quarta-feira, 17 de abril de 2024

XXIII.14. ROCHESTER

 Rochester – 1960  

 

Durante aqueles meus primeiros dias de estada em Ketchum, os amigos íntimos de Ernest me procuravam um após outro, e confiavam-me suas preocupações e temores a seu respeito. Ele mudara muito. Parecia deprimido. Recusava-se sair a caçar. Queixava-se de velhos amigos. Já não convidava o grupo das sextas-feiras para ver lutas de boxe na televisão. Seu aspecto não era nada bom. 

(...) 

Procurei fazer com que Ernest saísse para caçar, mas, cada dia, uma obrigação insignificante ou inventada o impedia de sair de casa: escrever uma simples carta a seu advogado ou editor era razão suficiente para isso. Eu achava que se conseguisse afastá-lo de casa e de suas preocupações, levando-o a fazer uma das coisas que ele mais apreciava, talvez conseguisse melhorar por completo o seu temperamento; que a beleza dos campos, no outono, bem como a animação produzida pela caça às grandes e coloridas aves talvez pudessem acalmá-lo, permitindo-lhe vencer a tensão que estava a toldar tudo que o cercava. Consegui, afinal, fazer com que participasse de uma caçada aos faisões, mas o melancólico resultado da mesma me persuadiu de que aquele deveria ser o meu último esforço nesse sentido. 

Reuni todos os seus companheiros prediletos de caça: Bud Purdy, Pappy Arnold, Don Anderson e Chuck Atkinson. Para se caçar faisões satisfatoriamente, em campo aberto, é necessário, pelo menos, um tal número de caçadores. Os faisões andavam escassos naquele outono, mas seguimos de automóvel até Picabo, onde Bud Purdy tinha um amigo fazendeiro que lhe dera permissão para caçar em suas terras. Era uma fazenda grande, sendo que havia, numa parte dela, um milharal já seco – e nós sabíamos, por experiências anteriores, que tais plantações, não raro, atraem faisões. 

Ao chegarmos ao nosso destino, quando já havíamos preparado todos os apetrechos e carregado nossas armas, Ernest recuou. Penetrar naquelas terras, disse ele, era invadir propriedade alheia, e ele não queria ser baleado. Além do fato de Bud conhecer o dono da fazenda e já haver conversado com ele a respeito de nossa caçada, era também costume, naquela região, caçar-se em qualquer lugar, a menos que houvesse alguma tabuleta que o proibisse – e não havia ali tabuleta alguma. Ernest queria que prosseguíssemos a caçada, enquanto ele nos esperaria no automóvel. Levou meia hora para que conseguíssemos persuadi-lo a acompanhar-nos, mas, mesmo assim, nos seguia a contragosto. 

(...) 

Desde minha chegada, Mary estava ansiosa por falar comigo, mas Ernest tornava isso difícil. Ele se tornara hipersensível às reações críticas acerca de sua pessoa e, sempre que via algum de seus amigos a conversar com Mary, não tinha dúvida de que estavam falando a seu respeito – o que, com efeito, provavelmente ocorria. Como era difícil de compreender-se, Mary achava-se nervosa e perturbada; desde seu regresso da Espanha, ela estava sujeita às crescentes ansiedades de Ernest, sem saber de que maneira poderia lidar com ele. A caminho de casa, ao sairmos aquela noite do Christiana, conseguiu dizer-me, sem que Ernest ouvisse, que ela estaria, na manhã seguinte, às onze horas, fazendo compras no supermercado. 

Conversamos junto de um dos carrinhos do supermercado, na seção de cereais. Mary disse-me que estava desesperada. Mostrou-me uma carta que encontrara, no dia anterior, sobre a mesa de Ernest, dirigida ao seu banco, o Morgan Guaranty, de New York. As palavras de saudação e a primeira frase estavam em ordem, mas as outras palavras formavam uma algaravia, como se ele tivesse estado se exercitando num novo idioma. 

