Havana – 1951-1953
Na primavera de 1951, pouco antes de partir para Cuba, a fim de discutir a versão de meu ballet baseado num conto de Ernest, A Capital do Mundo, recebi uma carta, em que ele me dizia que andava muito azarado. Não me dava pormenores indicando a natureza de sua aflição, mas a carta tinha um tom pressago, e eu me preparei para o pior.
Quando ele desceu os degraus da finca para saudar-me, não notei quaisquer sinais exteriores do que quer que o estivesse preocupando. Mais tarde, naquele dia, porém, percebi que ele estava um pouco mais suave e contemplativo do que habitualmente, e isso – eu iria aprender – constituía sintomas significativo de depressão.
Depois do jantar, aquela noite, Mary recolheu-se cedo, mas Ernest e eu continuamos sentados à mesa da sala de jantar.
– Desculpe-me quanto ao meu estado de espírito – disse Ernest. – Em geral, sou alegre, como você sabe, mas, esta vez, saí pela enseada sem remos nem forquilhas. A coisa começou com um acidente que tive no barco. Seguíamos bem, mais ativos que um sul-coreano maneta, quando uma súbita rajada de vento açoitou a ponte de comando... O tempo estava muito ruim, o mar picado, e eu acabara de substituir Gregório no lelé, quando o barco mergulhou entre dois vagalhões. Recebi forte, violenta concussão com fogos de artifício e tudo o mais; nada de ver estrelas, mas um choque com o corpo todo, o sangue a jorrar. Uma das presilhas que sustêm os grandes arpões me caiu em cheio na cabeça.
Essa é uma das coisas que, sempre achei, ajudam menos um escritor. Agarrei-me, ao ser atingido, à amurada, atenuei tanto quanto possível, com os ombros, a queda (a espinha foi de encontro ao arpão), mas o Pilar tem quinze toneladas, o oceano mais, e eu duzentas e dez libras, e fui atingido pesadamente. Mas já estava de pé antes da contagem de um e, ao ver aquele jorro vermelho, disse a Gregório que descesse, ancorasse e mandasse Roberto subir para a popa. Roberto estava pescando, ao lado do barco, no The Tin Kid. Depois, disse a Mary para que fosse buscar um rolo de papel de toilette e me colocasse sobre a cabeça grandes pedaços dobrados, que eu os seguraria. Ela foi muito boa, rápida e não mostrou pânico algum e, quando Roberto subiu, apanhamos gaze, esparadrapo e fizemos um torniquete ao longo do olho esquerdo. Detivemos, assim, a hemorragia e chegamos bem à finca.
História muito sangrenta. Eu deveria vendê-la ao Journal da Associação Americana de Medicina. Se Roberto não estivesse lá, eu, provavelmente, morreria de hemorragia. Mas a visão está boa agora e, depois de três curativos, tornou-se clara e a dor cessou, mas eles acharam que o ferimento foi profundo demais para se retirar os pontos. Fico sempre tremendamente caceteado quando sou ferido ou atingido por algo. Não me agrada jamais estar na cama sem mulher, um bom livro, ou o The Morning Telegraph, de modo que, esta vez, resolvi não ir de modo algum para a cama, salvo muito tarde da noite. Posso afirmar-lhe que estou ficando cansado de ser atingido na cabeça. Fui atingido seriamente, por três vezes, no período de 1944-45, duas em 43, e outras em 1918. A despeito do que você ouve, isso não se dá devido à falta de cuidado ou ao meu decantado desejo de morrer. Pelo menos, nenhuma das vezes de que me lembro se deve a isso, e creio que me lembro bem de todas elas. De qualquer forma, esse acidente no Pilar foi o começo do meu azar.
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– Para consolidar essa falta de sorte, há ainda, a Coréia – disse ele. – Esta é a primeira vez que meu país jamais lutou sem que eu estivesse presente, e os alimentos não têm gosto, e que vá para o diabo o amor, quando não se pode ter filhos.
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– Comecei a sentir dor em ambas as pernas – dores realmente fortes – e quando alguém aqui em casa, cujo nome não deve ser citado, começou a referir-se a isso como “dores imaginárias”, resolvi pôr as coisas em pratos limpos. Tirei raios X e as fotos revelaram sete pedaços de fragmentos de granada na barriga da perna direita, onze na esquerda e um estilhaço de bala também na perna esquerda. A barriga da perna é um bom lugar para se enquistar alguma coisa, se a gente, algum dia, quiser enquistar algo. Ofereço isto como o pensamento do dia; correção, à noite.
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– Mr. William Faukner entrou na coisa, observando que você jamais se expõe de todo. Disse que você não tinha coragem: que jamais se soube que você empregasse uma palavra que pudesse enviar o leitor ao dicionário.
– Pobre Faulkner! Será que ele realmente pensa que as grandes emoções provêm das grandes palavras? Ele pensa que eu não conheço as palavras altissonantes. Conheço-as muito bem. Mas existem palavras mais velhas, mais simples e melhores, e essas são as que a gente usa.
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Quando, logo de manhã cedo, entrei na sala-de-estar, Ernest já estava ocupado a escrever cartas, de pé, em sua máquina. Chamou-me para o seu quarto. Estava alegre, como sempre ocorria de manhã, e a depressão da noite anterior parecia ter-se dissipado.
