Paris – 1950
– Quando eu era jovem aqui [Paris]] – disse ele – era o único estranho que tinha permissão para entrar nos terrenos particulares de treino de Achères, fora das Maisons-Laffitte, e em Chantilly. Permitiam que eu cronometrasse os treinos – e quase ninguém tinha permissão para manejar um cronômetro – o que me dava grande vantagem em minhas apostas. Foi assim que vim a conhecer Epinard. Um treinador chamado J. Patrick, americano expatriado que era meu amigo desde o tempo em que éramos rapazes do exército italiano, disse-me que Gene Leigh tinha um potro que bem poderia tornar-se o cavalo do século. Foram essas as palavras de Patrick: “o cavalo do século”. Disse-me ele: “Ernie, ele é filho de Badajoz-Epine Blanche e de Rockminster, e jamais se viu nada como ele em França desde o tempo de Gladiateur e La Grande Ecurie. Aceite, pois, o meu conselho: mendigue, tome emprestado ou roube todo o dinheiro em que você possa deitar a mão, e aposte tudo, de cara, nesse potro. Depois, nunca mas haverá apostas que valham a pena. Mas, na primeira corrida, antes que o nome se torne conhecido, aposte tudo nele.”
Foi a minha época de “pobreza completa”: eu não tinha dinheiro sequer para comprar leite para Bumby, mas segui o conselho de Patrick. Pedi dinheiro emprestado a todo o mundo. Cheguei a tomar mil francos emprestados a meu barbeiro. Abordava até estranhos. Não havia um sou em Paris, mesmo que estivesse pregado a uma tábua, que eu não tivesse pedido. De modo que apostei tudo em Epinard, quando ele estreou no Prix Yacoulet, em Deauville. Ele pagou cinquenta e nove francos por dez. Venceu folgado, e eu, com o dinheiro que ganhei, pude manter-me durante seis ou oito meses. Patrick apresentou-me a muitos sujeitos que estavam “por dentro” do meio turfístico francês da época. Frank O’Neill, Frank Keogh, Jim Winkfield, Sam Bush e o jóquei verdadeiramente grande de corridas de obstáculos, Georges Parfremont.
– Como consegue lembrar-se de seus nomes, depois de tantos anos? – indaguei. – Você tornou a vê-los, depois?
– Não. Sempre gravei em minha mente as coisas que queria que ficassem gravadas. Jamais tive um diário ou fiz quaisquer anotações. Aperto apenas o botão das lembranças, e lá surge a coisa. Se não estiver lá, é porque não valia a pena ser conservada. Tomemos, por exemplo, Parfremont. Posso vê-lo tão claramente como estou vendo você, e ouvi-lo tal qual o ouvi na última vez em que falou comigo.
(...)
Ernest levantou-se e pôs-se a observar as pessoas aglomeradas junto aos guichês.
– Ouça seus passos no pavimento molhado – disse ele. – É tudo tão belo, em meio desta claridade nevoenta. O Sr. Degas poderia tê-la pintado e fixado essa luz, de modo que ela seria mais real em suas telas do que isto que estamos vendo. É isso que o artista deve fazer. Na tela ou numa página impressa, deve captar a coisa de modo tão verdadeiro, que sua glorificação perdure. Eis aí a diferença entre jornalismo e literatura. Existe muito pouca literatura. Muito menos do que imaginamos.
(...)
Um jovem bem parecido, trajando uma capa impermeável, que estivera de pé entre os bancos, a olhar para Ernest, aproximou-se um tanto hesitante.
– Mr. Hemingway – indagou, em francês – o senhor se lembra de mim?
Ernest ficou um instante a olhá-lo, um momento, a fisionomia intrigada.
– Sou Richard.
A fisionomia de Ernest abriu-se num sorriso, reconhecendo-o:
– Rickey!
Estendeu os braços e estreitou o rapaz de encontro ao peito.
– Rickey! – repetiu, tornando a lançar um olhar ao rapaz. – Não é de estranhar! É a primeira vez que o vejo sem uniforme... ou, talvez devesse dizer, sem estar metido no uniforme de alguém.
