segunda-feira, 15 de abril de 2024

XXIII.8. HAVANA

 Havana – 1954-55 

 

Ernest mal havia regressado a Cuba, no verão de 1954, quando a pressão do Prêmio Nobel começou a aumentar. O que deveria ter sido um tempo tranquilo, para que ele se recuperasse de complicações físicas, se converteu, ao contrário, num dos assaltos mais concentrados dentre todos os a que já fora submetido. E jamais em sua vida esteve ele em condições menos capazes de enfrentá-lo. 

Quando havia ganho o Prêmio Pulitzer, no ano anterior, devido ao seu livro O Velho e o Mar, conseguira afastar facilmente os assaltos da publicidade. Mas agora não estava em forma para enfrentar o combate mais duro do Prêmio Nobel, e isso exigiu dele algo que jamais recuperou. 

O assalto começou em setembro, quando os jornais principiaram a especular, dizendo que Ernest ganharia o Prêmio. Ele telefonou-me, informando-me que recebera, entre muitas indagações de revistas, um pedido de Doug Kennedy, o editor de True, para que eu escrevesse um artigo acerca dos esportes a que ele se dedicara desde a infância. Respondi-lhe que o faria, se ele assim o desejasse. 

– Não – disse-me ele. – O que gostaria que você fizesse é que fosse ver Kennedy e lhe explicasse que estou trabalhando e desejaria adiar essa reportagem até uma época ulterior. Você concorda com isso? 

– Certamente. Como é que você se sente? Está melhor das costas? 

– Bem, para sua informação, e somente sua, não tenho deixado de sentir muitas dores desde que nos vimos a última vez. Minhas costas ainda doem tanto, que quando me movo demais chego a suar frio. Procuro agir discretamente e ignorar isso até o limite de minhas forças, mas acho que isso afetaria os nervos de qualquer um. Pelo menos, afeta os meus. Consigo fazer com que a cabeça e as costas me incomodem menos, tomando um drink. Mas, se eu tomasse um drink cada vez que sofro dores ou que não passo bem, jamais poderia escrever, e o escrever é a única coisa que faz com que sinta que não estou desperdiçando meu tempo, andando de um lado para outro. 

Disse-me que o assédio dos visitantes era brutal. Tinha terminado um conto e já havia escrito trinta e sete páginas de um outro, quando Bill Lowe lhe aparecera com uma proposta, para que fizessem, no outono, um filme documentário sobre a África. Isso lhe parecera uma boa ideia, até que Lowe distribuíra à imprensa uma notícia dizendo que Ernest concordara em escrever, aparecer no filme e ser co-produtor de uma película de longa-metragem. Fim do projeto do filme. Depois, logo que Lowe se fora, apareceu Ava Gardner e, mal ela partira, chegou Winston Guest e, logo a seguir, Dave Shilling, o aviador. Depois, a Força Aérea americana levou à finca várias pessoas que tinham recebido o título de Aeronautas do Mês, distinção essa que incluía uma visita aos Hemingways. Depois, apareceu Luís Miguel Dominguin, que lá se hospedou por nove dias; ao mesmo tempo, surgiu Sinsky, que permaneceu embriagado durante quatro dias. 

– Eu entro em meu quarto e, aconteça lá o que for, escrevo – disse Ernest. – Mas isso é um assassínio. Roberto, que, como você sabe, é o meu braço direito, fica doente. Está, agora, convalescendo, numa viagem no barco de Sinsky. Sinsky jamais bebe, quando está no mar. Só o faz em nossa casa. E eu sou um filho daquilo, que precisa estar a sós para escrever. 

“Isso é tão repousante e favorável à produção de literatura quanto a Hürten Forest. Mas já comecei o contra-ataque. Não atendo telefonemas de ninguém. Inclusive chamadas internacionais. Se tivéssemos um pouco de cabeça, deveríamos deixar-nos matar em Murchison Falls, na África, e voltar para cá com algum outro nome... e eu poderia continuar a escrever postumamente. Logo que puser em ordem toda a bagunça que vai por aqui, começarei a escrever-lhe cartas sensatas. Espero, porém, que eles, antes disso, não me expulsem daqui. 

