segunda-feira, 15 de abril de 2024

XXIII.7. MADRI - 1954

 Madri – 1954  

 

Em San Sebastián, nossa primeira parada na Espanha a caminho de Madri, Ernest procurou um certo café, cujo nome esquecera (essa foi uma das poucas vezes que vi a memória de Ernest falhar num tal pormenor; ele não conservava cadernos de anotações nem diários, mas sua memória fenomenal conservava lugares, nomes, datas, acontecimentos, cores, roupas, cheiros e quem havia ganho a corrida de bicicletas de seis dias no Hippodrome, tudo ordenadamente arquivado). 

Ernest estava ansioso por encontrar o café, pois que esse era o único meio de que dispunha para entrar em contato com o seu velho amigo Juanito Quintana, que é por ele descrito em Death in the Afternoon como sendo um dos sagazes aficionados da Espanha. Quintana tinha sido próspero empresário em Pamplona, antes da Guerra Civil, quando dirigia a arena e era dono de um hotel. Mas Franco o privara de ambas as coisas e o deixara de mãos abanando, que é uma ocupação superabarrotada na Espanha. Como velho camarada de armas, Ernest era-lhe leal e enviava-lhe um estipêndio mensal, como fazia com muitos outros de seus antigos amigos espanhóis. 

Encontramos, finalmente, Juanito, um homem baixo e sorridente, de compleição bastante sólida, muito necessitado dos serviços de um dentista. Juanito meteu rapidamente umas poucas coisas em uma maleta e seguiu conosco para o sul. 

Na cidade setentrional de Burgos, Ernest pediu a Adamo que parasse na catedral, que é uma das maiores da Espanha. 

– Sempre que se vê uma grande catedral – comentou Ernest – é porque se está numa região que produz cereais. 

Com minha ajuda, Ernest desceu dificultosamente do automóvel e subiu devagar a escadaria da catedral, juntando ambos os pés de cada vez. Tocou a pia de água e atravessou seu interior sombrio e deserto, mal se ouvindo o ruído de seus mocassins no piso de pedra. Deteve-se um momento junto de um altar lateral, a japona cinza, a barba branca e os óculos de aros de metal a dar-lhe um ar de monge. Depois, segurando-se com firmeza, ajoelhou-se num dos bancos e curvou a testa sobre as mãos espalmadas, pondo-se a rezar. Ficou assim durante vários minutos. 

Depois, ao descer os degraus da catedral, disse-me: 

Eu, às vezes, gostaria de ser um católico melhor. 

Passamos a noite num albergue próximo de Logroño, na estrada de Madri. Quando Ernest e eu entramos no bar da estalagem, que estava repleto de gente, pudemos ouvir um inglês dizer aos seus dois companheiros: 

– Como sabem, foi aqui que se desenrolou a história de Fiesta. (Era o título de O Sol Também se Levanta, quando foi publicado na Inglaterra). Não seria notável, se o velho Hemingway estivesse aqui para tomar um drink? 

Ernest dirigiu-se ao homem e indagou: 

– Que desejam tomar, gentlemen? 

Penso que ele apreciou esse momento mais do que qualquer outro da viagem, pois que se referiu a ele muitas vezes, nos anos subsequentes. 

(...) 

Ao aproximarmo-nos de Madri, Ernest mostrou o topo da montanha em que o bando de Pablo se ocultara, em Por Quem os Sinos Dobram. 

– Subimos até lá de automóvel, certo dia, em companhia de Mary – disse ele – e fizemos um piquenique junto à ponte. 

(...) 

Fomos tomar um drink na Cervejaria Alemana, na Plaza Santa Ana, ponto de reunião predileto de toureiros e empresários de touradas, sendo que muitos deles se aproximaram para cumprimentar Ernest. Tomamos cerveja e comemos deliciosos camarões e lagosta. Depois, Ernest pediu um absinto: seus olhos estavam de novo amarelados. Pôs-se a falar de Madri durante a Guerra Civil, e eu lhe perguntei até que ponto se baseavam em acontecimentos reais os episódios narrados em Por Quem os Sinos Dobram. 

