quarta-feira, 17 de abril de 2024

XXIII.15. KETCHUM

 Ketchum – 1961 

 

Para minha surpresa, Ernest recebeu alta, na Clínica Mayo, a 22 de janeiro, nove dias após eu ter estado lá. Ele me telefonou para Hollywood, dizendo-me quão encantado se encontrava por achar-se de novo em casa, em Ketchum, de volta ao trabalho. Saíra a caçar no dia seguinte ao de sua volta, disse-me ele, e lá estavam agora oito patos selvagens e duas cercetas dependurados sobre a pilha de lenha, fora da janela da cozinha. Ele me pareceu excelente. 

Ao desligar, senti alívio por ele estar fora de sua prisão e achar-se no lugar a que pertencia; mas, ao relembrar nossa conversa, durante o passeio que fizemos juntos, experimentei um sentimento de opressiva intranquilidade. 

(...) 

Telefonávamo-nos todas as semanas; sua única queixa dizia respeito ao seu peso que, sendo apenas de cento e setenta libras, era demasiado baixo, dizia ele, para que lhe permitisse agir com a sua antiga energia. Instei para que ele adquirisse mais algumas libras, mas ele se recusava a afastar-se uma caloria sequer da dieta severa que os médicos lhe haviam imposto. Ernest encarava sua dieta como sendo uma ordem militar, e duvido que médico algum já tenha tido um paciente que se ativesse tão rigidamente às suas ordens. 

(...) 

Durante a última semana de março, quando falei com Ernest por telefone, ele parecia apático e pareceu-me um tanto desanimado. 

― Eu gostaria de fazer alguns planos – disse-me ele – mas não posso fazê-lo enquanto não terminar o livro sobre Paris. Tenho de cuidar, dia a dia, desta questão de saúde. Meu peso está terrivelmente baixo, de modo que quero ter a certeza até onde isto vai parar, antes de planejar qualquer trabalho ou atividade. Não quero preocupar Mary quanto a isto ou qualquer outra coisa, nem, tampouco, preocupar-me. Estou aprendendo a ser forte com cento e sessenta e nove libras de peso, mas é um peso muito baixo para brincadeiras. Digo-lhe isso para que você saiba o que verdadeiramente se passa. – Sua voz parecia muito velha. Os fins das frases arrastavam-se, como se ele não tivesse forças para terminá-las. – Estou seguindo exatamente as ordens dos médicos, e a pressão vai bem. Mas a reação, quanto ao peso, não é lá muito boa. 

(...) 

Em princípios de abril, Ernest começou de novo a desconfiar do telefone, e não se referia a Honor nem em suas cartas, nem nas suas conversas. Tornava-se difícil à gente falar-lhe ao telefone. Ele estava ficando deprimido acerca de seu trabalho, embora jamais me fosse possível determinar claramente se era porque não gostava do que escrevia ou devido à dificuldade que estava experimentando ao escrever. Eu referia-me a amigos e procurava falar-lhe a respeito deles, mas ele, na verdade, não se mostrava interessado. Procurei discutir a forma geral da peça teatral, referente a Nick Adams, que eu estava prestes a escrever, mas ele tampouco estava interessado nisso. 

A 18 de abril, fui a um coquetel, em New York, oferecido por Harvey Breit, para comemorar a publicação do livro de George Plimpton. Era uma boa festa, com gente boa e, a certa altura, Harvey sugeriu que telefonássemos a Ernest e conversássemos com ele. Eu não queria dizer que Ernest não estava em condições de falar ao telefone, tendo-se ao fundo o vozerio de um coquetel, de modo que procurei evitar tal telefonema, alegando que não tinha comigo o número do telefone de Ernest, que não constava da lista telefônica. Mas, infelizmente, Harvey o encontrou em seu caderno de endereços.  

Quem primeiro falou com ele foi Harvey, depois George, e ambos mostraram-se alegres e divertidos, sendo que George lhe informou que o seu livro estava tendo ótima saída. Quando apanhei o fone, Ernest disse-me: 

Hotch, por favor, procure impedir tais telefonemas. – Sua voz estava sem vida e as palavras chegavam até mim como pedras a cair no fundo de um poço. – A coisa ficou bastante difícil. Não consigo terminar o maldito livro. Tenho tudo na cabeça e sei o que quero que ele seja, mas não consigo pôr as ideias no papel. 

Harvey e George, os rostos felizes, observavam-me, de modo que virei a boca para cima e procurei conservar os olhos fixos no bocal. E disse algumas tolices terríveis, como esta: 

Bem, é bom que você já esteja assim adiantado. 