Ernest explicou que Rickey pertencera às suas tropas irregulares, que fora membro do famoso grupo que reunira depois da batalha do Bolsão de Bastogne. Embora se supusesse que Ernest estivera agindo apenas como correspondente de guerra para a revista Collier’s, ele, na realidade, se colocara em plena situação de combatente e, tanto ele como suas tropas irregulares, constituídas de franceses e americanos, tinham sido reconhecidos como os primeiros soldados aliados a penetrar em Paris. Na verdade, Ernest e seus rapazes já haviam libertado o Ritz Hotel, e comemoravam devidamente tal acontecimento com garrafas de champanha, no bar do hotel, quando o General Jean Leclerc entrou em Paris com suas tropas, que ele julgava ser a primeira força a penetrar na Capital.
Ernest pediu a Rickey notícias de vários membros de sua heterogênea unidade e, quando Rickey lhe contou que um de seus rapazes favoritos se achava em sérias dificuldades, Ernest anotou-lhe o endereço, a fim de poder ir em seu auxílio.
Enquanto Ernest e Rickey conversavam, lembrei-me do que Robert Capa, o fotógrafo de combates, certa vez dissera acerca da tropa irregular de Ernest. Capa acompanhara-os durante algum tempo, verificando que os homens achavam difícil não acreditar que ele não fosse um general, pois tinha um oficial encarregado de relações públicas, um tenente como ajudante-de-ordens, um cozinheiro, um chofer e uma ração especial de bebida. Capa havia-me dito, ainda, que a unidade estava equipada com toda a classe imaginável de armas americanas e alemãs, e que ele tinha a impressão de que a mesma carregava mais munição e álcool do que uma divisão. Quando Capa se achava com eles, os homens de Ernest vestiam, todos, uniformes de sargentos alemães, aos quais havia colocado a insígnia dos Estados Unidos. Mas Capa ficou com eles apenas durante pouco tempo. Muito mais tarde, ao entrar velozmente em Paris, num jipe, certo de que ele se encontrava muitas milhas à frente de quem quer que fosse, deteve-se no Ritz e deparou, frente a frente, com Archie Pelkey, o chofer de Ernest, que estava de guarda à porta do Ritz, fuzil dependurado ao ombro.
– Alô, Capa – saudou-o Pelkey, em linguagem à la Hemingway. – Papá escolheu bom hotel. Muita coisa boa na adega. Suba.
Depois que Rickey se foi, fomos para o bar, onde Ernest ordenou uísque com suco de meia lima, enquanto que eu pedi meia garrafa de champanha.
– Rapaz infernal, esse Rickey – comentou ele. – Fez certas coisas...
As lembranças levaram-no para longe, e ele sorveu seu Scotch, conservando cada gole na boca até aquecê-lo, antes de engolir. Tirou do bolso o toco de lápis com o qual estivera anotando o programa de corridas, e pôs-se a escrever nas costas de um guardanapo de papel. Terminou o último páreo, e o bar encheu-se de gente, tornando-se ruidoso, mas Ernest continuava a escrever, profundamente concentrado, alheio à agitação do fim da tarde turfística. Pediu outro Scotch e continuou a escrever, fazendo bolotas de um guardanapo após outro e jogando-as debaixo da mesa. Havia apenas poucas pessoas no bar, quando ele, finalmente, colocou o lápis no bolso e me passou o guardanapo. Tinha escrito um poema de dezesseis versos, “Across the Board”, no qual entremeava suas lembranças de Rickey aos ruídos da pista de corridas.
Tão afetado ficou Ernest com o súbito aparecimento de Rickey, que outros fantasmas da guerra já ida começaram a assaltá-lo, e, poucos dias depois, escreveu “Country Poem with Little Country”, que era uma das odes aos seus rapazes mortos na linha de frente. Essa espécie de poema breve, compulsivo, escrito canhestramente, servia a Ernest, não raro, como uma resposta a emoções que o atingiam diretamente. O mais memorável era um panegírico de onze versos que escreveu a um de seus gatos prediletos, Crazy Christian, no dia em que o bichano foi morto pelos seus outros gatos. Ernest afirmava que eles tinham ciúme de Crazy Christian porque ele era um gato de coração alegre, jovem, belo, e que conhecia todos os segredos da vida.
