Zaragoza – 1956
Foram precisos vários meses para que se conseguisse fazer com que Ernest deixasse Cuba, mas o que o induziu a partir foi mais uma ocorrência médica do que o brando estímulo partido de Mary e de mim. Mary recaiu numa crise de anemia e, quando o médico lhe recomendou um clima mais temperado, Ernest deu ordens imediatas de partida.
(...)
Eu estava no saguão [do Gran Hotel, em Zaragoza], quando Ernest entrou. Parecia ter readiquirido algo de seu antigo vigor nos poucos meses em que eu não o vira, embora tivesse o rosto angustiado e sulcado de rugas. Sorria e, ao caminhar em minha direção, notei que andava como antes, sem pousar os pés pesadamente no chão. Dirigimo-nos ao bar e tomamos um drink, ele contou-me a respeito de sua viagem até Paris.
― Paramos em Logroño e vimos duas corridas de touro. Antonio estava estupendo, Girón muito bom e um mexicano chamado Joselito executou, cojones, a faena mais notável, variada e corajosa que jamais vi. Tanto ele como Girón nos dedicaram os touros, colocando-se um atrás do outro, como índios. Huerta cortou ambas as orelhas, cauda e pés, numa plaza turbulenta, onde todos sabem o que é uma tourada. Antonio deseja dedicar-nos o melhor animal que encontre aqui em Zaragoza, e ele nos proporcionará, sem dúvida, um grande espetáculo. Temos andado juntos por aí, e ele é um rapaz simples, encantador. Santo Deus, como ele sabe tourear! Possui as três qualidades básicas para ser um grande matador: coragem, enorme habilidade e elegância diante da morte.
Alegrava-me sentir de novo entusiasmo em sua voz – tendo-se já dissipado o tom opaco de Key West – e vê-lo aguardar a feria seguinte com o empenho com que aguardava todas as coisas em sua vida.
― Sinto-me tremendamente alegre por tê-lo aqui... Isto promete ser uma bela feria. Antonio luta com três, Huerta e Girón dois cada um, dois novos rapazes, um deles nosso amigo, Jaime Ostos, e Litre, que, para mim, é um toureiro inferior, a despeito do que disse Kenneth Tynan, o qual, após presenciar catorze touradas, escreveu um livro intitulado Bull Fever.
Agradava-me, também, vê-lo usar o seu punho esquerdo.
Ordenou um outro Scotch e meia lima, que espremeu sobre a bebida:
― Não li quaisquer jornais ou revistas em Paris, a caminho para cá, nem, tampouco, aqui. Estou indo bem. Escrevi seis contos, quando deixei de pescar para o filme O Velho e o Mar, e desejo escrever alguns outros aqui. A estação das touradas começa a 14 de outubro, de modo que talvez possamos fazer com que eles conheçam as aguilhoadas de uns bons tiros à maneira do oeste americano. Georges já está trabalhando nas listas de palpites para as corridas de Auteuil, e eu, antes de partir, já fiz uns estudos preliminares a respeito, de modo que, se você dispuser de tempo, poderemos fazer com que a nossa velha firma funcione ali por fins de outubro.
Eu já esquecera o quanto ele desconfiava da sorte e de quão seriamente planejava não só o seu trabalho como os seus divertimentos, pois que os considerava de igual importância para o Bem-Estar. Empurrou o seu drink um pouco para mais perto de mim e falou, com ardor:
― Ouça, Hotch, minha cabeça já está quase curada, e não estragada como o diabo, como durante nossa última viagem à Espanha, quando eu me achava completamente arrasado. De modo que posso falar sensatamente a respeito de touros e de outras coisas das quais gostamos de falar.
Um empregado informou a Ernest de que o chamado telefônico que ele fizera para New York já estava feito, e ele deixou o bar, que começava a encher-se rapidamente dos primeiros participantes da feria. Enquanto ele se achava ausente, uma bela jovem, que estivera sentada a um canto do bar, a chupar uvas e a tomar Tío Pepe, acercou-se de mim e ofereceu-me uvas.
― Elas sabem melhor quando a gente as rouba – disse-me, em americano, enquanto eu experimentava uma e concordava. – Aquele senhor que estava aí era Ernest Hemingway, não?