Hotch, não consigo terminar o livro. Não consigo. Passei o dia todo entregue a este maldito trabalho, de pé aqui o tempo todo, e só consegui escrever uma frase, talvez mais, eu não sei, mas não consigo fixar a coisa. Nem uma parte dela sequer. Você compreende? Não consigo. Escrevi a Scribner para cancelar o livro. Estava tudo marcado para o outono, mas tive de cancelá-lo. 

Ele o publicarão, então, na primavera. 

― Não, não o farão. Porque não posso terminá-lo. Nem neste outono, nem na próxima primavera, nem daqui a dez anos. Não posso. Este maldito e maravilhoso livro, e não posso terminá-lo! Você compreende? 

Quando desliguei, Harvey comentou: 

― Ele parece ótimo, não acha? 

Isso ocorreu a 18 de abril. Às onze horas da manhã, num domingo, dia 23, recebi um telefonema de Ketchum. Ernest estava no Sun Valley Hospital, sob o efeito de sedativos, amital sódico cada três horas e enfermeira durante as vinte e quatro horas. 

Quando Mary chegara, aquela manhã, ao living, encontrara Ernest de pé no vestíbulo, onde suas armas se encontravam. Ele empunhava uma espingarda, a culatra aberta; na outra mão, tinha dois cartuchos. Havia uma nota enfiada no topo do porta-armas, dirigida a ela. Mary sabia que Vernon Lord devia aparecer para tomar a pressão de Ernest, de modo que procurou apenas desviar a atenção de Ernest até que ele chegasse. Ela sabia que ele estava tremendamente deprimido por não poder escrever, mas não tinha a menor ideia de que sua depressão o tivesse levado até aquele ponto. 

Ernest estava calmo e não fez um movimento sequer para introduzir os cartuchos na espingarda, de modo que Mary não se referiu de maneira alguma à arma, pedindo-lhe, apenas, que lhe desse o bilhete. Ernest recusou-se, mas leu, aqui e ali, algumas frases. Havia uma referência ao seu testamento e à maneira pela qual ele procurava ampará-la, de modo que Mary não devia preocupar-se. Referia-se, além disso, a trinta mil dólares que ele transferira para a conta dela. A seguir, leu-lhe a parte do bilhete que se referia às suas mais recentes preocupações, as quais diziam respeito aos impostos que deveriam ser pagos pela mulher que se encarregava da limpeza – isso tudo, sem deixar de falar que os agentes federais o apanhariam, certamente, devido aos impostos da mulher encarregada da limpeza. Foi então que Vernon chegou. Quando Vernon apanhou a espingarda, Ernest deixou que ele o fizesse sem o menor protesto. 

Vernon já havia feito uma ligação para a Clínica Mayo e, quanto a mim, pediram-me se eu poderia fazer contato com o Dr. Renown e informá-lo a respeito da situação. 

Vernon telefonou às quatro e meia daquela tarde. Informou-nos que os médicos da Clínica Mayo estavam a insistir que Ernest fosse para Rochester voluntariamente, mas Ernest recusava-se a fazê-lo. 

― Telefonei para o Dr. Renown – disse eu – e ele ficou de ligar para a Clínica Mayo e informar o que se passava. 

― Ele o fez. Combinou tudo com a Clínica Mayo e informou o que se devia fazer, mas não creio que ele esteja a par das condições por eles impostas, isto é, de que Ernest fosse para lá por sua livre e espontânea vontade. Com os diabos! Ele não possui livre vontade alguma! Que é que eles estão pensando? Pedi ao meu sócio, o Dr. Ausley, que me ajude quanto a Ernest, mas estamos lutando contra o relógio. Não possuímos facilidades adequadas para esta espécie de coisa e, Hotch, sinceramente, se não o levarmos para o lugar apropriado, e depressa, ele se matará sem a menor dúvida. Trata-se apenas de uma questão de tempo, se ficarmos aqui e, cada hora que passa, aumenta a probabilidade de que ele o faça. Diz ele que já não pode escrever... E é só a respeito disso que me tem falado, semanas a fio. Diz que não há nada por que viva. Hotch, ele jamais tornará a escrever. Ele não pode fazê-lo. Já deu tudo o que tinha. Eis aí o motivo porque deseja dar cabo da vida. Pelo menos, quanto à superfície. E é isso que eu tenho de aceitar, pois que não estou preparado para lidar com coisa alguma que se ache na superfície. Mas essa é uma motivação errada, quanto ao que a mim se refere, e não posso dizer-lhe que estou ficando doente diante de tantas preocupações. Demos-lhe injeções de amital sódico, mas por quanto tempo poderemos mantê-lo em tal estado? Digo-lhe que isto constitui uma responsabilidade terrível para um médico do campo. Não se trata apenas do fato dele ser meu amigo, mas do fato de ele ser Ernest Hemingway. Precisamos levá-lo para a Clínica Mayo. 

