quinta-feira, 18 de abril de 2024

XXIV. ERNEST POR GREGORY HEMINGWAY

 XXIV 

Ernest por Gregory Hemingway 

O olhar de um filho 

 

Com o livro de Hotchner, imaginei que estavam encerradas as leituras de livros com testemunhos de amigos que, de fato, conheceram Ernest. Entretanto, já quase ao final da leitura do livro de Hotchner, pesquisando na internet, encontrei dois livros esgotados no Brasil em sebos. Um, escrito pelo filho mais novo de Ernest, outro, por um dos seus irmãos, Clarence. 

O livro de Hotchner forneceu-me muitas informações a respeito de meu amigo, interessantíssimas, por sinal, mas houve inúmeros momentos em que duvidei de sua veracidade, pois havia detalhes demais, principalmente no que se refere a diálogos. Particularmente, embora eu não leia e nem fale Inglês, diversas frases estavam com construção estranha e pensei que talvez fossem um problema de tradução.  

O prefácio ao livro de Gregory foi escrito pelo escritor e jornalista Norman Mailer. Nele, Mailer comenta algumas biografias de Ernest, inclusive a de Hotchner, “que apresenta um retrato muitíssimo interessante, mas bastante distorcido. Hotchner usou uma lente com o ângulo muito aberto; até as narinas do grande homem saíram deformadas. Ficamos infelizmente sabendo que há motivo para acreditar em transposição de material. Uma longa declaração maravilhosamente enunciada que Hemingway teria feito a Hotchner foi na realidade extraída de uma carta. É esse pequeno pecado literário da espécie que os redatores profissionais de revista costumam cometer, pois se formaram numa escola que exige que o caso contado rapidamente e de maneira marcante (e uma citação de uma carta tem menos impacto do que a fala de um homem). Esses métodos, porém, geram distorções pela própria rapidez”. 

Assim que o livro chegou às minhas mãos comecei a lê-lo e só não o fiz em um único fôlego, porque eu me detinha em passagens que adiavam a continuação, devido à minha imaginação que buscava formar uma imagem concreta daquele amigo que conheci ainda muito jovem. Foi-me emocionante ler o que o filho de Ernest escreveu sobre o pai, dando-me a impressão de que eu estava vivenciando tudo aquilo enquanto de fato aconteceu. 

Jamais consegui superar um sentimento de responsabilidade pela morte de meu pai”. 

(...)  

Hemingway era meu pai; não era apenas uma figura conhecida de todos; e sua morte foi um grande choque para mim. 

(...) 

Na sua mocidade, meu pai não era um desordeiro, um chato, nem uma celebridade profissional. Mais tarde na vida, em bebedeiras com sicofantas, em orgias que apenas anestesiavam a dor que se seguiu à perda do seu talento, o homem que eu tinha conhecido nunca iria cometer atos que permitissem aos abutres literários o festim de roerem permanentemente ossos de uma carcaça que julgavam ter devorado por completo.  

O homem que ficara em minha lembrança era bom, meigo, simples na sua grandeza, atormentado além da capacidade de resistência de qualquer alma e, embora o chamássemos de Papai, o fazíamos por amor e não por medo. 

O homem que conheci em minha juventude era um homem e tanto, e não o Papa Hemingway de Hotchner. 

Vou falar dele. 

Costumava dizer que imaginava mentalmente o efeito de uma frase antes de escrevê-la. Experimentava-a de várias maneiras até que uma delas lhe “parecesse melhor”. Dizia que, quando havia gente falando, tudo era tão rápido que ele não conseguia acompanhar o pensamento na máquina de escrever. Foi por isso que não compreendi depois, nos fins dos anos quarenta e cinquenta, quando ele escreveu a críticos como Carlos Baker e Malcolm Cowley dizendo que “escrever é um ofício triste” ou uma “profissão cruel”, e outras coisas assim, que denotavam autocompaixão.  

Sei agora que ele estava dizendo apenas que o material não mais fluía naturalmente, que o poço não era mais artesiano e precisava ser bombeado. Nunca deixou de ter ouvido maravilhoso para as palavras; com a idade ficara mais experiente e mais arguto, mas a antiga espontaneidade elementar, sem esforço, deixara de existir. O mundo não mais passava por ele como através de um filtro purificador, cujo produto destilado parecia mais verdadeiro e mais belo que o próprio mundo. Não era mais poeta, um dos espiões de Deus, mas um irritado agente de contra-espionagem cujos subordinados pareciam traí-lo.  

Houve apenas um breve período em que uma jovem fidalga italiana visitou o seu sítio em Cuba e um caso platônico entre ambos fez correr de novo o seu fluxo criador. O Velho e o Mar é desse período, bem como a primeira e a terceira parte de uma obra menor e inacabada, Ilhas na Corrente. A humildade e a empatia em face do destino do homem, que a Comissão do Prêmio Nobel observou e interpretou como “desenvolvimento”, resultaram do fato de ele perceber o que era “verdadeiramente” viver sem o seu gênio e do conhecimento do que significava para o resto das pessoas viverem todo o tempo sem a proteção contra o mundo, representada pelas recompensas intelectuais e materiais do gênio. 

Ele se esforçava sempre para vencer, detestava perder, e costumava dizer: 

─ Cada um faz a sua própria sorte, Gig. – Ou então: 

─ Sabe o que é que nos torna bons perdedores? A prática. 

Talvez ele tivesse aprendido, durante o estancamento do seu talento, que quem ensina a perder, bem ou mal, é o destino. 

Ele sempre tivera tudo. Em sua mocidade fora belo como um artista de cinema, com um poder de atração para as mulheres que era preciso ver para acreditar; extremamente sensível, dotado de uma constituição, de uma energia e de uma flexibilidade que lhe permitiam abusar do seu organismo e recuperar-se de traumas físicos e emocionais que destruiriam homens de menor gabarito; sumamente imaginoso, o que constitui talvez a combinação mais rara de qualidade; e tinha sorte, quase sempre boa, a boa sorte genética de possuir tudo isto, e a sorte de sobreviver a um ferimento grave de guerra com o conhecimento daquilo que nos espera na fímbria do nada. 

Será de admirar que um homem assim se tornasse rancoroso e irascível quando o seu talento começou a refluir depois de Por Quem os Sinos Dobram? Quando se tem todos esses dons, e mais a capacidade de descrever o que eles permitem compreender, não se pode ser um megalomaníaco; mas quando esse talento desaparece, é fácil compreender que a megalomania pode aparecer. 

E então, como um período de verão em pleno inverno, o talento volta e o homem produz uma pequena obra-prima (não há tempo bastante para que seja longa), tão cheia de amor, de empatia e de compreensão. E em seguida se instalam de vez o longo outono e o último inverno amargurado. 

Quem conheceu meu pai por muito tempo na mocidade não poderia deixar de amá-lo e admirá-lo. Quem o conheceu quando ficou mais velho só poderia sentir-se triste e amargurado, dependendo do quanto o houvesse conhecido na mocidade. 

Meu pai nunca conseguiu desenvolver uma filosofia que lhe permitisse envelhecer com graça, elegância; mas talvez eu tampouco o conseguisse, se tivesse o talento, a experiência dele, e fosse capaz de imaginar com a mesma profundeza o que a todos nos espera. Tenho visto em animais feridos um olhar que parece dizer: “Mate-me, que eu estou sofrendo”. No entanto, o homem é o único animal que pode puxar o gatilho; e muitos homens ajudaram meu pai a puxá-lo. 

E, 1951, quando meu pai tinha cinqüenta e dois anos e eu, dezenove, tive um problema na Costa Ocidental dos Estados Unidos, por tomar um estimulante do sistema nervoso numa época em que isso ainda não era moda. Minha mãe, que estava em visita à irmã dela, Jinny, em São Francisco, não ficou absolutamente alarmada com a minha situação, mas achou que meu pai devia ser avisado. 

Quando eu disse que seria mais simples Papai não se envolver no caso, ela respondeu que, sem dúvida, muitas coisas seriam mais simples se os pais se reduzissem a uma só pessoa. Mas não estava absolutamente abalada. Lembro-me de tudo isso como se tivesse acontecido ontem. Ela estava magra e com aspecto cansado, queixando-se de vez em quando de fortes dores de cabeça. Mas vinha sofrendo dessas dores havia vários meses e não ficamos muito alarmados porque ela disse que dentro em breve iria à Clínica Mayo fazer um checkup completo, “da cabeça aos pés, Gig”. 

