A Riviera – 1954
A caminho de Madri, deveríamos passar primeiro por Milão. via Pádua e Verona, para uma visita a Ingrid Bergman. Adamo dirigia hábil e orgulhosamente o automóvel, mas, para nossa crescente consternação, verificamos que ele não tinha senso algum de direção. Estávamos apenas a algumas poucas milhas de Veneza, quando ele começou a fazer voltas erradas, embora a estrada fosse claramente sinalizada e, a partir de então, durante os seis dias que durou a viagem, Ernest, que tinha excelente senso de direção e infinita paciência, teve de orientá-lo o tempo todo – coisa que sempre gostou de fazer.
(...)
Ao aproximarmo-nos de Milão, Ernest pôs-se a falar de Ingrid Bergman:
– A sueca, agora, está-se esforçando por livrar-se disso, mas no começo, quando ela se meteu com Rossellini e estava, na verdade em grande evidência, não ocorreu jamais ao signor Rossellini fazer nada mais chique e galante do que ler para a imprensa as cartas que eu escrevera a ela. Quando os famosos se tornam infames, é patético. Mas Miss Ingrid aceitou tudo o que eles podiam lançar contra ela, e isso sempre abranda a multidão irada.
– O que ela está fazendo em Milão? – indaguei.
– O que sempre fez: desempenhando o seu papel de Joana d’Arc. Poder-se-ia pensar que ela havia esgotado as suas Joanas, tendo-as representado no cinema e na Broadway, mas o signor Rossellini descobriu uma nova maneira de espremer o limão até o fim. Ele escreveu o libreto de uma versão para ópera, com música de Honniger, e apresenta-o no Scala.
– Mas Bergman canta bastante bem para poder apresentar-se no Scala?
– Claro que não, mas o Maestro Rossellini conseguiu contornar até mesmo isso: todo mundo canta, menos a sueca, cujo papel é todo falado em italiano, idioma que ela aprendeu.
(...)
Cerca das quatro e meia, depois de Adamo ter dado três voltas em torno da cidade, encontrou, finalmente, o hotel: Ingrid estava a aguardar-nos no corredor, quando saímos do elevador. Estava radiantemente bela numa blusa de seda branca de gola levantada, cujos seis botões superiores se achavam desabotoados. Caiu-lhe muito bem o corte de cabelo de Joana d’Arc. Abraçou apertadamente a Ernest, e ambos se sentiram muito felizes com o encontro. Passamos para a sala-de-estar de seu apartamento, onde todas as superfícies possíveis se achavam em chamas por rosas vermelhas de longos caules.
– Você se acha coberta de rosas, filha – disse Ernest.
– São-me enviadas por um diretor da Bolsa de Valores. Eu jamais o vi, mas ele se sentiu tão tocado por minha exibição, que me envia rosas todos os dias. Há muita riqueza nesta cidade. As casas em que tenho estado, Ernest... bem, as casas de Beverly Hills parecem cabanas, comparadas a elas. Até mesmo os cinzeiros são feitos por mestres da Renascença.
Ingrid Bergman era uma das poucas mulheres em sua vida a quem Ernest chamava “filha” e que se recusava, por sua vez, a chamá-lo de “Papá”. “Não sinto por ele sentimentos filiais” – eis como ela explicava isso. Mas Mary o chamava Papá, como Ava Gardner e Marlene Dietrich. Alguns de seus velhos camaradas, como Toots Shor, chamavam-no Ernie, mas, quando à maioria das pessoas, o nome Ernest, em forma falada, era, para ele, um anátema. Era muito áspero para com as pessoas que o chamavam Papá sem que merecessem tal intimidade.
– Onde está o Sr. Rossellini? – indagou Ernest.
– Está tirando uma soneca.
– Você vai fazer mais filmes em Hollywood?
– Não, não quero mais nada com Hollywood. Não que eu não seja grata; sou-o. Amei muita coisa de Hollywood enquanto estava lá, e sei o quanto lhes devo. Mas a vida é curta, os anos correm, e a gente deve fazer tudo aquilo que realmente deseja. O único papel que me agradou em diálogos, estava todo em Por Quem os Sinos Dobram. Gostaria, agora, de representar em outros lugares, onde ainda não estive. Leio, o tempo todo, roteiros de cinema: alguns velhos enredos modificados deste ou daquele modo.