Durante o resto do dia telefonamos, de um lado para outro, entre New York, Hollywood e Rochester, mas não conseguimos induzir os médicos a que fossem a Ketchum, nem que modificassem de qualquer modo sua inflexível norma de que os pacientes deviam internar-se voluntariamente na clínica. O Dr. Renown sugeriu a Vernon Lord várias medidas que deveriam ser aplicadas a Ernest, a fim de induzi-lo a cooperar conosco. Eu desejava seguir para Ketchum a fim de ajudar, mas o Dr. Renown achou que eu deveria aguardar e seguir para lá como parte de um segundo escalão, caso Vernon fracassasse. 

No dia seguinte, Mary me telefonou, terrivelmente abalada. Ocorrera um incidente de pesadelo. Vernon conseguira, finalmente, fazer com que Ernest consentisse em entrar novamente na Clínica Mayo, e um avião havia sido contratado, em Hailey, para transportá-lo. Ernest, porém, havia dito que, antes de partir, havia algumas coisas na casa que ele desejava levar. Vernon respondeu-lhe que mandaria Mary apanhá-las, mas Ernest disse que eram coisas que ele próprio desejava levar e que não iria para a Clínica Mayo sem elas. De modo que Vernon, relutantemente, consentiu, mas chamou primeiro Don Anderson, que tem seis pés e três polegadas de altura e pesa mais de duzentas libras, para que os acompanhasse. Vernon levou também a enfermeira e Mary. 

Seguiram de automóvel, todos os cinco, para a casa, e Ernest caminhou em direção à porta, seguido de Don, da enfermeira, de Mary e de Vernon, nessa ordem. De repente, Ernest correu para a porta, fechou-a violentamente e trancou-a por dentro, antes que Don pudesse alcançá-lo. Don correu, em volta da casa, para a outra porta, penetrou na mesma e deu com Ernest junto do porta-armas, empunhando uma espingarda e introduzindo um cartucho em seu cano. Don lançou-se sobre Ernest e derrubou-o ao chão. Houve uma luta terrível pela posse da arma. Vernon teve de ajudar. Felizmente, a espingarda estava travada e não disparou. Ernest foi levado, então, para o hospital, sob o efeito ainda mais forte de drogas. 

Nessa altura, ele dizia que não voltaria à Clínica Mayo, mas Vernon conservava o aeroplano pronto na pista de Sun Valley, na esperança de que conseguiria demover Ernest dessa sua decisão. Entrementes, estavam sendo mantidos entendimentos com o pessoal do Hospital Menninger. 

Na manhã seguinte, Mary telefonou dizendo que Ernest, subitamente, consentira em ir, e que o avião acabara de partir rumo a Rochester. Vernon e Don Anderson tinham ido em sua companhia. Prometeu-me fazer com que Vernon me telefonasse logo que voltasse. 

Já era mais de meia-noite quando o telefone tocou. Vernon disse-me que aplicara em Ernest um forte sedativo antes que o avião levantasse vôo, mas que, logo depois que o avião se encontrava no ar, Ernest fizera ingentes esforços no sentido de acercar-se da porta e saltar do aparelho. Fora necessário todo o esforço conjunto de Don e de Vernon para que ele se mantivesse afastado da porta. Vernon aplicara-lhe, então, uma grande injeção de amital sódico, após o que ele se tornara, logo, sonolento. 

Pouco depois, o pequeno aeroplano pôs-se a apresentar desarranjo no motor e precisou aterrar em Caspes, Wyoming. Ao deixar o aparelho, Ernest tentou caminhar na direção de uma hélice em funcionamento, mas Don o puxou pelo braço e colocou-se entre ele e a hélice, embora, ao fazer isso, Ernest de modo inteiramente inadvertido, quase lançou Don de encontro à referida hélice.  

Demorou umas duas horas para que o aeroplano fosse consertado, mas Ernest mostrou-se tranquilo, até o momento em que se encontravam de novo a caminho; então, quando sobrevoavam South Dakota, tendo fingido dormir por espaço de uma hora, tentou, pela segunda vez, saltar do aeroplano. 

Médicos da Clínica Mayo estavam a aguardá-los, quando desembarcaram em Rochester, e Ernest, que se mostrava então dócil e cumprimentou os médicos como se fossem velhos amigos, foi imediatamente levado para o hospital St. Mary, onde o colocaram numa seção especial, sob vigilância constante. 

(...) 

Na primeira semana de maio, fui ver Cooper pela última vez. Durante fevereiro e março, nos seus dias bons, ele continuava a desfrutar a vida como sempre fizera. Certa tarde, convidara-me para ir à sua esplêndida casa em Baroda Drive, para assistir, no jardim, à demonstração espetacular apresentada por cinco especialistas em karatê. E havia, de vez em quando, jantares em casa dos Coopers, durante os quais seus velhos amigos se portavam como se Cooper estivesse perfeitamente bem. 

