terça-feira, 16 de abril de 2024

XXIII.12. ESPANHA - 1959

 Espanha – 1959  

 

O vinho velho. Em geral, não raro sofre a influência das estações, e o verão de 1959 foi, segundo reconheceu o próprio Ernest, uma das melhores estações de sua vida. Aquela aura de puro contentamento que me parecera tão irresistível quando o encontrei pela primeira vez em Cuba, onze anos antes, e que, a partir de então, se ia embotando cada vez mais, passava, agora, por um esplêndido renascimento.  

Ernest e Mary foram para a Espanha em maio, a bordo do Constituition, e, em junho, comecei a receber boletins de Málaga, Madri, Sevilha e Arranjuez, acerca das “sábias oportunidades de perspectivas”. O que tornava sábias tais oportunidades era que o plano de Ernest de fazer o “circuito taurino” em companhia de Antônio, dera certo: Zaragoza a vinte e sete, Alicante a vinte e oito, Barcelona a vinte e nove, Burgos dia trinta, e assim por diante. Ernest informou-me que em Zaragoza iria ser o primeiro combate depois do Grande Ferimento (Antônio havia sido gravemente escorneado na nádega esquerda, em Aranjuez, em 30 de maio) e que eu deveria encontrá-lo, bem como a Bill Davis, no Hotel Suécia, em Madri, no dia vinte e seis; e descreveu o Suécia como sendo um novo hotel com ar condicionado: “uma espelunca okay, que proporcionava a máxima proteção”.  

Em seu “boletim” final, Ernest disse-me que aquele prometia ser o melhor verão de sua vida, e que eu deveria estar presente a qualquer custo. Só o que Antônio deseja, continuou Ernest, além de ser o maior matador que jamais existiu, é fazer parte de nosso grupo. Quanto a transporte, disse Ernest, ele tinha um Ford inglês cor de salmão (cor oficialmente chamada Pembrook Coral), que ele alugara em Gibraltar. 

Essa atenção quanto aos pormenores era uma das características de Ernest, nos planos que fazia em seus bons tempos. Quanto ao itinerário, era uma indicação do planejamento maluco da vida de um toureiro. Não existe, nela, nada que se assemelhe a um roteiro geograficamente sensato. O matador luta em Burgos, no extremo norte; depois, viaja a noite toda para Málaga, no extremo sul, a fim de tourear no dia seguinte; depois, torna a viajar a noite toda para Barcelona, no norte, para a corrida daquela tarde, e assim por diante, durante todos os longos meses que vão de maio a outubro, ziguezagueando imensas distâncias através da Espanha. Ninguém faz jamais qualquer objeção a tal procedimento, pois que as touradas constituem um monumento a uma tradição muito antiga e muito profunda.  

(...)  

Ernest também me explicava, em suas cartas, que, embora toda tourada envolvia certa rivalidade, quando dois grandes matadores se defrontam, essa rivalidade se tornava mortal. Isso é assim, dizia-me ele, porque quando um deles faz algo que não constitui um truque, mas algo clássico e requintadamente perigoso, constituído de perfeito domínio dos nervos, discernimento, coragem e arte, o outro se vê obrigado a igualar ou superar a atuação do rival, e que se, ao fazê-lo, seus nervos ou seu discernimento falharem por um momento, ele será gravemente ferido ou morto.  

(...) 

No dia seguinte, ao meio-dia, dois rojões explodiram no céu quente e brilhante, e a cidade entrou em erupção. Isso aconteceu diante de nossos olhos, mas nós não o vimos. Um minuto antes, a praça achava-se deserta; um minuto depois, uma massa compactada de foliões a enchia, flautas, pífanos e tambores a tocar o riau-riau, homens e meninos, vestidos todos de vermelho e de branco, os braços erguidos, a dançar e a cantar ao som da música, a abaixar e a levantar o corpo, a dar os braços uns para os outros, a rodopiar ao ritmo surdo dos tambores. Durante sete dias e sete noite, as ruas jamais estavam vazias. 

