terça-feira, 16 de abril de 2024

XXIII.9. KEY WEST 1955

 Key West – 1955  

 

Na manhã do dia 3 de julho, voei para Miami, onde apanhei o pequeno avião da tarde para Key West. Ao chegar, tomei um taxi, para que me conduzisse ao número 414 de Olivia Street, o endereço que Ernest me dera.  

Quando o taxi parou, tive a certeza de que o chofer me levara a um endereço errado. Era uma rua de casas encardidas e quase em ruínas, com cercas de tábuas corroídas junto à calçada e quintais cobertos de mato. Quando Ernest comprara sua casa, em 1930, o lugar era escassamente povoado, e as poucas residências que lá havia equivaliam, em qualidade, à sua. (Na verdade, Ernest possuía duas casas: a principal, grande, e uma pequena, mais moderna, construída junto à piscina.) Mas os anos tinham sido ingratos para a vizinhança, que se tornara numerosa e pobre, de modo que a propriedade dos Hemingway constituía um oásis em meio de toda aquela miséria. Ernest já não morava lá desde 1940, quando se divorciara de Pauline, que ficou de posse da propriedade como parte do acordo de divórcio, e ela continuou a viver lá até sua morte, ocorrida recentemente, sendo que, depois, a mesma havia passado aos filhos. Mas os filhos não quiseram morar lá; nem, tão pouco, lá apareciam para cuidar da mesma. De modo que coube a Ernest procurar mantê-la alugada para eles e tratar dos problemas que a propriedade criava. A pobre casa, no momento, estava desalugada e, além de seu desejo de afastar-se dela, Ernest tinha de atender aos problemas de manutenção e arranjar um agente imobiliário que tentasse alugá-la. 

O endereço que eu dera ao chofer de taxi era o da casa da piscina, mas, ao bater à porta revestida de uma tela de arame, ninguém apareceu. Apanhei a mala e anunciei minha presença aos gritos, mas não havia ninguém à vista. Era uma casa de dois pavimentos, sendo que o rés-do-chão consistia de uma cozinha (por onde entrei), um pequeno quarto com uma única cama, e um living room espaçoso, de teto alto, mobiliado com imaginação e gosto. Estantes apinhadas de livros iam do assoalho ao teto. O piso era de ladrilhos belamente desenhados, e a sala da frente abria-se para um terraço encantador, além do qual estava a piscina, cercada de plantas e árvores tropicais verdejantes e extravagantemente coloridas. 

Fora da casa, havia uma escada de ferro em caracol, único acesso ao andar de cima, o qual, presumi, continha o quarto de dormir do dono. Era plena tarde e fazia muito calor, mas o interior fechado do living, com seu piso de ladrilhos, seus móveis de vime e sua vista refrescante, era bastante agradável. Eu imaginara, acertadamente, que Mary e Ernest estavam fazendo a sesta, pois que, lá pelas cinco horas, ouvi passos de alguém que descia a escada em espiral e, passado um momento, Ernest, de calção de banho, entrou na sala.  

Ele engordara muito, principalmente em volta da cintura. Tinha os cabelos mais ralos e a barba branca em desalinho. Seu rosto revelava sinais brancos de pele escamada, coisa nada grave, mas uma irritação cutânea que o acometia com frequência e que fazia com que sua pele escamasse como se queimada pelo sol. Fora isso que fizera com que ele, muitos anos antes, deixasse crescer a barba, a fim de ocultar o aspecto de sua pele e eliminar a irritação do barbear. Ernest, às vezes, chamava àquela sua irritação fácil câncer da pele, mas isso era o que Ernest dizia, não os médicos. 

Parecia envelhecido. Havia em seu rosto rugas que eu não vira antes, principalmente as rugas verticais entre os olhos. Uma de suas características fora sempre caminhar nas pontas de seus pés arqueados, mas, agora, andava com os pés pousados inteiramente no chão, claudicando ligeiramente da perna direita. 

(...) 

Conduziu-me pela escada de caracol acima e mostrou-me o quarto de dormir do andar de cima, que era um aposento enorme e magnificamente decorado, e cujas janelas, amplas, davam para um belo panorama de vegetação tropical. 

Depois, tornando ao rés-do-chão, levou-me até uma porta situada ao lado do living room, a qual se abria para uma despensa que continha primeiras edições de seus livros, manuscritos originais, cartas e material inédito. Apanhou a primeira edição de The Torrents of Spring, seu primeiro romance publicado, um volume raro, e a capa, embolorada, desprendeu-se-lhe nas mãos. Dentro de uma pequena caixa de papelão, estava o manuscrito, cheio de correções, de Uma Aventura na Martinica. As páginas achavam-se duras e deterioradas, que se despedaçaram ao toque de seus dedos. A umidade, o bolor e o roer de implacáveis insetos produziram uma verdadeira devastação naquele depósito de coisas de valor inestimável. 