Mas, ali por abril, as dores e as devastações do câncer o haviam posto por terra de uma vez por todas, e quando fui vê-lo, naquela tarde, em maio, ele já era uma figura arruinada, deitado, imóvel, em seu quarto obscurecido. Nos lugares em que a tintura havia saído, seus cabelos tinham estrias grisalhas. Sua esposa me conduziu ao quarto e, depois, deixou-nos a sós. 

Papá me telefonou, há algumas semanas – disse-me ele, fazendo uma pausa entre as palavras, pois que lhe era muito doloroso falar. – Disse-me que ele também estava doente. – Sorriu, fechou os olhos e parecia haver adormecido. – Ouvi, pelo rádio, que ele voltou para a Clínica Mayo. – Seus olhos, abertos, palpitavam. – Isso é verdade? 

― É. 

― Pobre Papá. 

Tornou a cerrar os olhos, mas parecia estar a escutar, enquanto lhe contei como tinha sido a caçada, na estação anterior, em Ketchum, e lhe falei das pequenas bisbilhotices referentes a pessoas que ele conhecia. 

Acometeu-o uma dor violenta e seu rosto se contorceu, enquanto ele lutava com ela até que passasse. Seu rosto, instantaneamente, cobriu-se de suor. Quando a dor cessou, Cooper estendeu a mão até o criado-mudo, apanhou um crucifixo e colocou-o sobre o travesseiro, junto à face. 

― Por favor, dê um recado a Papá. É importante e você não deve esquecê-lo, já que não tornarei a falar com ele. Diga-lhe... que, aquela vez, eu não sabia se tinha tomado a decisão acertada... – Moveu para um pouco mais perto o crucifixo e encostou-o no rosto. – Diga-lhe que foi a melhor coisa que eu fiz na vida. 

― Eu direi a ele. 

― Não esqueça. 

― Não se preocupe, Coops: eu lhe direi. 

Morreu dez dias depois. 

Essa vez, os médicos da Clínica Mayo tinham aconselhado a Mary não fosse para Rochester. Achavam que seria melhor para Ernest se fossem cortados todos os seus contatos com o mundo exterior. De modo que Mary permaneceu em Ketchum, entendendo-se com os médicos através do telefone.  

Duas semanas após Ernest ter ido para o hospital, Mary me telefonou, em New York. 

― Tenho aqui uma carta de Papá, a primeira que recebo. Carta longa, letra bastante boa, muito mais lúcida do que as que há muito tempo tenho recebido dele. Mas ainda se queixa do mau estado de nossas finanças... além de me apresentar uma nova preocupação que, perdoe-me, tenho de compartilhar com você. Pobre Hotch! Papá diz que precisa comprar roupas, embora eu, naturalmente, haja enchido suas malas de tudo que ele possa necessitar... Disse-me, além disso: “Eu deveria também começar a trabalhar e desejo sair daqui o mais cedo possível.” 

(...) 

Em consequência de meu encontro subsequente com o Dr. Renown, aprendi algo a respeito da situação de Ernest. O Dr. Renown, a princípio, falou-me, de um modo geral, de obsessões e ideias fixas, explicando-me que se conhecia positivamente muito pouco a respeito da relação mútua existente entre os vários sintomas – obsessão, fobias, depressão, ideias fixas, despersonalização, ansiedade e outros – bem como acerca das várias mudanças que podiam acentuar hoje mais e amanhã menos um ou outro desses sintomas, mas disse-me que a digressão sintomática clássica vai da obsessão até a ideia fixa. Uma obsessão é uma ideia que se implanta na psiquê. O indivíduo percebe sua falta de lógica e a encara como algo alheio ao seu ego ou ser, mas sucumbe a ela, a fim de evitar a ansiedade que experimenta, se a desafia ou tenta ignorá-la. Uma ideia fixa – prosseguiu o Dr. Renown – é uma crença falsa impermeável à demonstração lógica e real de sua falsidade. Em certos casos, acentuou ele, essa tênue linha demarcatória é cruzada num sentido e, depois, noutro; assim, poderá existir conduta obsessiva numa área e idéia fixa em outra. 

(...) 

