contra Mustapha Kemal, e que incentivavam gregos e armênios a descartar o chapéu turco, o fez, e retomar o chapéu de modelo ocidental.
Em 9 de outubro, o Star publicou o relato de Hemingway sobre sua entrevista com Hamid Bey, o homem mais poderoso do governo “Angora”, fora o próprio Kemal. Hemingway disse para ele que os canadenses estavam ansiosos com um possível massacre de cristãos caso as forças de Kemal fizessem uma entrada triunfante na cidade. Hamid Bey não deu importância ao comentário: o que temeriam os cristãos? Eles estavam armados, e os turcos não estavam. Não haveria massacre algum...
Em 16 de outubro, reportou Hemingway, milhares de cristãos iniciaram seu êxodo para fora da Trácia. Visto que o governo grego tomou todos os trens para transporte de soldados, os refugiados foram forçados a carregar carroças frágeis e velhas com todos os seus pertences; outros, mais pobres, carregavam trouxas maltrapilhas nas costas. A maioria dos exilados era de homens e mulheres idosos, ou de crianças bem jovens. Enquanto isso, três batalhões franceses e quatro britânicos avançaram para tomar o território de onde estavam fugindo. No dia 10, a coluna principal de refugiados tinha um comprimento de 32 quilômetros: ensopados, exaustos, famintos... e no entanto, estranha e assustadoramente silenciosos. Havia meio milhão de refugiados apenas na Macedônia – um desgaste maciço dos recursos do país, sem previsão de acabar.
O clima em Constantinopla era de “tensão tênue, elétrica”. Todos estavam preparados para a invasão, mas não necessariamente em um estado de medo. Alguns estavam se defendendo: uma “coleção de assassinos, ladrões, bandidos, criminosos e piratas do Levante” havia aparecido na cidade, esperando pelas forças de Kemal pelo começo dos saques. Estavam, como colocou Hemingway, esperando uma “orgia”. Mas os armênios, os gregos e os macedônios que ainda moravam na cidade estavam gelados de medo. Armavam-se e esperavam o pior. A substancial colônia branca russa na cidade também estava petrificada, ciente de que Kemal, enquanto aliado dos sovietes, abandonaria a todos eles, e muitos se deparariam com sentenças de morte.
No dia 14, Hemingway pôde relatar uma mudança inesperada na opinião islâmica sobre Kemal. Tido apenas alguns meses antes como um novo Saladino, que lideraria todos os muçulmanos a uma guerra santa contra as forças ocidentais no Oriente, vinha cada vez mais sendo visto como não confiável, talvez até um traidor. Havia feito um tratado e uma aliança com a Rússia soviética; no entanto, tinha também um tratado com a França e algo muito parecido com uma aliança. Um desses pactos teria de ser renunciado.
O rumor mais danoso de todos, que seria fatal para Kemal se fosse levado completamente a sério, dizia que ele era um ateu em segredo. Traçando uma comparação temática, Hemingway sugeriu que Kemal agora estava “em uma posição similar à de Athur Griffith e Michael Collins na Irlanda pouco antes de morrerem”. Em outras palavras, ele estava sendo um pragmático e um homem de negócios: tomava todos os ganhos tangíveis que se apresentavam a ele e fazia concessões que os panislâmicos julgavam humilhantes. Por enquanto, Kemal não tinha uma figura como Valera com que se preocupar; porém Hemingway previu que, se continuasse a esperar o desenrolar dos acontecimentos sem tomar nenhuma atitude, um Valera certamente apareceria no cenário.
O pior prospecto de todos, previu Hemingway, seria uma guerra entre a Grã-Bretanha e a Turquia por causa da Mesopotâmia. Os dois países estavam sedentos pelo petróleo da Mesopotâmia; e se Kemal, ateu ou não, decidisse declarar seus direitos sobre a região, “pode muito bem dar o pontapé que vai iniciar a guerra santa pela qual os panislâmicos estão rezando...”.
18 de outubro. Trácia. Hemingway se lançou na ardilosa jornada de volta a Paris. Quando chegou, estava mal: exausto por causa da malária, e coberto de mordida de insetos. Teve de raspar a cabeça para se livrar dos piolhos.
2 de novembro. Trácia. Hemingway viajou para Muradli, no Leste da Trácia, para observar a retirada das tropas gregas. O território havia sido cedido aos turcos pelos Aliados, e foram dados apenas três dias para as forças gregas evacuarem. Era uma imagem triste: homens sujos, exaustos, infestados de piolhos e empesteados de mosquitos, vestidos com restos de uniformes do Exército americano, que não caíam bem. Deixaram para trás um rastro de amontoados de armas, bases de tiro e cumes fortificados onde estiveram ansiosos para lutar contra os turcos que chegariam. E no entanto, insistiu Hemingway, estavam longe de serem patéticos: ainda pareciam boas tropas – durões e robustos. Para ele, não havia dúvida de que teriam sido oponentes formidáveis para os invasores. Então o que deu errado? Depois de conversar com vários observadores militares, concluiu que aqueles soldados valentes haviam sido traídos em um grau muito elevado.