– Imagine só – comentou Ernest, examinando os restos esfacelados de um manuscrito de um de seus primeiros contos – se trabalhássemos para a Biblioteca do Congresso! Bem, desta ou daquela maneira, tudo se vai. A maior parte das primeiras edições foi roubada por hóspedes não convidados e por só Deus sabe quem, quando a casa foi emprestada, graciosamente, a amigos. As edições mais antigas, verdadeiramente raras, eram convenientemente pequenas para que pudessem ser enfiadas sem esforço, por um convidado, num bolso ou numa bolsa. Acrescente-se, ainda, ao que os hóspedes furtavam, tudo o que foi removido por empregadas domésticas. Publicações que atrapalhavam a limpeza da casa eram jogadas fora. Todos os manuscritos eram muito arrumados e removidos dos arquivos à prova de apodrecimento para caixas de papelão, onde forneciam materiais ideais para ninhos de camundongos e ratos, e onde eram triturados pelas baratas king size de Key West. Tal processo, aliado à umidade e ao apodrecimento, causava, não raro, o desaparecimento não só de manuscritos, como das caixas de papelão que os continham. Muitos poemas também tiveram esse destino. 

“Mas houve também aquele acidente lamentável, antes da época em que eu já publicava minhas coisas: Hadley tinha em seu poder tudo o que eu já escrevera – os manuscritos e suas cópias – numa maleta que ela estava me levando... Era época de Natal e eu estava “cobrindo” a conferência de Lausanne para o Star, de Toronto. A maleta achava-se num compartimento do trem, que se encontrava parado na estação de Lyon. Enquanto Hadley saiu para comprar uma garrafa de água de Vittel, a valise foi roubada, e nenhum dos contos, nem o rascunho de um romance que lá estava, foram jamais encontrados. A pobre Hadley sentiu-se arrasada. Eu, na verdade, senti mais por ela do que por ser roubado de tudo o que já escrevera. A única história que conseguiu salvar-se foi My Old Man, que fora enviada para uma revista por Lincoln Steffens, e que não tinha sido ainda devolvida. Depois do ocorrido, passamos a chamá-la Das Kapital – pois que se tratava de todo o meu capital literário. Eu, na verdade, jamais culpei Hadley. Ela não fora contratada para guardiã de manuscritos e, quanto ao seu papel – de esposa – ela o desempenhava maravilhosamente bem. 

(...) 

– Acho que seria agradável deixarmos a finca – disse Ernest, os olhos fixos no céu. – Eles arruinaram tudo o que me era caro, e pensei que talvez fosse agradável vir para cá, para um lugar que já amei, e mergulhar no passado, em busca de um pouco de paz e de solidão. Mas sinto-me deprimido nesta casa, pois Pauline já morreu e isto está cheio de recordações dos bons tempos, em que as crianças eram ainda pequenas e constituíam uma parte real de minha vida... dos tempos em que eu trabalhava bem aqui no quarto. 

“Foi aqui que escrevi As Neves de Kilimanjaro no quarto lá em cima, e isso é tão bom quanto eu tenho o direito de sentir. Pauline e eu tínhamos acabado de chegar da África e, quando em New York, os rapazes da imprensa indagaram qual era o meu próximo plano, eu respondi que era ganhar dinheiro suficiente para voltar à África.  Isso saiu nos jornais. Assim que uma mulher que leu a entrevista entrou em contato comigo, convidou-me para tomar um drink em sua companhia. Uma mulher de muita classe, de sociedade, extremamente rica e muito atraente. Tivemos uma boa conversa diante de uns martinis, e ela me disse que, já que eu desejava tanto voltar para a África, por que razão deveria eu adiar a viagem por causa de dinheiro, quando ela se sentiria muito feliz em ir lá comigo e com minha mulher, encarregando-se das despesas? Gostei muito dela e apreciei seu oferecimento, mas recusei-o. 

“Ao voltarmos para Key West, pensei muito nela e em sua oferta, e em como seria a coisa, se eu aceitasse uma tal oferta. Como seria a viagem, em se tratando de um sujeito como eu, cujos defeitos conheço, pois que já os sondei bem. Jamais escrevi tão diretamente a respeito de mim mesmo como nessa história. O homem está agonizante, e eu o descrevi bastante bem, da maneira mais cabal possível, pois que já sentira, mais de uma vez, o hálito da Sombria Ceifadora, e podia escrever a respeito com conhecimento de causa.  

– Mas a situação, em Kilimanjaro nada tem que se refira, especificamente, ao seu safari com Pauline? – indaguei. 

– Tem tudo e não tem nada. O que poderia interessá-lo era a Operação Desinteria Amebiana. Você, acaso, já teve amebas pouco amistosas? 

– No exército. 