Durante o mês de maio, Ernest recebeu várias aplicações de eletrochoque. Quando, cerca do fim do mês, os mesmo foram completados, Mary teve permissão para visitá-lo por três dias. Ela me comunicou que Ernest estava mais enfurecido com esses tratamentos do que com os anteriores, queixando-se ainda mais amargamente da maneira pela qual sua memória estava sendo destruída, e de como ele estava sendo arruinado como escritor, lançando toda a culpa disso sobre os médicos da Clínica Mayo, os quais, finalmente, acederam ao seu pedido para que deixassem de aplicar-lhes eletrochoques. No fundo, esse conflito entre Ernest e seus médicos residia no fato de ele não admitir que tinha uma doença que exigia um tratamento assim tão drástico. Segundo parecia, os médicos não haviam ainda conseguido fazer com que ele percebesse a gravidade de seu problema. 

Ele não tornou a falar com Mary a respeito de matar-se, declarando-lhe, mesmo, que já deixara de pensar em suicídio, mas suas ideias fixas continuavam as mesmas. Nessa altura, elas já haviam, mesmo, aumentado, incluindo hostilidade contra Vernon Lord e a própria Mary. Na primeira noite em que ela foi vê-lo, Ernest acusou-a de tê-lo levado para lá com o intuito de apropriar-se de seu dinheiro. No dia seguinte, porém, mostrou-se amoroso e reconhecido para com ela. Seus estados de espírito oscilavam tremendamente. Passara a alimentar uma nova ideia fixa que o fazia voltar-se contra Ketchum: ele não poderia, de modo algum, voltar para lá, pois que estavam à sua espera, a fim de agarrá-lo e metê-lo na cadeia por não haver pago impostos estaduais, e acusava Mary de estar secretamente trabalhando com as autoridades, procurando fazer com que ele voltasse para lá, a fim de que pudessem apanhá-lo. 

― De que modo poderemos persuardi-lo a submeter-se a um tratamento que ele julga desnecessário? – perguntou Mary. – De que maneira poderemos fazer com que ele veja a extensão de seu problema, a fim de que os médicos da Clínica Mayo possam tratar dele? Parece que eles não conseguem fazer com que Papá compreenda que o choque é necessário. Mas nós talvez o conseguíssemos. Além disso, o fato de a gente o ver lá, inteiramente vigiado, sem poder ir a parte alguma sem uma escolta, é terrível. Meu pobre querido! Será que não haveria algum lugar onde ele pudesse estar ao ar livre? Você sabe como Papá adora a vida ao ar livre. Ele me falou em ir para o estrangeiro e, até mesmo, em telegrafar para seus amigos na Espanha e na França, de modo que talvez pudesse ir para uma clínica na Suíça ou outro lugar semelhante. É tão perturbador vê-lo lá necessitando de ajuda, com ajuda por todos os lados, mas sem que tal ajuda possa chegar até ele. Deve haver uma maneira de ajudá-lo. 

A mente de Ernest parecia haver construído uma prisão intolerável, da qual não havia meio de fuga; partindo da realidade de que não poderia voltar para sua casa em Havana, uma idéia fixa erguera três outras muralhas: não poderia permanecer em Rochester, porque lhe estavam arruinando a memória; não poderia ir para o seu apartamento em New York, porque o apanhariam por haver corrompido a moral de uma menor que morava naquela cidade; não poderia ir para Ketchum, porque o aprisionariam, devido aos impostos estaduais. 

(...) 

Em princípio de junho... A razão pela qual Ernest estava hospitalizado havia sido amplamente divulgada. A revista Time conseguira chegar até aos registros confidenciais do hospital e besuntou suas páginas com o conteúdo do registro referente a Ernest, inclusive o número de eletrochoques que ele recebera. Onde não existiam fatos, Time preencheu as lacunas com conjecturas.  

Ao aproximar-me do quarto de Ernest, ele estava de pé diante de uma mesa elevada de hospital, com um jornal aberto à sua frente. Fiquei um momento parado à porta, não me sendo possível, por um momento, entrar. Enquanto nas visitas anteriores suas feições me tinham parecido diluídas, agora o homem que ele antes fora havia desaparecido, e o homem que eu tinha à minha frente não passava de uma indicação a mostrar o lugar em que ele antes tinha estado. 

Mostrou-se muito feliz e, de um modo estranho e incompreensível, orgulhoso por eu ter ido vê-lo. Chamou enfermeiras e pessoal de outros andares, e apresentou-me a eles, cada uma das apresentações acompanhada de uma confirmação de meu passado, presente e futuro. Quando os médicos chegaram, acederam prontamente ao pedido de Ernest para dar um passeio de automóvel em minha companhia.  

No carro, pus-me a falar a Ernest a respeito de Honor, que havia obtido o seu primeiro trabalho, mas ele me interrompeu abruptamente. Para meu desânimo, a coisa era como antes: havia aparelhos de escuta instalados no carro, em seu quarto... a mesma mania de perseguição de antes. Ele orientou-me por uma pequena estrada, que nos conduziu através de uma zona arborizada, galgando, depois, um terreno íngreme, até chegar a um bosque cerrado. Paramos o carro e caminhamos um pouco por uma trilha que ia dar a uma clareira. A vista abrangia três quartos de toda a paisagem subjacente; o céu era sem nuvens e cheio de aves a revolutear no ar saturado de verde fragrância.  