– Não tanto quanto você possa imaginar. Havia a ponte que foi dinamitada, e aquilo eu vi. A explosão do trem, tal como foi descrita no livro, foi também um acontecimento real. Eu costumava esgueirar-me pelas linhas inimigas até Segóvia, onde ficava sabendo muita coisa da atividade dos fascistas, as quais eram por demais comunicadas ao nosso comando. Mas os personagens e os acontecimentos eram inventados, baseados em meu conhecimento total da situação, em meus sentimentos e minhas esperanças. Quando Pilar recorda o que aconteceu em sua aldeia quando chegaram os fascistas, isso se refere a Ronda, e os detalhes da cidade são exatos. 

“Todos os bons livros têm uma coisa em comum: são mais reais do que se tivessem realmente acontecidos – e, depois de a gente os ler, tem-se a sensação de que aquilo aconteceu – aconteceu com a gente – e, então, aquilo acontece para sempre: a felicidade e a infelicidade, o bem e o mal, o êxtase e a tristeza, a comida, o vinho, as camas, as pessoas e o tempo que fazia. Eis o que eu estava procurando dar ao leitor de Por Quem os Sinos Dobram. 

(...) 

Ambos pedimos absinto, e Ernest continuou a falar acerca da Guerra Civil: 

– O General Modesto estava apaixonado por Miss Martha e fez-lhe a corte, por três vezes, em minha presença, de modo que eu o convidei a ir ao toilette. 

– Muito bem, General – disse-lhe eu. – Vamos decidir a questão. Amarraremos lenços em torno de nossas bocas e dispararemos nossos revólveres até que um de nós caia. 

“Tiramos nossos lenços e nossas armas, mas um meu amigo entrou no banheiro e me dissuadiu da coisa, pois que o dinheiro dificilmente estava do nosso lado e não poderíamos dar-nos ao luxo de erigir um monumento, coisa que todos os generais espanhóis obtêm automaticamente. 

Ainda falando a respeito de Martha, Ernest lembrou-se da noite em que estavam ambos dormindo e em que houve um terremoto, sendo a cama lançada pelo quarto. Recordou que Martha o empurrou e disse: “Ernest, quer fazer o favor de não se mexer tanto!”. Nesse momento, disse Ernest, uma moringa de água caiu da mesa e partiu-se, ao mesmo tempo em que o teto afundava sobre ambos e ele se viu, finalmente, absolvido. 

– Martha era a mulher mais ambiciosa que jamais viveu: estava sempre empenhada em fazer, para a revista Collier’s, reportagens livres de impostos. Gostava de tudo higiênico. Seu pai era médico, de modo que ela fazia com que nossa casa se parecesse o mais possível a um hospital. Nada de cabeças de animal, por mais belas que fossem, pois que não eram higiênicas. Seus amigos de Time apareciam na finca, metidos em calças de flanela muito bem passadas, para jogar um tênis delicado, impecável. Meus companheiros, jogadores de pelota, também jogavam, mas o faziam de modo bruto. Costumavam lançar-se à piscina suados, sem tomar banho de chuveiro, pois diziam que só os efeminados tomavam banho de chuveiro. Apareciam, às vezes, com um caminhão cheio de blocos de gelo e os lançavam na piscina, para, depois, jogar polo aquático. Isso fez com que começassem os atritos entre mim e Miss Martha: os meus companheiros de pelota a humilhar os seus camaradas de Time. 

“Deus bem sabe que entendo um pouco de mulheres, e que sei que pequenas coisas lhes são mais importantes do que as que realmente importam. E que tudo não passa de uma questão de equilíbrio. Pouco sexo, e elas se sentem negligenciadas; sexo demais, e acham que não se pensa noutra coisa. Deus do céu, tem-se de viver a estudar cada mulher como se analisa os côte jaunes antes de uma corrida de cavalos! Mas não se procure encontrar uma mulher que não cause complicações. Ela começará a tornar-se enfadonha. O que torna uma mulher boa na cama, faz também com que lhe seja impossível viver só. 

(...) 

