sábado, 13 de abril de 2024

XXIII.5. VENEZA

 Veneza – 1954  

 

Ernest chegara poucos dias antes, como passageiro do navio África, após uma série de violentos infortúnios na densa selva próxima à Catarata Murchison, em Uganda, e ele me dissera, por telefone, que ficara muito mais ferido do que qualquer pessoa imaginava. Houvera dois desastres de avião, o primeiro menos sério que o segundo, mas fora o primeiro que despertara o pesar e os obituários em todo o mundo, os quais, subitamente, se transformaram em júbilo e, com efeito, em descrença, quando Ernest surgiu, de repente, da Selva, em Butiaba. (Os despachos telegráficos descreviam-no a carregar um cacho de bananas e uma garrafa de gim, mas Ernest negou a existência de um selvagem assim tão elegante.) Aos repórteres atônitos, que acorreram para entrevistá-lo, ele, caracteristicamente declarou: 

– Minha sorte ainda está correndo bem. 

Poucas horas mais tarde, porém, sua sorte não correu assim tão bem. Um avião de socorro, um Havilland Rapid, fora enviado para transportar de volta os Hemingways à sua base em Kenya, mas o aparelho, ao levantar vôo, sofrera acidente e rompera em chamas, e foi esse acidente que deixou marcas em Ernest. 

(...) 

– Eu poderia fazer a viagem sozinho, mas estou um tanto arrasado devido à queda daqueles “papagaios” na África. Procuramos fazer com que a coisa não fosse parar nos jornais pândegos, mas as cartas que me couberam, quando o segundo “papagaio” se incendiou, foram um rim arrebentado e os ferimentos internos habituais, além de uma concussão completa nas partes superiores, com visão dupla e outras coisas. Sofri um corte acima do olho e tivemos um incêndio sobre a costa, que eu tive de combater, e queimei terrivelmente a mão esquerda – a mão toda – e, como eu estava mais fraco do que supunha, caí sobre o fogo e queimei a barriga, parte das pernas e o antebraço. Órgãos genitais perfeitos. 

(...) 

Detive-me um momento junto ao umbral da porta, chocado pelo seu aspecto. Eu o vira pela última vez, em New York, no outono de 1953, pouco antes de sua partida para a África. O que me chocou foi a maneira como ele envelhecera nos cinco meses decorridos. O que restava de seus cabelos (que tinham sido quase todos queimados), tinha-se convertido de levemente grisalho em branco, bem como sua barba, e ele parecia ter diminuído ligeiramente de tamanho, não fisicamente, mas seu aspecto de homem maciço parecia haver desaparecido.  

(...) 

Ele conduziu-me ao homem de rosto aquilino, que me foi apresentado como Adamo, motorista de primeira classe que era também proeminente agente funerário em Udine. Adamo, ao que parecia, vinha passando os dias a folhear jornais de vários países, recortando necrológios de Ernest, publicados por ocasião do desastre, e colando-os num álbum de recortes. Ernest disse-me que gostava imensamente de ler seus necrológios, e que o seu vício mais recente era um ritual matinal que consistia de uma taça de champanha e de umas duas páginas de leitura sobre a sua própria morte. Para dar-me um exemplo do valor do valor do seu entretenimento, mostrou-me o recorte de um jornal alemão que declarava que o desastre fatal de avião fora simplesmente a realização do seu já conhecido desejo de morrer. Numa prosa Götterdämmerung, o artigo relacionava o fim supostamente desditoso de Ernest com o leopardo metafísico que ele colocara no topo do Monte Kilimanjaro, em sua história As Neves de Kilimanjaro. 

(...) 

As costas de Ernest pareceram, de repente, incomodá-lo, e ele levou a mão a elas e pôs-se a fazer massagens. 

– Como vai você, Papá? Digo, realmente.  

– Bem, examinemos as provas. 

Seguiu para o banheiro e eu o acompanhei. Numa mesa, junto da porta, havia uma grande garrafa de álcool para fricção: Ernest raramente se banhava com água, preferindo banhos de esponja, com álcool. Numa outra mesa, entre a banheira e a pia, havia meia dúzia de copos contendo urina. Ernest apanhou um deles e examinou, à luz, o seu escuro conteúdo.  

– Não pude urinar durante dois dias, devido a um entupimento, em algum lugar, com células dos rins. Finalmente, a obstrução cessou. Veja esta maldita coisa: você poderá vê-las flutuando como pedacinhos de palito de dentes. A cor me intrigou: cor de suco de ameixa. O médico, no navio, era muito bom. Deu-me uma droga para os rins e cortou toda a carne necrosada devido às queimaduras... Médico de muita classe... 

(...) 

– Quando eu era moço, não desejava casar jamais, mas, depois que casei, não pude jamais passar de novo sem uma esposa. O mesmo a respeito das crianças. Não queria filhos, mas, depois que tive um, nunca mais quis estar sem eles. Para se ser um pai bem sucedido, porém, há uma regra absoluta: quando se tem um filho, não olhe para ele durante os primeiros dois anos. – Refletiu um momento, cofiando os cantos da barba. – Lamento apenas um de meus casamentos. Lembro-me de que, após obter a licença de casamento, atravessei a rua e procurei um bar, para tomar um drink. O garçom perguntou-me: “Que é que vai tomar, meu senhor?”. E eu lhe respondi: “Uma taça de cicuta”.  

(...) 

Ernest vivia sempre a dar suas coisas, a fim de não ser jamais possuído por elas: afora seu equipamento de caça e seus quadros, conservava pouca coisa de valor. 