– Eles planejam fazer de novo Adeus às Armas – disse Ernest. – Não receberei nada por isso, já que os direitos autorais foram vendidos desde o início. Pensam também em fazer O Sol Também se Levanta, que foi vendido, há muito tempo, por uma ninharia, bem como outra versão de Ter e Não Ter e, talvez, Os Matadores, pelo que não pagarão nada, de modo que minha mão se acha virtualmente paralisada, por não receber coisa alguma.
– Li acerca da versão cinematográfica de As Neves do Kilimanjaro – atalhei – e que haverá apenas uma pequena modificação: o homem vive, ao invés de morrer.
– Devemos encarar isso como uma modificação insignificante, não lhe parece? – indagou Ernest. – Agora, só precisamos que algum redator de scripts de Hollywood apanhe aquele pobre coronel do assento traseiro daquele Buick e o faça voltar a pé para Veneza e caminhar pelo meio do Grande canal (isto é um símbolo, natch), fazendo-o entrar, a pé enxuto, no Harry’s Bar. Chamarão a isso, provavelmente, Across the Selznick and into the Zanuck.
– Uma vez que compram uma coisa – atalhou Ingrid – pouco se lhe dá conspurquem ou não a coisa que compraram. Só o que lhes interessa é a bilheteria, mas não sabem o que cria isso. Compram um livro do qual milhares de exemplares foram vendidos, mas não têm fé em seu conteúdo. E a última pessoa a quem dão valor é o escritor.
– Tem razão. Mas às vezes, a gente consegue fisgá-los – disse Ernest. – Certa vez, estávamos vivendo numa cabana distante, de esquiadores, em Sun Valley. Esquiamos o dia todo e acabávamos de voltar, muito cansados, sentindo-nos maravilhosamente bem. Tiramos a roupa diante de uma bela lareira, os drinks estavam sendo preparados, quando ouvimos uma batida à porta. Era o homem que dirigia a pequena loja de artigos em geral, e que caminhara penosamente em suas botas de neve porque havia um chamado telefônico muito importante de Hollywood. Estiveram a telefonar o dia todo. De modo que pus a bebida de lado, tornei a vestir-me e meti-me em meio da nevasca. Tinha começado a nevar como o diabo.
“Uma voz de telefonista, muito excitada, disse-me que o próprio Darryl F. Zanuck, da Twentieth Century Fox, iria falar comigo. E, com a breca, ele o fez! “Alô, Ernest”, indagou. Podia-se saber logo que era de Hollywood, pois ele estava me chamando Ernest, e nós nos conhecíamos apenas porque tínhamos trocado minha história pela sua “grana”.
– Ernest, estamos numa reunião de diretores aqui em minha sala de conferência, e estivemos a debater o dia todo em meio de uma crise que somente você pode resolver. Fizemos uma fita verdadeiramente maravilhosa de sua maravilhosa história The Short Happy Life of Francis Macomber, e estamos prontos para distribuí-la, mas achamos que o título é demasiadamente longo para a média dos anúncios luminosos dos cinemas, de modo que apreciaríamos muitíssimo se você pudesse mudá-lo para algo mais curto, que atraísse a vista... Você sabe: um título cujo aspecto causasse excitação – algo que seduzisse ambos os sexos e fizesse com que as pessoas achassem que deviam ver o filme.
“Respondi a Zanuck que aguardasse um pouco ao telefone, enquanto eu pensava no caso. O dono do armazém preparou-me um drink e, de vez em quando, eu voltava ao telefone e dizia à telefonista que não cortasse a ligação, pois que eu estava empenhado em um raciocínio de emergência. Finalmente, ao sentir que meus títulos tinham sofrido uma alta de pelo menos três pontos, disse que tinha, finalmente, aviado a prescrição do médico. Zanuck respondeu que estava com o lápis pronto para escrever. – Bem, você deseja algo curto e excitante, que chame a atenção de ambos os sexos, não é? Pois aqui vai: F de Fox, U de Universal, C de Culver City e K de R.K.O. Isso cabe em todas as marquises, e a gente pode apostar que se trata de um símbolo de sexo.