(...)
– Jamais esquecerei a ocasião em que me instalei numa cabana, junto à linha de chegada de uma corrida de bicicleta de seis dias, a fim de corrigir as provas tipográficas de Adeus às Armas. O champanha era bom e barato e, quando eu tinha fome, eles me mandavam, de Prunier, Caranguejo Mexicano. Eu reescrevera trinta e nove vezes o final, no manuscrito, e, então, modifiquei-o trinta vezes nas provas tipográfica, procurando fazer com que ficasse como eu queria. Finalmente, consegui-o.
(...)
– Bem, quem gostava de esquiar, quem gostava, realmente, de fazer as coisas, era a Hadley. Lembro-me de um inverno em que Hadley e eu fomos esquiar na Alemanha, e ficamos numa hospedaria de esquiadores pertencente a um tal Herr Lint. Eu era instrutor e ganhávamos assim a vida, mas, na estação anterior, quinze hóspedes de Herr Lint tinham-se perdido numa avalancha... Herr Lint os advertira acerca da neve, mas eles não deram atenção ao conselho. Bem, perder onze hóspedes não é uma boa propaganda para uma escola de esqui, de modo que, na estação em que lá estive com Hadley, não havia hóspede algum e, para tornar as coisas ainda piores, havia terríveis temporais de neve, uma após a outra. Durante as nevascas, havia jogo de pôquer durante a noite, sans voir para abrir, e os principais adversários à mesa eram Herr Lint e o proprietário de uma estalagem rival e esquiadores. Herr Lint perdeu sua estalagem, todo o seu equipamento de esqui e uma propriedade que ele possuía na Bavária. Eu contei isso em The Snows of Kilimanjaro. Chamo-o de Herr Lent. Herr Lint, claro, não me podia pagar, mas eu conseguia viver com os cheques que recebia do Star, de Kansas City: onze dólares pelos trabalhos comuns e entre dezoito e vinte e um dólares pelas reportagens completas, com fotografias. Não era muito, mas cada dólar valia setenta mil coroas e, com trezentos e cinquenta mil coroas a gente vivia muito bem.
Ao descermos pelas ruas estreitas, ao deixar o restaurante, procurando evitar o vento cortante, passamos por uma livraria, e Ernest se deteve para examinar a vitrina, que exibia, em lugar de destaque, exemplares de um livro publicado recentemente por um escritor jovem. Na vitrina, havia um cartaz em que se lia: TODOS OS SINAIS INDICAM UM FUTURO BRILHANTE PARA ESTE AUTOR.
– Você conhece essa ave rara? – indagou Ernest.
– Não – respondi.
– Bem, eu conheço – replicou ele.
E tirando um lápis do bolso, escreveu, na parte inferior do cartaz: “Todos os sinais estão errados”.
Ernest desejava que eu conhecesse as vizinhanças do lugar em que ele primeiro vivera em Paris. Começamos pela Rue Notre-Dame-des-Champs, onde ele morava sobre uma serraria, e, lentamente, passamos por restaurantes, bares e lojas familiares, até chegarmos ao Jardim de Luxemburgo e ao seu museu, onde, disse-me ele, se apaixonara por certas telas que o haviam ensinado a escrever.
– Gosto, também, do Jardim – disse – porque ele evitou que passássemos fome. Nos dias em que a panela do jantar se achava absolutamente vazia de conteúdo, eu colocava Bumby, que tinha então cerca de um ano de idade, no carrinho de bebê e levava-o a passear no Jardim. Havia sempre, lá, um gendarme em serviço, mas eu sabia que, ali pelas quatro horas, ele costumava ir tomar um copo de vinho num bar situado do outro lado do parque. Era então que eu aparecia com Mr. Bumby – e um punhado de milho para os pombos. Sentava-me a um banco, em meu disfarce de amante apaixonado de pombos, e examinava o bando, para ver qual era o mais gordo e tinha olhos mais vivos. O Luxemburgo sempre foi famoso pela excelência dos pombos. Uma vez feita a minha escolha, era simples atrair a vítima com o milho, agarrá-la, torcer-lhe o pescoço e metê-la sob o cobertor de Mr. Bumby. Ficamos um pouco cansados de pombos naquele inverno, mas eles preencheram muitos vazios. Que garoto era aquele Bumby: levava a coisa a sério, e jamais me ergueu um dedo acusador.