Ernest não notava nada disso: primeiro, queixas de pobreza; depois, acusações contra seu banqueiro, seu advogado, seu médico, toda a gente fiduciária de sua vida; a seguir, preocupações por não ter roupas apropriadas e, finalmente, os impostos. Havia muita repetição no que dizia. 

Meu primeiro impulso foi deixar que ele se desabafasse, na esperança de que isso, talvez, ajudasse a que ele se livrasse da pressão que o oprimia, mas, vendo-o andar de um lado para outro, os olhos voltados para o chão, o rosto retorcido pelos infortúnios que me contava, surgiu em mim uma espécie de raiva e, por fim, não me conseguindo conter-me, coloquei-me à sua frente, fazendo com que ele erguesse os olhos, e exclamei: 

Papá, estamos na primavera! 

Ele fitou-me perplexo, os olhos fuliginosos atrás de seus velhos óculos. 

― Perdemos, de novo, Auteuil. 

Realidade. Fazer com que ele viesse para o meu mundo. E reafirmei a realidade: 

― Tornamos a perder Auteuil, Papá. 

Os olhos mexeram-se. Enfiou as mãos nos bolsos. 

― E tornaremos a perdê-lo, a perdê-lo e a perdê-lo – disse ele. 

― Por quê? – indaguei, lançando minhas palavras sobre as dele. Eu não queria perder a brecha. – Por que não no próximo outono? Que é que há de errado com uma boa reunião de outono? Quem disse que o Bataclan não pode funcionar em meio às folhas de outono? 

Referência a boas associações de idéias. 

― Não haverá outra primavera, Hotch. 

― Claro que haverá. Eu o asseguro... 

― Nem outro outono. 

Todo o seu corpo perdera a tensão de pouco antes. Afastou-se e sentou-se num arruinado muro de pedra. Senti que devia, agora, agir rapidamente, e o fiz, mas disse-lhe com muita brandura: 

Papá, por que razão você quer matar-se? 

Ele hesitou apenas um instante; depois, falou em sua maneira antiga, deliberada: 

― Que é que você acha que acontece a um homem que vai completar sessenta e dois anos e percebe que jamais poderá escrever os livros e os contos que prometeu a si mesmo? Ou fazer qualquer das outras coisas que prometeu a si próprio nos velhos e bons tempos? 

― Mas como é que você pode dizer tal coisa? Você escreveu um belo livro a respeito de Paris, tão belo como jamais ninguém poderá esperar escrever. Como pode passar isso por alto? 

― O melhor desse livro, eu escrevi antes. E agora não posso terminá-lo. 

― Mas talvez ele já esteja terminado e se trate apenas de relutância... 

Hotch, se eu não puder existir segundo os meus próprios termos, então a existência é impossível. Você percebe? Foi assim que sempre vivi e é assim que devo viver – ou não viver. 

― Mas por que você não deixa de lado, por enquanto, isso de escrever? Você sempre deixou passar muito tempo entre um livro e outro. Dez anos entre Uma Aventura na Martinica e Por Quem os Sinos Dobram e, depois, mais dez anos até Do Outro Lado do Rio. Descanse um pouco. Não se esforce. Por que deveria você fazê-lo? Você jamais o fez. 

― Não posso. 

― Mas qual a diferença agora? Pode referir-me a algo?Em 1938, você escreveu um prefácio para os seus contos. No fim do mesmo, você disse que esperava poder viver o suficiente para escrever mais três romances e mais vinte e cinco histórias. Essa era a sua ambição. Pois bem: aí estão Por Quem os Sinos Dobram, Do Outro Lado do Rio e Entre Árvores, e O Velho e o Mar, sem citar os que não foram ainda publicados. E existem mais do que vinte e cinco contos, além do livro de sketches sobre Paris. Você cumpriu seu compromisso – aquele que você fez consigo mesmo – o único que conta. Assim sendo, por que é que você, pelo amor de Deus, não pode satisfazer-se com isso? 

― Porque... Ouça, não importa que eu não escreva por um dia, um ano ou dez anos, contando que eu saiba, em meu íntimo, que posso escrever quando quiser. Mas passar um dia sem que eu saiba que não posso fazê-lo, sem que tenha tal convicção, constitui uma eternidade. 

― Então por que não deixa de escrever de uma vez por todas? Por que não se aposenta? Deus bem sabe que você merece tal descanso.  

― E vou fazer o quê? 