Ingrid riu.
(...)
Partimos cedo na manhã seguinte, mas a sinalização de trânsito, à saída de Milão, tornou Ernest tão infeliz como a que havíamos encontrado à nossa chegada. Alguns quilômetros depois, porém, os sinais começaram a diminuir, e o jovial interesse de Ernest pela paisagem foi restaurado.
Ao passarmos por Turim, ele disse:
– Quase casei com uma jovem aqui. Enfermeira da Cruz Vermelha. Eu estava internado no hospital militar, devido à perna. Conservava ao lado da cama uma tigela cheia de fragmentos de metal extraídos de minha perna, e as pessoas vinham e os levavam consigo, como amuletos. Havia aqui um bom hipódromo, e eu recebia informações confidenciais de um jóquei e de certo Sr. Siegel, de Chicago, que vivia permanentemente sem dinheiro. Eu ia às corridas como paciente que tinha direito a sair, mas deixava-as sempre ali pelo quinto páreo.
– É verdade que retiraram duzentos fragmentos de aço de sua perna?
– Duzentos e vinte e sete. Perna direita. Conta exata. Fui atingido por uma Minenwerfer lançada por um morteiro austríaco de trincheira. Eles enchiam essas tais Minenwerfer com as mais incríveis bugigangas – porcas de parafusos, pinos, parafusos, pregos, pedaços de metal – e, quando elas explodiam, apanhavam tudo o que estava na frente. Três italianos que estavam comigo tiveram suas pernas arrancadas. Eu tive sorte. A rótula desprendeu-se-me pela canela, e a perna recebeu todo aquele metal, mas a rótula foi de novo colocada no lugar. Disseram-me que fui atingido, depois, por disparos de metralhadora, e então a rótula se desprendeu, mas acho que foi a Minenwerfer que fez todo o trabalho.
– Como pode você, em tais condições, carregar nas costas um italiano, até a trincheira?
– Cristo, eu não sei, Hotch. Quando penso naquela perna... duvido que eu o tenha feito. Mas a gente fica em estado de choque e, tudo o que dizem à gente, a gente julga que se lembra. A grande luta consistiu em lutar para que não me amputassem a perna. Eles me concederam Croce al Merito di Guerra, e a Medaglia d’Argento al Valore Militare... Eu as joguei na tigela, com os outros pedaços de metal.
– A moça de Turim, com quem você quase casou, entrou em Adeus às Armas?
– Certamente. Tudo o que me aconteceu na Itália entrou no livro desta ou daquela maneira. A jovem de Turim era Catherine Barkley – e, assim, muitos outros. Inventa-se ficção, mas o que se inventa é tirado do que realmente conta. A verdadeira ficção deve provir de tudo o que a gente já conheceu, viu, sentiu ou aprendeu. Aquilo que o Tenente Henry sentiu, quando Catherine Barkley soltou os cabelos e meteu-se em seu leito de hospital, foi inventado tendo por modelo aquela moça de Turim – inventado, não copiado. A verdadeira jovem de Turim era uma enfermeira da Cruz Vermelha. Era bela e tivemos um maravilhoso caso amoroso enquanto estive hospitalizado durante o verão e o outono de 1918. Mas ela nunca sofreu uma cesariana, nem esteve grávida. O que aconteceu entre mim e a enfermeira da Cruz Vermelha, assemelha-se muito ao que escrevi em Uma História Muito Curta. Quem, realmente, se submeteu a uma cesariana, foi Pauline. Aconteceu enquanto eu estava escrevendo Adeus às Armas em Kansas City. De modo que essa é a parte de Catherine; e Hadley é também parte de Catherine. Mas a enfermeira da Cruz Vermelha é quase toda Catherine, mais algumas coisas que não pertenciam a mulher alguma que jamais conheci.