Ela pediu uma ligação internacional para meu pai, em Cuba, a fim de lhe contar o que havia acontecido. Minha tia, que detestava meu pai e não podia certamente ser considerada uma testemunha imparcial, disse que a conversa começara com bastante calma, mas que, dentro em pouco, minha mãe estava gritando pelo telefone e chorando desabaladamente. 

Eu já conhecia a capacidade que tinha Papai de destruir verbalmente as pessoas e já o vira até usar desse poder contra a minha mãe. Certa vez escreveu-lhe uma carta intitulada Como Era Verde o Meu Criado de Quarto (How Green Was My Valet – um trocadilho com o título de um romance famoso, How Green Was My Valley), em que mamãe era Hettie Green, a milionária excêntrica de Wall Street, e o valet (criado de quarto) se referia à natureza do relacionamento antigo de ambos. 

Tia Jinny, porém, não me contou os detalhes desse telefonema, dizendo-me apenas que minha mãe estava morta. Mamãe acabara de falar com meu pai por volta das nove horas da noite, fora deitar-se logo depois, e acordara por volta de uma hora da madrugada, sentindo fortes dores abdominais. As dores se agravaram e ela foi levada às pressas para o hospital, onde morreu às quatro horas da manhã na mesa de operação.  

(...) 

Alguns meses depois do enterro, com a viagem financiada por um adiantamento sobre a herança de minha mãe feito pelo advogado dela, levei minha esposa, Jane, e nossa filhinha Lorian, a Cuba e à casa de meu pai, denominada Finca. 

(...) 

Uma tarde, quando me sentia expansivo, fui conversar com meu pai sobre os planos para o futuro e sobre o que acontecera recentemente. Com referência ao problema que enfrentara na Costa Oeste eu lhe disse:  

─ Na verdade, não foi tão sério assim, Papai. 

― Não? Mas foi o que matou Mamãe. – (...) Nada lhe disse em resposta. Ele quase sempre tinha razão nas coisas, era tão firme, e eu sabia que me amava. Devia ter sido alguma coisa que ele sentiu necessidade de dizer, e eu acreditei nele. 

Quando partimos da Finca para o aeroporto, lembro-me que meu pai me disse: “Muito bem, cuidado para não comprar títulos sem valor”. Percebi o espírito de suas palavras e sorri quando nos despedimos. 

Nunca mais vi meu pai, porque quando cheguei para o enterro dele, o caixão estava naturalmente fechado.  

(...) 

Quando Papai sofreu um acidente de avião na África, em 1954 (...) As primeiras manchetes informavam que os destroços do avião tinham sido avistados, e que não havia sinais de vida. Isso me fez pensar que ele estava morto, e compreender o quanto eu o amava. Ao saber, logo depois, que ele tinha sobrevivido, resolvi dar por finda a nossa rusga. 

Quando ele ganhou o Prêmio Nobel em outubro daquele ano, mandei-lhe um telegrama de felicitações. Ele respondeu imediatamente, remetendo um cheque de 5.000 dólares, dizendo que era um pouco tirado da magnanimidade livre de impostos da Suécia. Emocionado com a sua generosidade, resolvi fazer uma viagem à África. (...) 

Eu tinha sido criado dentro da imagem romântica da África. Para mim, o “autêntico” não eram os filmes de Martin Johnson que “descobriam” o continente negro, mostrando indígenas com adereços de penas de avestruz a rodearem o avião listrado de branco e preto do cineasta. O “autêntico” para mim consistia das cabeças empalhadas de animais, que decoravam as paredes da casa de Key West onde me criei; o tapete feito de couro de leão, e as Verdes Montanhas da África, aquele livro que descrevia o safári de meus pais.  

(...) 

Eu tinha um sentimento de culpa quanto à herança de minha mãe; achava que tinha sido eu o causador de sua morte, e que portanto aquele dinheiro era maldito; e me livrei dele com uma rapidez incrível. (...) 

Voltei para os Estados Unidos a fim de terminar meu último ano do Pré-Médico e ingressar na Faculdade de Medicina. Uma das primeira coisas que fiz ao voltar foi escrever para o hospital onde Mamãe tinha morrido, pedindo que me mandassem uma cópia do laudo de autópsia. Quando o laudo chegou, fiquei sabendo que ela morrera de um feocromacitoma, que é um tumor raro e pouco comum, na glândula supra-renal. 

É um tumor fora do comum porque não mata pela invasão de órgãos vitais, mas sim pela secreção de quantidades anormais de adrenalina – as quais fazem a pressão arterial subir desmesuradamente e causam, com frequência, a ruptura de uma artéria. Há duas variedades desse tumor: uma é de secreção intermitente, e a outra de secreção contínua. A julgar pelos sintomas anteriores à sua morte, minha mãe sofrera com a variedade intermitente.  

O estímulo capaz de fazer o tipo intermitente “disparar” e começar a expelir enormes quantidades de adrenalina podia ser tão insignificante como o fato de a pessoa se levantar de repente, ser empurrada pelas costas por uma multidão, ou ficar emocionalmente abalada por um pesadelo. O mais irônico de tudo era que a Clínica Mayo, onde minha mãe pretendia internar-se daí a poucas semanas para um checkup, era naquela época um dos dois ou três estabelecimentos nos Estados Unidos onde havia alguma possibilidade de operar com êxito esse tipo de tumor. 

Escrevi tudo isto a meu pai no verão de 1960, acentuando que minha mãe ficara abalada não pelos meus problemas secundários, mas pela conversa brutal que tivera com ele, pelo telefone, oito horas antes de morrer. O tumor necrosara, ou se gangrenara, e, quando disparou naquela madrugada, fez subir exageradamente a pressão arterial dela; um vaso sanguíneo médio, dentro da área afetada ou nas suas adjacências, se rompeu. O tumor parou então de expelir adrenalina, a pressão sanguínea caiu a cerca de 30 para zero, e ela morrera de choque na mesa de operação. 

(...) 

Meu pai, filho de médico, e homem que tinha bastante conhecimento de Medicina, também deve ter imaginado a aflição dos cirurgiões. Segundo uma pessoa que estava com ele em Havana quando recebeu minha carta, ele ficou furioso a princípio e depois passou o resto do dia a caminhar em silêncio pela casa. 

Cerca de três meses depois disso apareceram nele os primeiros sintomas visíveis de paranóia, com a preocupação de que o FBI estivesse à sua procura por sonegação de imposto de renda. 

Espero que toda esta sequência cronológica, aparentemente fatal, tenha sido coincidência. Eu evitava pensar que, pelo fato de um acontecimento preceder de perto outro, viesse a ser sua verdadeira causa. Deus sabe que eu nunca teria escrito a meu pai se pensasse que isto o afligiria tanto quanto o afligiu. Há uma enorme diferença entre querer matar alguém em nosso inconsciente, e realmente cometer o crime. É essa diferença que nos torna humanos. 

Além disso, quem sabia dizer as coisas sem reservas, como ele, deveria decerto estar preparado para agüentar as conseqüências. Não nos tínhamos sempre dito a verdade? 

Meu pai telefonou-me quando lhe comuniquei que estava matriculado na Faculdade de Medicina da Universidade de Miami. A ligação telefônica com Cuba estava uma droga, como sempre. A voz dele pareceu-me estranhamente desanimada, repetindo sem parar as suas instruções à telefonista, até que conseguimos nos falar. 

─ Parabéns, Gig. Mas duvido que você chegue a ser um bom médico... você não sabe sequer escrever corretamente a palavra “medicina”. 

Dei uma risada porque eu estava finalmente fazendo alguma coisa que valia a pena, e sabia que ele estava orgulhoso de mim, apesar da piada grosseira. 

Ele, porém, continuou no mesmo tom de voz. 

─ Seu avô foi um bom médico, mas se matou. (pausa) Consultei hoje um bom médico e ele me disse que eu sofro de uma doença rara que deixa as pessoas cegas e permanentemente impotentes. 

Levei alguns segundos para assimilar suas palavras. Mas muitas vezes me pergunto se cheguei realmente a entender o que isso devia representar para ele. Ainda tenho nos ouvidos o tom prostrado e amargo de sua voz. 

(...) 

Segundo algumas pessoas que o cercavam, ele mudou por completo depois daquela consulta com o médico. Não saiu mais de casa, não houve mais alegria, nem dias de festa na Finca. Era como se ele já tivesse desistido de viver. 

(...) 