― Qualquer das coisas que você ama e aprecia. Certa vez você me falou em adquirir um novo e grande barco que o levasse pelo mundo afora, a pescar em boas águas que você jamais experimentou. Que tal fazer isso? Ou aquele plano acerca do acampamento de caça no Quênia? Você se referiu à caça ao tigre na Índia... a convite de Bhaiya... Que tal isso? E aquela outra ocasião em que você me falou de ir com Antônio para a fazenda de criação de touros. Há, com os diabos, tanta coisa... 

― Aposentar-me? De que modo, com os diabos, pode um escritor aposentar-se? DiMaggio deixou seus recordes assinalados, bem como Ted Williams, e, depois, num dia particularmente bom – quando os dias bons se iam tornando cada vez mais raros, penduraram as chuteiras. E assim o fez Marciano. Assim é que um campeão deveria afastar-se. Como Antônio. Um campeão não pode aposentar-se como qualquer pessoa. 

― Mas você já tem alguns livros na estante... 

― Sem dúvida. Tenho seis livros com os quais posso declarar que venci. Posso contar com isso. Mas, ao contrário do seu jogador de basebol, do seu pugilista ou do seu toureiro, como pode um escritor afastar-se da luta? Ninguém aceita o fato de que suas pernas ficaram curtas, ou lentos os seus reflexos. Aonde quer que ele vá, ouve sempre a mesma maldita pergunta: “Que é que você está escrevendo agora?” 

― Mas quem se importa com tais perguntas? Você jamais se importou com essas coisas. Por que é que você não permite que o ajudemos? Mary irá para onde quer que você deseje, fará o que você gosta. Não a ponha de lado. Isso a magoa. 

― Mary é estupenda. Hoje como sempre. Maravilhosa. Tem sido, sempre, tão corajosa e boa. Ela é tudo o que me restou para alegrar-me. Eu a amo. Amo-a deveras. 

Lágrimas afluíram-me aos olhos e não pude continuar a falar. Enquanto isso, Ernest, que observava um pássaro a saltitar por entre a vegetação, prosseguiu: 

― Você se lembra que eu lhe disse, certa vez, que ela não se importava de ferir as pessoas. Bem, eu estava enganado. Ela não é assim. Ela sabe o quanto sofro e procura ajudar-me... Santo Deus! Oxalá pudesse eu poupar-lhe tal sofrimento. Ouça, Hotch. O que quer que aconteça, seja lá o que for... lembre-se de que ela é boa e forte, mas lembre-se também que, às vezes, as mulheres mais fortes precisam de ajuda. 

Eu não podia suportar mais aquilo. Distanciei-me um pouco. Ele acercou-se de mim e pousou-me a mão no ombro: 

― Pobre e velho Hotch! Lamento terrivelmente tudo isto. E quero que, aqui, você guarde isto. 

Ele tinha na mão a castanha da Índia que trouxera de Paris. 

― Mas Papá, isso lhe dá sorte... 

― Quero que você fique com ela. 

― Então eu lhe darei outra coisa. 

Okay. 

Abaixei-me e apanhei um seixo brilhante; mas Ernest me deteve: 

― Nada que seja daqui. Não existe coisa alguma feliz que provenha de Rochester, Minnesota. 

Eu possuía um chaveiro que uma das minhas filhas me haviam dado e que tinha, preso a ele, uma figura talhada, de modo que retirei a figura e dei-lha. 

― Se eu pudesse sair daqui e voltar a Ketchum... Por que você não fala com eles? 

― Eu lhes falarei, Papá. Eu lhes falarei. ― Senti-me, subitamente, animado. – E quanto a você, deveria pensar muito nas coisas que gostaria de fazer e não apenas nessas coisas negativas. Isso é o melhor que poderá acontecer. 

― Claro. Claro que é. A melhor coisa que existe na vida e em outras espeluncas. Mas, que diabo! Que é que um homem se interessa fazer? Permanecer saudável. Trabalhar bem. Comer e beber com seus amigos. Divertir-se na cama. Quanto a mim, não tenho nada disso. Você compreende, com os diabos? Nada disso. E, enquanto eu estiver planejando meus divertimentos e minhas aventuras pelo mundo, quem afastará os agentes federais de meu rabo, e de que modo os impostos serão pagos, se eu não girar a coisa que faz com que sejam pagos? Você está me animando e chegando ao âmago do problema, mas você é como Vernon Lord e o resto deles, apresentando provas a favor do Estado, vendendo-lhas... 

Voltei-me contra ele: 

Papá! Papá, vá para o diabo! Pare com isso! Acabe com isso! 

Um grande tremor apoderou-se dele – daquele velho magro e encantador, e ele levou por um momento as mãos aos olhos, antes de pôr-se a caminhar de novo em direção do automóvel. Até chegar ao hospital não proferimos uma única palavra. 