Essa era uma revelação curiosa e excitante – expondo nu, como fazia, o processo que Ernest empregava para romantizar sua heroína, filtrando o não romântico, como o petróleo é refinado do lodo. O romance com a enfermeira da Cruz Vermelha terminara sordidamente, e, como Ernest dizia, Uma História Muito Curta era a sua crônica. Nessa narrativa, que tem exatamente duas páginas, mas que consegue resumir a essência do que iria ser Adeus às Armas, o jovem americano retorna aos Estados Unidos após sua convalescença, tendo trocado juras com Luz (a enfermeira) de que a trará brevemente para cá, onde contrairão matrimônio. Luz, todavia, mete-se num caso amoroso com um major italiano e escreve ao americano que jamais conhecera antes um italiano, de modo que ele devia perdoá-la, pois que era óbvio que o que tinha havido entre ambos não passara de uma aventura entre um rapaz e uma jovem – e que ela iria casar com o major na primavera. Ernest termina a história assim: “O major não casou com ela na primavera, nem em qualquer ocasião. Luz jamais recebeu uma resposta à carta que mandara para Chicago a respeito. Pouco tempo depois, ele contraíra gonorreia de uma caixeira de um departamento da loja Loop, enquanto viajavam num taxi através de Lincoln Park”.
Foi o lodo realista de sus relações com a enfermeira da Cruz Vermelha que ele refinou e transformou na concepção romântica de Catherine. Após o caso amoroso entre ambos, no hospital, a enfermeira foi substituída pelo tempo romântico que ele passou em companhia de Hadley durante suas viagens à Suíça, e foi Hadley, então, quem se converteu em Catherine, para dar logo lugar a Pauline, que forneceu a cesariana que levou a um fim dramático a vida de Catherine.
(...)
– Você voltou à Itália durante a Segunda Guerra Mundial?
– Não. Voltei somente à Inglaterra e à França.
(...)
... Eu vivia bem e gastava muito do meu próprio dinheiro para obter as informações que usava em minhas reportagens, mas achei que devia cobrar apenas um terço do que verdadeiramente gastava. Acharam esse um terço exorbitante e não me pagaram nada. Eis, aí, pois, o que ocorreu com a nossa alma mater de durante a guerra. Bem, finda a guerra, houve grande mudança entre o pessoal que dirigia a revista, de modo que, ao tempo em que Collier’s construiu o seu novo edifício na Quinta Avenida, o redator-chefe, com quem eu tivera minhas encrencas, já tinha ido embora. O novo redator-chefe de Collier’s chegou-se a mim e disse-me que eles estavam solicitando a uma lista “das pessoas vivas mais importantes do mundo” que contribuíssem com mensagens que seriam enterradas numa cápsula. Na pedra inaugural de seu novo edifício. Essa cápsula possui um ejetor atômico que, automaticamente, lançará no ar essas mensagens por volta de 1975, quando haverá uma grande cerimônia e todas as mensagens serão lidas. De modo que lhes escrevi uma mensagem. Disse esperar que Mary e meus três filhos estivessem todos bem, que meus amigos tivessem prosperado e que o mundo se encontrasse em paz. Disse, também, esperava que, nessa altura, o sujeito que tinha sido meu redator-chefe – e que eu citava pelo nome – já tivesse se enforcado a fim de evitar complicações aos outros. Espero estar presente em 1975, quando eles a lerem.
(...)
– Você acha que escreverá outro livro acerca da última guerra... com aquele background?
– Não, não creio. Do Outro Lado do Rio é o meu livro. Só escrevo uma vez sobre cada tema; se não escrevo tudo na ocasião, então é porque não existe nada que valha a pena dizer-se. Você se lembra daquele velho sujeito grego, Heráclito? “Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio, pois que novas águas estão sempre a fluir”. Jamais começo tendo algum enredo em mente, e jamais me dispus ainda a sentar-me para escrever um romance: é sempre uma narrativa breve que acaba por converter-se em romance. Sempre procuro provar que ele não poderia ser escrito mais curto. A única exigência para ser um escritor bem sucedido é ter-se talento – e permanecer saudável.
– E, também, escrever todos os dias, ou quase todos os dias, não lhe parece?