Um rapaz alto, ossudo, que estivera debruçado sobre o balcão, a tomar rum com gelo e a olhar para si próprio no espelho, virou a cabeça para nós:
― É verdade? Hemingway? Onde?
Tinha um forte sotaque da Corn Belt. A jovem desapareceu silenciosamente, enquanto o jovem se apresentava: disse que se chamava Chuck e que estava vagabundeando pelo mundo a fim de conseguir “ambiência”.
― Ambiência para quê?
― Para escrever.
― E que foi que já escreveu?
― Nada. De que modo poderia eu conseguir ambiente?
― Há quanto tempo você está em órbita?
― Três anos.
― Você já deve ter visto quase tudo.
― Não. Somente a Europa.
― E a Rússia e a Polônia?
― Não. Isso fica na Cortina de Ferro. Vi apenas a Europa; agora, vou para o Extremo Oriente.
Ernest retornou, o ar afogueado e satisfeito:
― Falei com Toots. Má ligação, mas pusemo-nos a gritar e eu fiz as apostas. Quatrocentos dólares nos Dodgers, como vencedores do Campeonato.
― Eles não vencem nem por meio de preces – disse Chuck.
Ernest voltou-se e fitou-o, os olhos contraídos.
― Quem é este especialista em couro de cavalo?
Eu lho apresentei e expliquei-lhe sua missão.
― Resolvi, lá em Chillicothe, que iria escrever como o senhor – disse Chuck, com naturalidade – de modo que decidi dar uma olhada nos lugares sobre os quais o senhor vem escrevendo.
― Bom raciocínio – respondeu Ernest.
― Eu poderia, acaso, vê-lo mais tarde, para discutir o assunto? – indagou Chuck.
― Bem, tenho algumas pessoas à minha espera, mas por que não aparece para o jantar?
― Puxa! De verdade? O senhor está falando a sério? Quero dizer, eu não pensei seriamente em... Puxa, preciso ir correndo comprar uma camisa. Estou com esta no corpo desde Antuérpia.
E saiu apressadamente.
― Provavelmente não comeu nada sólido desde Antuérpia, tampouco – comentou Ernest.
Não importava qual a maneira como as pessoas surgiam, Ernest sempre oferecia hospitalidade e encorajamento a qualquer indivíduo jovem que se julgasse escritor. Chuck constituía um monumento ao seu catolicismo.
Uma jovem formosa e roliça, que estava sentada em meio de um grupo de mulheres envoltas em mantillas, aproximou-se e disse, solenemente, em espanhol:
― Seus livros me proporcionaram tanto prazer, que desejo beijar-lhe a boca.
Fê-lo e voltou solenemente para sua mesa.
A moça americana das uvas voltara com um livro, pedindo a Ernest que o autografasse. Enquanto ele escrevia, a garota comentou:
― Mamãe disse que eu ainda não tenho idade para ler Por Quem os Sinos Dobram.
― Qual a sua idade?
― Dezenove.
Depois que ela se afastou, Ernest me disse:
― Sabe qual o volume delicado que ela me trouxe para assinar? Uma Aventura na Martinica, um livro de adolescente dedicado ao adultério, sodomia, masturbação, estupro, lesões corporais, assassínio em massa, frigidez, alcoolismo, prostituição, impotência, anarquia, contrabando de rum, contrabando de dinheiro falso, ninfomania e abroto.
(...)
Aquela primeira noite, quando Ernest permaneceu no bar até depois da hora em que o mesmo costumava fechar, tive a esperança de que aquilo seria uma exceção. Mas não era. Ele bebia muito todas as noites, uísque ou vinho tinto, e seu estado já não era nada bom quando a gente, finalmente, o induzia a recolher-se. Não dava atenção às coisas que costumavam atraí-lo – jovens casais, garotas alegres, cafés frequentados por gente rude, pessoas ligadas às touradas, exibições de fogos de artifício, o carnaval de rua – preferindo ficar horas a fio sentado na mesma posição, em companhia de um ou mais ouvintes, sem se importar, na verdade, de que espécie de gente se tratava, a sorver seus drinks e a falar, a princípio coerentemente, mas, depois, à medida que o álcool dissolvia toda a continuidade, sua conversa se tornava enfadonha, cheia de repetições, as frases indistintas e desalinhadas.
