Ketchum – 1958
No outono de 1958, Ernest resolveu ir para o Far West americano, de onde se achava ausente havia mais de uma década. O lugar por ele escolhido foi Ketchum, Idaho, minúscula localidade de 746 habitantes, situada aos pés das Montanhas Sawtooth, a uma milha de distância da estação de esqui de Sun Valley.
Em outros tempos, Ernest costumava esquiar em Sun Valley, mas desistira de fazê-lo há vários anos, quando sua rótula de alumínio já não lho permitia. Agora, havia ele alugado uma casinhola mobiliada, pertencente a uma família Geiss, e pretendia percorrer as encantadoras e familiares montanhas em busca de caça. Como a caça local consistia em pombos, perdizes, faisões, patos selvagens, gansos, lebres, corças e ursos, ele sabia que haveria entretenimento de sobra para mantê-lo ocupado. Ademais, tinha amigos, em Ketchum, que conhecia havia mais de trinta anos.
(...)
Ernest viu-me subindo pelo caminho e veio ao meu encontro, saudar-me. Usava botas de couro que lhe chegavam até os joelhos, calças ao estilo Oeste, um colete de pele de cabra sobre uma camisa de tecido axadrezado de Viyella, e seu aspecto físico era excelente. No interior da casa, havia flamejantes toras de bétula numa lareira de seis pés, um canto atulhado de armas, munições, caixas de balas e sacos de caça, roupas de caça dependuradas em cabides na parede, peles de urso, cabeças de alce, uma prateleira com garrafas de vinho e montes de revistas e jornais, o cheiro de carne de caça a cozer lentamente em fogo brando, e dois gatinhos a brincar sobre o sofá. Depois de três dias de estada em qualquer lugar, Ernest fazia com que o ambiente desse a impressão de que ele lá vivia há anos.
Eu mal podia acreditar em sua metamorfose. Tornara-se teso, a frouxidão desaparecera, o sorriso voltara, seus olhos estavam claros, sua voz readquirira o timbre antigo, e seu rosto estava dez anos mais jovem. Estava animado, cheio de entusiasmo e de planos. Levou-me à garagem para que eu examinasse seus troféus de plumas; falou-me da caçada que organizara para nós; fez grandes elogios a Mary, pela maneira esplêndida com que ela estava atirando e, depois, preparando a caça por ela abatida; estava ansioso por que eu conhecesse seus amigos; conduziu-me ao seu quarto, para que eu lesse um “belo capítulo” que ele escrevera aquela manhã. Era, com efeito, um belo capítulo, uma narração poética de seus primeiros dias em Paris em companhia de Hadley. Na sua última viagem a Paris, Ernest descobrira uma velha mala sua no porão do Ritz. Continha cadernos de anotações, em que ele escrevera acerca daqueles dias de Paris na década de 1920, e ele perguntou-me o que eu achava de um livro de sketches como o que acabara de ler. Mostrei-me vivamente entusiasta. Ele me disse que também Mary o estava.
Nos dias que se seguiram, Ernest trabalhou todas as manhãs e caçou quase que todas as tardes. (...)
Ernest parecia contente quanto à rotina a que se impusera, no que se referia a comer e beber. Tomava um copo de vinho ao almoço, uma quantidade moderada ao jantar, e mantinha em uma ou duas doses o seu uísque escocês noturno. Seu almoço predileto era um copo de vinho tinto e um sanduíche de manteiga de amendoim e cebola crua. Pela primeira vez, desde que eu o conhecia, ele saía livremente para jantar em casa de outras pessoas, pois que todas elas eram pessoas amigas que o deixavam preparar suas próprias bebidas, e em cuja comida ele podia confiar. Ernest levava sempre vinho, que escolhia de seu estoque de vinhos bons, mas relativamente baratos.
― Renunciei aos vinhos caros ali pela quaresma de 1947 – explicou-me, certa vez, Ernest – e jamais tornei a tomá-los. Renunciei também ao fumo, pois que a fumaça de cigarro é a pior inimiga do nariz, e de que modo poderá a gente apreciar um bom vinho, se não puder cheirá-lo?
(...)