– Sim. É por isso que gosto de começar a escrever de manhã bem cedo, antes que as pessoas e os acontecimentos me distraiam de meu trabalho. Tenho visto sempre, em minha vida, o nascer do sol. Levanto-me à primeira claridade – as guerras arruinaram-me o sono e, também, minhas tênues pálpebras – e eu começo por reler e corrigi o que escrevi, desde o ponto em que parei. Dessa maneira, repasso centenas de vezes o livro que estou escrevendo. Depois, prossigo, sem ir sequer urinar, amarrotando papéis, a andar de um lado para outro, pois sempre me detenho num ponto em que sei precisamente o que irá acontecer a seguir. Assim, não tenho de dar voltas à manivela todos os dias. A maioria dos escritores negligencia a parte mais árdua, mas mais importante, de seu trabalho: rever o que escrevem, polir e polir o seu trabalho, até que este fique como a lâmina do estoque de um toureiro, a espada que mata. Certa vez, meu filho Patrick trouxe-me uma história e pediu-me que eu a corrigisse. Li-a cuidadosamente e mudei apenas uma palavra. “Mas papai – disse-me Mousy – você mudou apenas uma palavra!”. E eu lhe respondi: “Se for a palavra exata, isso já é muito”.
“Gosto de escrever de pé, para reduzir a velha barriga e porque a gente tem mais vitalidade quando está de pé. Quem alguma vez já aguentou dez rounds apoiado em suas nádegas? Escrevo as descrições à mão, pois que essa é a parte que me é mais difícil, e a gente fica mais perto do papel quando escreve à mão, mas uso, para os diálogos, a máquina de escrever, pois as pessoas falam do mesmo modo que uma máquina de escrever funciona.
“Mas tenho tido, ao escrever, meus problemas; não pense que não. Quando pedi Mary em casamento, eu tinha um grande buraco em minha cabeça, por ter arrebentado o meu carro de encontro à torre de uma caixa d’água durante um blackout, em Londres, e não sabia se poderia tornar a escrever, ou fazer qualquer outra coisa. Eu tentara escrever, mas em vão. Mary renunciou à sua carreira de correspondente do Time de Londres e, decorridos dois meses e meio, as coisas começaram a voltar ao seu lugar. Exceto escrever. Tentei durante um ano – mas a coisa não ia. O momento decisivo ocorreu em Sun Valley, onde estávamos no rastro de um gamo esquivo para Miss Mary e, durante oito dias, abríamos caminho em meio à neve profunda, desde o raiar do dia até o anoitecer. No oitavo dia, Mary o abateu e, no dia seguinte, comecei a escrever.
“Há apenas dois absolutos que sei acerca de escrever: um é que, se a gente fizer amor enquanto está mourejando num romance, corre o risco de deixar a melhor parte dele na cama; o outro, é que a integridade num escritor é como a virgindade numa mulher: uma vez perdida, jamais é recuperada. Indagam-me sempre a respeito do meu “credo” – santo Deus, que palavra!... Bem, o meu credo consiste em escrever o melhor que posso a respeito de coisas que sei e que sinto profundamente.
– Papá, você, às vezes, fala na possibilidade de escrever um livro que se passe num local americano...
– Sempre desejei fazer isso, mas tive de esperar até depois da morte da minha mãe. Você compreende? Agora, não sei. Meu pai morreu em 1928 – suicidou-se com um tiro – e deixou-me cinquenta mil dólares. Há um parágrafo em Por Quem os Sinos Dobram... bem... precisei de vinte anos para encarar o seu suicídio, escrever sobre esse acontecimento e fazê-lo passar por uma catarse. O que mais me preocupou foi o fato de eu ter-lhe escrito uma carta que estava sobre sua mesa no dia em que ele se matou, e eu penso que, se ele tivesse aberto aquela carta e lido o que lhe escrevi, não teria puxado o gatilho. Quando perguntei à minha mãe a respeito de minha herança, ela me respondeu que já a havia gasto comigo. Perguntei-lhe de que modo ela o teria feito. Respondeu-me que com minha viagem e educação. Que educação? – indaguei. Oak Park High School? Minha única viagem, disse-lhe eu, tinha sido a expensas do Exército italiano. Ela não me respondeu, mas, em lugar disso, me levou para ver a nova e dispendiosa ala que ela fizera construir na casa para suas reuniões musicais. Claro, ali é que foram os meus cinquenta mil. Minha mãe era maluca por música, uma cantora frustrada, e realizava todas as semanas concertos musicais em meu salão de cinquenta mil dólares. Quando eu estava na escola, ela obrigou-me a tocar violoncelo, embora eu não tivesse talento algum para isso e não conseguisse sequer afinar o instrumento. Ela me tirou da escola durante um ano inteiro, a fim de que eu pudesse dedicar-me exclusivamente ao violoncelo. Eu gostaria de estar jogando rúgbi ao ar livre, mas ela me mantinha acorrentado àquele salão de música. Mesmo antes do período de seu salão de música, ela vivia constantemente à procura de personalidades musicais, tentando atraí-los para suas soirées. Numa dessas ocasiões, vi-me embalado nos joelhos de Mary Garden. Como eu era grande demais para minha idade, era difícil saber-se quem deveria embalar quem, mas ela contava oitenta e cinco anos e levou a melhor.