Basicamente, a capacidade de trabalho de Ernest se deteriorara até o ponto de ele passar horas a fio diante do manuscrito de Paris é uma Festa, mas sem que fosse, na verdade, capaz de continuar sua tarefa. Além de sua incapacidade de escrever, Ernest sentia-se tremendamente deprimido devido à perda da finca e, embora Mary houvesse sugerido que eles alugassem um apartamento em Paris ou Veneza, ou um novo barco, em que pudessem fazer uma longa viagem marítima, não havia maneira de se conseguir de Ernest uma reação que o livrasse da desolação de onde pareciam surgir seus constantes delírios e alucinações. Suas conversas a respeito de destruir-se a si próprio tinham se tornado mais frequentes e, não raro, ficava parado junto ao lugar onde conservava suas armas, empunhando uma das espingardas, a fitar, através da janela, as montanhas distantes. 

Eu disse a Mary que julgava inteiramente óbvio que Ernest necessitava de imediata e completa assistência psiquiátrica, chegando mesmo a sugerir a clínica Menninger, mas ela se mostrou preocupada com o efeito que tal publicidade poderia ter. Sugeri, então, que, se ela quisesse que eu me encarregasse do assunto, voltaria imediatamente para New York e entraria em contato com um excelente psiquiatra meu conhecido. Ela insistiu para que eu agisse o mais depressa possível, reiterando-me seu temor de que as ameaças de Ernest, de dar cabo à vida, pudessem converter-se em realidade. 

Antes de partir, procurei Vernon Lord, pois que, se Ernest tivesse de submeter-se a tratamento, isso teria de ser feito com seu próprio consentimento e aprovação – e Lord, achava eu, constituía a chave para que se conseguisse tal coisa. Vernon disse-me que Ernest lhe dera uma carta para ser aberta depois de sua prisão; disse-me, ainda, que já lera a referida carta, que continha instruções para que tomasse conta de Mary, bem como furiosas orientações, tendo como objetivo proteger Vernon contra perseguições imaginárias. Uma parte da nota, ajuntou Vernon, era truncada e não fazia sentido; quanto a ele, estava tão preocupado acerca do estado de Ernest quanto Mary. 

― Sou apenas um médico rural – disse ele – e, o que é mais, bastante jovem. Tenho a responsabilidade de saber que Ernest necessita de ajuda imediata, que não posso dar-lhe. Oh, já lhe prescrevi tranquilizantes e até mesmo alguns remédios novos sobre os quais li em publicações médicas, mas Ernest se acha num estado tão sério – e que se afasta tanto de minha especialidade – que não sei sequer diagnosticá-lo; não obstante, posso constatar uma piora quase diária em seu estado, nas últimas semanas. Se você pudesse trazer aqui um psiquiatra de New York, isso seria vitalmente importante. 

Perguntei a Vernon se, quando ele tornasse a medir a pressão arterial de Ernest, não lhe seria possível verificar que a mesma se elevara perceptivelmente. 

― Você quer dizer: a ponto de alarmar Ernest? 

― Bem, o bastante para que você pudesse persuadi-lo a ir para algum lugar, a fim de submeter-se a testes e a tratamento. Estou apenas pensando na maneira pela qual poderíamos lançar os alicerces para fazer com que ele fosse para onde quer que o médico de New York recomende, se fosse essa sua recomendação. 

― Talvez pudesse dar certo – respondeu Vernon. – Sua pressão arterial é uma das coisas pelas quais ele realmente se interessa. Não deixa de manter anotações a respeito. Temos uma consulta esta tarde. Eu farei o que puder. O que há de irônico nisso tudo é que a sua deterioração psicogenética se manifestou justamente depois de todos estes anos: seguindo sua dieta e, virtualmente, não bebendo. É uma gangorra irônica, não lhe parece? 

O psiquiatra de New York, a quem chamarei Dr. Renown, agiu com presteza. Descreveu o estado de Ernest como depressivo, com mania de perseguição e, numa conversa telefônica que manteve com Vernon Lord, prescreveu certas drogas que, na sua opinião, seriam benéficas, dependendo de tratamento hospitalar. O primeiro hospital escolhido pelo Dr. Renown foi o Menninger, mas Vernon era de opinião que, devido ao estigma do nome, não havia possibilidade de que Ernest fosse para lá. Ressaltei que Mary provavelmente também oporia resistência a Menninger, a fim de evitar que se tivesse uma ideia do estado de Ernest. 