Parece quase apropriado que algumas pessoas se tornem velhas e frágeis, à medida que a idade avançada confere afinal dignidade às suas fraquezas originais e as torna íntegras. Mas meu pai em sua mocidade nunca foi fraco, quer intelectual ou fisicamente, e, quando isto veio a acontecer, ele se negou a aceitar a situação. Na minha opinião, ele demonstrou coragem em escolher a única opção que lhe restava.  

Eu fui o terceiro e o mais novo dos filhos, produto de uma das catástrofes emocionais de meu pai, isto é, de um de seus quatro casamentos. Minha mãe, Pauline, foi a segunda esposa dele; ela o fizera deixar a primeira, Hadley, quando ele estava escrevendo O Sol Também se Levanta. Papai e Hadley tiveram um filho, Jack.  

(...) 

Eu tinha cerca de três anos e meio quando eles fizeram o safári de nove meses que deu origem às Verdes Montanhas da África (...). 

... é estranho que a primeira lembrança que eu tenha de meu pai seja ouvi-lo gritar comigo. Era de manhã bem cedo e eu estava brincando no gramado em Key West, a bater duas panelas uma contra a outra e fazendo um barulho infernal. De repente ele apareceu lá em cima, na varanda do segundo andar, parecendo-me enorme e muito zangado, gritou: 

─ Quer fazer o favor de parar com esse barulho? Estou tentando escrever! – Depois disso, nunca mais gritou comigo. 

(...) 

Gostaria de me lembrar melhor do bar do Sr. Josie, porque havia ali muitas conversas interessantes, segundo dizem as pessoas que escreveram sobre meu pai. E havia também encontros interessantes, como o primeiro que se verificou entre meu pai e a mulher que substituiu minha mãe, a terceira mulher dele, Martha Gellhorn. Mas quase nunca me deixavam entrar porque eu era muito criança e me obrigavam a ficar na maioria das vezes no banco traseiro do carro, enquanto Papai tomava “um trago”. (...) 

... Ele adorava pescar e parecia sair para o mar todos os dias. (...) 

Podia-se pescar quase qualquer coisa ao largo de Key West e Papai foi durante algum tempo o detentor do recorde do Atlântico de agulões pescados com vara e molinete, 54 quilos. (...) 

Lembro-me de ter feito maravilhosas brincadeiras de guerra no gramado do jardim com Papai quando ele voltou da Espanha, em 1937. Ele tinha trazido bombinhas de estouro, de modo que fazíamos exércitos imaginários empenharem-se em combate, com fogo de canhão, rolos de fumaça e tudo. Meu Deus, como eu desejei ir para a Espanha com ele, quando o vi partir! 

(...) Lembro-me também de mostrar a Papai o Touro Ferdinando, que me agradava bastante na época. 

─ Esse maldito livro de crianças já rendeu dez vezes mais do que Death in the Afternoon – comentou ele. – Trabalhei mais em Death in the Afternoon do que em outro livro na vida, e esse idiota que escreveu Ferdinando podia ter gasto no máximo um mês com ele. 

(...) 

Meus pais se divorciaram em 1940. Mamãe ficou com a custódia de Patrick e de mim, juntamente com uma pensão alimentícia “punitiva” porque meu pai tinha sido a parte culpada no caso.  Não me lembro bem do período do divórcio, a não ser os gritos em outras salas, as portas batidas, Mamãe a sair correndo do quarto, aos prantos – o quadro habitual do divórcio “amigável”.  

(...) Uma vez terminada essa guerra mutuamente arrasadora, a única alteração permanente foi que Papai passou a não morar mais conosco.  

Em lugar de vê-lo durante breves intervalos entre as suas viagens à África, à Espanha e à China, passei a ficar em sua companhia todo o verão, o verão inteirinho, sem mamãe, nem Ada [a babá alemã], onde quer que ele estivesse, em Bimini, Sun Valley, ou Havana. Era na verdade melhor assim. 

Na década de 1930, antes de meus pais se divorciarem, passávamos às vezes a primavera e o princípio do verão em Bimini, uma estreita ilha do arquipélago das Bahamas, 75 quilômetros a leste de Miami. 

(...) 

Toda a nossa família – mamãe, meus irmãos de catorze e nove anos respectivamente, Jack e Pat, eu e minha babá Ada – fazíamos a viagem na Pilar, a lancha com cabina de Papai. A Pilar tinha cerca de doze metros de comprimento, era pintada de preto, e fora construída “de acordo com as especificações de Papai”, o que significava, segundo vim a saber pouco depois, “construída para a pesca e não para passeios”. Mais tarde fiquei sabendo que isso significava mais uma coisa: ele ficara sem dinheiro depois de haver encomendado os melhores motores e a melhor cadeira de pesca possíveis, e nada mais restara para dar conforto ao barco. 

Quando chegávamos, Papai deixava a Pilar atracada no cais do Hotel Compleat Angler, quando não estava no mar, pescando. A Sra. Duncombe, proprietária do hotel, octogenária animada e encantadora, sobrevivente da velha Inglaterra colonial – alguém vai pescar? – fazia uma comida deliciosa. 

─ Andem por onde quiserem, meninos. Há quilômetro de Bimini por explorar e aqui vocês não se podem perder – disse Papai certa manhã, quando deixou claro que só os adultos sairiam na lancha naquele dia. 

Saímos pela grande praia deserta, rumando para o norte, apanhando conchas, atirando pedras chatas para saltarem de leve na superfície da água cristalina, e parando de vez em quando para construir castelos de areia mais complicados do que jamais os cruzados destroçaram em sonhos. 

─ Que peixes poderão pegar amanhã? – perguntou Pat, olhando para bem longe, no mar azul. 

─ Qualquer peixe – respondeu Jack – Estamos em fins de maio, e eles vão preparar as grandes iscas para pegar o atum gigante; mas nós também estaremos pescando de corrico, com uma isca de pena, e nesta época do ano poderemos pegar peixe-serra, bicudo, atum Allison, barracuda, badejo, cavala, wahoo... 

E aí, Pat acrescentou baixinho: 

─ Só espero que não me façam sentar naquela cadeira de pesca. 

─ Não há hipóteses, maninho. Do jeito que você largou tudo no ano passado, dando um prejuízo de quinhentos dólares de material, não vão deixar você chegar nem perto da cadeira. 

Pat não respondeu. Ele provavelmente nunca se esqueceria de como os adultos o deixaram ficar sentado na cadeira de pesca enquanto almoçavam, e como um marlin tinha mordido a isca quando ele estava com a vara nas mãos. A força da batida foi tão grande que o teria lançado ao mar se ele tentasse segurar a vara. Pat sentira instintivamente a força do peixe e largara tudo, deixando vara, molinete e linha caírem no mar. 

─ Jesus Cristo! – exclamou Papai. – Você perdeu tudo! 

Mamãe não esperou um momento para replicar. 

─ Pelo amor de Deus, Ernest! Que poderia ele fazer senão isso? 

Papai estava apenas tendo uma reação natural diante do seu prejuízo, e deve ter compreendido isso antes mesmo que acabasse de falar. Começou a atenuar a importância do caso, explicando repetidamente, que Patrick não tivera outra alternativa. Mas o mal estava feito. No espírito de Patrick, dentro do futuro previsível, a pesca se tornara um esporte para gente grande. 

(...) 

Naquela noite, num dos bares, Bill Leeds, bebedor e pescador de grande experiência, perguntou a Papai aquilo que todo mundo estava comentando desde a nossa chegada. 

─ Acha que é capaz de puxar um atum inteiro, Ernest? 

─ Duvido muito, Bill. Mas vou tentar, amanhã. 

Na manhã seguinte, vestimo-nos bem cedo e estávamos prontos para o breakfast antes de amanhecer o dia. Papai queria estar fora da barra quando o sol aparecesse. 

(...) 

Nada vi do que aconteceu lá em cima durante aquele dia. Dormi o tempo todo, exceto quando me levaram o almoço, um ato bem-intencionado que pareceu cruel naquele momento. Nas duas primeiras vezes em que enjoei, ainda em Key West, Papai voltara e me deixara em terra. Mas eu sentia nisso uma espécie de desmoralização, além de saber que os adultos não gostavam de perder meio-dia de pesca. Decidi vencer o problema e creio que já então estava tentando imitar o estoicismo de meu pai. 

Acordei quando já estávamos entrando no porto ao fim do dia. Quando cheguei, cambaleando, ao convés, encontrei todo mundo entusiasmado com alguma coisa. 

Vi então qual era a causa de toda a agitação. Metade da população de Bimini estava no cais aglomerada em volta do maior peixe que eu já havia visto. Tinham-no pendurado, pela cauda, numa viga transversal e ele devia ter uns três metros de comprimento. Parecia três vezes maior do que as pessoas amontoadas a seu redor. 