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A carta que se achava na máquina, estava endereçada: “Your Arrogance” – e continha a reação causticante de Ernest a um dos grandes acontecimentos do dia, que era o de o Cardeal Spelman ter-se colocado contra um grupo de coveiros em greve. As palavras, na carta era caracteristicamente espaçadas: quando ele trabalhava em um manuscrito ou escrevia cartas “importantes”, costumava bater três ou mais espaços entre as palavras, de modo que a página tinha este aspecto. Ernest fazia isso para escrever mais devagar e ressaltar a importância de cada palavra.
(...)
Quanto ao que dizia respeito aos seus amigos, a generosidade de Ernest com seu dinheiro, suas coisas e seu tempo, o qual para ele era muito mais valioso do que os dois primeiros, não tinha limites. A carreira de Lilian Ross no The New Yorker se baseara no êxito do perfil que ela escrevera do toureiro Sidney Franklin. Disse-me ela que, ao começar seu trabalho, consultara Ernest, que ela mal conhecia, e ele editara, reescrevera e a aconselhara quanto a todos os passos que deviam ser dados.
Quando o seu jovem amigo veneziano Gianfranco Ivancich resolveu tentar escrever um romance, Ernest convidou-o a permanecer como seu hóspede na casa da finca, deu-lhe conselhos e apoio, e procurou, incansavelmente, fazer com que a Scriber’s editasse o livro.
Havia meia dúzia de amigos, que não iam muito bem de finanças, que recebiam regularmente remessas de dinheiro de Ernest, e ele atendia logo a qualquer grito de emergência que partisse de qualquer amigo que para ele tivesse “importância”, categoria essa que abrangia várias centenas de pessoas.
Já tarde, essa noite, Ernest entrou em meu quarto, carregando uma tábua que servia de suporte para escrever, e cujas presilhas de metal prendiam um manuscrito de considerável espessura. Ernest parecia hesitante, quase que pouco à vontade.
– Queria que você lesse algo – disse ele. – Talvez possa ser um antídoto para o azar que me persegue. Mary leu isso tudo uma noite e, de manhã, disse que me perdoava por tudo que eu jamais havia feito mostrando-me que o seu braço se achava todo arrepiado. De modo que me concedeu uma espécie de anistia geral como escritor. Espero que eu não seja suficientemente tolo para achar que uma coisa é maravilhosa apenas porque alguém, sob o meu próprio teto, gostou dela. Peço-lhe, pois, que a leia – e converse comigo amanhã cedo.
Pôs o suporte de escrever sobre o meu criado-mudo e saiu abruptamente. Meti-me na cama, acendi a luz, e apanhei o manuscrito. O título estava escrito à tinta: O Velho e o Mar. Insetos noturnos pulavam de encontro à tela metálica da janela, grandes e brilhantes mariposas zumbiam sem cessar, sons chegavam até mim, vindos da aldeia abaixo, mas eu me achava no porto próximo de Cajimar e, a seguir, no mar, experimentando uma das mais irresistíveis experiências de leitura de minha vida. Tratava-se da pequena e básica batalha que sempre intrigara Ernest: um homem bravo, simples, a lutar, sem êxito, contra o elemento inconquistável. Era, ainda, um poema religioso, se a reverência absoluta ao Criador de tais maravilhas terrenas, como é o mar, um peixe esplêndido e a coragem de um velho, pode ser aceita como religiosa.
– Eu conservarei isso como uma parte do livro grande – disse-me Ernest na manhã seguinte, depois de eu lhe ter dito qual fora a minha reação. – A parte do mar. Farei as outras partes, terra e ar, antes de publicá-lo. Eu poderia dividi-lo em três livros, já que este é independente. Mas por que fazê-lo? Alegra-me que você concorde que ele poderia ser publicado separadamente. Há, no fundo dessa história, o mais antigo dicho duplo que conheço.
– Que quer dizer um dicho duplo?
– É um dito que pode ser enunciado de trás para diante e vice-versa. Ora, esse dito é: o homem pode ser destruído, mas não derrotado.
– O homem pode ser derrotado, mas não destruído.
– Sim, eis aí a inversão, mas eu sempre preferi acreditar que o homem é “inderrotável”.
Mary disse-me que datilografara O Velho e o Mar dia a dia, e que, mais do que qualquer outro dos livros de Ernest, ele parecia ir surgindo, palavra por palavra, virtualmente perfeito, as páginas limpas por completo das frequentes e habituais correções a que Ernest as submetia.
(...)
Em princípio do outono de 1952, Ernest pediu-me para tomar um avião e ir a Cuba, a fim de discutirmos um ambicioso projeto que uma das redes de televisão havia proposto. Fiquei surpreso ao descobrir que ele estava trabalhando num novo livro; era a primeira vez que eu ia à finca numa ocasião em que Ernest estava escrevendo um livro, e a mudança que se operara nele era espantosa. A disciplina do trabalho matutino era absoluta. A porta de seu quarto era inviolável até à uma hora, quando ele aparecia para tomar um drinke descansar um pouco, antes do almoço. Enquanto tomava sua bebida, costumava ler jornais e revistas, pois, segundo dizia, estava demasiado vazio para conversar. À tarde, dormia um pouco, mas, ao anoitecer, já estava pronto para os drinks e a companhia dos amigos, que apreciava. Quando o jantar ia chegando ao fim, porém, ele começava a encerrar-se em si próprio, pois que sua mente já se havia voltado para os problemas de criação literária da manhã seguinte, e, ao recolher-se – coisa que fazia sempre cedo, quando estava trabalhando – já sabia quais os personagens, os acontecimentos, os lugares e até mesmo algo do diálogo com que depararia no dia seguinte.
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