Havana – 1960
Toda San Francisco de Paula se achava no aeroporto, empunhando bandeirolas, para saudar Ernest. Ele era muito amado por sua pequena aldeia, cujos residentes o tratavam como a um benévolo senhor feudal. Era generoso e discreto em seus gestos de caridade e comparecia, de vez em quando, ao bar da aldeia, onde conversava com os homens que ele conhecia há mais de duas décadas.
(...)
Ernest e eu tivemos uma conversa telefônica antes de sua partida par Ketchum.
― As coisas, na finca, estão sob controle – disse-me. – Antônio e Carmen estão se divertindo muito. Ajo, como sempre, como se estivesse alegre, mas não estou.
― Por quê? Julguei que você havia dito...
― O que eu disse se refere à finca. Mas o clima, sob o regime de Castro, é algo diferente. Nada bom. Nada bom, absolutamente. Não sei dizer-lhe como será quando eu voltar, em janeiro, para trabalhar, e o que eu mais desejo é tornar a escrever. Rogo a Deus para que os Estados Unidos não cortem a cota de açúcar. Isso estragaria tudo. Faria de Cuba um presente para os russos. Você ficaria surpreso com as mudanças que aqui se verificaram. Boas e más. Muitíssimas coisas boas. Depois de Batista, quase qualquer mudança teria de constituir uma melhora. Mas os Estados Unidos estão agindo. Por toda a parte. Se isso se verificar, eu, certamente, ficarei em situação difícil.
(...)
Em janeiro, Ernest já estava de volta a Cuba, a trabalhar arduamente em sua descrição da mano a mano para a revista Life, que foi por ele intitulada The Dangerous Summer.
(...)
No dia 1.o de maio, fui despertado, logo às primeiras horas da manhã, pela telefonista internacional. Ernest acabara de ouvir, pelo rádio, que Gary Cooper fora operado da próstata num hospital de Boston, e que se dizia se tratava de algo maligno. Assegurei-lhe que, segundo o que ouvira, não se tratava de nada maligno, e que Cooper deveria fazer um filme, aquele verão, em Nápoles. Ernest fez-me várias perguntas a respeito de Cooper, muitas das quais eu não podia responder. Ele se mostrava muito perturbado; Cooper era um de seus amigos mais antigos e, embora não se vissem com muita frequência, era forte o laço de amizade que os ligava.
Ernest estava também preocupado a respeito de The Dangerous Summer. Esse trabalho já chegara a 92.453 palavras e, segundo seus cálculos, não terminaria antes das 110.000, aproximadamente. O que o preocupava é como poderia ele reduzi-lo a 40.000 palavras, para a Life. Eu o aconselhei a não pensar em fazer quaisquer cortes antes de terminá-lo de todo, mas ele me respondeu que a eliminação de 70.000 palavras lhe causava pesadelos.
Lembro-me claramente da reação que me produziu esse chamado telefônico. Pensei: pela primeira vez, desde que o conheço, Ernest está inseguro quanto a si próprio. Ele sempre fora inteiramente senhor do que escrevia, de como escrevia e de onde e quando o que escrevia devia ser publicado. Mas, aquela manhã, ao telefone, não havia aquele seu senso de controle. Talvez as notícias acerca de Cooper o tivessem abatido momentaneamente, ou, então, a preocupação a respeito de seus olhos. Na verdade, eu não tinha dúvida de que, quando The Dangerous Summer estivesse terminado, ele reassumiria de novo o comando.
Ernest terminou The Dangerous Summer a 28 de maio, e esse seu trabalho continha 108.746 palavras. Disse-me que teria de voltar à Espanha a fim de obter os elementos de que necessitava para atualizá-lo, bem como para verificar certas coisas que ninguém se arriscaria a escrever numa carta. A coisa principal que ele precisava verificar era se o costume de se afiar os cornos dos touros, que, segundo ele alegava, estava sendo praticado nos touros enfrentados por Dominguin, estava ainda em vigor. Desejava, ainda, obter algumas fotografias adicionais.
Mas seu problema imediato consistia em suprimir setenta mil palavras. Entre o dia 1.o de junho e 25 do mesmo mês, telefonou-me doze vezes, com crescente ansiedade quanto à sua incapacidade de cortar o manuscrito. Life oferecera-lhe para cortá-lo por ele, mas não confiava no critério de seus redatores. Depois de vinte e um dias, trabalhando o dia todo, desde manhã cedo, Ernest suprimira um total de duzentas e setenta e oito palavras. Ao telefonar-me, no vigésimo quinto dia, tinha a voz rouca de fadiga.