“Bem, quanto àquele salão de música de cinquenta mil dólares, tirei uma pequena vantagem de minha herança, colocando no meio dele um saco de areia para treinar boxe, e lá me exercitava todas as tardes, até que deixei Oak Park. Essa vez, ao partir, foi para sempre. Muitos anos mais tarde, pela época do Natal, recebi um pacote de minha mãe. Continha o revólver com o qual meu pais se suicidara. Havia um cartão, no qual ela dizia que talvez eu gostasse de possuí-lo; eu não sabia se era um presságio ou uma profecia.
(...)
Saiu do elevador com cuidado, não confiando muito em seus pés, mas seu quarto ficava perto e ele não tinha de caminhar muito. Hesitou, um momento, diante de sua porta; seus olhos contraíram-se, pensativos.
– Sabe que é, deveras, o métier triste [a forma como os franceses, segundo Ernest, chamavam a guerra]? – indagou. – O escrever. Há um métier triste à sua espera.
Abriu a porta de seu quarto e eu segui pelo corredor, em direção ao meu, mas, decorrido um instante, chamou-me e aproximou-se de mim, enquanto eu me voltava:
– O que você deve saber, já que nos compreendemos mutuamente, é o que minha mãe me disse, naquele dia em que voltei, em busca da minha herança. “Não me desobedeça”, disse-me ela, pois, do contrário, você o lamentará durante toda sua vida, como seu pai fez”. Seus olhos estavam fixos num ponto no fim do hall, onde sua mãe se achava de pé junto à porta da grande casa de madeira de Oak Park. Ernest ia dizer mais alguma coisa sobre sua mãe, mas seus olhos deixaram Oak Park, e ele retornou. Deu-me um soco no braço, e disse:
– Verei você amanhã cedo.
E, essa vez, caminhou realmente para o quarto.
No dia seguinte, viajando por Arles, falou sobre os vinhedos e o cultivo das parreiras, explicando por que motivo os vinhos mais caros eram produzidos nos montes. Não se referiu, aquela manhã, à noite anterior – como jamais tornou a fazê-lo. Aquela se tornou, por conseguinte, a única vez em que ele confirmou a nossa amizade, que, até então, eu encarara apenas de meu ponto de vista: isto é, jamais me ocorrera que ele tinha minha amizade em tão alto apreço quanto eu tinha a dele. Sua vida era tão cheia de acontecimentos e de pessoas, que tal plenitude obscurecia o fato de que a maior parte dos indivíduos significativos que passara por sua vida havia, um por um, desaparecido. Certamente, quando o conheci, em 1948, não havia nenhuma das necessidades que agora, em 1954, se manifestavam. O Velho e o Mar tinha sido publicado e fora amplamente aclamado, e ele, ainda recentemente, ganhara com esse livro o Prêmio Pulitzer, mas a aclamação pública – eu estava descobrindo – não podia substituir os que “se mantinham unidos quando as coisas eram impossíveis”. Essa lealdade incondicional, que se dava e recebia, era o que ele prezava acima de tudo, e constituía um traço comum de todos aqueles com quem mantivera longas e inalteráveis relações. Mas, agora, essas pessoas eram poucas. A média de mortalidade era tão elevada quanto os seus padrões, e se a gente indagava acerca de alguém que caíra pelo caminho, ele simplesmente respondia que ele ou ela não se mantivera à “altura do padrão”.