As manhãs de Ernest, indefectivelmente brilhantes durante toda a sua vida, eram, agora, manhãs de convalescente, de chá e leitura de jornais. Ernest costumava gracejar, quando eu entrava em seu quarto:
― Estou um tanto esfalfado. Ontem à noite, lutei cinco rounds com o Demônio Rum e o fiz beijar a lona aos cinquenta e seis segundos do quinto rounds.
Suas ingestões matinais de tequila ou vodca costumavam reanimá-lo, em parte, para os seus almoços, cercado de uma porção de gente, que ele apreciava e, ao chegar a hora das touradas, já estava de novo em forma. Bem disposto ou não, ele gostava muito das corridas de touros.
― Eu disse, certa vez, a Scott – contou-me ele – que a minha ideia do céu era uma grande arena onde eu tivesse dois lugares de barrera permanentes, tendo ao lado um regato de trutas, em que eu e meus amigos pudéssemos pescar. É a ideia que ainda hoje faço do céu.
(...)
No dia em que Ostos dedicou um touro a Ernest, este se levantou em resposta ao gesto de saudação de Ostos, e toda a arena, de pé, lhe ergueu uma saudação espontânea, gritando-lhe, atroadoramente, o nome; foi um espetáculo emocionante, comovente, ver-se aqueles milhares de espanhóis, que não manifestam facilmente sua aprovação, de pé, a aplaudir um americano. [Penso que havia duas razões para essa reação: Ernest, não sendo espanhol. Escrevera sobre touradas, em Death in the Afternoon, tão bem quanto qualquer espanhol jamais o fizera – e seu romance Por Quem os Sinos Dobram, proibido pelo Generalíssimo Franco e jamais publicado na Espanha, revelava, eloquentemente, sentimentos profundos amordaçados havia muito] Infortunadamente, faltou um clímax a esse gesto altamente emocional, pois, após enfrentar o touro bastante bem, Ostos não conseguiu matá-lo; picou-o uma dúzia de vezes em volta do pescoço, até que, debilitado pela perda de sangue, o animal dobrou as pernas dianteiras.
Numa outra tarde, Antônio dedicou um outro touro a Ernest, mas, essa vez, o acontecimento foi ainda mais triste, pois que toda a faena de Antônio malogrou. Mas, nessa altura, Ernest já havia presenciado muitas vezes a brilhante atração de Antônio, para que o excluísse de sua admiração devido a uma má atuação ocasional. Na última noite de feria, ele jantou com Antônio, propondo-lhe que ele e sua esposa, Carmen, participassem de um safari em Quênia, em sua companhia e na de Mary. Antônio, um homem vivo, belo e amante de entretenimentos, assentiu incontinente. Aquela noite, depois do jantar, Ernest falou efusivamente acerca dos planos do safari, bebeu muito pouco e recolheu-se cedo.
No dia seguinte, partimos muito cedo para Madri. (...)
Em certo ponto, detivemo-nos à porteira de uma ferrovia, e ficamos a observar a passagem de um trem movido a carvão. Ernest pôs-se a rir baixinho.
― Que é que está achando engraçado, cordeirinho? – indagou Mary.
― Esse trem. Tomei esse trem com Hadley. Tínhamos estado em Zaragoza para ver o pai de Antônio, Cayetano, lutar uma mano a mano. Que belo toureiro era ele! Hadley estava apaixonada por Cayetano e queria ir a toda parte em que ele toureava. Ou em que ele não toureava. Fosse lá como fosse, gastamos o nosso último dinheiro com as passagens e voltamos neste trem para Madri, em terceira classe. Cayetano atirara uma orelha para Hadley e ela a agarrara, envolvera-a num de seus lenços e a conservara, durante todo o caminho, de encontro ao peito. O trem estava repleto de passageiros. Esprememo-nos num compartimento em que havia dois Guardias Civiles com seus fuzis a tiracolo, um rapaz que levava três garrafões de vinho, dos barris de seu pai, como amostras destinadas a um atacadista de Madri, dois membros do clero e, debaixo dos bancos de madeira, três toureiros sem passagem, que se ocultavam do chefe do trem.