Em meio de todos os prazeres de Ketchum, porém, havia um acontecimento pressago a respeito do qual Ernest se achava preocupado quando lá cheguei, e continuava a pensar todos os dias. Havia em Hailey uma igreja católica, distante doze milhas, presidida por um certo Padre O’Connor, homem de persuasivo encanto. Esse sacerdote, logo após sua chegada, fizera uma visita a Ernest e, em consequência dessa visita, Ernest contribuíra com o custo de um telhado de que a igreja muito necessitava. Pareceu a Ernest, bastante razoavelmente, que cumprira suas obrigações para com a igreja quanto a dízimos, durante o ano todo, mas passado um mês, o Padre O’Connortornou a procurá-lo, com um pedido que Ernest considerava como sendo infinitamente maior do que um donativo: será que Ernest não poderia ir à paróquia e fazer uma palestra para os alunos do quarto ano ginasial, que às vezes lá se reuniam em determinado dia da semana? Ernest ficou petrificado – mais do que isso: horrorizado – e tentou resistir, mas o Padre O’Connor o induziu a ir, prometendo que Ernest não faria palestra alguma, limitando-se, apenas, a responder a perguntas.
Ernest não pensava, o dia todo, noutra coisa:
― Por que razão um homem que deu um telhado tem de fazer um discurso?
― Você não tem de fazer discurso algum, querido – lembrava-lhe Mary. – Apenas responder perguntas.
― Quando a gente se levanta diante de pessoas, isso é um discurso.
A única vez que soube que Ernest apareceu diante de um auditório e fez uma palestra ocorreu em 1937, quando falou ao Segundo Congresso de Escritores Americanos, no Carnegie Hall, quando de seu regresso da Guerra Civil espanhola. Claro que, às vezes, em navios, repórteres caíam sobre ele em massa, mas ele sabia falar-lhes asperamente e, além do mais, isso era diferente. Mas aquela era uma ocasião formal, em que devia comparecer a uma casa paroquial e estar sob a égide de um sacerdote, e Ernest preocupava-se o dia todo a respeito disso. Preocupava-se com sua garganta que, tinha certeza, estava falhando, preocupava-se por não ser capaz de exprimir-se no mesmo nível dos rapazes, e preocupava-se com o fato de que eles talvez conhecessem mais as suas obras do que ele próprio, pois que ele “não lera suas obras completas, desde que elas foram reunidas – e não pretendia fazê-lo jamais”.
Ao chegar o dia fatal, houve uma tempestade de gelo e as estradas estavam difíceis. Enquanto eu dirigia o carro pela estrada gelada e escorregadia, Ernest permanecia sentado em silêncio ao meu lado, a olhar para a frente, sem proferir palavra. Ao chegar a Hailey, passamos pelo The Snug Bar, o lugar predileto de Ernest, e eu perguntei-lhe se não gostaria de tomar um drink antes de enfrentar a música paroquial. Respondeu-me que não; que enfrentaria a coisa a sangue-frio.
Havia mais ou menos um número igual de rapazes e garotas, todos de cerca de dezesseis anos. Achavam-se sentados, eretos, em cadeiras de dobradiça, e pareciam tão pouco à vontade quanto Ernest, ao entrar na sala. O Padre O’Connor sugeriu que Ernest se sentasse e insistiu para que todos se pusessem à vontade. Decorridos poucos minutos, era evidente que Ernest e os alunos iriam se dar muito bem. Mary pedira-me que tomasse notas, pois que ela estava gripada e não pudera acompanhar-nos. Ernest examinou as notas no dia seguinte, fazendo algumas adições e correções. Eis como decorreu, em suma, a noite que Ernest passou em companhia dos ginasianos.
P: Mr. Hemingway, como foi que o senhor começou a escrever livros?
R: Eu sempre quis escrever. Trabalhei no jornal da escola, e meus primeiros empregos consistiam em escrever. Ao terminar o ginásio, fui para Kansas City trabalhar no Star. Trabalho comum de jornal: Quem atirou em quem? Quem assaltou a casa de quem? De que modo? Mas nunca por quê? Nunca, na verdade, por quê.
P: Quanto ao livro Por Quem os Sinos Dobram... Eu sei que o senhor esteve na Espanha, mas que estava fazendo lá?
R: Tinha ido cobrir a Guerra Civil espanhola para a North American Newspaper Alliance. Levei umas ambulâncias para o lado republicano.
P: Por que para o lado republicano?
R: Eu vira a república começar. Estava lá quando o rei Afonso se foi, e vi o povo redigir sua Constituição. Aquela era a última república que começara na Europa e eu acreditava que o lado republicano poderia ganhar a guerra, mas, conhecendo os espanhóis, eu acreditava que a república se libertaria, terminada a guerra, de todos os que não fossem espanhóis. Eles não querem que qualquer outro povo procure governá-los.