Dir-se-ia, pois, que o único hospital aceitável seria um que proporcionasse tanto facilidades físicas como psiquiátricas, de modo que Ernest pudesse ser lá internado devido a alguma enfermidade física, ocultando-se, assim, sua verdadeira doença. Baseado nisso, o Dr. Renown sugeriu a Clínica Mayo. Vernon informou que Ernest reagira ao seu aumento de pressão, revelando o alarma que havíamos previsto, sendo que Vernon lhe dissera que talvez pudesse interná-lo lá baseado em seus testes de pressão e em seu tratamento especial. Depois disso, o Dr. Renown tratou de todos os arranjos para a hospitalização de Ernest e discutiu suas condições gerais em conversas telefônicas com os médicos da Clínica Mayo. 

No dia 30 de novembro. Vernon acompanhou Ernest a Rochester, Minnesota, num pequeno avião alugado, e Ernest foi admitido, aquela tarde, na Clínica Mayo. Foi admitido sob o nome de Vernon Lord e colocado num quarto do St. Mary’s Hospital. 

Ernest não tinha permissão de dar nem receber telefonemas, nem, tampouco, escrever cartas, mas, durante o mês de dezembro, conversei ocasionalmente com Mary ao telefone. Mary estava hospedada no Hotel Kahler, vendo Ernest todos os dias. Ela se achava muito solitária na cidade. Era um lugar horrível para ela passar o Natal, e minhas filhas lhe enviaram uma caixa de presentes, tentando animá-la. 

Durante o mês de dezembro, Ernest foi submetido a onze tratamentos de eletrochoque, conhecido tecnicamente como ECT. Mary falou-me a respeito deles: de como eram terríveis para Ernest e de como ele sofria, mais psicológica do que fisicamente, ao recebê-los. Mas disse-me que parecia estar-se dando bem com seus médicos, que afirmavam que ele estava fazendo progressos. Ajuntou, todavia, que eles se achavam em situação de desvantagem perante Ernest, pois que não o conheciam como ela. 

Os eletrochoques foram subitamente interrompidos durante a primeira semana de janeiro. Logo depois disso, Ernest perguntou aos médicos se ele podia falar-me ao telefone, e eles concordaram. Era o primeiro contato de Ernest com o mundo exterior desde que fora internado e, evidentemente, lhe era muito importante. Indaguei se havia instruções quanto ao que deveríamos ou não falar – mas não havia. O telefonema referia-se a um tempo determinado, num determinado dia. 

A telefonista disse-me que aguardasse um momento, pois que Mr. Lord logo atenderia. Depois de cumprimentar-me, Ernest disse: 

― É o diabo a gente chamar-se Lord (Senhor) num hospital católico... e justamente eu, um católico fracassado. 

Ele parecia vigoroso e controlado, mas havia em sua voz um entusiasmo excessivo. Contou-me que, nos últimos dias, ele, pela primeira vez, conseguiu ler, desde sua chegada; o que estava lendo eram as provas tipográficas de um novo livro de nosso amigo George Plimpton. Esse livro se intitulava Out of My League, e Ernest disse-me que o estava apreciando muito. 

Mas é difícil a gente apreciar o que quer que seja – ajuntou – num quarto em que todos se mostram brincalhões com a gente, fecham a porta à chave e não têm a decência de confiar-nos sequer um único instrumento contundente. 

Ouvir isso de seus lábios era surpreendente, simplesmente porque eu não tinha imaginado bem como era sua vida lá. Perguntei-lhe se ele achava que seus médicos me permitiriam visitá-lo. Respondeu-me que iria indagar e que me comunicaria, mas que Rochester era realmente muito fora de mão para pedir que alguém fosse visitá-lo. Mas ajuntou: 

― Não posso, porém, negá-lo: ficarei alegre como o diabo se o vir. 

Conversamos por espaço de quinze minutos e não houve uma palavra acerca de suas manias de antes. Ele falou bastante acerca de seus sketches sobre Paris e em voltar a trabalhar neles, pois que resolvera publicá-los no outono. A telefonista do hospital interveio em nossa conversa e disse: 

― Mr. Lord, queira fazer o favor de terminar seu telefonema. 

E ele se despediu rapidamente. 

(...) 