“(...) Quando o guarda do trem se aproximava de nossa vinha de terceira classe, descobri que havia perdido nossos bilhetes, de modo que Hadley e eu nos metemos debaixo do banco ocupado pelos dois padres, que estenderam as batinas para ocultar-nos. Ao chegarmos a Madri, os garrafões de vinho estavam vazios e todos se achavam embriagados. Mas tínhamos ainda de enfrentar um problema final: de que modo passar pelo porteiro da estação, que, à saída, exigia os bilhetes de todos. Os dois Guardias Civiles empunharam seus fuzis e, um à frente e o outro à retaguarda, fizeram com que nós cinco passássemos pelo porteiro, fingindo que estávamos presos. Os dois clérigos vinham atrás, lendo suas Bíblias, como se estivéssemos empreendendo nossa última caminhada.
Ao ouvir tal história, pus-me a pensar em Hadley e Cayetano. Ela estava apaixonada por ele, dissera Ernest, e carregava consigo a preciosa orelha. Ernest havia identificado Cayetano como tendo sido o protótipo de Pedro Romero de O Sol Também se Levanta. Mas, quanto à paixão de Lady Brett por ele... teria sido sugerida pelo capricho de Hadley pelo flexível e romântico Cayetano? Brett, dissera-me Ernest, tinha sua origem em Lady Duff Twysden, mas os personagens de Hemingway, como ele havia demonstrado com Catherine Barkley, eram constituídos de muitas partes, e concluí que aquela parte de Lady Brett, a perseguir Romero, era tanto Hadley como Duff. Em O Sol Também se Levanta, a orelha do touro é “cortada por aclamação popular e dada a Pedro Romero, que, por sua vez, a deu a Brett, que o enrolou num lenço que lhe pertencia...”
A identificação das heroínas de Hemingway tem constituído persistente preocupação literária, e uma das mais curiosas de tais identificações gira em torno de Renata, a jovem e formosa condessa veneziana de O Outro Lado do Rio e Entre as Árvores. Ernest evitara a publicação dessa novela na Itália, pois, como se disse certa vez, “muitos dos personagens do livro ainda vivem”; mas, finalmente, em 1965, quinze anos após sua publicação nos Estados Unidos, o livro foi lançado por Mondadori, o editor de Ernest na Itália. Logo depois, um artigo estampado no semanário Epoca, também uma das publicações de Mondadori, se pronunciou ousadamente acerca de uma frase de Adriana, apresentando-a com destaque: “Eu sou a Renata de Hemingway”.
Na introdução desse artigo, escrito pelos redatores de Mandadori, fez-se intricada tentativa no sentido de provar-se a identidade de Adriana, comparando-a a trechos do livro em que se fala de Renata. Há, no próprio artigo, referência ao primeiro encontro entre Adriana e Ernest, passando, a seguir, a contar de que modo eles se avistavam todos os dias. “A princípio, senti-me um tanto enfadada por aquele homem – confessou Adriana – muitíssimo mais velho e experiente do que eu, que falava lentamente e ao qual eu nem sempre entendia. Mas senti que ele gostava de ter-me ao seu lado, quando se punha a falar e a falar”. Conta então Adriana de que modo cresceu a amizade entre ambos, mas diz que não suspeitava de que Mary estava preocupada a seu respeito, até o dia em que a própria Mary lhe disse. Contudo, após a conversa que tiveram, conta Adriana, Mary compreendeu que seu afeto jamais se converteria em amor, e que ela não só não constituía um perigo, mas que era, na realidade, uma ajuda.
― Ela apenas esperava poder – disse Adriana – restaurar o vigor de Ernest como escritor. Hemingway me disse que caíra enfermo ao escrever Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores, e que precisara deixar o livro de lado porque não conseguia mais escrever, mas que, após ter-me encontrado, sentira que uma nova energia fluía de mim para ele. – Você me devolveu a possibilidade de tornar a escrever, e eu lhe sou eternamente grato por isso. Pude terminar meu livro e dei o seu rosto à protagonista. Agora, escreverei um outro livro para você, e será meu livro mais belo. Será a respeito de um velho e o mar.