Até recentemente, vinham sendo bem comandados por oficiais que haviam servido com os britânicos em Salanika; sob tal liderança, podiam facilmente ter capturado Angora e dado fim à guerra por força. Em vez disso, todos os oficiais veteranos de campo foram abruptamente dispensados pelo rei Constantino e substituídos por membros do partido constantinista, cuja maior parte havia passado a guerra na Suíça e nunca nem ouviu o barulho de um tiro. Sua conduta de batalhas subsequentes não foi meramente incompetente, mas trágica e criminosamente negligente. O veredito de Hemingway foi incisivo: Constantino falhou com esses homens. “São o resto da glória que foi a Grécia. Este é o final do segundo cerco de Troia”.
Hemingway voltou a Constantinopla, onde a sensação afobada de um massacre iminente morreu basicamente do dia para a noite. A Marinha Real partiu para o Mar de Mármara e enviou uma mensagem para Hamid Bey dizendo que, se houvesse algum massacre de cristãos, a cidade seria destruída. Pode ter sido um blefe, mas foi um blefe que funcionou. Uma sensação de calma reapareceu.
Após enviar seu último relato, Hemingway – que agora sofria muito com a malária que havia contraído dos mosquitos de Constantinopla – partiu para Sófia, onde escreveu um artigo longo refletindo sobre o terror da evacuação de Trácia e descrevendo outras experiências observando os soldados gregos em retirada enquanto ia para a Bulgária. Lembrou seus leitores de que, independente de quanto tempo levasse para que seus envios chegassem ao jornal, uma coluna longa de 250 mil refugiados civis ainda se arrastava em direção à Macedônia.
16 de novembro. Paris. Hemingway escreveu a Harriet Monroe perguntando quando pretendia publicar os poemas que ele tinha enviado; gabando-se pela Three Mountains Press estar prestes a publicar uma coleção de seus escritos, editados por Pound; e fofocando sobre vários conhecidos. A notícia mais recente era que Ford Madox Ford, o primoroso romancista e editor, chegaria a Paris no dia seguinte para uma estada de cerca de um mês. Isso interessava muito a Hemingway, que habitualmente gostava de visitar celebridades.
20 de novembro. Lausanne. Abertura da conferência para ratificar a vitória turca: havia representantes de Inglaterra, França e Itália, assim como Grécia e Turquia.
Hemingway chegou no dia 22 e ficou até 16 de dezembro. Quebrando seu contrato, estava enviando relatos a três empregadores diferentes: não apenas para o seu jornal, mas também ao International News Service (sob o pseudônimo John Hadley) e para o Hearst’s Universal News Service. Em dezembro, quando o INS questionou suas demandas financeiras e exigiu um relato mais completo, ele lhe enviou um telegrama raivoso: “Sugiro enfiarem livros ânus acima”.
Foi em Lausanne que conduziu sua segunda entrevista com Mussolini.
3 de dezembro. Lausanne. Hemingway foi até a estação de trem encontrar-se com a esposa, Hadley, que veio do apartamento deles em Paris para juntar-se ao marido. Ficou surpreso e horrorizado ao vê-la soluçando tão violentamente que não conseguia contar o que havia acontecido. Segundo a versão dele em Paris é uma festa tentou assegurá-la de que, fosse o que fosse, não podia causar tanta agonia, e que tudo ficaria bem.
Hadley se acalmou o suficiente para contar a história. Quando estava fazendo as malas para a viagem, pensou que Hemingway talvez fosse querer mostrar seu trabalho para o jornalista Lincoln Steffens, conhecido dele que também estava em Lausanne. Então ela rapidamente pegou todos os papéis e os entuchou em uma maleta antes de ir para a estação de Lyon. Na estação, ela deu a maleta para um carregador, mas quando ela chegou a seu compartimento, a maleta não estava lá. Com a ajuda do condutor, vasculhou o resto do trem, mas não encontrou nada. A maleta obviamente havia sido roubada.
Pior ainda: os papéis que ela pegou incluíam não só o único esboço do primeiro romance de Hemingway, como também grande parte de outros manuscritos do ano anterior, incluindo as cópias de carbono. De acordo com Hemingway, ele imediatamente pegou um trem para Paris e vasculhou o apartamento para confirmar que quase todos os escritos haviam sido perdidos. Sugere também que teve uma espécie de farra furiosa para lidar com a raiva que estava sentindo de Hadley. Sob a sugestão de Steffens, Bil Bird e outros amigos, ele considerou publicar anúncios de recompensa para quem devolvesse a maleta, mas isso não deu em nada.
27 de dezembro. Paris. No final do ano, os Pound saíram de seu apartamento e passaram cerca de três meses na Itália – Florença, Roma, mas principalmente Rapallo, a cidade onde acabariam morando em 1924. Os Hemingway foram se encontrar com eles no meio de fevereiro e ficaram até cerca de 10 de março de 1923, e os dois casais fizeram um passeio em geral agradável na Romanha – o país de um dos heróis históricos de Pound, Sigismondo Malatesta, o condottiere do Renascimento e patrono importante das artes.
Os dois escritores concordaram em discordar, no momento, sobre Mussolini, que Pound admirava cada vez mais (de maneira nada plausível) como um Malatesta contemporâneo. Hemingway argumentou com Pound que Mussolini o havia ameaçado na conferência de Lausanne dizendo que nunca mais voltasse à Itália. Essa alegação é altamente improvável, até porque Hemingway, em geral relutante em falar sobre seus encontros com celebridades, parece não ter mencionado isso para mais ninguém.
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