Todos estavam felicitando Papai. Mike não achava apenas que fora uma façanha extraordinária, mas também que traria grandes benefícios a Bimini, já que os pescadores ficaram sabendo que era possível trazer à tona um atum sem estar mutilado. 

(...) 

Para vitalizar a triste situação econômica [de Bimini] e por motivos de conhecimento apenas do seu inconsciente, Papai instituiu as lutas das noites de sábado. Oferecia a quantia de cem dólares a qualquer nativo que fosse capaz de resistir durante três rounds no ringue com ele. 

Como Papai depois me contou, logo que a notícia se espalhou pelas Bahamas por meio de barcos a motor e a vela, os únicos meios de comunicação naquele tempo, os pretos gigantescos começaram a chegar até Nassau; esperavam, no cais, que ele voltasse da pescaria do dia, e diziam: 

─ Eu gostaria de experimentar com o senhor este sábado, Sr. Ernest.  

Talvez fosse verdade, talvez uma meia-verdade. Meu pai tinha tendência a burilar até os melhores casos verídicos. Há uma fotografia na biografia de Papai escrita por Carlos Baker que o mostra a lutar boxe com um preto que parece bem grande na foto. Quando conheci esse homem em 1964, pouco antes de sua morte, não era nada mais alto do que eu. Devia ter mais ou menos 1,75m. Ora, sabemos que as pessoas encolhem um pouco na velhice, pois as vértebras inferiores se ressecam e são comprimidas pelo peso do resto do corpo, mas, meu Deus, não tanto assim, não o bastante para fazer daquele o camarada conhecido em Bimini por sua resistência no ringue, um adversário digno de um homem que tinha mais de 1,80m e pesava 90 quilos.  

(...) 

Não consigo esquecer a reação de Marjorie Kinnan Rawlings, autora de The Yearling, que fez uma visita a meu pai em Bimini. Entenderam-se maravilhosamente, mas quando partiu, ela disse a meu irmão Jack: 

─ Por que um homem de tanto talento como ele vive a negar sua sensibilidade e a afirmar excessivamente sua masculinidade? Ele é tão viril e tão grande. Por que perde seu tempo em badernas com playboys, tentando pescar o maior peixe, puxar um peixe mais depressa, beber mais do que todos? Sei que ele gosta de escrever; por que então não passa mais tempo escrevendo? 

─ É isso aí, Sra. Rawlings, a senhora está provavelmente com 80% de razão! Mas meu pai escreveu constantemente quatro a cinco horas quase todos os dias de sua vida. Não poderia escrever ficção dezoito horas por dia, pois isso seria exaustivo demais. 

(...) 

Qual era realmente o valor de meu pai? Bem, eu nunca o vi acertar pessoa alguma, se excluirmos as lembranças imprecisas de Bimini; mas vi-o boxear mais de cinqüenta rounds em ocasiões diversas, com um cavalheiro chamado George Brown. Ninguém jamais acertava George Brown, a não ser quando ele deixava. Meu pai sabia bater com força quando se ficava parado e se lhe oferecia um bom alvo, de modo que George não permitia isso. Vi meu pai atingir as luvas de George muitas vezes, mas nunca o vi acertar George. 

(...) 

[George] Conhecia meu pai, boxeava com ele e talvez o tivesse estimado durante um período de vinte e cinco anos. Foi ele quem veio dirigindo o carro, da Clínica Mayo, na última vez; e ele estava dormindo na casa de hóspedes quando se ouviu o tiro naquela manhã de domingo. 

(...) 

Sempre que penso em Bimini, o homem que me vem logo à lembrança, depois de Papai, é Mike Lerner. (...) em 1964, encontrei-o em Bimini, sentado numa sala cujas cortinas ainda estava fechadas ao meio-dia. 

(...) 

Voltemos, porém a Mike, naquela sala escura, parecendo cadavérico e relembrando os bons tempos. 

─ Gregory, há tantas coisas que eu gostaria de lhe contar a respeito de seu pai – disse-me ele. – Como nos divertíamos naquele tempo! Enfrentamos juntos um furacão em 1935 ou 1936, e enquanto o vento açoitava a casa, Ernest contava histórias tão fascinantes que esqueci o meu medo. Embora tenha certeza de que, com aquela imaginação, ele estava tão apavorado quanto eu. Certamente estaria lembrando o que uma ventania como aquela fizera a Matecome, em 1934, quando todos aqueles participantes da campanha de vendas de bônus morreram afogados no acampamento. Mas não nos resta muito tempo, e sei que você precisa pegar o avião para voltar a Miami. Deixe-me contar-lhe só mais uma. 

“Seu pai estava sem dinheiro, em 34 ou 35. Levara muito tempo escrevendo Death in the Afternoon e o livro não tivera muita venda. É claro que sua mãe tinha bastante dinheiro, mas Ernest não gostava de lançar mão dele a menos que fosse absolutamente necessário. Eu sabia que ele estava sem tutu e comecei a pensar numa maneira de ajudá-lo. 

“Certa manhã eu lhe disse: ‘Ernest, descobri umas ações magníficas, que não sei como têm passado despercebidas aos homens de Wall Street. O presidente da companhia acaba de me escrever, dizendo que vão anunciar dentro de duas semanas a descoberta de petróleo em terras da companhia. As ações da Teapot Dome Inc., ou nome semelhante, devem subir vertiginosamente logo que a notícia vier a público. Se você tiver algum dinheiro sobrando e não souber o que fazer com ele, poderei comprar ações para você’. 

“Ernie ficou encantado e conseguiu 500 dólares de sua mãe. Dentro de três semanas entreguei a seu pai um cheque de 5.000 dólares, pois as ações tinham decuplicado de valor depois que o presidente da companhia comunicara a descoberta de petróleo. 

Mike estava sorrindo e seus olhos pareciam mais vivos enquanto relembrava tudo isto. E então disse: 

─ É claro que aquelas ações nunca existiram, Gregory. Havia apenas umas velhas ações de petróleo minhas, que nunca subiam, e que eu vendi para conseguir os 5.000 dólares para seu pai. 

Papai era anti-semita, mas sabia escolher amigos que se revelavam exceções à sua regra.  

(...) 

Gente de toda a espécie ia caçar conosco naquele outono. Gary Cooper era aquele de quem eu mais gostava. Havia assistido a muitos filmes dele, e achei-o exatamente como era no cinema – incrivelmente bonitão, delicado, cortês e de uma nobreza inata. 

Lembro-me de que um dia, depois da caçada, estávamos num desses armazéns do interior, que vendem de tudo, e uma velhinha, reconhecendo Cooper, pediu-lhe um autógrafo. 

─ Adoro os seus filmes, Sr. Cooper. E sabe por quê? Porque o senhor é sempre o mesmo em todos eles. 

Cooper limitou-se a sorrir, assinou o nome e disse: 

─ Muito obrigado, Senhora. 

Ouvir dizer que os seus desempenhos nunca mudam de um filme para outro não chega a ser exatamente um elogio para um artista. Papai contava essa história da velhinha muitas vezes, mas nunca a Cooper, e nunca com qualquer intenção maldosa. Naquele tempo, havia pouca perfídia na alma de meu pai. 

Papai e Gary Cooper conversavam muito durante o almoço nas nossas caçadas de faisões, quase sempre conversas displicentes sobre caçadas e sobre Hollywood. Embora intelectualmente os dois tivessem pouca afinidade, parecia existir entre eles bondade e delicadeza. E realmente apreciavam a companhia um do outro – podia-se verificar este fato pela ressonância de suas vozes, e pela maneira com que seus olhos sorriam. E não havia por ali ninguém a quem desejassem impressionar – e aí é que está a beleza – havia apenas as esposas e os filhos dos dois. Pode parecer uma coisa impiedosa, mas acho que esses dois homens eram grandes atores (sim, meu pai também era) que haviam forjado, conscientemente ou não, duas das figuras heróicas de maior êxito no nosso século. Nunca houve rivalidade entre eles, nem motivo para isso. Nessa época, estavam ambos no apogeu. 

(...) 