A parte curiosa acerca dessa declaração é que Adriana confessa que, ao ler a novela, havia dito a Ernest que o diálogo não lhe parecia muito interessante, e que, “quanto a Renata, uma jovem com toda aquela graça e tradição de família e, além do mais, tão jovem, não sai às ocultas de casa para encontros amorosos, nem toma um martíni após o outro, como se fossem cerejas. Não, ela era cheia de contradições. Não era real”. Diz Adriana que Ernest lhe respondeu: “Você é muito diferente para que possa compreender, mas garotas assim existem. E, o que é mais, em Renata não existe uma única mulher, mas quatro mulheres diferentes que eu realmente conheci”.
Isso pareceria negar o título e todo o tema do artigo: como uma heroína composta também de outras mulheres, Renata estaria seguindo as pegadas de suas antecessoras. Adriana termina citando uma carta que recebeu de Ernest em 1951, na qual ele lhe diz que, se conseguisse escrever bastante bem, pessoas falariam deles durante séculos, pois que haviam trabalhado bem e arduamente juntos. Conjetura Ernest que talvez tivesse sido melhor para ela jamais tê-lo encontrado aquele dia, na chuva, em Latisana, mas que ele agradecia aos céus tê-la visto antes que ela estivesse demasiado molhada. Diz-lhe, depois, que teria sido o mesmo se ele jamais tivesse escrito um livro acerca de Veneza, que as pessoas teriam percebido que eles se sentiam felizes juntos e que jamais falavam de coisas sérias. Os outros têm sempre inveja dos que são felizes, ajuntou ele. E disse-lhe para que se lembrasse de que a melhor arma contra a mentira é a verdade; que não existia arma contra a maledicência que é como a névoa, e que o claro vento a sopra para longe e que o sol a desfaz.
Quanto a mim, estou persuadido de que Adriana Ivancich é a quarta parte de Renata, precisamente como disse Ernest.
(...)
Enquanto prosseguíamos viagem, Ernest nos indicava os lugares exatos em que as batalhas da Guerra Civil se haviam desenrolado; lembrava-se do número dos soldados em ação, da natureza das armas empregadas, da estratégia posta em prática e do resultado da ação.
― Foi aqui que os fizemos recuar – dizia-nos, descrevendo a cena como se a estivesse pintando. – Neste outro ponto, fomos massacrados... Tínhamos tanques russos com lagartas de borracha, mas a dama que devia dar-nos o sinal não apareceu às sete e trinta, de modo que a aviação continuou atacando até uma e meia, quando o sol nos batia em cheio nos olhos, e fomos destruídos.
Uma perdiz alçou voo diante do carro, saindo de uma valeta à beira da estrada, e Ernest seguiu-lhe cuidadosamente o voo com o braço estendido e disparou, o braço a traçar no ar um desenho perfeito de seu voo. Ele praticava constantemente dessa maneira.
― Você o atingiu, querido? – indagou Mary.
Ernest fez um sinal afirmativo com a cabeça.
― O melhor treino que recebi quanto à caça de aves foi de meu pai. Ele costumava dar-me apenas três cartuchos para um dia inteiro de caçada, e fazia absoluta questão que se atirasse somente na asa. Ele tinha observadores espalhados por perto, de modo que jamais procurei fazer trapaça.
(...)
Certo dia, fez com que o hotel [Hotel Felipe II, localizado no alto do Escorial] nos preparasse um almoço para um piquenique, e dirigimo-nos para o alto da zona montanhosa do Escorial, que era o local em que se desenrolava a ação de Por Quem os Sinos Dobram. Ernest mostrou-me o frio riacho de montanha em que Pilar havia lavado os pés, a gruta em que o bando de Pablo vivia, a ponte, depois reconstruída, que constituía o alvo do livro. A ponte era muito mais alta, mais sólida e inexpugnável do que eu imaginara. Caminhamos por ela, e Ernest indicou-me o lugar em que os acontecimentos imaginados no livro tinham ocorrido. Numa das extremidades da ponte, havia uma casinhola de pedra que tinha sido destruída pelo fogo legalista, e que permanecia no estado de ruína em que havia sido deixada em 1933.