― Reli cada página uma dúzia de vezes – disse-me ele – e não consegui expungir senão quinhentas e trinta palavras. Não posso cancelar meu contrato com a Life porque eles já noticiaram a publicação do trabalho. Mas não me é possível rever o trabalho mais uma vez, Hotch; tudo me parece impenetrável e já não posso usar os olhos; não enxergo as malditas palavras... Pela manhã, consigo vê-las, mas, ali pelas dez horas, já não vejo as malditas palavras. De modo que estive pensando esta manhã (já sei que será o diabo de uma imposição!): mas será que você não poderia vir aqui trabalhar comigo? Você tem sua cabeça lúcida e seus bons olhos e, dentro de poucos dias, entregaríamos o trabalho à Life; depois, poderíamos embarcar no Pilar, descansar, apanhar alguns peixes e tudo seria como nos bons tempos.
Voei para Havana na manhã do dia 27 de junho. Ernest estava à minha espera no aeroporto, e Juan nos conduziu diretamente para a finca. Fazia muito calor e havia muita umidade no ar. Enquanto atravessávamos as ruas de havana, notei slogans antiamericanos rabiscados, em toda a parte, nas paredes – CUBA SI! YANKEE NO! – bem como bandeiras desfraldadas no alto dos edifícios. Preparava-se grande demonstração antiamericana para o dia 4 de julho, e estava programada uma gigantesca arenga, por parte de Castro, no coração da cidade.
Ernest ia sentado no banco da frente, como sempre fazia, a olhar para a frente, sem olhar para os slogans.
― Como você vê – disse ele – esse é o último verão.
Os habitantes da aldeia acenavam-lhe, enquanto passávamos por San Francisco de Paula, e ele lhes sorria e retribuía os acenos. Almoçamos, tranquila e agradavelmente, em companhia de Mary, na sala de jantar de teto alto, com seus troféus chifrudos a olhar-nos das paredes, e Ernest elogiou Mary pela sopa de frutas fria e pelo bonito que nos foram servidos. Mas ele comeu muito pouco e encheu de água seu meio copo de vinho. Fechava frequentemente os olhos, passando várias vezes os dedos sobre eles. Havia meses sua barba não era aparada; a parte da frente de sua cabeça tornara-se calva, mas ele conseguia cobrir a calvície penteando para a frente os longos cabelos da parte de trás da cabeça, o que lhe dava um ar de imperador romano.
Depois do almoço, ele me deu o manuscrito, contendo 688 páginas, de The Dangerous Summer, e eu o levei para o seu gabinete de trabalho, no topo da torre, e pus-me a lê-lo. Fazia tanto calor que eu tive de conservar meu lenço na mão, a fim de enxugar o suor em meus olhos. (Não havia ventiladores nem condicionadores de ar em parte alguma da finca.) Li e fiz anotações durante toda a tarde e a noite. À noite, parecia fazer ainda mais calor e era difícil a gente dormir.
Na tarde seguinte, apresentei a Ernest uma lista contendo oito sugestões de cortes que poderiam ser feitos nas primeiras cem páginas. Ele dirigiu-se ao seu quarto a fim de examiná-las, enquanto eu prosseguia meu trabalho na torre. O calor incessante, tremeluzente, dava-me a sensação de que eu estava a trabalhar em câmara lenta. Ocorreu-me que, apesar de minhas diversas visitas a Cuba, era aquela a primeira vez que ia no verão.
Ernest e eu conferimos os cortes na manhã seguinte, em seu quarto. Ele tinha à sua frente várias pílulas de cor diferente, que engoliu, uma por uma, com água de sifão, bem como um bloco de papel em que escrevera cuidadosamente suas razões para rejeitar cada uma das sugestões apresentadas. Passou-me a lista.
Constituía um documento surpreendente: em primeiro lugar, alguns dos seus comentários não faziam sentido; ao recusar, por exemplo, um corte de cinco páginas, Ernest expôs quatro razões porque aquelas páginas deveriam ser mantidas e, a seguir, concluía afirmando: “Tem efeito de fazer com que as coisas não aconteçam em parte alguma”; em segundo lugar, tudo aquilo soava de modo nada característico e desorganizado, mal redigido, petulante – e, em terceiro lugar, não me era possível imaginar por que razão Ernest escrevera, penosamente, tudo aquilo, à espera de que eu o lesse. Muitas vezes, no passado, tínhamos conferenciado acerca de seus manuscritos de Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores, os esboços acerca de Paris e contos, mas aquela era a primeira vez que ele se dera ao trabalho de escrever notas e, o que era mais, notas estranhamente incompreensíveis.