– Só se pode ter verdadeira afeição por pouquíssimas coisas na vida – disse-me ele, certa vez – e, ao desfazer-me de coisas materiais, esforço-me por não desperdiçar minha vida em algo que não possa sentir meu afeto.  

(...) 

Ernest falou-nos de suas surpreendentes núpcias: durante uma das viagens de Mary a Nairobi, ele tomara como noiva uma jovem Wakamba de dezoito anos e, como o costume local ditava, herdou também a irmã da noiva, uma viúva de dezessete anos. Os três dormiam numa cama de pele de cabra de catorze pés de largura, disse Ernest, e, quando Mary regressou, mostrou-se muito preocupada com o acontecimento, bem como impressionada quanto à alta posição que Ernest adquirira na tribo em virtude de seu matrimônio. 

Um dos prazeres maliciosos de Ernest consistia em fazer bem tais brincadeiras fantasiosas, e esse seu “caso matrimonial” bem pode ser um desses seus gracejos, embora ele corroborasse o fato mostrando-nos fotografias de sua noiva africana. Lembrei-me, porém, da ocasião em que ele registrou para a posteridade uma sua aventura sexual com a famosa espiã Mata Hari [gravada em um LP intitulado Ernest Hemingway Reading, distribuído em 1965, por Caedmon Records]. Ele nos contou – a um grupo de amigos que havia tomado bastante vinho – que não a conhecera muito bem, já que era um simples segundo-tenente, e ela vivia metida com generais e ministros de Gabinete, “mas, uma noite, eu a forniquei muito bem, embora achasse que ela era muito pesada de quadris e se interessava mais pelo que a gente lhe fazia do que pelo que ela estava proporcionando ao homem”. Impressionara-me muito essa fria avaliação do talento de Mlle. Hari, até que me ocorreu que a senhora em questão fora executada pelos franceses em 1917, e que Ernest partira para o estrangeiro, pela primeira vez, em 1918, como chofer de ambulância da Cruz Vermelha. Depois disso, mantinha-me sempre de sobreaviso quanto às suas brincadeiras fantasiosas, mas jamais consegui determinar se as núpcias africanas de Ernest faziam parte desse rol. 

(...) 

A confiança de Ernest na ordem infindável das boas coisas baseava-se num ponto de vista muito disciplinado quanto às horas dos dias e das semanas. Cada dia era um desafio de entretenimento, e ele o planejava como um marechal-de-campo planeja uma campanha. Isso não significava que não houvesse flexibilidade: dois dias em Paris não raro significavam dois meses, como eu constatara, para meu deleite, em 1949. Mas cada um desses dias em Paris era meticulosamente estabelecido antes que terminasse, ou, em última análise, quando estava por terminar.  

(...) 

Cipriani, um gentleman enérgico, vigoroso, todo cinza – cabelos, rosto, roupa e olhos – entrou e ficou encantado ao deparar com Ernest. 

– Estive em Tocello – disse ele – e os patos são indescritíveis. Ernest, você deve ficar aqui mais alguns dias e caçar. 

– Eu não poderia erguer uma arma e, muito menos ainda, acertar no que quer que fosse. 

– Como está sua mão? – indagou Cipriani. 

Ernest mostrou-lhe a mão, que ficara seriamente queimada no incêndio irrompido no matagal africano. 

– A nova pele começa a nascer – disse Ernest. – Oxalá pudesse dizer o mesmo quanto à coluna vertebral, o rim e o fígado. 

– Eu não sabia a respeito do rim – atalhou Cipriani. 

– Rompido – respondeu Ernest. – Você se importaria se nos sentássemos àquela mesa? Santo Deus! Você já me viu alguma vez sentar a uma mesa, quando havia um balcão junto onde a gente pudesse ficar de pé? 

– Como foi que você se feriu? 

– No desastre de avião número dois. O avião, essa vez, incendiou-se logo. Quando me levantei do chão do aparelho, senti-me arrebentado por dentro. A porta de trás estava amassada e emperrada. Meu braço e meu ombro direito estavam deslocados, mas empreguei o meu ombro direito e a cabeça para, num empuxão, abri-la. Ray Mash estava na frente, ao lado de Miss Mary. Gritei-lhes: 

– Consegui abrir isto aqui. Miss Mary está bem? 

Ele gritou-me, em resposta: 

Okay, Papá. Vamos sair pela frente. 

Alegrou-me ver Miss Mary sem um arranhão, carregando seu pequeno estojo de toilette. Jamais estive em meio de uma situação difícil em que uma mulher esquecesse suas jóias 

Ficamos a ver, impotentes, o De Havilland incendiar-se, e eu fiz diversas anotações científicas que talvez pudessem interessar a você, Cipriani, como estudioso que é dos alcoólicos ocultos. Primeiro, notei que houve quatro pequenos estampidos, que eu atribuí ao estouro de nossas quatro garrafas de cerveja Carlsberg. A seguir, houve um estampido mais forte, que atribuí à garrafa de Grand MacNish. Mas o estouro realmente violento veio do gim Gordon. Era uma garrafa ainda fechada, com topo de metal. O Grand MacNish já estava pela metade e fechado apenas com rolha. Mas o Gordon produziu um verdadeiro éclat. Escrevi para Look dezesseis mil palavras a respeito do desastre, mas a coisa não foi fácil. Às vezes, eu gostaria de ter um “escritor fantasma”.  

 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...