Hospedei-me no The Kahler, de onde fui diretamente ao hospital. Ernest pareceu-me chocantemente magro: 173 libras de peso numa estrutura que pesava normalmente 210 ou 220. Seu rosto perdera a conformação de antes e até mesmo suas feições pareciam mudadas. Apresentou-me à sua enfermeira, mulher grande e bonita que, obviamente, estava encantada com seu paciente e, mais tarde, aos seus médicos, que já tinham sido por ele elevados à condição de “camaradas”. Ernest já estivera em suas casas, sendo que um dos médicos me contou que eles tinham praticado tiro ao alvo nos fundos de sua residência, no domingo anterior, após o almoço a que compareceram muitos dos amigos do referido médico. Estávamos sentados no quarto de Ernest, que era pequeno, mas agradavelmente mobiliado, e onde mal se notavam as barras de ferro existentes na janela. Ernest fez gracejos e riu, relembrando, para satisfação dos médicos, coisas passadas, como nosso triunfo em Auteuil e a tarde em que fiz minha estreia na arena. A despeito de seu decepcionante aspecto físico, a saúde de Ernest parecia, sem dúvida, restaurada. Mas tive a impressão, pouco tranquilizadora, de que os médicos o estavam tratando não só como paciente, mas como uma celebridade. 

À saída, disseram, de bom grado, que Ernest podia vestir-se e ir dar um passeio em minha companhia. A enfermeira trouxe-lhe as roupas e, enquanto se vestia, Ernest apontou para um monte de cartas que havia sobre a mesa, dizendo-me que ele sempre fora um bom “respondedor de cartas”, de modo que sentia muito não ter podido responder as que ali estavam. Disse-me que gostaria que Nita [Juanita Jensen, que trabalhava na Embaixada Americana em Havana e, parte do tempo, para Ernest] lá estivesse, a fim de que ele lhe pudesse ditar as respostas. Sugeri que ele combinasse com a estenógrafa pública do The Kahler para que viesse trabalhar com ele todas as tardes, durante uma ou duas horas, e tal possibilidade o alegrou. 

― Gostaria de pôr em dia toda essa correspondência – disse ele – de modo que, quando voltar para Ketchum, possa pôr-me a trabalhar logo no livro. 

Depois fez-me a pergunta que eu receava ouvir desde que deixara New York: 

― Como vão as coisas com Coops? 

[Gary] Cooper chegara a New York em princípios de janeiro, para gravar um programa de televisão acerca do cowboy americano e telefonara-me, convidando-me para almoçar. 

― Vou acertar as coisas com Papá a respeito de meus planos – dissera-me. – Os médicos já me falaram acerca da operação a que me submeti: era câncer. Dizem que não vou durar muito. Peço a Deus que eles estejam certos. 

Tinham-lhe dito isso logo após o Natal, quando ele passara a sentir dores fortes e lhes fizera a pergunta sem rodeios. Agora, as dores eram tão violentas, que ele, apesar das drogas que tomava, só podia trabalhar diante das câmeras uma hora cada vez. 

― Como está passando Papá na Clínica Mayo? 

O subterfúgio acerca do nome de Vernon Lord fora desvendado e, por isso, os jornais faziam especulações quanto à doença de Ernest. 

― Otimamente. 

― Que é, exatamente, que ele tem, Hotch? 

― Pressão alta. Mas eles agora já a controlaram. 

Que me levasse o diabo se eu fosse capaz de acrescentar à sua doença o que se passava com Ernest.  

― É melhor que você lhe fale a meu respeito. Em tudo, durante toda a vida, nós sempre nos demos absolutamente bem um com o outro e eu não gostaria que ele o soubesse por outrem ou através dos jornais. Procurei telefonar-lhe, mas não consegui falar com ele e não me agrada escrever a respeito de uma coisa como esta. 

De modo que contei a Ernest. Ele nada disse, olhou-me apenas, como seu eu o houvesse traído. Depois, apanhou seu paletó esporte de lã grossa, vestiu-o lentamente, ajeitou o boné na cabeça e saímos de sua prisão. 

Afastamo-nos, a pé, do centro da pequena localidade, que logo se converteu em campo aberto. 

― Seus médicos parecem excelentes sujeitos – disse-lhe eu. 

― Você se refere ao fato de eles me confiarem uma espingarda de tiro ao alvo? 

― Bem, foram excelentes sujeitos, tendo-o curado... 

― O que esses “médicos de choque” não conhecem é o que diz respeito a escritores e a coisa tais como remorso e contrição, e o que tais coisas lhe fazem. Deveriam fazer com que todos os psiquiatras frequentassem cursos de literatura, para que conhecessem mais o que se refere a escritores. 