– Então você sabe. Apanhei as minhas, provavelmente, no putrefato navio francês que tomamos para ir à África – uma longa viagem pelo Mar Vermelho e Oceano Índico. O assalto amebiano começou logo depois que o safari começou, mas consegui evitar a necessidade permanente de latrina durante todos os dias de caçada, com exceção de dois. Nessa ocasião, as amebas atacaram com todo o seu poderio, e realmente me puseram por terra. Estávamos acampados, nessa altura, na Planície Serengeti, e meu estado, que fora por mim negligenciado, se tornou subitamente tão sério, que tive de lutar de fato para me aguentar, até que pudéssemos receber uma resposta de Nairobi. Fui, finalmente, transportado num avião de dois lugares que foi me apanhar. Eram quatrocentas milhas até Nairobi, e seguimos por sobre a Cratera Ngorongoro até às Escarpas do Riff, com uma parada em Arusha. Foi a partir de Arusha que tivemos de subir rapidamente para evitar o súbito aparecimento dos cumes do Monte Kilimanjaro – de modo que há essa parte específica na história. Mas havia muitíssimo mais; quando terminei de escrever As Neves de Kilimanjaro, eu já havia colocado na narrativa material para quatro romances, destilado e comprimido, sem deixar nada fora, pois que estava resolvido a conquistar uma vitória. Depois disso, precisei de muito tempo para escrever uma outra história, porque sabia que jamais poderia escrever uma história tão boa como Kilimanjaro. E não creio que jamais o haja feito. 

E você escreveu outras coisas aqui? 

– Certamente... A Way You’ll Never Be, por exemplo. Eu estive a escrevê-la na década de 1920, mas fracassei várias vezes. Já tinha desistido, mas, certo dia, quinze anos depois que aquelas coisas me haviam acontecido num abrigo de trincheira nas imediações de Fornaci, a coisa, subitamente, me ocorreu, focalizada e completa. Velho como sou, continuo a surpreender-me ante o súbito aparecimento de narcisos dos prados e de história.  

(...) 

Ernest ressaltou que aquilo que é posto de lado é excluído porque o contista o ignora, e que, assim sendo, de nada vale. Só o que dá vigor a uma narrativa são as coisas que o autor sabe e omite voluntariamente. Revelou-me, a seguir, que a coisa verdadeira que havia atrás de Os Bandidos era o fato de que o sueco deveria perder a luta, mas não o fez. No ginásio, durante toda a tarde, exercitara-se para ir à lona, mas que, durante a luta real, havia, instintivamente, desferido um golpe que não pretendia dar, pondo por terra o seu adversário. Por isso é que tinham mandado os rapazes matá-lo. 

– Mr. Gene Tuney, o pugilista shakespeariano, perguntou-me, certa feita, se a história do sueco não era, na realidade, a história de Carl Anderson – prosseguiu Ernest. – Respondi que sim, e que a cidade não era Summit, New York, mas Summit, Illinois. Mas foi só o que lhe disse, pois que a multidão de Chicago que mandara os “matadores” estava, e, tanto quanto sei, ainda continua muito ativa. Os Bandidos foi outro conto que tentei várias vezes escrever, antes de poder inventá-lo corretamente, e esse conto também não se desenvolveu enquanto não consegui abordá-lo, certa tarde, em Madri, quando uma anômala tempestade de neve fez com que fossem canceladas as corridas de touros. Creio que excluí de Os Bandidos mais do que omiti em qualquer outra narrativa que jamais escrevi. Excluí toda a cidade de Chicago. 

“Mas, pensando bem, acho que o conto que “bateu” todos os outros, quanto a exclusões, foi A Clean, Well-lighted Place. Excluí quase tudo dessa narrativa. Mas você não planeja usá-la, embora eu gostasse que o fizesse. Talvez seja o meu conto predileto. Esse e The Light of the World, uma história que ninguém, exceto eu, pareceu jamais apreciar. Mas essa história possui a única coisa construtiva que aprendi acerca das mulheres: que, não importa o que lhes tenha acontecido, nem como um dia tenham agido, a gente deve deixar de lado tudo isso e lembrar-se apenas de como elas são em seu melhores dias.   

Ernest passou em revista uma lista de contos, fornecendo-me o background deles e contando-me, em detalhe, como era, na vida real, a cadela que serviu de protótipo a Margot Macomber, uma mulher cuja única virtude consistia em seu emprenho por deixar-se possuir, “se é que isso constitui uma virtude num livro da gente”; as corridas em San Siro, a pista próxima do hospital, em Milão, em que Ernest se achava internado, e que constituiu o background verdadeiro de My Old Man; e do jóquei que se tornou um verdadeiro companheiro, e a respeito do qual o conto foi escrito. Apanhou um manuscrito de As Neves de Kilimanjaro e modificou alguns nomes reais. Neste parágrafo: “Os ricos eram monótonos e bebiam demais, ou jogavam demasiado gamão. Eram enfadonhos e repetiam-se muito”, lembrou-se do pobre Julian e de seu temor respeitoso e romântico por eles, e de como, certa vez, iniciara um conto que começava assim: “Os ricos são diferentes de você e de mim”. E de que modo alguém a Julian: “Sim, eles têm mais dinheiro”. Mas isso não era humorístico para Julian. Achava que eles pertenciam a uma raça especial e sedutora e, ao descobrir que não eram, isso o arrasou tanto quanto as muitas coisas que o arrasavam. Ernest riscou o nome “Julian” e escreveu “Scott Fitzgerald”.  

― Na primeira edição, chamei “Scott” ao personagem, e só mudei quando Scott se queixou a Max Perkins. Chegou o momento de recolocá-lo. 

 

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BIBLIOGRAFIA

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