P: Quais os cursos regulares que o senhor fez?
R: Terminei a Oak Park High School... em Illinois. Fui para a guerra, ao invés de ir para o college. Quando voltei da guerra, já era tarde demais para ir para um college. Naquela época não havia a lei que protege os ex-pracinhas.
P: Quando o senhor começa um livro como O Velho e o Mar, como é que consegue a ideia?
R: Conheci um homem que esteve naquela situação com um peixe. Sabia o que acontecia num barco, no mar, lutando contra um peixe. De modo que apanhei um homem que já conhecia há vinte anos e o imaginei em tais circunstâncias.
P: De que modo criou seu estilo de escrever: o senhor o fez para que fosse comercial, a fim de criar uma procura pública?
R: O explicar tão claramente quanto me é possível como as coisas de fato aconteceram, era-me, não raro, muito difícil, mas posso dizer que eu escreveria canhestramente, e essa falta de jeito é o que eles passaram a chamar de “meu estilo”. Todos os erros e falta de jeito são fáceis de se notar, e chamavam a isso de estilo.
P: Quanto tempo o senhor demora para escrever um livro?
R: Isso depende do livro e de como ele se desenvolve. Um bom livro leva, talvez, ano e meio.
P: Quantas horas por dia o senhor escreve?
R: Levanto-me às seis e procuro não passar das doze.
P: Doze da noite?
R: Doze do dia.
P: O senhor já fracassou alguma vez?
R: Fracassa-se todo dia, quando a coisa não está saindo bem. Quando se começa a escrever, jamais se fracassa. A gente pensa que o que escreveu é maravilhoso, e fica satisfeito a valer. Pensa-se que é fácil escrever e a gente gosta muito da coisa, mas a gente está pensando na gente, e não no leitor. O leitor não aprecia muito o que se faz. Mais tarde, quando se aprendeu a escrever para o leitor, já não é mais fácil escrever. Com efeito, no fim, quando a gente se lembra de tudo o que escreveu, vê o quão difícil nos foi escrevê-lo.
P: Quando o senhor era jovem e começou a escrever, a crítica o atemorizava?
R: Nada havia para se temer. No começo, eu não ganhava nada com os meus escritos, e só escrevia o melhor que podia. Eu acreditava no que escrevia: se eles não gostavam, a culpa era deles. Aprenderiam a gostar mais tarde. Mas, na verdade, eu não me interessava pela crítica, nem tinha contato estreito com ela. Quando a gente começa a escrever, não é notado: eis aí a bênção de se começar.
P: O senhor nunca prevê o fracasso?
R: Se se prevê o fracasso, a gente o terá. Percebe-se, claro, o que acontecerá se fracassar, e planeja-se a retirada (a gente não seria inteligente se não o fizesse), mas jamais se prevê o malogro nas coisas que se faz. Mas não quero, agora, que pensem que jamais fracassei; contudo, se não dominarmos nossos temores, ataque algum será jamais bem sucedido.
P: O senhor esboça um livro, antes de escrevê-lo, ou faz uma porção de notas?
R: Não, eu apenas começo a escrevê-lo. A ficção consiste em inventar as coisas, com base no conhecimento que se tem. Se se tiver êxito ao inventá-las, as coisas são mais verdadeiras do que se a gente procurasse recordá-las. Uma grande mentira é mais plausível do que a verdade. As pessoas que escrevem obras de ficção, se não tivessem se dedicado a elas, talvez pudessem tornar-se mentirosos muito bem sucedidos.
P: Quantos livros o senhor já escreveu?
R: Creio que treze. Isso não é muito, mas eu demoro muito tempo para escrever um livro, e gosto também de divertir-me, enquanto o estou escrevendo. Além disso, tem havido muitas guerras, e eu fiquei muito tempo afastado da profissão de escritor.
P: Em seus romances, o senhor está escrevendo a respeito de sua própria pessoa?
R: Acaso um escritor conhece melhor qualquer outra pessoa?
P: Aquele seu livro, Adeus às Armas”, quantos anos ou meses o senhor demorou para escrever?