(...)
– Nos velhos tempos, este [Harry’s Bar] era um dos bares bons e sólidos, e havia um ex-pugilista que costumava vir aqui com um leão de estimação. Ele ficava junto do balcão, e o leão permanecia ao lado dele. Era um leão muito simpático, de boas maneiras – nada de grunhidos ou urros – mas, como ocorre, às vezes, com leões, ele fazia cocô no chão. Isso, naturalmente, tinha um efeito bastante adverso quanto aos negócios e, tão delicadamente quanto lhe foi possível, Harry pediu ao ex-pugilista que não trouxesse mais o leão. No dia seguinte, porém, o ex-pugilista voltou com o leão, o leão sujou de novo o chão, bebedores vomitaram, e Harry tornou a renovar-lhe o pedido. No terceiro dia, a mesma coisa. Percebendo que era preciso lutar ou morrer a bem dos negócios do pobre Harry, dessa vez, quando o leão defecou, eu me aproximei, agarrei o pugilista, que tinha sido um pugilista de peso meio médio, carreguei-o para fora e joguei-o na rua. Depois, voltei, agarrei o leão pela juba e o pus para fora daqui. Já na calçada, o leão lançou-me um olhar, mas afastou-se quietamente.
De um modo maluco – eis como comecei a escrever Adeus às Armas... Imaginei que, já que eu estava me tornando assim agressivo com leões, era de tempo de, ao invés disso, concentrar minha energia em um livro. Todos os outros escritores que faziam mais ou menos parte de meu grupo e que estavam vivendo em Paris, já haviam escrito livros acerca da guerra – e como a última garota do quarteirão que ainda não tinha casado – eu achei que já era tempo de escrever também um livro de guerra. Mas, havia anos, eu já vinha contando àqueles escritores minhas melhores histórias de guerra, e descobri que eles as tinham narrado em seus livros. Assim, quando me decidi, finalmente, a escrever meu romance, constatei que o único país que restava era a Itália. Eu me sentia seguro nesse terreno, pois que poucos tinham estado na Itália, e nenhum deles, certamente, sabia coisa alguma a respeito da guerra lá.
Sempre tive esse problema: outros escritores a lançar mão das minhas coisas. Durante a Segunda Guerra Mundial, viajei bastante em companhia de um escritor que eu conhecia há muito. Contava-lhe coisas, como se costuma fazer a um amigo. Certo dia, quando bebíamos juntos, eu lhe disse que o melhor sistema de alarma antiaéreo era, na minha opinião, a atitude do gado no campo. “Ao observar uma manada de vacas – disse-lhe eu – sou capaz de dizer, antes de ouvir qualquer som, que aviões estão aproximando-se. O gado fica hirto; deixa de pastar. Eles percebem”.
Dois dias depois, vi outros correspondentes congratulando-se com o meu amigo escritor, que escrevera a respeito do gado. Perguntei-lhes de que se tratava. “Ele escreveu um despacho maravilhoso para o seu jornal, sobre como o gado reage à aproximação de aviões”, um sujeito me disse. Investiguei e verifiquei que meu companheiro vinha explorando meu cérebro durante algum tempo e escrevendo uma série de artigos baseados em informações que eu pretendia usar em meus próprios despachos. “Ouça, seu bastardo”, disse-lhe eu. “Se você me roubar qualquer outra coisa, eu o matarei”. Decorridos dois dias, ele foi transferido para o teatro de operações do Pacífico.
Havia outro escritor de “nome” que costumava furtar-me as histórias tão rapidamente quanto eu as escrevia, mudar os nomes dos personagens e dos lugares e vende-las por mais dinheiro do que eu obtinha. Mas encontrei uma maneira de detê-lo. Deixei de escrever por dois anos, e o filho da mãe morreu de fome.