Depois que meus pais se divorciaram e meu pai se casou de novo, ele se mudou para Cuba. Marty descobriu para eles uma velha casa magnífica, a cerca de quinze quilômetros de Havana. Ficava em oito hectares das mais belas terras que já vi. Mangueiras orlavam o caminho que levava à casa, e altas palmeiras imperiais marcavam o caminho que descia para a piscina, aos fundos. Havia flores e buganvílias por toda a parte. (...) A grande casa esparramada, em estilo colonial espanhol, se encarapitava no terreno mais elevado da região e de lá se descortinava uma vista maravilhosa das luzes de Havana. Tinha o nome de Finca Vigía, ou Fazenda do Vigia; nós a chamávamos simplesmente de Finca. 

Era difícil acreditar que alguém pudesse trabalhar num lugar daqueles, e durante os muitos anos em que visitei Havana, nunca pensei em meu pai como um escritor atuante. Sabia que ele escrevera livros, no passado, pois era Hemingway, o escritor, mas eu nunca o via trabalhando e tinha dúvidas que coexistiram com o meu culto ao herói. Continha-as o mais possível, mas os pensamentos não deixavam de subir à tona. Seria ele um impostor? Ficava sempre falando no seu trabalho, mas a que horas é que ele o executava? 

(...) 

Geralmente tínhamos bebido até bem tarde na noite anterior, e eu achava que tinha feito uma grande coisa em acordar às oito e meia da manhã. Minha cabeça podia estar meio tonta, mas eu me mantinha em pé. Meu parecia sempre em ótimo estado, como se tivesse dormido um sono de criança, num quarto à prova de som, e com os olhos bem protegidos por uma máscara preta. Às vezes eu conseguia explicar tudo isso satisfatoriamente a mim mesmo, recordando como ele adormecera com o copo de uísque na mão que descia lentamente para pousar no braço da poltrona. Em geral, porém, não havia outra explicação a não ser, como depois fiquei sabendo, o seu notável metabolismo. Eu tinha certeza de que ele não se levantara antes de mim. Mas estava enganado. 

Contaram-me posteriormente meus irmãos mais velhos que ele tinha o hábito de se levantar, todos os dias de sua vida de adulto, às cinco e meia ou seis horas da manhã, quando a primeira claridade do dia o acordava. Trabalhava então quatro ou cinco horas. Ao fim de duas horas, quando via que a coisa não estava saindo bem, parava de trabalhar e tratava de escrever cartas, pois estas lhe davam uma oportunidade de descansar da “terrível responsabilidade de escrever”, ou como às vezes dizia, “da responsabilidade de escrever terrivelmente mal”. Nas cartas ele não precisava se preocupar com a sonoridade ou com a construção da frase, e podia pilheriar, fofocar e dar conselhos bem-intencionados (e em geral solicitados). 

Nas manhãs de verão em que Pat e eu estávamos lá, Papai parecia parar de trabalhar mais cedo, a fim de passar mais tempo conosco. Mas naquela época eu não sabia disso, e para mim ele era apenas um playboy rico que passava quase todo o tempo com os filhos, nadando, jogando tênis ou beisebol, atirando, pescando e indo até Havana.  

(...) 

Mas nem tudo era divertimento e brincadeira em Havana naquele verão de 42. Houve uma epidemia de poliomielite na cidade, e eu caí de cama com dor de garganta, febre, dores nas pernas e uma sensação esquisita. Papai me fez ficar de cama e chamou, pelo telefone, dois especialistas de Havana, os quais chegaram dentro de uma hora: um deles era neurologista e o outro um famoso clínico. Mandou colocar outra cama no meu quarto para passar a noite comigo. 

Os médicos vinham de Havana duas vezes por dia, batiam-me nos joelhos com um martelo de borracha macia, e olhavam minhas pernas saltarem. Depois, iam para um canto do quarto e começavam a conferenciar em cochichos. 

Isto continuou durante três dias, e me apavorava um bocado o jeito de eles sorrirem sempre tão bondosamente, serem tão solícitos e continuarem a bater em meus joelhos com aquele martelo. Eu sabia da epidemia de pólio em Havana, e não ignorava que eu tinha os sintomas da doença, febre alta e dor nos músculos da perna. Meu Deus, por que aqueles homens tão amáveis e obviamente competentes não diziam alguma coisa sobre o meu prognóstico, por exemplo, que eu ia ficar bom e que não ia ficar paralítico para o resto da vida? Mas eu sabia que devia haver alguma razão para o silêncio deles, e que não seria oportuno fazer perguntas. 

A mesinha de cabeceira estava cheia de remédios, inúteis sem dúvida, mas prova da preocupação que sentiam. Papai não permitia que, além dele e dos médicos, pessoa alguma entrasse no meu quarto; tomava minha temperatura de quatro em quatro horas e me levava pessoalmente a comida. 

Deitava-se à noite na outra cama ao lado da minha, e ficava contando histórias maravilhosas sobre a sua infância em Michigan: como havia pescado sua primeira truta e como eram lindas as florestas virgens antes da chegada dos lenhadores. Falava-me das vezes em que tivera medo, em criança, de como costumava sonhar com um monstro peludo que ia crescendo, crescendo todas as noites, e por fim, no momento em que ia devorá-lo, saltava uma cerca e desaparecia. Disse-me que o medo era coisa perfeitamente natural e que ninguém se devia envergonhar disso. O jeito de dominar o medo era controlar a imaginação; mas ele bem sabia o quanto isto era difícil para um garoto. 

Dizia que adorava ler a Bíblia quando tinha sete ou oito anos, porque nela havia muitas batalhas.  

– Mas a princípio eu não era muito bom em matéria de leitura, exatamente como você, Gig. Passaram-se anos até eu compreender que Gladly, the cross I’d bear(Feliz eu seria de carregar a cruz) embora se pronunciasse de maneira idêntica não significava Gladly, the-cross-eyed bear(Gladly, o urso vesgo). Era-me fácil imaginar um urso vesgo, e Gladly me parecia um bonito nome para o animal. 

Mas Papai gostava mesmo era de me contar histórias – de caçadas e pescarias nas florestas do norte de Michigan, e de como ele gostaria de ter parado para sempre na idade que eu tinha então, sem nunca envelhecer – até que eu adormecia. 

Por fim, a crise passou, eu fiquei bom e Papai disse, batendo na madeira: 

̶  Graças a Deus, essa nós vencemos, Gig. 

Na verdade, porém, ninguém vencia a poliomielite antes da vacina Salk, a não ser quando o destino assim o determinava. Mesmo assim, creio que os cuidados cheios de carinho de meu pai, sua confiança e suas orações não me fizeram mal. 

(...) 

Como disse, a maioria das vezes em que íamos pescar com arpões, ancorávamos junto a um recife perto da praia. Mas, às vezes, saíamos para pescar marlin e, se não tínhamos sorte de manhã, almoçávamos a bordo do Pilar e íamos depois para um recife exatamente na orla do Gulf Stream, a bem dois quilômetros da praia. Porque me era cansativo boiar por muito tempo, eu preferia os recifes rasos, onde dava pé: eu tinha nesse tempo apenas um metro e trinta e cinco de altura e havia em geral um metro e meio de água a cobrir os recifes mais afastados. Além disso, estes ficavam bem à beira do Gulf Stream onde a profundidade do lado do mar aumentava bruscamente para mais de mil metros. Eu ouvira falar muito nos monstros marinhos lá existentes, e resolvi manter-me afastado daquela beira.  

Um dia, a pescaria da manhã tinha sido fraca e à tarde nós ancoramos perto do recife de água profunda. Gregório, o piloto de Papai, vinha até o meio do caminho, na baleeira, e tirava o peixe de nossos arpões. Eu não voltava à baleeira tantas vezes quanto Papai, pois estava gastando muita energia só para flutuar na água. E aí tive a idéia engenhosa para guardar os peixes que arpoava. Tirei o cinto, passei uma ponta pela boca do peixe, e a fiz sair pelas guelras. Depois, tornei a colocar o cinto no corpo. Podia assim arpoar três ou quatro peixes antes de ser obrigado a nadar os quarenta ou cinquenta metros para voltar à baleeira. 

Eu estava com sorte naquele dia e já havia arpoado três ou quatro grunts quando de repente notei que não havia um só peixe à vista. Não podia compreender por que estava acontecendo isso, nem para onde tinham ido todos. Não parecia haver tantos buracos no recife de coral para conter tantos milhares de peixes. 

Estava ainda pensando nesse problema quando olhei para a imensidão azul do Gulf Stream e vi por que os peixes tinham sumido. Três tubarões enormes, cada qual de mais de cinco metros de comprimento, vinham na minha direção em lentas curvas em “S” seguindo o cheiro do sangue que se espalhara pelas águas profundas. 