R: Comecei-o em Paris, no inverno, e continuei a escrevê-lo em Cuba, e em Key West, Flórida, no começo da primavera e, depois, em Piggot, Arkansas, onde se encontravam os pais de minha mulher; depois, fui para em Kansas City, onde nasceu um dos meus filhos, e terminei-o no Big Horn, Wyoming, no outono. O primeiro rascunho demorou oito meses, e outros cinco meses para reescrevê-lo. Treze meses ao todo.
P: Já ficou, alguma vez, desencorajado: já abandonou algum livro, uma vez começado?
R: Desencorajado, sim; mas não o abandonei. Não havia outro lugar para onde eu pudesse ir. Mr. Joe Louis disse-o muito bem: a gente pode correr, mas não pode esconder-se.
P: O senhor alguma vez já colocou seus personagens num lugar de onde eles não possam fugir?
R: Bem, a gente procura evitar isso, pois, do contrário, está perdido como escritor.
P: Quanto a todas essas histórias que o senhor escreve a respeito da África... Por que lhe agrada tanto a África?
R: Certos países, a gente ama; outros, a gente não suporta. Eu amo esse. Há aqui, em Idaho, lugares que se assemelham à África e à Espanha. Por isso é que tantos bascos vêm para cá.
P: O senhor lê muito?
R: Sim, o tempo todo. Depois que escrevo o meu trabalho diário, não quero continuar a pensar nele e, por isso, leio.
P: Para escrever seus livros, o senhor estuda pessoas reais?
R: Não vou para onde vou com esse propósito; vou apenas para onde minha vida me leva. Há coisas que a gente faz porque gosta de fazê-las; outras coisas, porque tem de fazê-las. Ao fazer estas últimas, a gente encontra as pessoas sobre as quais escreve.
P: Na escola, vivemos sempre a escrever ensaios e histórias. Isso não lhe parece uma coisa muito difícil de se fazer? Qual sua opinião?
R: Não me parece, de modo algum, difícil. Só se necessita de um ouvido perfeito, ardor para escrever, a dedicação de um ministro de Deus quanto ao trabalho que se está fazendo, a coragem de um ladrão arrombador, nenhuma espécie de consciência, e pronto. É fácil. Jamais pensar no que se escreveu. Muitas pessoas são compelidas a escrever. Não existe lei contra isso e o fazê-lo as torna felizes enquanto o estão fazendo e, provavelmente, as alivia. Mas o escritor compulsivo deveria ser aconselhado a não o fazer. Se ele fizer tal experiência, talvez possa sofrer o destino do arquiteto compulsivo, que constitui um fim tão solitário quanto o do tocador compulsivo de fagote.
P: De que modo aprendeu tantas línguas?
R: Vivendo nos países em que elas eram faladas. O latim que aprendi na escola me tornou fácil aprender outros idiomas, principalmente o italiano. Estive na Itália durante bastante tempo, por ocasião da Primeira Guerra Mundial, e aprendi rapidamente a língua, julgando que falava bastante bem. Mas, depois que fui ferido, passei algum tempo exercitando-me em aparelhos terapêuticos, exercitando minha perna ferida, e tornei-me amigo de um major italiano que também estava sendo submetido a aparelhos terapêuticos. Disse-lhe que achava o italiano um idioma fácil. Ele me cumprimentou por isso, dizendo-me que eu o falava muito bem. Respondi-lhe que eu mal merecia cumprimentos, já que se tratava de uma língua tão fácil.
― Nesse caso – disse-me ele – talvez você devesse estudar um pouco de gramática.
De modo que comecei a estudar gramática italiana, e deixei de falar durante vários meses. Verifiquei que o aprendizado de todas as línguas latinas se tornava mais fácil mediante a leitura de jornais – um jornal de língua inglesa pela manhã e, depois, um jornal em idioma estrangeiro à tarde. Eram as mesmas notícias e a familiaridade com elas me ajudava a compreender os jornais da tarde.
P: Quando termina um livro, o senhor o relê?
R: Sim. Hoje, reli e reescrevi quatro capítulos. A gente escreve as palavras com ardor, como numa discussão e, depois, as corrige, quando está calmo.
P: Durante quanto tempo o senhor, em geral, escreve?
R: Durante seis horas, no máximo. Depois disso, a gente está muito esfalfado, e a qualidade se vai. Quando estou escrevendo um livro, procuro fazê-lo todos os dias, exceto aos domingos. Dá muito azar trabalhar no domingo. Às vezes, eu o faço, mas o azar continua o mesmo.
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