No dia seguinte à publicação de O Sol Também se Levanta – contou-me Ernest – fui informado de que Harold Loeb, que era o Robert Cohn do livro, havia anunciado que me mataria à primeira vista. Enviei-lhe um telegrama, comunicando-lhe que eu estaria aqui no Buraco da Parede [Le Trou dans le Mur, uma boite], durante três noites consecutivas, para que ele não tivesse trabalho de encontrar-me. Como você pode ver, escolhi este boteco porque ele é todo espelhado, nas quatro paredes, e se a gente se sentar neste compartimento, aqui no fundo, pode ver quem entra pela porta, seguindo-lhe todos os movimentos. Esperei os três dias, mas Harold não apareceu. Cerca de uma semana depois, eu estava jantando no Lipp’s, em Saint-Germain, que tem também muitos espelhos, quando vi Harold entrar. Fui ao seu encontro e estendi-lhe a mão, que Harold apertou, antes de lembrar-se de que éramos inimigos mortais. Súbito, porém, ele puxou a mão e colocou-a atrás das costas. Convidei-o a tomar um drink, mas ele recusou. “Jamais”, foi o que ele verdadeiramente disse. “Okay”, respondi, tornando a sentar-me, “então beba sozinho”. Ele deixou o restaurante, e terminou aí a vendetta.
Brett morreu em New Mexico! Chame-a Lady Duff Twysden, se preferir, mas eu só posso pensar nela como Brett. Tuberculose. Tinha quarenta e três anos. Os que lhe carregaram o ataúde tinham sido todos seus amantes. À saída da igreja, onde ela teve um serviço religioso apropriado, um dos que carregavam o caixão escorregou nos degraus do templo, caiu e o caixão se abriu.
Os dias passados em companhia de Lady Duff Twysden arruinaram o pobre Loeb para o resto da vida. Isso e outras coisas: ele era um Guggenheim autêntico, mas jamais conseguiu que uma de suas recomendações fosse aprovada. Nenhuma. Isso significava rejeição em cheio.
– Além de Loeb e de Lady Duff Twysden, havia no livro outros personagens baseados em pessoas que você conheceu e que foram a Pamplona em sua companhia?
– Certamente. Toda a turma. O livro foi baseado nelas. Mas não de maneira exata. Pat Swazey era mais aproximado: ele se tornou, no livro, Mike Campbell. Bill Smith, que era um sujeito tremendamente bom, com que eu costumava pescar, assemelhava-se a Bill Gordon. Jack Barnes... bem, com os diabos... Jack... Quando eu estava no exército italiano, um estilhaço de níquel me atingiu nos testículos, e eu passei algum tempo no pavilhão geniturinário, e vi todos aqueles pobres infelizes que tinham tido seus órgãos sexuais inteiramente arrancados. A maioria dos casos, devido a minas destinadas a explodir-lhes entre as pernas, segundo a irrefutável teoria dos hunos de que nada destrói tão cabalmente um soldado do que ter os seus testículos arrancados.
– Mas Jack não teve os testículos arrancados, não?
– Não. E isso foi muito importante para a classe de homem que ele era. Seus testículos ficaram intactos. Isso era tudo que ele tinha, e isso fazia com que ele fosse capaz de sentir tudo o que um homem normal sente, mas sem que pudesse fazer nada a respeito. O fato de seu ferimento ter sido um ferimento físico, e não um ferimento psicológico, constituía o ponto vital.
– Mas, sabe de uma coisa, Papá? A despeito do pobre Jack e de seu trágico destino, jamais senti nada de “perdido” quanto a esse grupo. Talvez isso seja devido apenas a meu estado de corrupção, mas, no final do livro, senti uma certa força de sobrevivência naquela gente, e não a extrema desesperança de uma “geração perdida”.