Comecei a gritar o mais alto possível, incontrolavelmente, repetidas vezes, mais apavorado do que nunca em toda a minha vida. A despeito do barulho das ondas, meu pai me ouviu. 

̶  Que foi, Gig? 

̶  Tubarões! Três dos grandes! 

̶  Calma, amigo. Jogue alguma coisa para desviar a atenção deles e nade para cá. 

Tirei mais que depressa os peixes do cinto e joguei-os na direção dos tubarões. Papai estava a uns quarenta metros de distância e, embora eu não fosse um grande nadador, acho que cheguei até ele em tempo recorde. Ele me levantou, me colocou nos ombros e nadou vigorosamente para a baleeira. Olhei para trás a fim de ver se os tubarões nos estavam seguindo: e do outro lado do recife, vi uma agitação no mar, com as barbatanas rompendo a água, no lugar onde os tubarões estavam devorando os peixes que eu jogara. 

Não posso dizer com certeza que meu pai tenha sido muito corajoso naquele dia. Parecia bastante calmo, mas eu percebia que ele também estava com medo, quando voltávamos para a baleeira. Mas não correu para a baleeira quando me ouviu gritar “tubarão”. Ainda teve a calma necessária para me aconselhar a jogar alguma coisa na direção deles. 

Acho que quase qualquer homem teria esperado por uma criança, mas eu nunca me senti mais filho do que naquele dia. Apesar de sua aparência extrovertida, meu pai era um homem reservado, e lhe era difícil exprimir afeição de maneira convencional; e eu só vim a compreender o bem que ele me queria naquele dia em que me colocou nos ombros que mal se elevavam acima da água e nadou aquela distância toda, com a maior parte do corpo ainda exposta aos tubarões, debaixo d’água. 

Papai me repreendeu severamente quando soube que eu tinha guardado os peixes mortos no cinto, e que fora o cheiro do sangue deles que atraíra os tubarões das profundezas do Gulf Stream. Tivéramos sorte. Aquilo era uma história e tanto para contar aos amigos, e Papai adorava esse tipo de situação perigosa – contanto que a gente conseguisse escapar. Com frequência, aproveitava fatos reais como este nas suas obras. Creio que este determinado episódio serviu de base a uma cena em que um tubarão ataca meu irmão, em Islands in the Stream. Papai alterava quase sempre a situação um pouco, e a melhorava ligeiramente, mas em geral utilizava material calcado em coisas que haviam realmente acontecido. 

Às vezes, o seu sentimento da realidade o abandonava ou, melhor, a realidade se fundia com a imaginação, antes que ele fixasse no papel o produto acabado. Isso podia ser perigoso. 

(...) 

No verão de 1943, quando eu tinha doze anos, meu pai convenceu o Embaixador dos Estados Unidos em Cuba de que o Pilar, com seus doze metros, poderia ser convertido num subdestróier e que poderia afundar um dos submarinos alemães que estavam atacando os navios mercantes aliados nos Estreitos da Flórida. Quando Pat e eu chegamos para passar o verão, o Pilar estava armado até os dentes. 

(...) 

Quando voltamos do mar e chegamos em casa, Marty pensou que meu pai iria recomeçar a escrever. Mas ele tinha outros planos. 

─ Agora é você a escritora da família, Marty – disse ele; e estava falando a sério, de todo o coração. 

Marty a princípio ficou lisonjeada, depois espantou-se, e por fim aborreceu-se. Ajudar a carreira dela era ótimo, mas que o maior romancista dos Estados Unidos se aposentasse, aos 44 anos, dois anos depois de terminar Por Quem os Sinos Dobram seria inadmissível – até mesmo para uma pioneira da liberdade feminina, como Marty. 

Eu sabia que isso seria um erro, talvez até uma loucura. Seria o lado passivo da personalidade de Papai, um lado que todos nós compartilhamos, que afinal estava predominando? Ou estaria ele, já então, sentindo que chegara ao apogeu; que descarregara sua pólvora, por assim dizer, e não ultrapassara, nem sequer se aproximara de seus ídolos, Tolstoi e Dostoievsky? Daí em diante haveria apenas a decadência?  

Deus do céu, ele estava cansado de figurar nas listas dos mais vendidos, cansado de competir. Talvez tivesse receio de voltar a defender o que ele chamava de seu “título”. Isto é humano, e é compreensível. Mas ninguém jamais permitiria que Papai fosse simplesmente humano. 

Certa vez ele disse: 

─ As pessoas estão sempre me perguntando: “Em que é que está trabalhando agora, Ernie?” Respondo aos cretinos que estou fazendo “a maior coisa que já se escreveu desde Shakespeare”, e diante disso eles se calam. Acreditam e dão um sorriso (...). Quando não gosto delas, esboço um sorriso malicioso e murmuro: “Espere e verá”. Aos meus amigos inteligentes, e estes eu conto nos dedos da mão, digo que estou escrevendo uma trilogia sobre a terra, o mar e o ar. E estou mesmo. Mas não está saindo grande coisa. O que se escreve tem de sair fluente e facilmente, quando é bom, e o que estou escrevendo agora “cheira a azeite de candeia”. Você conhece esta expressão: significa que você passou a noite inteira à luz da candeia, lutando com uma página. 

“É possível que eu não esteja na melhor das formas, mas Marty está escrevendo maravilhosamente. Eu conheço muito mais o ofício do que ela, e posso ajudá-la de muitas maneiras. Ela tem um grande talento, e o que precisa é de um grande editor. – Sorriu para mostrar que na verdade não está se gabando. 

─ Vamos dar uma oportunidade a Marty. Ela a merece. 

E era verdade. Marty foi sempre descrita como uma mulher excessivamente ambiciosa, negligente em suas tarefas domésticas, displicente em relação a Ernest, e que acabou por abandoná-lo. Foi esta a versão oficial fornecida a Carlos Baker, biógrafo de Papai, através de cartas do próprio Ernest, escritas a seus amigos depois dos fatos. Mas vamos esclarecer esses fatos. Marty nunca abandonou Papai. Ela foi expulsa daquela casa de Cuba, expulsa pela volta, com maior força ainda, da megalomania de Papai. A idéia dele, de transformar Marty em escritora da família, estava destinada ao fracasso, não por falta de talento dela, mas por causa da obsessão de meu pai de ser o Número Um. 

De repente voltou-se contra ela. 

─ Acha então que eu não sei mais escrever? – ouvi-o dizer um dia a ela. – Pois vou-lhe mostrar uma coisa, sua cadela pretensiosa. Eu ainda serei lido muito depois que os vermes tiverem liquidado você. – Isso era provável, mas meu Deus, que maneira de tratar uma pessoa amada. 

Eu soube depois que o rompimento deles não foi tão simples assim. Segundo Papai, havia também, na base de tudo, um problema sexual que explicava grande parte das discussões entre os dois. O caso poderia ter sido facilmente corrigido com uma consulta médica, mas meu pai raramente empregava o caminho direto com suas mulheres. Limitou-se a torturar Marty, quando afinal destruiu todo o amor que ela sentia por ele, e quando ela o deixou, alegou que fora abandonado. 

Ele tinha usado uma racionalização semelhante, com  minha mãe, alegando que fora a necessidade de praticar com ela o coito interrompido o que lhe destruíra aquela união. Mas qualquer idiota, e certamente um filho de médico, sabia que há alguns períodos do mês em que é possível ter relações sexuais satisfatórias sem o receio da gravidez. 

E assim, quando ele se apaixonou por Marty, toda a responsabilidade pelo rompimento do casamento de meus pais foi atribuída aos dois partos por cesariana de minha mãe, e ao fato de que o médico lhe dissera que Mamãe não deveria mais engravidar. O que realmente tornava esse pretexto absurdo era a convicção, muitas vezes externada por Papai, de que o excesso de relações sexuais era contraproducente para a boa literatura. Para colocar as coisas de maneira simplística, ele achava que tinha de economizar uma parte de suas energias criadoras para poder escrever. 

Papai sofria muito tempo com uma mulher que lhe desse problemas sexuais, mas acabava por fazê-la sofrer mais ainda. 

No final da década de 30 ele costumava enganar Mamãe desabridamente com uma amiga americana – fodia tantas vezes, que é de admirar que ainda lhe restasse alguma coisa para dar a Mamãe. Certa vez quase quebrou o pé ao saltar de uma janela de um hotel, quando Mamãe apareceu inesperadamente. 

Que diabo! Todas aquelas esposas! Mamãe estava certa quando disse: 

─ Não me importo que Ernest se apaixone, mas por que é que ele tem de se casar com a moça sempre que isso acontece? 