Os cafés achavam-se repletos, mas o Choko havia guardado para Ernest a mesa que ele reservara. Era fácil distinguir-se os turistas pelas roupas que usavam, tão características como as calças de brim de linho brancas, as camisas, os lenços de pescoço e as boinas vermelhas dos homens de Navarra. Os vinte e cinco mil turistas eram, em sua maioria, rapazes e moças de colégios norte-americanos, e suas vestes consistiam em calças justas e camisetas de algodão de manga curta. Quase todos os estudantes, com pouquíssimas exceções, tinham sido atraídos a Pamplona por O Sol Também se Levanta, um livro publicado havia mais de trinta anos, e, quando descobriram que seu autor lá estava em pessoa, caíram sobre o Choko em grandes ondas aduladoras, levando tudo, desde livros até camisetas de malhas, para que fossem autografados.  

(...) 

Bem a nordeste de Pamplona, acha-se o rio Irati e suas florestas, que constituem uma das partes integrais de O Sol Também se Levanta; Ernest receava estivessem completamente arruinados, mas seus receios eram infundados. 

(...) 

Um dia, depois do almoço, Ernest e eu sentamo-nos na margem pedregosa do rio, a contemplar a paisagem, que consistia de falcões a voar em círculos, em montanhas que se alteavam, e nas sete mulheres de nossa cuadrilla a fazer a sesta em vários e quentes socalcos rochosos, em níveis diferentes, na margem oposta. 

― Ninfas nas prateleiras de pedra da natureza – comentou Ernest. – Estávamos vivendo, com os diabos, momentos felizes! – ajuntou, a observar um falcão a mergulhar a prumo e desaparecer, tornando, depois, a voar para o alto, com uma pequena presa a debater-se em suas garras. – Sabe de uma coisa, Hotch? – prosseguiu, os olhos voltados para o falcão. – Isto tudo tem sido melhor do que O Sol Também se Levanta. 

Ernest estava sentado com as costas apoiadas ao tronco de uma faia, os lábios entreabertos de satisfação, seus velhos óculos sobre o colo, a acariciar um cão errante que dele se aproximara – e eu, enquanto o observava, pensava: Isto é diferente, para Ernest, de tudo o que jamais fizemos, pois que não se trata do prazer de relembrar, mas do prazer de experimentar. Este verão, não estamos tornando a visitar as encostas ventosas do Escorial para ver os vestígios de Por Quem os Sinos Dobram, ou seguindo lentamente de automóvel pela estrada que ele percorreu, certo dia, com Scott Fitzgerald, ou seguindo pelos caminhos tortuosos da Margem Esquerda, que ele costumava percorrer desde seu quarto sem aquecimento até o Jardim de Luxemburgo, a fim de evitar o cheiro tantalizante dos restaurantes. Este verão, ao contrário dos anteriores, é jovem.  

(...) 

[O] telegrama era de David Selznick, que acabara de terminar uma nova versão de Adeus às Armas com uma nova esposa, Jennifer Jones, que interpretava o papel da heroína do romance, Catherine Barkley. Ele não pagara nada a Ernest por essa nova versão, pois que, na década de 1920, o livro lhe fora vendido sem quaisquer direitos para o autor, caso fosse feita uma nova filmagem. Esse telegrama dizia que Selznick acabara de informar à imprensa mundial que, embora ele não fosse legalmente obrigado a isso, se comprometia, mediante tal declaração, a pagar a Mr. Hemingway cinquenta mil dólares dos lucros auferidos com tal filme, caso o mesmo lhe proporcionasse qualquer lucro, e na ocasião em que tal ocorresse. 

Ernest, que jamais guardara segredo de sua falta de afeto por Mr. Selznick, ditou, em resposta, um outro telegrama, dizendo que, se por algum milagre, o filme de Selznick, estrelado por Mrs. Selznick, que tinha 41 anos, e que representava o papel de Catherine Barkley, conseguisse ganhar 50.000 dólares, Selznick deveria trocar os 50.000 dólares em níqueis, em seu banco local, e enfiá-los todos em seu próprio traseiro, até que os mesmos lhe saíssem pelas orelhas. 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...