– Isso foi um pronunciamento de Gertrude Stein, e não meu! – exclamou, logo, ele. – Gertrude a repetir o que um dono de garagem do Midi lhe disse acerca de seus aprendizes de mecânicos: une génération perdue. Bem, Gertrude... um pronunciamento era um pronunciamento. Eu mesmo empreguei essa expressão na página de rosto de O Sol Também se Levanta, para que pudesse dizer o contrário do que eu pensava. Essa passagem do Eclesiastes acaso parece perdida? “Uma geração passa, e outra geração lhe sucede; mas a terra permanece sempre estável...” Sólida corroboração da Mãe Terra, certo? “O sol nasce e põe-se, e torna ao lugar donde partiu...” Sólida corroboração em favor do sol. E também corrobora o vento. Os rios, a fluir através da terra: “Todos os rios entram no mar, e o mar nem por isso transborda; os rios voltam ao mesmo lugar donde saíram, para tornarem a correr”. Eu jamais poderia dizer ao mesmo lugar. Olhe, Gertrude vivia a queixar-se. De modo que rotulou aquela geração com sua queixa. Mas tudo não passava de bosta de vaca. Não houve movimento algum, nem bando coeso de niilistas fumantes de ópio a andar a esmo à procura de uma Mamã que os livrasse da selva do dadaísmo. O que havia era uma porção de gente mais ou menos da mesma idade que tinha estado na guerra e que então estava a escrever, ou a compor, ou o que quer que fosse, e outras pessoas que não tinham estado na guerra, e que ou desejavam ter estado, e estavam a escrever, ou que se vangloriavam de não ter participado da guerra. Ninguém que eu conhecia na época pensava de próprio como alguém que usasse um emblema da Geração Perdida, nem, tampouco, ouvi falar de tal rótulo. Éramos uma multidão bastante inteiriça. Os personagens de O Sol Também se Levanta eram trágicos, mas o herói verdadeiro era a terra, e sente-se que seu triunfo é eterno.
Num outro dia, em que os rocins estavam descansando em Auteuil, atravessamos a pé a Pont Royale, para almoçar na Closserie des Lilas, que era um dos lugares de que Ernest recordava com carinho. No caminho, mostrou-me um edifício alto e estreito, onde ele vivera com Pauline no último andar.
– Era agradável o apartamento lá em cima – disse ele – com uma grande clarabóia a iluminá-lo. Um boêmio chamado Jerry Kelley estava nos fazendo uma visita certo dia – tratava-se, na verdade, de um dadaísta recusado – quando, antes de partir, usou o banheiro. Mas, em lugar de puxar a descarga da toilette, agarrou a corda da clarabóia, deu-lhe um grande puxão e a clarabóia veio abaixo numa chuva de vidros. Eu estava em pé bem debaixo dela, e os vidros, ao cair, me abriram uma brecha na cabeça. Quando vi o sangue a jorrar, meu primeiro pensamento foi proteger meu único terno. Corri, pois, para o banheiro e deixei o sangue correr sobre a banheira, a fim de salvar minha roupa. Ao mesmo tempo, comprimi com o polegar o corte em minha têmpora, para estancar o sangue, que jorrava como o diabo. Pauline chamou Archie MacLeish, que veio com um seu amigo médico que trabalhava no Hospital Americano, o Dr. Carl Weiss – o mesmo sujeito que, anos mais tarde, atirou em Huey Long. Mais tarde, medimos o sangue do banheiro, que chegava a quase meio litro. O médico fez um melhor trabalho com Huey Long do que em mim.
No dia seguinte, fui à corrida de bicicletas e, naquela noite, sentindo-me maravilhosamente bem devido à perda de sangue, comecei a escrever, finalmente, Adeus às Armas. Estivera tirando o corpo e evitando trabalhar durante quase dois anos, mas aquele corte na cabeça, além do que havia acontecido com o leão, finalmente me animou. Pauline me havia arranjado uma extravagante sala de trabalho, com uma escrivaninha mexicana onde eu evitara começar Adeus às Armas, escrevendo, ao invés disso, uma longa narrativa sobre a vida em Michigan. Julguei que aquilo seria um romance a respeito de Nick Adams – mas, certo dia, após ter lido tudo o que eu escrevera em dois meses, escrevi, na capa: ”Demasiado nebuloso para ser real” – e destruí o manuscrito.