Ernest sofria ainda devido aos seus ferimentos e, embora já não se queixasse, eu podia perceber que ele experimentava grandes dores. Finalmente, foi consultar o Dr. Madinoveitia, seu velho amigo e um dos melhores médicos de Madri, o qual lhe disse: 

– Você devia ter morrido imediatamente após os acidentes de avião. Mas, já que não o fez, deveria ter morrido quando se queimou no incêndio da mata. Deveria também ter morrido em Veneza. Contudo, como está ainda vivo, não morrerá mais, se for um bom sujeito e fizer o que eu lhe recomendar. 

Submeteu Ernest a uma dieta rigorosa, reduzindo-lhe a bebida a dois drinks por dia e dois copos de vinho às refeições.  

(...) 

Ernest disse que, observando os toureiros nos matadouros, ele aprendeu realmente como se mata um touro, de modo que, ao escrever a respeito em The Undefeated, ele o fez com conhecimento de causa. E, ao mesmo tempo em que o fazia, aprendeu também a respeito das velhas, sobre as quais escreveu em Por Quem os Sinos Dobram. Depois, Ernest recordou-me da descrição, em Death in the Afternoon, de um irmão e uma irmã ciganos que vingaram a morte de um seu irmão mais velho que tinha sido escorneado por um touro que investira contra os capas Dirigiram-se, na manhã seguinte, ao matadouro, onde o touro deveria ser morto para consumo público, e tiveram permissão para matá-lo, arrancando-lhe os olhos, cuspindo neles e cortando-lhe a espinha dorsal. Feito isso, deceparam-lhe os testículos, numa fogueira feita diante do matadouro, e os comeram. Ernest disse que estava lá na manhã em que isso ocorrera. O fato aconteceu em Madri, mas Ernest o mudou para Valência. 

– Às vezes, leio acerca da velha em Por Quem os Sinos Dobram – ajuntou Ernest. – Em muitas, muitas manhãs frias, releio esse parágrafo. 

(...) 

Depois de sua visita ao médico, Ernest passou a comer moderadamente, a descansar mais e a falar em reduzir seus drinks. Costumava, invariavelmente, ir para a cama logo após a corrida da tarde e ficar lá, e ler, até nove ou dez horas, quando se vestia para jantar. Algumas vezes, não saía mesmo da cama, ordenando que seu jantar fosse servido no quarto, numa bandeja. Pôs-se de novo a conservar amostras de urina, em copos, no banheiro, e, de quando e quando, as enviava ao Dr. Madinoveitia. 

Ernest era um leitor prodigioso e seu criado-mudo, no Palace – à semelhança de seus criados-mudos em toda parte – vivia atulhado de toda espécie de publicações. Chegar-se, em sua companhia, a uma banca de revistas, constituía uma experiência única. Ele percorria cuidadosamente as prateleiras de revistas expostas e escolhia quase tudo, exceto o que ele chamava de “revistas de ajuda feminina”: Good Housekeeping, Ladies’ Home Journal, etc. Levava vinte ou mais revistas, mas, o que era ainda mais surpreendente, lia-as deveras, discutindo, depois, o seu conteúdo. Quiosques espanhóis, franceses e italianos mereciam igualmente sua atenção. Na finca, era assinante regular de Harper’s, Atlantic Monthly, Holyday, Field & Stream, Sports Afield, True, Time, Newsweek e The Southern Jesuit; duas publicações inglesas, Sport and Country e The Field; uma revista jai-alai mexicana, Cancha – bem como numerosos semanários italianos e espanhóis. Além disso, a editora Scribner’s enviava-lhe incessante suprimento de livros, em resposta às listas que Ernest lhe remetia; recebia, ademais, de outras editoras, um fluxo incessante de livros não solicitados, e as quais lhos enviavam na esperança de que ele lhes escrevesse algo que pudesse ser citado em alguma “orelha” de livro. 