Fizemos o nosso piquenique à beira do riacho de Pilar, rodeados por lindos pinheirais e, depois, seguimos para a próxima e antiga cidade de Segóvia, que também figura, destacadamente, em Por Quem os Sinos Dobram. Seu traço predominante é um medonho aqueduto romano, perfeitamente reparado, que se alteia magnificamente sobre a velha cidade pavimentada de pedras. Ernest comprou quatro perdizes de um velho caçador seu conhecido, bem como bilhetes de loteria de um cego, a fim de distribuí-los entre vários empregados do Felipe II. Ernest tratava sempre com muita consideração os empregados de hotel que o serviam. Havia, no Felipe II, um rapaz de recados, que aspirava tornar-se matador, e Ernest já lhe havia comprado dois velhos touros para que ele pudesse exercitar-se.
(...)
Naqueles primeiros dias, Ernest entregou-se inteiramente aos acontecimentos. Ava Gardner veio de sua casa, em Madri, trazendo o script, feito por Peter Viertel, de O Sol Também se Levanta.
― Você precisa lê-lo – disse ela a Ernest. – Sei que você não é pago para isso, já que eles poderiam refazer o original de graça, mas, para seu próprio orgulho, você precisa lê-lo e mudar certas coisas. Todo o mundo, no script, anda de um lado para outro dizendo “C’est la guerre”, bem como outras baboseiras semelhantes.
Ava passou a noite toda em nossa companhia; bebemos impressionante quantidade de champanha, e Ava mostrou-se viva e divertida, derrotando-nos a ambos numa prova improvisada de caroços de azeitona, realizada no bar. Ernest divertiu-se a valer, afirmando que Ava “era uma das boas”.
No dia seguinte, Ernest leu o script cinematográfico e telegrafou a Peter Viertel, dizendo-lhe que viesse a Madri incontinenti. Eu jamais o vira assim tão truculento. Todos esses sinais indicavam um Ernest reanimado, mas, na manhã do quinto dia de minha permanência lá, seu novo ânimo caiu por terra. Primeiro, recebi um telegrama de uma revista pedindo-me para voltar a Viena, a fim de terminar a parte final de um trabalho que eu escrevera acerca do levante de Budapeste (o que cancelava as corridas de cavalos); depois, Antônio telegrafou dizendo que haviam surgido acontecimentos que o impediam de viajar para a África (safari cancelado). Como se tudo isso não bastasse, Polly Peabody chegou, durante a tarde, frenética, pois que Rupert, mergulhado, por espaço de nove anos, no seio dos Alcoólicos Anônimos, se havia entregue subitamente ao vino tinto, tomado uma tremenda bebedeira e desaparecido.
Essa noite, Ernest ficou muito embriagado. Mostrou-se, durante o jantar, em que foram servidas as perdizes que ele comprara em Segóvia, irritadiço, pondo-se a discutir com Mary. Não provou bocado algum de perdiz. Mary deixou a mesa logo que lhe foi possível, deixando-nos, a Ernest e a mim, na sala de jantar deserta (não era época de estação e nós éramos, aquela noite, os únicos comensais). Ernest falou infindavelmente – e nem sempre de maneira muito coerente – acerca da guerra, enquanto tomava várias garrafas de vinho. Seus planos tinham sido destruídos e ele buscava consolo no passado.
Quando, finalmente, consegui levá-lo para o quarto, ele parou carrancudo no corredor, a poucos passos da porta, diante de um abajur de parede. De repente, pôs-se numa posição de pugilista, fez alguns movimentos com a esquerda e, a seguir, com um golpe de direita, arrebentou a lâmpada, fazendo com que o abajur caísse sobre o tapete do corredor. O metal cortou-lhe os nós dos dedos, que começaram a sangrar, mas ele não deu atenção ao ferimento. Colocou a outra mão sobre o meu ombro e fitou-me fixamente.