Além da dificuldade com aquele livro, minha vida com Pauline estava também irremediavelmente difícil. Não sei se era autossugestão, devido a O Sol Também se Levanta, ou talvez uma reação por ter acabado de divorciar-me de Hadley, mas eu estava metido em uma complicação dos diabos: não podia ter relações sexuais com Pauline. Tinha tido muito boas relações, na cama, com Pauline, durante todo o tempo de nosso caso amoroso, e depois que Hadley me deixou, mas, após nosso casamento, eu, subitamente, estava tão incapacitado de fazer o amor quanto Jack Barnes. Pauline era muito paciente e compreensiva, experimentamos tudo, mas nada deu resultado. Tornei-me terrivelmente desencorajado. Consultei diversos médicos. Coloquei-me até nas mãos de um místico, que ligava eletrodos à minha cabeça e aos meus pés – onde dificilmente residia a origem de meu mal – e me fazia beber, todos os dias, um copo de sangue de fígado de bezerro. Foi tudo inútil. Então, certo dia, Pauline me disse: “Ouça, Ernest: por que você não reza?”. Pauline era uma católica muito religiosa e eu não era religioso coisa alguma, mas ela havia sido tão boa para comigo, que eu achei aquilo o mínimo que eu podia fazer por ela. Havia uma pequena igreja a dois quarteirões de distância, e fui lá e fiz uma breve oração. Depois, voltei para o nosso quarto, Pauline estava na cama, à espera. Despi-me, e meti-me na cama e amamo-nos como se tivéssemos inventado o amor. E jamais tornamos a ter qualquer dificuldade. Foi então que me tornei católico.
(...)
– Uma vez iniciado, o Adeus às Armas corria como uma Duesenberg. Claro que uma grande parte dele era uma projeção de minhas próprias experiências, mas muita coisa, como, por exemplo, a retirada de Caporetto, não o era. Eu nunca estive na retirada de Caporetto – a despeito do que você possa ler nos sombrios estudos professorais acerca de meu perverso passado – e alguém, algum dia, escreverá um livro para prová-lo. Eu me vali, para fazê-lo, do que um amigo me disse e de todas as conversas que ouvi quando estive hospitalizado. Eu descobrira, ao escrever O Sol Também se Levanta, que era mais fácil escrever na primeira pessoa, porque se podia envolver imediatamente o leitor, de modo que tornei a aproveitar-me dessa vantagem em Adeus às Armas, mas, mais tarde, em To Have and Have No e em Por Quem os Sinos Dobram, usei a terceira pessoa. É mais difícil escrever-se na terceira pessoa, mas a gente tem a vantagem de poder mover-se melhor.
A redação de Adeus às Armas teve, realmente, um grande itinerário: depois de Paris, escrevi em Key West, e em Pignott, Arkansas; Kansas City, Missouri; Big Horn, Wyoming, e, depois, de novo em Paris, a fim de trabalhar nas provas tipográficas. A primeira redação levou seis meses, em contraste com as seis semanas de O Sol Também se Levanta. Mas, ao terminar de escrever Adeus às Armas, eu sabia que tinha conseguido realizar a coisa. Todos os que o liam o consideravam, desde o início, como algo especial. A gente sabe que acertou, quando consegue uma média de dez a um – isto é, se se conseguir que aquilo que se escreveu possua uma verdade e uma realidade dez vez mais poderosas do que a realidade original sobre a qual se está escrevendo. Ao terminar, enviei o manuscrito a Max Perkins, da editora Scribner, e ele ficou encantado.
(...)
Ernest deteve-se para observar uma fileira de prédios.
– No subsolo de um desses edifícios – disse ele – havia o melhor night club que já existiu por aqui: Le Jocquey. A melhor orquestra, as melhores bebidas, uma clientela estupenda, e as mulheres mais belas do mundo. Eu estava lá, certa noite, em companhia de Don Ogden Stewart e Waldo Pierce, quando o lugar foi alvoroçado pela mulher mais sensacional que alguém já viu. Ou que verá. Alta, pele cor de café, olhos de ébano, pernas paradisíacas, um sorriso que acabava com todos os sorrisos. Noite muito quente, mas ela usava um manteau de pele negra, os seios a erguer a pele como se fosse seda. Volveu os olhos para mim – ela estava dançando com um oficial inferior inglês que a havia trazido – mas eu retribuí-lhe o olhar como um hipnotizado, interferindo entre ambos. O tenente procurou pôr-me de lado, mas a garota deixou-o na mão e dirigiu-se a mim. Tudo o que havia debaixo daquele manteau se comunicou instantaneamente a mim. Apresentei-me e perguntei-lhe o nome. “Josephine Baker”, respondeu ela. Dançamos sem cessar o resto da noite. Ela jamais tirou o manteau. Só quando o night club cerrou as portas, é que ela me disse que não tinha nada em baixo.