Certa noite, em que Ernest se achava recostado nos travesseiros de sua cama, no Palace Hotel, mergulhado profundamente na leitura de uma revista espanhola de touradas, recebeu a visita inesperada de Luís Miguel Dominguin – na ocasião o toureiro mais famoso da Espanha. Era um homem ágil e estupendamente bem parecido, que vinha de uma família de toureiros; até mesmo sua bela irmã Carmen já se havia exibido, brilhantemente, na arena. Dominguin não lutava havia já um ano, devido a uma grave cornada no estômago, mas havia recebido, recentemente, ofertas altamente lucrativas de empresários sul-americanos, e pensava em tornar às lides taurinas. Foi ao Palace a fim de convidar Ernest para que visitasse sua garota, Ava Gardner, que se achava hospitalizada devido a um cálculo biliar sumamente doloroso. Ava aparecera em Os Bandidos que Ernest considerava como sendo a única película boa baseada em seus escritos, bem como num filme que ele chamava The Snows of Zanuck. 

Depois que Dominguin partiu, Ernest comentou: 

Santo Deus, Luís estava com um aspecto horrível, não lhe parece? Quando se acha em forma, ele é um misto de Don Juan e Hamlet, mas, agora, parece arrasado e murcho. Talvez por permanecer muito tempo ao lado da cama de Miss Ava. 

Quando fomos visitá-la, Ava achava-se rodeada por freiras do hospital. Estas arrumavam-lhe a cama, tomaram-lhe o pulso, preencheram o boletim médico e limparam-lhe o quarto. Enquanto isso, Ava falava, pelo telefone internacional, com Hollywood – e o fazia em tom sobranceiro. 

– Pouco me importa quantos scripts vocês mandem! Eu não farei – repito. NÃO farei – o papel de Ruth Etting! 

Cinco segundos de pausa, em que ela ouvia. 

– E vocês podem apanhar esse contrato e metê-lo na privada! 

Uma das irmãs puxou as cobertas e cobriu um pouco mais os ombros de Ava. 

– Não me venham com essa história de obrigação, ou vocês ouvirão... E não me interrompa; quem fez a ligação fui eu! Mas afinal, com os diabos, que é que vocês estão tentando fazer comigo? Um grande papel? Eu fico aqui a dizer coisas como um peixinho dourado e vocês a se esgarniçarem como uns malditos carregadores! 

Uma irmã afofou o travesseiro atrás das costas de Ava e sorriu-lhe. 

– Eu disse um papel dramático, por amor de Deus, e vocês me enviam Ruth Etting! Não é de estranhar que eu tenha sofrido esta crise. Eu devia mandar-lhes a conta... Oh, cale-se!  

Ava dependurou o fone, estendeu a mão para Ernest, sorriu lindamente e disse, numa voz suave, lírica: 

– Alô, Ernest! 

– Espero que as irmãs não sejam bilíngues – comentou Ernest, tomando-lhe a mão. 

– As irmãs são encantadoras – disse Ava, dando uma palmadinha numa delas e sorrindo-lhe, após o que todas retribuíram o sorriso de Ava. – E gosto tanto deste hospital, que quase não quero que esta maldita pedra seja expelida. Sente-se aqui na cama, Papá, e converse comigo. 

Feito o seu trabalho, as irmãs retiraram-se. Dominguin e eu sentamo-nos em cadeiras. 

– Você vai viver na Espanha? – indagou Ernest. 

– Sim. Claro que vou. Não passo, no fundo, de uma garota do campo. Não gosto de New York, nem de Paris. Gostaria de viver aqui para sempre. Para que preciso eu voltar? Não tenho automóvel, nem casa. Sinatra tampouco tem coisa alguma. Tudo o que jamais recebi de quaisquer de meus casamentos foi dois anos de psicanálise, pagos por Artie Shaw. 

– Para dizer-lhe a verdade, filha, os analistas me chateiam, pois que jamais encontrei algum dotado de sendo de humor. 

– Você quer dizer – indagou, incredulamente, Ava – que jamais teve um analista? 

– Claro que tenho. Uma máquina de escrever Corona, portátil número três. Vou confessar-lhe uma coisa: embora eu não seja um crente da psicanálise, passo uma porção de tempo matando animais e peixes, para que não me mate a mim mesmo. Quando um homem se encontra em rebelião contra a morte, como me encontro em rebelião contra ela, sente-se prazer em assumir um dos atributos divinos, que é o de dá-la. 

– Isso é muito profundo para mim, Papá. 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...