― Hotch, tenho me embriagado mil quinhentas e quarenta e duas vezes em minha vida, mas nunca pela manhã.
Dito isso, abriu a porta de seu quarto e entrou.
(...)
Ernest adorava o Museu del Prado. Entrou como entrava em catedrais. A grande arte sempre constituíra uma força em sua vida. (Disse-me, por exemplo, que aprendera tudo o que sabia a respeito da descrição de paisagens devido ao estudo de Cézanne, Monet e Gauguin, no Museu de Luxemburgo.) O Museo del Prado continha as telas que Ernest admirava mais do que quaisquer outras.
Quando Ernest ia a um museu, não era jamais para admirar as pinturas em geral, mas apenas determinadas telas. Às vezes, ia ver somente um quadro e, depois, partia. Caminhava, às vezes, por todo um salão de Ticianos sem olhar para nenhum deles, salvo o que desejava ver: detinha-se, então, diante desse determinado quadro, absorto, fitando-o durante tanto tempo quanto o exigissem suas emoções. Certa feita, eu me achava em sua companhia, na Accademia di Belle Arti, quando ele parou, durante vinte minutos, diante da Festa em casa de Levi, de Veronese. Outra ocasião, fomos ao museu impressionista, em Paris, para ver um Cézanne. Disse-me Ernest que a ambição de sua vida sempre fora escrever tão bem como aquele quadro.
― Ainda não consegui fazê-lo – ajuntou – mas estou cada vez mais próximo disso.
Seu conhecimento, quanto aos pintores que ele respeitava e seus trabalhos, vinha-lhe de sua prodigiosa dedicação à leitura, sua visão natural da forma e da cor, sua familiaridade com a gente e os lugares pintados e, no caso de artistas como Miró, Picasso, Matisse, Braque, Gris, Masson e Monet, que tinham sido seus contemporâneos e conhecidos, de sua penetração psicologista quanto à personalidade deles todos, seus impulsos e sua filosofia de vida. Ernest procurava sempre descobrir o âmago de uma tela, que ele chamava de “a emoção pura”, a coisa real que o pintor se propusera realizar – e ele se identificava com a dificuldade da tarefa do artista, pois achava que, como escritor, ele se empenhava nessa mesma luta para conseguir a mesma emoção pura, com a diferença, porém, de que “os artistas dispõem de todas essas belas cores, enquanto que eu tenho de fazê-lo na máquina de escrever ou com meu lápis, em branco e preto”.
Aquele dia, no Museo del Prado, ele me levou para ver certas telas de Bosch, Botticelli, Velásquez, El Greco e Goya, com ênfase particular quanto ao enorme retrato, feito por Goya, da família imperial de Carlos IV. Disse-me Ernest:
― Veja como ele pintou seu escarro em todas as faces. Imagine que sua genialidade era tal que conseguiu realizar essa missão e agradar ao rei, que, fátuo como era, não conseguiu ver que Goya o retratara para que o mundo todo o visse. Goya acreditava no movimento, em seus próprios cojones, e em tudo ele jamais experimentou ou sentiu. A gente não olha para Goya, se desejar neutralidade.
À saída, Ernest perguntou-me se eu queria ver a mulher que ele amara durante mais tempo do que qualquer outra mulher em sua vida. Conduziu-me do salão principal para uma pequena sala, onde sua garota o aguardava discretamente: o Retrato de Uma Mulher, de Andrea del Sarto. Ficou um momento afastado, enquanto eu me aproximava dela: depois, colocou-se ao meu lado. Os lábios de Ernest esboçavam um sorriso, enquanto seus olhos se mostravam orgulhosos. Respirou profundamente, e um suspiro escapou-lhe do peito:
― Minha beleza!
Ficou ali transfigurado, tão perdido em seus devaneios por aquela jovem do século dezesseis, que o guarda teve de bater-lhe no braço e dizer-lhe, por duas vezes, que o museu ia fechar.
Mary e eu ficamos no bar no Palace Hotel, enquanto Ernest foi ver o Dr. Madinoveitia. Eu jamais vira Mary tão preocupada com Ernest. Ela achava que a bebida havia se tornado, para Ernest, algo que jamais havia sido antes, e ela não sabia de que modo enfrentar tal situação.