A 28 de outubro, a concessão do prêmio foi oficialmente anunciada pela Academia Sueca: “Por sua vigorosa maestria na formação de estilo na arte moderna da ficção, como foi, ainda recentemente, evidenciado em O Velho e o Mar... Os primeiros trabalhos de Hemingway revelaram sinais brutais, empedernidos e céticos, que talvez possam ser considerados em desacordo com as exigências do Prêmio Nobel quanto a uma obra de tendências ideais. Mas, por outro lado, ele também possui um pathos heroico, que constituiu elemento básico de sua compreensão de vida, um amor másculo pelo perigo e a aventura, bem como uma admiração espontânea por todos os indivíduos que se entregam a uma boa luta num mundo de realidade ensombrecido pela violência e pela morte”. 

Ernest escusou-se por não comparecer às cerimônias em Estocolmo, apresentando como motivo de sua ausência os ferimentos, ainda não curados, dos desastres de avião que sofrera, mas, mesmo que ele estivesse na melhor de sua forma física, duvido que houvesse comparecido. Ernest, durante sua vida, fizera pouquíssimos aparecimentos em público, o que se pode atribuir à sua enorme timidez e à sua invencível aversão pelos trajes a rigor. 

“O uso de roupas íntimas é a coisa mais formal a que eu espero ter de chegar” – disse-me ele, certa vez. E, que eu saiba, ele jamais as usou. 

Mas enviou uma mensagem aceitando o Prêmio, que foi lida em seu nome, em Estocolmo, pelo Embaixador dos Estados Unidos, John M. Cabot: 

 

“Membros da Academia Sueca, senhoras e senhores. Não tendo facilidade para fazer discursos, nem domínio da oratória, nem quaisquer conhecimentos de retórica, desejo agradecer aos administradores da generosidade de Alfred Nobel por este prêmio. Escritor algum que conheça os grandes escritores que não receberam este prêmio poderá aceitá-lo senão com humildade. Não há necessidade de que se cite tais escritores. Todos aqui podem fazer sua própria lista, de acordo com seu conhecimento e sua consciência. Ser-me-ia impossível solicitar ao Embaixador de meu país lesse aqui um discurso em que um escritor dissesse tudo o que abriga em seu coração. Há coisas que talvez não sejam imediatamente discerníveis no que um homem escreve e, nisso, às vezes, ele é afortunado, mas, eventualmente, tornam-se elas bastante claras e, por meio delas, e por um certo grau de alquimia que tal homem possui, o autor perdurará ou será esquecido. O escrever, na melhor das hipóteses, é uma tarefa solitária. Organizações de apoio a escritores minoram a solidão do escritor, mas duvido melhorem o que ele escreve. Sua estatura, aos olhos do público, aumenta, à medida que ele se liberta de sua solidão, mas, não raro, sua obra se deteriora. Pois que ele realiza seu trabalho sozinho e, se se tratar de um bom escritor, deve enfrentar a eternidade ou, cada dia, a ausência dela. Para um verdadeiro escritor, cada livro deveria ser um novo começo, em que ele procura novamente algo inatingível. Deve procurar fazer sempre algo que jamais foi feito, ou que outros procuraram fazer e malograram. Então, às vezes, se tiver muita sorte, conseguirá fazê-lo. Quão simples não seria fazer-se literatura, se fosse apenas necessário escrever de outra maneira o que já foi bem escrito. É justamente porque tivemos escritores tão grandes no passado, que um escritor é impelido para tão longe do passado quanto lhe é possível ir, para onde ninguém poderá ajudá-lo. Sendo escritor, já falei demais. Um escritor deve escrever o que tem a dizer, e não falar. De novo, eu vos agradeço”. 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...