Talvez parte da explicação pudesse encontrar-se em seu ditado: “A maneira de saber-se se uma pessoa é digna de confiança é confiar nela”. Mas, por outro lado, a medida de confiança de Ernest, bem como a ausência dela, não poderia, certamente explicar-se em termos convencionais. Parece-me, ao analisar essa mística, que o indício real quanto a essas amizades duradouras, podia ser encontrado no fato de que as pessoas que se mantinham unidas eram retas, leais e formadas à própria imagem que tinham de si próprias. Dietrich; Toots Shor; o toureiro Ordoñez, Sylvia Beach, da famosa livraria de Paris; Gary Cooper; Willie, o pintor; Budy Purdy, o rancheiro de Ketchum; Leonard Lyons, o colunista; Bill Davis, o expatriado de Málaga; Winston Guest, o esportista; Evan Shipman, o poeta e o entendido em corridas de cavalos; Maxwell Perkins. Pessoas que, na opinião de Ernest, eram verdadeiras quanto à sua própria identidade e cuja atuação era coerente. Eis aí o que Ernest exigia – e isso era uma virtude que ele prezava sobre as demais.
Os que falhavam eram expulsos com ira e desdém e, não raro, expulsos até mesmo em público, embora o incidente de que Ernest se valia para a ruptura fosse, em geral, uma questão imediata e não a razão real para que o sujeito fosse “excomungado”. Assim, Kenneth Tynan foi brutalmente destratado no terraço do Hotel Miramar, em Málaga, diante de uma mesa cheia de testemunhas, por haver discordado de Ernest quanto a saber-se se o toureiro Jaime Ostos havia matado bem o touro aquela tarde. Peter Buckley, o fotógrafo e escritor, foi asperamente invectivado e arrasado no saguão do Royal Hotel, em Valência, por ter entrevistado Antônio pouco antes da corrida daquela tarde, contra a viva desaprovação de Ernest. Slim Hayward foi sumariamente guilhotinado na calçada diante do Bar Cholo, em Pamplona, em meio a uma multidão de gente, por ter jantado com David Selznick. Peter Viertel foi lançado por terra no restaurante Imperador, em Nimes, por haver arrastado os pés, que lhe tinham ficado gelados, enquanto todos nós estávamos entregues ao tiro aos pombos numa feira de rua, quando esperávamos que Ernest e Jigee se juntassem a nós. Spencer Tracy e Leland Hayward foram simultaneamente executados certa tarde, no Peru, por terem atrasado a pescaria de makaira de Ernest, relacionada com a filmagem de O Velho e o Mar.
Ernest mantinha, não raro, subsequentemente, relações com os que haviam sido violentamente rejeitados. Embora a rejeição os retirasse da lista Daqueles Que Realmente Contavam, isso não significava, necessariamente, que Ernest não continuasse a vê-los. Assim, ele, mais tarde, ajudou Peter Buckley em seu livro sobre touradas, e contratou Peter Viertel para que trabalhasse no script, para teatro, de O Velho e o Mar. Mas sua atitude básica para com os Caídos continuava, irrevogavelmente, fria.
(...)