― Eu procuro contê-lo, mas, por mais tato que empregue, Papá se mostra ressentido, encarando minhas palavras como se eu o estivesse censurando e, como você sabe, ele não suporta que ninguém o policie. De modo que, na melhor das hipóteses, isso faz com que ele beba mais, e acabamos sempre por discutir, coisa que eu detesto, mas que é que posso fazer? Não dizer nada? Como pode a gente permanecer muda, quando alguém que a gente ama está-se destruindo? As coisas que costumávamos servir-lhe de arrimo - o trabalho, a leitura, os planos, o escrever e escrever cartas – estão, aos poucos, se estiolando. Ele já não tem sequer pessoas que o cerquem, que se apoiem nele e lhe tragam problemas – e, como você sabe, Papá sempre gostou disso. Agora há apenas os seus problemas, as suas dores e, dia após dia, a sua depressão.
A caminho do aeroporto, apanhamos Ernest no consultório do médico. Como sempre, ele deixou para o último momento as discussões sobre seu trabalho; indagou a respeito de dois de seus contos, The Undefeated, que eu estava adaptando para a televisão, e The Battler, que eu acabara de apresentar em meu programa da NBC intitulado Playwrights 56. Ouviu com interesse o que eu lhe disse acerca de The Battler. Trata-se de uma narrativa de dez páginas que eu convertera numa peça de uma hora de duração, e que deveria ter James Dean como ator principal, no papel patético de um ex-campeão de pugilismo em decadência. Um jovem ator relativamente desconhecido, chamado Paul Newman, fora escalado para o papel secundário de Nick Adams. Mas, cerca de uma semana antes da data em que deveriam começar os ensaios, Dean morreu num desastre em seu carro esporte, e vimo-nos forçados a preencher o seu lugar, arriscando colocar o jovem Newman no papel principal. Ele representou brilhantemente o complicado e rude papel que lhe coube, o espetáculo foi um sucesso e, no dia seguinte ao do encerramento da peça na televisão, a MGM deu a Newman o papel no filme sobre pugilismo intitulado Somebody Up There Likes Me, fazendo dele um astro.
Perguntei a Ernest se ele gostaria de ver o script de The Undefeated, quando eu tivesse terminado sua adaptação, mas ele me respondeu que não: que preferia continuar confiando em mim, enquanto eu não cometesse um erro grave.
No aeroporto, ele me acompanhou até ao balcão das passagens e, enquanto esperávamos que o funcionário nos atendesse, Ernest me disse:
― Acabo de receber notícias nada boas. Além da situação do fígado, que já era do nosso conhecimento, os testes revelaram uma veia do coração inflamada, de modo que Madinoveitia acabou com o entusiasmo que me restava; fui reprovado em todos os exames, e ele me colocou sob rigorosa dieta: apenas um copo de vinho em cada refeição e cinco onças de uísque, por dia, e nada – nada, repito – de fornicação. Acaso você diria que um tal boletim era de molde a animar um ex-gozador como eu?
O ano seguinte, 1957, foi bastante melancólico para Ernest. Em março, ele cortou as bebidas, salvo dois copos de vinho ao jantar. Mediante severa disciplina, conseguiu reduzir seu peso para duzentas libras, diminuir o colesterol, que se achava perigosamente elevado, para um nível normal, e melhorar consideravelmente sua pressão arterial.
Mas aquela não era, positivamente, a espécie de vida que ele apreciava. Além disso, seus filhos estavam tendo alguns problemas, e isso o preocupava muito. Ele estava procurando mergulhar em seu trabalho, mas isso pouca satisfação lhe causava, e já não viajava, nem mesmo se fazendo ao mar, com muita frequência, em seu barco. Mas era, aquele, um ano de convalescença que ele devia a si próprio, e que contribuiu mais para o seu bem-estar, o que percebeu na ocasião. O que o tornava particularmente difícil era o fato de que, durante toda sua vida, Ernest sempre contara com um drink para animar-se, por piores que andassem as coisas, mas, agora, uma das próprias coisas que o atormentavam era uma situação física que excluía a bebida.
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