Papai se sentia começando a estagnar depois de estar algum tempo casado com uma mulher. 

(...) 

Papai foi para a Europa em 1944 e sentiu afinal o gosto da guerra. Quando voltou, foi como muitos outros militares que regressam àqueles que os amavam – incompreensíveis, mas tratados com carinhosa solicitude pela família, que mal podia imaginar o que haviam passado. Papai mostrava-se superativo e falava incessantemente da guerra e dos homens que haviam lutado com ele, chamando-os pelos nomes de batismo sem se dar ao trabalho de identificá-los, como se nós também os conhecêssemos intimamente. Dava-nos lembranças de guerra – a mim deu uma pistola Walter P-38, que ele disse haver tirado de um capitão alemão morto. (“E quem matou o patife fui eu, Gig”.) 

Contava histórias até alta noite. Como tinham sido as coisas em Rambouillet, como ele comandara o seu “exército” de várias centenas de maquis franceses e chegara a Paris antes de todo mundo, com uma dianteira de bem vinte e quatro horas sobre o General Leclerc. Que tinha sido indicado para receber uma Estrela de Prata por outro general que lhe ficara grato pelas informações que dera sobre a posição do inimigo. Tivera, porém, de negar solenemente as suas atividades perante uma comissão de inquérito, quando esse mesmo oficial descobrira, com algum atraso, que os correspondentes de guerra não podiam portar armas, segundo determinava a Convenção de Genebra. (Outros correspondentes, talvez porque tivessem sido “furados”, se insurgiram contra a guerra pessoal dele, e colaboraram naquela comissão de inquérito.) 

Sofrera um choque violento depois de bater numa torre de água quando dirigia um carro com os faróis apagados através do blackout de Londres. Pela primeira vez um inglês cheio de solecismos dominava sua maneira de falar, como se todos os pronomes pessoais fossem mutilados de guerra. Sua conversa era pontilhada de “Que é que acham, cavalheiros?” – expressão que repetia interminavelmente e sem se dirigir a ninguém em especial. Lilian Ross descreveu isto com muita vividez no perfil que publicou no New Yorker, trabalho devastador (ainda que não fosse esta sua intenção) porque mostrou meu pai exatamente como ele era naquela ocasião. 

(...) 

Mary Welsh era uma loura pequena, quase mignonne, que fora correspondente de guerra da revista Time em Londres. Papai a conhecera por ocasião do seu rompimento com Marty, de modo que ela representou aquela transição costumeira e relativamente agradável para ele: uma bela mulher à sua disposição, enquanto ele tentava apagar as lembranças da anterior. E com Mary era muito fácil apagar lembranças. 

Ao contrário de algumas mulheres que apenas fingem participar dos interesses do marido durante o período de namoro, Mary continuou a participar deles depois. Saía para pescar dias a fio no Pilar, antes e depois do casamento, expondo sem reclamar sua clara pele nórdica ao sol equatorial. Também o espanhol Mary aprendeu bem e depressa. Tinha bom ouvido para a pronúncia e a autodisciplina necessária para estudar gramática. E restabeleceu a ordem na confusão doméstica deixada por Marty.  

(...) 

Em outra noite, Papai ficou nostálgico, pensando em amigos que haviam partilhado de sua festa móvel, em Paris, na década de 1920.  

─ Ezra Pound, o amigo mais generoso que eu já tive. Cheguei a me convencer de que ele estava louco, quando a loucura seria a sua única defesa contra a acusação de traição. “Sally do Eixo” foi condenada a vinte anos de prisão por suas transmissões radiofônicas de propaganda inimiga; e Lorde Haw-Haw foi enforcado. Era isto o que dominava nossos espíritos quando tentamos em grupo anular a acusação de traição. Tivemos êxito, e o pobre Ez foi internado no Hospital de St. Elizabeth, em Washington. 

─ Ele era um traidor? 

─ Ezra Pound estava na Itália quando a guerra começou. As pessoas por lá lhe lisonjeavam a vaidade e punham um microfone diante dele para que milhares de pessoas lhe ouvissem a voz. Ez gostava de falar, e falava brilhantemente. Mas não era louco. Apenas falava demais. Sem dúvida, tinha algumas idéias extravagantes sobre Economia; mas o homem comum, quando vai a Las Vegas, também as tem. 

Papai raramente esquecia Scott Fitzgerald nessas conversas. 

Gatsby foi um grande livro. Li-o duas vezes nos últimos cinco anos. A cada leitura ele parece melhor. Tender is the Night também é um bom livro. É um pouco meio falho no meio. Mas o meu To Have and Have Not também o é. Contudo, This Side of Paradise é uma pilhéria. E The Beautiful and the Dammed é tão infernalmente sem beleza que eu não pude lê-lo até o fim! O estilo de Scott melhorou progressivamente, mas ninguém percebeu isso, nem o próprio Scott. Apesar da bebida e talvez por causa de Zelda, que de fato lhe preparou o caixão com alças e tudo, ele foi ficando cada vez melhor. O que ele escreveu já no fim foi o melhor de tudo. Pobre-diabo. 

Não era verdade que Papai não falasse bem de seus contemporâneos, especialmente os mais novos. Mas era fato que lhes fazia críticas mistas, favoráveis e desfavoráveis.  

(...) 

Certa manhã, Papai me disse: 

─ Agora, tente escrever um conto por si mesmo. E não tenha esperança de que vá valer alguma coisa. 

Sentei-me à mesa com um dos lápis de ponta fina de Papai, pensei e fiquei pensando. Olhei pela janela, escutei os pássaros lá fora e o gato miando para se chegar a eles; e ouvia o lápis de Papai arranhando o papel enquanto eu fazia garatujas. Soltei o gato. Havia outro querendo entrar. 

Fui para a máquina de escrever de Papai. Ele já acabara de trabalhar por aquele dia. Bati um conto, bem devagar, e depois o levei para ele. 

Papai pôs os óculos, preparou outro drinque e começou a ler enquanto eu esperava. Quando acabou de ler, levantou os olhos para mim. 

─ Está excelente, Gig. Muito melhor do que qualquer coisa que já tenha escrito quando era de sua idade. A única alteração que eu faria é aqui – disse ele, e apontou a linha em que eu falava do pássaro que caíra do ninho e descobria, milagrosamente, que se batesse as asas não iria despedaçar-se nas pedras lá embaixo. 

─ Você escreveu: “Eis senão quando, ele compreendeu que podia voar” Mude esse “eis senão quando” para “de repente”. Nunca empregue mais palavras do que as necessárias. Isso prejudica o fluxo da ação... – Papai sorriu. Havia muito que eu não o via sorrir daquela maneira. – Mas você acertou na loteria, companheiro velho. Escrever exige estudo, disciplina e imaginação. E se pode fazê-lo uma vez, poderá fazê-lo mil vezes. A imaginação não nos abandona durante muito tempo; às vezes, não abandona jamais. Dostoievsky tinha 57 anos quando escreveu Crime e Castigo 

(...) 

A penúltima vez que vi meu pai foi durante as festas de Natal de 1950 e ele estava realmente com ótima aparência. Seus olhos, tristonhos e bondosos desde os primeiros verões da década de quarenta, brilhavam novamente. Tinha também emagrecido, sinal certo de que não estava bebendo demais e de que estava levando seu trabalho a sério. Nessa época o rosto dele estava cheio e perdera de vez sua beleza de artista de cinema, mas na verdade Papai nunca fora vaidoso com a sua aparência física. 

A imagem dele perante o público era coisa diferente. Tirava os óculos no momento em que via uma máquina fotográfica, pois queria dar a impressão de homem forte, não de literato nem de intelectual. E muito depois, quando a morte já o rondava, queria parecer jovem e penteava os cabelos para frente, como um senador romano, a fim de esconder a calvície. Mas parecia saber que sua aparência era mais um dom, ainda que em escala inferior à de seu talento, e se recusava terminantemente a se aproveitar dela. Sempre me orgulhei de meu pai por este fato. 

Naquele Natal ele estava novamente “em forma”, não havia dúvida, e o motivo logo apareceu, saindo pela porta da frente da casa de hóspedes. Chamava-se Adriana Ivancich e era uma aristocrata italiana de dezenove anos, cuja família Mary e papai tinham conhecido em Veneza dois anos antes. Adriana era uma bela moça de olhos e cabelos pretos, maçãs salientes, um rosto magro, mas não demasiadamente anguloso, e um lindo sorriso que não denotava pretensão nem consciência exagerada de sua nobre linhagem. Não se ajustava absolutamente ao conceito que eu fazia dos italianos, baseado principalmente em contatos com imigrantes do sul da Itália. Em suma, ela merecia as homenagens básicas de Papai: ela tinha classe. 