– Depois que parti, escrevi a Scott [Fitzgerald], dizendo-lhe que gostaria de tornar a vê-lo, quando ele estivesse suficientemente sóbrio para que pudéssemos conversar sem que nos “chateássemos” o tempo todo. Disse-lhe que nenhum de nós era um tipo trágico; que éramos escritores que deveríamos escrever, e que nada mais éramos senão isso, e que, por conseguinte, devíamos abandonar a atitude falsa e inútil de nos mostrarmos trágicos. Seu casamento com Zelda, claro, era trágico, e eu disse-lhe que uma criatura tão ciumenta de seu trabalho quanto Zelda, estava sempre a competir com ele e a procurar destruí-lo... Disse-lhe, ainda, que, desde a primeira vez que a vi, Zelda me parecera, sem dúvida, maluca. Mas Scott estava apaixonado por ela e não via o que era evidente. O fato de ele ser um tipo esquisito o tornava sumamente vulnerável: quero dizer, um sujeito destrambelhado casado com uma maluca não constitui um pari-mutuel que ajude um escritor. Disso isso a Scott porque julguei que a verdade brutal talvez pudesse abrir-lhe os olhos, mas procurei, ao mesmo tempo, animá-lo, acrescentando que Joyce era tão destrambelhado quanto ele, e que a maioria dos bons escritores era constituída de indivíduo esquisitos. De que modo – com os diabos! – pode a gente ficar a lamuriar-se de suas tragédias pessoais, quando se é escritor? A gente deveria aceitá-las de bom grado, pois que os escritores de verdade têm de ser feridos de maneira terrível, antes que possam escrever coisas que valham a pena. Mas, quando se é ferido e se consegue aguentar a coisa, a gente deve considerar-se feliz – pois que é justamente isso o que se tem para escrever, e deve-se ser tão fiel a isso quanto um cientista é fiel para com o seu laboratório. Foi o que eu disse a Scott. E disse-lhe ainda que, naquela altura de sua vida, ferido como ele se achava, poderia escrever duas vezes melhor do que jamais o fizera, embriagado ou não. Com Zelda ou sem Zelda. Procurei animá-lo. Acender uma fogueira. Mas não deu resultado. Ele ficou ressentido por eu ter-lhe dito tais coisas, e não trabalhou de modo algum.
(...)
Ernest, então, falou de seus próprios filhos, e das relações que mantinha com eles após seus divórcios. Falou de Patrick, que estivera morando com Pauline em Key West, e que, certa vez, ao visitar Ernest em Cuba, fora acometido de meningite. A meningite produziu em Patrick um delírio que transformou num inferno a vida de todos na finca, mas, com a ajuda de Sinsky Dunabeitia, Roberto Herrera, Taylor Williams, que estava hospedado na pequena casa anexa, e Ermua, o grande jogador de pelota, Ernest conseguiu fazer com que Patrick vencesse a crise e readquirisse a saúde. Ernest disse que houve uma fase da doença em que Ermua tinha de dormir com os braços em torno de Patrick, a fim de que este não se ferisse. Durante quatro semanas, ajuntou, ele, Ernest, dormia, em média, menos de quatro horas por noite.
Após o restabelecimento, Patrick, claro, não se lembrava daqueles seus meses de delírios, de modo que, quando sua mãe lhe disse que ele caíra doente em Cuba e Ernest o abandonara, e que ela o trouxera de volta a Key West e fizera por ele tudo o que Ernest verdadeiramente havia feito, o rapaz acreditou nela, e demorou muito tempo antes que Ernest reconquistasse a amizade de Patrick.
– Isto é apenas para dizer-lhe – acrescentou Ernest – que não se pode, hoje em dia, reter-se muito dos filhos, quando a gente se separa deles. Mas a coisa real a respeito de Pauline é que, quando as mulheres têm qualquer sentimento de culpa, tendem a desfazer-se dele lançando-o sobre a gente.
Barney indagou de que modo Ernest se dava com os filhos, agora que eles eram adultos.
– Bastante bem, creio eu. Vemo-nos sempre que podemos e gostamos bastante uns dos outros. Os rapazes não tomaram, porém, o rumo que julguei que iriam tomar. Meu filho número um, Bumby, que era O.S.S. e desceu de paraquedas atrás das linhas alemãs – e que eu julgava se dedicaria à carreira das armas- é hoje corretor de fundos públicos na Costa Oeste. Gigi, que era o aventureiro, excelente atirador, cavaleiro, bom no laço e criador de encrencas, está se preparando para estudar Medicina.
“Patrick, que tem o apelido de Mousy e que é aquele de quem lhe falei, obteve um cum laude em Harvard e casou com uma jovem da sociedade de Baltimore. Julguei que ele fosse me sair o Hemingway Pensador, mas ele se instalou na África, é Guia de caça licenciado – por sinal um excelente guia – e está realizando uma grande experiência em plantação de milho.
– Eles o consultam a respeito de seus trabalhos e de seus planos?
– Sim, mantemo-nos sempre em contato. Acabo de responder a uma carta de Bumby, que pedia minha opinião acerca de arranjos salariais com uma nova firma. Queria saber a respeito de contas de retiradas. Eu lhe respondi que as retiradas de dinheiro eram o inimigo do homem, e que as contas de despesas eram o seu satânico irmãozinho.
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