― Eles interromperam o tratamento? 

― Bem, qual o sentido de eles arruinarem a cabeça e a memória, que constitui o meu capital, e me obrigarem a fechar o meu negócio? Foi uma cura brilhante, mas perdemos o paciente. É uma manobra idiota, Hotch. Terrível. Chamei as autoridades locais para entregar-me, mas eles nada sabem a respeito da coisa. 

Meu coração parou. Eu não podia acreditar... 

― Examinei todo esse negócio acerca do tribunal federal – prosseguiu – e você está enganado, ou talvez queira ser conivente comigo, e não existe privilégio algum, e eles podem colocar Vernon em apuros, principalmente agora que usei o nome dele para ocultar-me. Eis aí porque quis entregar-me. Você tem visto Honor? 

E seguiu-se, então, o mesmo fatigante, exaustivo interrogatório a respeito de Honor, dos agentes da imigração e tudo o mais. Sua mania de perseguição não havia mudado nem diminuído. Havia aparelhos de escuta instalados em seu quarto, o telefone estava sob censura, e ele desconfiava de que um dos médicos residentes fosse um agente federal disfarçado. Fiz com que o passeio fosse o mais curto possível, mas, mesmo assim, pareceu-me interminável. 

Jantei com Mary, aquela noite, na sala de jantar do hotel. Ela disse-me que, durante as seis semanas em que se encontrava em Rochester, era aquela a primeira vez que ela não comia sozinha em seu quarto, depois de deixar o hospital. Discutimos acerca da dualidade de Ernest, que agia de um modo em presença dos médicos e de maneira diversa em nossa companhia. Mary disse-me que falara sobre isso com os médicos, mas que achava seria útil se eu também conversasse com eles a respeito. 

Os médicos disseram-me saber que Ernest se aferrava ainda a algumas de suas manias, mas achavam que seu crescente desejo de voltar a trabalhar constituía, para eles, o elemento predominante de seu restabelecimento. Manifestei-lhes minha preocupação quanto ao seu peso, perguntando-lhes se podiam permitir que ele comesse mais e tomasse alguns drinks; indaguei se, em se tratando de um homem como Ernest, que bebera muito durante toda a vida, o deixar subitamente de beber não poderia ser-lhe tão prejudicial, psicologicamente, quanto era benéfico fisicamente. Responderam-me que, por enquanto, o achavam bastante bem; queriam que seu peso se mantivesse como estava e que dois copos de vinho por dia eram suficientes. Eu compreendia, repliquei-lhes, que aquilo era presunção de minha parte, mas queria apenas dizer que Ernest era um homem tão extraordinário, tão fora do “normal”, que não poderia, de modo algum, ser trancado num quarto e tratado como um paciente comum; que qualquer processo normalmente aceito, quer em relação a choque elétricos, quer a outra qualquer coisa, deveria ser reexaminado, quando aplicado a ele. Tornei a desculpar-me por minha presunção, mas aquilo era algo que me cumpria dizer-lhes. 

Tornei a ver Ernest no dia seguinte. Mary estava presente, e o estado de espírito dele flutuava entre mostrar-se muito delicado para com ela, demonstrando apreço por sua amorosa dedicação e carinho, e tratá-la, logo a seguir, de modo brutalmente ofensivo. Após uma dessas erupções de grosseria, Mary pediu licença e saiu para o corredor; quando, depois, tornou a entrar no quarto, tinha os olhos muito vermelhos. Durante a visita de dois de seus médicos, Ernest passou pelas mesmas mudanças abruptas que eu presenciara no dia anterior. 

O interesse e a capacidade de trabalho estavam, positivamente, a fervilhar em Ernest. Arrumara todas as suas cartas, na expectativa da chegada da estenógrafa pública, que deveria aparecer aquela tarde, e mostrava-se muito ansioso por começar a respondê-las. 

(...) 

Um telegrama fora entregue a Ernest aquela manhã, convidando-os, a Mary e a ele, para que fossem hóspedes pessoais durante a posse do Presidente eleito Kennedy. O telegrama agradou e comoveu Ernest, e passamos algum tempo a redigir uma resposta apropriada, declinando do convite. 

 

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BIBLIOGRAFIA

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