Eu, porém, as aceitei sem discutir e, durante os três dias seguintes, continuei a trabalhar no manuscrito, sugerindo cortes que Ernest analisava e, depois, cuidadosamente rejeitava, escrevendo anotações em seu bloco. Eu explicava minhas razões quanto a cada uma das supressões sugeridas, mas não insistia a respeito, pois que percebi que Ernest estava sendo violentamente perturbado por desejos em conflito de poupar cada uma das palavras que havia escrito, ao mesmo tempo em que desejava entregar à Life uma versão adequadamente cortada.
― O que escrevi é proustiano em seu efeito cumulativo – explicou-me Ernest – e, se eliminarmos os pormenores, destruiremos o efeito.
Nos finas de tarde, descíamos à grande, brumosa piscina, para nadar. A água era tão estimulante quanto um banho quente. Observei Ernest entrar lentamente na piscina. Parecia magro. Seu peito e ombros haviam perdido a saliência, e a parte superior de seus braços era macilenta e disforme, como se seus enormes bíceps tivessem sido aparados por um podador inábil.
Certa noite, quando fazia muito calor para que pudesse dormir, encontrei em meu quarto um velho volume que continha números de uma revista americana chamada This Quartier, publicada em Paris na década de 1920. Ao folheá-lo, deparei com Big Two-Hearted River e The Undefeated, o que era, indubitavelmente, sua primeira publicação. Encontrei também um artigo assinado pelo poeta Ernest Wash, o diretor da revista, no qual ele profetizava: “Hemingway selecionou seu auditório. Sua recompensa será grande. Mas, graças a Deus, ele jamais se sentirá satisfeito. Ele é um dos eleitos. Pertence à sua época. Tardará muito para que se desgaste. E, antes que tal ocorra, estará morto.”
No quarto dia, Ernest, finalmente, aprovou um corte de três páginas e, a partir de então, lentamente, de má vontade, penosamente, começou a aceitar certos cortes, até que, finalmente, ao fim de nove dias, já tinha um total de 54.916 palavras suprimidas. No dia seguinte, Ernest disse-me que não mais podia usar seus olhos.
― Posso ver as palavras na página, mas somente durante dez ou doze minutos – disse-me – antes que meus olhos se apaguem; depois, consigo usá-los de novo durante uma ou duas horas.
Decidimos que eu deveria levar o manuscrito para New York e entregá-lo à Life, a fim de que fossem feitos novos cortes, dentre as 53.830 palavras que agora continha.
― Vou confessar-lhe uma coisa, Hotch – prosseguiu Ernest. – Embora aja da maneira mais jovial possível, é como se eu vivesse num pesadelo à maneira de Kafka. Ajo alegremente, como sempre, mas não me sinto assim. Estou cansado até aos ossos e emocionalmente arrasado.
― Que é que o preocupa? A questão de Castro?
― Isso é uma parte da coisa. Ele não me incomoda pessoalmente. Eu constituo boa publicidade para eles, de modo que talvez não me aborreçam e permitam que eu viva como sempre, mas, acima de tudo, sou americano, e não posso permanecer aqui enquanto outros americanos estão sendo enxotados e meu país está sendo difamado. Compreendi que tudo havia terminado para mim na noite em que eles mataram Black Dog. Um grupo de homens de Batista, à procura de armas, irrompeu por aqui no meio da noite, e o pobre Black Dog, velho e meio cego, tentou manter guarda à porta da finca, mas um soldado o abateu com a coronha de seu fuzil. Pobre e velho Black Dog! Sinto falta dele. De manhã cedo, quando trabalho, ele já não está deitado sobre a pele de antílope, ao lado da máquina de escrever; e, à tarde, quando nado, ele já não está a caçar lagartixas junto da piscina; e, à noite, quando sento em minha cadeira para ler, seu focinho já não pousa mais em meu pé. Sinto tanto a faltade Black Dog como a de qualquer amigo que eu já tenha perdido. E, agora, perco a finca... Não adianta nada procurar enganar a mim mesmo: sei que tenho de abandonar tudo isto e ir-me embora. Mas de que modo se poderá calcular a perda? Tudo o que tenho está aqui. Meus quadros, meus livros, meu bom lugar de trabalho e as boas recordações.