Permaneci umas poucas horas com ele, em seu quarto. Ele mostrava-se agradável, mas distante. Conversamos sobre livros e esportes; nada de pessoal. No fim do dia, parti de automóvel, de volta, para Minneapolis. Jamais tornei a vê-lo. 

(...) 

Em fins de junho, recebi uma nota de Mary, informando-me que, quando de sua chegada a Rochester, os médicos da Clínica Mayo insistiram com ela para que permitisse que Ernest seguisse em sua companhia para Ketchum. Na verdade, já haviam dito a Ernest que ele ia, de modo que ele estava contando com isso. Os médicos disseram-lhe que Ernest estava nos umbrais de uma nova fase e precisava provar a si próprio o que ele poderia fazer em Ketchum. Mary disse-me que se referira de novo ao instituto, mas que os médicos lhe afirmaram que uma tal transferência podia fazer com que o estado de Ernest regredisse definitivamente e que, sendo assim, não poderia ser considerada; que, na verdade, destruiria a nova esperança que eles, tão penosamente, lhe haviam dado. Disseram-lhe que Ernest estava entre sessenta e setenta por cento de seu estado normal e que isso era suficientemente bom para sustê-lo. Mary disse-me que procurara protestar, mas que, dado o seu pequeno conhecimento psiquiátrico, isso seria inútil. De modo que se resignou; sentia-se temerosa, mas resignada. Ela havia alugado um automóvel e George Brown estava a caminho, desde New York, por via aérea, a fim de conduzi-los, através dos Estados Unidos, a Ketchum. 

A 2 de julho, voei de Málaga para Madri, onde pernoitei, a fim de tomar, pela manhã, o jato para Roma. Quando eu deixava o elevador do hotel, na manhã do dia 3, a caminho do aeroporto, Bill Davis entrou apressadamente no saguão. Dirigira a noite toda, percorrendo, virtualmente, toda a extensão da Espanha, para dizer-me que Ernest se suicidara com um tiro, para estar em minha companhia naquela ocasião. Alegrou-me que ele o estivesse. Mas o que Ernest havia feito não me atingiu profundamente naquele momento. Levou meses para que isso ocorresse. 

Durante o vôo para Roma, li os pormenores do que acontecera. Como o Dr. Renown tinha predito, havia grandes manchetes na primeira página dos jornais, aonde quer que eu fosse. O despacho da Associated Press dizia que Ernest se mostrara jovial durante os três dias de viagem de automóvel pelos Estados setentrionais, parecendo estar se divertindo. Que na primeira noite passada em sua casa tivera um jantar agradável e que até mesmo acompanhara Mary, que cantara uma das suas canções prediletas: Tutti Mi Chiamano Bionda. Depois, segundo Mary, logo cedo, na manhã seguinte, o estampido de um tiro ecoara pela casa. Mary correu para baixo. Ernest estava limpando uma das espingardas, disse ela, quando esta, acidentalmente, disparou, matando-o. 

Eu não podia culpar Mary por ocultar a verdade. Ela não estava preparada para aceitar o que aconteceu e foi o que lhe ocorreu quando teve de explicar o que tinha havido. Que diferença faz a verdade, quando se trata de uma coisa assim? Acaso a verdade traz de volta o que quer que seja? Ou atenua o sofrimento? 

Vi-me, de repente, a recordar a pergunta feita durante a interminável entrevista, anos antes, com os jornalistas alemães, no Felipe II. O repórter indagara: “Mr. Hemingway, poderia o senhor resumir o que pensa acerca da morte?” E Ernest respondera: “Sim... Apenas uma outra prostituta.” 

Enviei um longo telegrama a Mary, mas não fui a Ketchum para o enterro. Eu não poderia despedir-me de Ernest em público. Ao invés disso, dirigi-me a Santa Maria Sopra Minerva – sua igreja, não minha – porque queria despedir-me dele em sua própria casa. Encontrei um altar lateral deserto e lá fiquei sentado durante um longo tempo, pensando em todos os bons tempos que tínhamos vivido, rememorando tudo, desde o nosso primeiro encontro no Floridita, em Havana. Mas, ao chegar o momento de ir-me embora, só o que me ocorreu foi dizer “Boa sorte, Papá”. Imaginei que ele sabia o quanto eu o amava, de modo que não havia razão para que eu o mencionasse. Acendi uma vela e coloquei algum dinheiro na caixa de esmolas para os pobres e, depois, passei o resto da noite sozinho, a vagar a esmo pelas velhas ruas de Roma. 

Ernest disse-me bem: “O homem não é feito para a derrota. O homem pode ser destruído, mas não vencido.” 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...