Os Ivancich tinham dispensado a encantadora hospitalidade pela qual os italianos são tão merecidamente famosos, e os Hemingway estavam ostensivamente retribuindo na mesma moeda. Mas era mais do que isso – muito, muito mais. Papai tinha se apaixonado por Adriana. Tinha escrito Across the River sobre ela, e a aceitação do livro não fora boa; ele estava prestes a encetar a sua última viagem literária, tendo a imagem de Adriana como figura de proa de seu enleado barco de criação. 

Agora que Adriana estava na Finca, hóspede da casa, implacavelmente pajeada pela mãe, Papai ficava em êxtase pelo simples fato de tê-la perto de si. Não para tocar, não para beijar, não para fazer amor. Que pensava Adriana disso? Não sei. Nunca lhe perguntei. 

Gig, creio que vou fazer outra tentativa para ganhar o prêmio. Não quero falar por enquanto sobre o que estou escrevendo – disse ele, batendo na madeira – mas estou bem adiantado e lhe mostrarei logo que acabar. Você sabe como é, colega. – O meu plágio ainda não tinha sido descoberto. 

─ Meu Deus, como fico contente, Papai. Não posso ver nem um pedacinho? 

─ Não. Mas posso fazer-lhe um esboço. Comecei a escrever alguma coisa sobre os velhos tempos de Bimini, e há nela um pouco de vocês, garotos. Nunca escrevi nos meus livros sobre pessoa alguma da família, a não ser as mulheres – Hadley, sua mãe, e Marty. Espere um pouco e compre o livro. É muito lisonjeiro para você... – pilheriou ele.  

“O que estou escrevendo agora faz parte daquela trilogia de que lhe falei, sobre a terra, o mar e o ar. Está quase terminada a parte de Bimini e vou lhe mostrar a segunda parte logo que a termine, o que não deve demorar muito, pelo ritmo em que estou trabalhando agora. Gostaria de saber a sua reação. É diferente de qualquer coisa que já escrevi até agora. Não há amor, nem sexo; é apenas uma história simples a respeito de um velho que apanha um peixe. É um pouco mística porém, e a prosa é homérica, como se eu estivesse tentando alcançar a grandeza. Mas não estou. Tudo está saindo naturalmente. Com certeza o velho Bunny Wilson dirá que é mais uma história de peixes de Hemingway. Mas posso sempre contar com John O’Hara para dizer que é a maior coisa desde o Sermão da Montanha. 

(...) 

“Sinto-me forte e acho que nem tenho necessidade de dormir, mas Adriana é tão linda quando aparece em sonho; e, quando acordo, sinto-me mais forte do que no dia anterior e as palavras jorram de dentro de mim. Elas surgem tão depressa que não as posso acompanhar escrevendo, e não tenho vontade de parar, mas me obrigo a fazê-lo, depois de cinco horas, porque sei que devo estar ficando cansado. Quando se está cansado, as palavras podem parecer adequadas, mas no dia seguinte a gente leva um tempão para cortá-las. 

“Mas a seiva está correndo de novo. (...) 

“Perdi o título com Across the River. Não era tão ruim quanto os críticos disseram. Mas os leitores não queriam um romancista romântico a escrever sobre a velhice e a morte depois de um caso narcisista com uma mocinha. O narcisismo, você sabe o que significa: é ufanar-se da própria imagem. As mulheres fazem isso continuamente e para elas é de rigueur. Todavia, parece uma coisa ridícula e oca na meia-idade, até para as mulheres. 

(...) 

Quando Papai caiu doente no outono de 1960 em Sun Valley, ninguém soube, à exceção de Mary, do médico, naturalmente, e de alguns amigos do lugar. Ele me escreveu da Clínica Mayo dizendo que estava com hemacromatose, uma forma rara e subsequentemente fatal de diabetes. (...) 

Uma coisa é certa. Os médicos da Clínica Mayo cometeram um erro dando-lhe alta quando deram. Mary lutou como uma leoa contra a saída dele do hospital, implorando a transferência dele do doente para uma clínica intermediária para doentes mentais, o Institute for Living, em Hartford, Connecticut. Mas os médicos da Clínica Mayo, os melhores e mais brilhantes, absolutamente não concordaram. 

(...) 

Não era admissível que meu pai me contasse a verdade sobre a sua doença mental. Se fosse alguma coisa física, sim, sem dúvida. Mas mental, nunca. Ele era por demais meu pai, meu modelo, o modelo de toda uma geração; e achava que seria um fracasso perante aqueles a quem desejara e tentara tão desesperadamente ensinar, durante toda a sua vida. Ele nos decepcionaria se perdesse a razão. Disseram que era uma questão de machismo. Creio que merece uma palavra mais nobre. O seu ato de simulação foi tanto de amor quanto o foi de amor-próprio. 

Vou mencionar apenas meu penúltimo contato com o que restava dele em abril de 1961, quando cessaram as remessas de dinheiro que ele fazia para os meus estudos médicos. Havia dois meses que não chegavam os cheques para a minha manutenção, e telefonei para a Clínica Mayo. Pedi uma ligação de pessoa-para-pessoa, mas quem me atendeu foi um médico que nem deu ao trabalho de identificar-se. Nunca me esquecerei do que ele disse naquela voz despida de emoção que só os maiores médicos conseguem por fim dominar. 

─ Talvez seu pai não se lembre de ter recebido suas cartas. 

─ Que história é essa de não se lembrar de receber minhas cartas? Meu pai tem uma das melhores memórias do mundo. ─ O médico nada respondeu. 

─ Por que diz que ele não se lembra? – perguntei, quase gritando. 

─ É exatamente isto. Talvez ele não se lembre de ter recebido suas cartas. – O tom agora era quase hostil. 

─ Qual é a sua especialidade? 

─ Sou psiquiatra. 

─ Meu pai está recebendo tratamento por alguma doença mental? 

─ Desculpe. Não estou autorizado a revelar a natureza da doença de seu pai. – Pela primeira vez houve uma nota de sentimento em sua voz. – Mas vou ver o que posso fazer para que lhe seja remetido o dinheiro. 

(...) 

Tomei o avião até Sun Valley para assistir ao enterro. No pequeno avião em que fiz a última etapa da viagem, a irmã mais velha de meu pai, Marcelline, ia na poltrona ao meu lado. Não nos falamos muito, o que me teria confortado, porque Marcelline estava muito ocupada anotando os outros passageiros do avião, anotações essas que poderiam ser úteis para o seu livro sobre Ernest, prestes a sair. Ela tinha no rosto um ar sério, quase evangélico, como se achasse, afinal, que ele pudesse valer alguma coisa. 

(...) 

Chegou por fim a hora daquilo que nos tinha levado até ali. Confesso que senti um alívio profundo quando baixaram para a sepultura o corpo de meu pai. Compreendi que ele estava realmente morto, que eu não poderia mais decepcioná-lo, nem magoá-lo. 

Ele tinha escolhido o aniquilamento, semivoluntariamente, e nós estávamos dando um sepultamento semicristão, com a omissão de certos pontos das cerimônias, tal como se exige daqueles que ainda têm opção. Às vezes a loucura pode ser mais apavorante do que a morte. Papai nunca tivera medo de muita coisa, e eu lhe respeitava a decisão. 

O sacerdote estava distraído. Recebera instruções para ler um trecho do Eclesiastes, que, conforme Papai sabia, colocava os homens nos seus devidos lugares: “Uma geração vai e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre”. Mas parou antes da frase: “O sol também nasce...”  

 

Senti um amargor no texto do Gregory, mesmo quando ele fala que ama o pai, ou que ele é o seu herói. Sempre há um senão e um comentário perverso a respeito de Hemingway, como quando ele diz que “Naquele tempo havia pouca perfídia na alma de meu pai”, algo que também havia no coração do filho, com certeza. Muitas lembranças, porém também muita mágoa. Como cheguei a conhecer o jovem encantador que era Hemingway, doeu-me muito o relato de seu filho, poucos anos após a morte de Ernest. O seu relato não me emocionou nem um instante, como pensei que aconteceria ao ler o escrito de um dos filhos de Ernest. Senti, na verdade, uma emoção negativa, pois seu livro pareceu-me mais uma vingança do que o testemunho de um filho que diz amar o pai, mas parece não sentir esse amor. 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...