― E você não pode fazer algo a respeito dos quadros?
― Eu me contentaria com o Miró e os dois Juan Gris.
― Talvez eu possa levá-los daqui juntamente com minha bagagem, se forem tirados das molduras e enrolados.
― Não, eu não permitiria que você corresse tal risco.
― E que tal um pedido do Museu de Arte Moderna, a fim de exibi-los? Você me disse que Alfred Barr lhe pediu várias vezes para emprestar-lhe o Miró.
― Creio que vale a pena tentar. Escreverei a ele.
― Li, ontem à noite, os novos capítulos do livro sobre Paris... São estupendos, Papá. Fizeram com que eu me sentisse como se estivesse vivendo lá e que aquele tempo era meu... e, na próxima vez que eu for a Paris, espero que as coisas sejam como você as descreve.
― Será que o pessoal do Congresso não me assará em azeite quente por eu ter sido amável para com o pobre Ezra?
― Não, isso tudo já acabou. Não creio que o Congresso saiba quem é Ezra Pound.
Ernest estava diante de um dilema, sem saber qual dos dois livros deveria ser publicado primeiro – se The Dangerous Summer, ou se o livro sobre Paris. Não tinha sequer certeza se The Dangerous Summer deveria ser publicado em forma de livro. Após longa e vacilante discussão, sugeri que refletíssemos a respeito e tornássemos a discutir o assunto quando ele fosse a New York.
(...)
Na manhã seguinte, fomos ao especialista em olhos, e a consulta demorou mais de duas horas. Ele levara consigo uma grande pasta de papel manilha, contendo relatórios, registros e resultados de exames dos oftalmologistas de Havana que o haviam examinado. Parte das duas horas foi gasta na sala de espera, enquanto ele aguardava, sentado, que as várias gotas pingadas em seus olhos fizessem efeito. Ernest estava muito impressionado com o médico que, segundo ele, era um mágico, e mais impressionado ainda com o seu equipamento que, disse ele, fazia com que os aparelhos cubanos parecessem ter sido uma herança deixada por Louis Pasteur.
À saída, a enfermeira entregou a Ernest uma receita, mas ele só se referiu aos resultados do exame quando já estávamos quase de volta ao apartamento.
― A coisa saiu bastante bem – disse, em tom casual. – Não tenho o terrível mal diagnosticado pelos médicos cubanos. Preciso apenas de óculos mais fortes.
Ernest jamais tornou a referir-se à sua doença de olhos; nem eu, tampouco, depois disso, tive a menor impressão de que tivesse novas dificuldades quanto à leitura. E, tanto quanto sei, ele jamais usou a receita que lhe prescrevia óculos de lentes mais grossas.
Aquela tarde, Mary estava fora fazendo compras, o telefone tocou e, quando o atendi, a voz pareceu-me familiar – mas, pareceu-me tão ininteligível e incoerente, que demorei alguns momentos para identificá-la. Era Jigee [Viertel]. Ela passara muito tempo afastada de nossas vidas. Ernest colocou-se na linha de extensão e tivemos uma conversa a três; Jigee tinha dificuldade em formar palavras e, não raro, não terminava suas frases. Ela telefonara de muito longe, mas mostrou-se evasiva quanto a dizer-nos exatamente onde se encontrava. Desejava saber quanto tempo Ernest e eu pretendíamos ficar em New York, pois que ela estava pensando em ir lá, já que não nos via há tanto tempo. Ernest respondeu que lamentava como o diabo não poder vê-la, mas que partiria dentro de um ou dois dias, para a Espanha.
Depois que desligamos, Ernest não conseguiu dizer coisa alguma. Eu já sabia, havia muito, das bebedeiras de Jigee, mas aquilo constituiu um choque para Ernest. Finalmente, ele disse:
― Fui eu o filho da puta que lhe deu o primeiro drink. Lembra-se daquele Scotch sour, aquele dia, no Ritz?
― Ora, Papá! Se não tivesse sido você, teria sido algum outro.
― Talvez, mas fui eu que o fiz, e seria capaz de estourar os miolos por causa disso!
― Papá, você pode ser culpado de uma porção de coisas. Mas não disso! Somos o que somos, e acaso importa quem contribuiu para isso?
― Para mim, importa! Importa-me muitíssimo!
Caminhou para a janela e ficou muito tempo a observar os pombos que andavam pelas calhas.
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