(...)
– Joyce veio aqui [Closerie des Lilas] comigo algumas vezes – disse Ernest. – Eu o conheci desde 1921 até sua morte. Em Paris, ele vivia rodeado de amigos profissionais e de bajuladores. Tínhamos discussões que se tornavam muito veementes e, mais cedo ou mais tarde, Joyce se valia de insultos realmente rudes. Era um homem bom, mas impertinente – impertinente como o diabo – principalmente se alguém se punha a falar acerca de literatura, e quando já havia, verdadeiramente, tumultuado o ambiente, partia subitamente esperando que eu me encarregasse dos tipos que iam atrás dele pedir-lhe satisfação. Joyce era muito orgulhoso e muito rude, principalmente quando se tratava de intrometidos – ajuntou Ernest, sorvendo o seu Pernod. – Ele gostava, realmente, de beber e, nas noites em que eu o levava para casa, após longa noitada de libações, sua esposa, Nora, abria a porta, e dizia: “Bem, eis que James Joyce, o escritor, novamente embriagado em companhia de Ernest Hemingway”.
Permaneceu sentado em silêncio, a pensar em James Joyce e, depois, disse:
– Ele tinha medo mortal de raios.
O maitre d’hôtel aproximou-se com dois cardápios e solicitou autógrafos, em nome de um casal de fregueses. Depois que ele se retirou, Ernest comentou:
– Eles foram bons para mim aqui, quando precisei. Como naquela ocasião em companhia de Miró. Miró e eu éramos bons amigos. Estávamos trabalhando muito, mas nenhum de nós vendia coisa alguma. Minhas histórias voltavam sempre com bilhetes de recusa, e as telas não vendidas de Miró se achavam empilhadas por todo o seu estúdio. Havia uma pela qual eu me havia apaixonado: um quadro de sua fazenda no sul. A ideia me perseguia e, embora eu estivesse sem dinheiro, queria possui-la, mas, como éramos amigos íntimos, insisti em que fizéssemos transação através de um corretor. De modo que ele entregou o quadro a um vendedor, que, sabendo que tinha um comprador garantido, estipulou o preço em duzentos dólares– preço terrivelmente alto para mim – mas consegui pagá-lo em seis prestações. O vendedor fez-me assinar um documento em que o quadro lhe ficava penhorado, de modo que, se eu deixasse de efetuar qualquer dos pagamentos, perderia a tela e tudo o que eu já havia pago. Bem, eu “me virei” e consegui pagar todas as prestações. Eu não havia vendido um único conto ou artigo, de modo que não tinha um franco sequer em meu nome. Pedi ao vendedor uma prorrogação do prazo, mas ele, naturalmente, preferiu conservar meu dinheiro e o quadro. Neste ponto é que a Closerie entra em cena. No dia em que devia efetuar o pagamento, vim aqui, triste como o diabo, tomar um drink. O barman perguntou-me o que se passava, e eu lhe contei a respeito do quadro. Ele, discretamente, disse aos garçons o que me estava acontecendo, e eles se cotizaram e me arranjaram o dinheiro, tirando de seu próprio bolso.
– Você se refere àquela tela A Fazenda, que se acha em sua casa, em Cuba?
– Exatamente. Eu a pus no seguro por duzentos mil dólares. Você bem pode compreender por que gosto disto aqui. Outra ocasião, eu desejava alugar um apartamento aqui perto, mas, não tendo móveis nem dinheiro, era o que se poderia chamar um grande risco como inquilino. O proprietário estava fora da cidade, e o concierge, que era meu camarada, permitiu que eu ficasse lá até que ele voltasse. Na véspera do dia em que o proprietário devia chegar, um de meus amigos, que ocupava uma boa posição, procurou algumas pessoas suas conhecidas, as quais possuíam, quase todas, boas coleções de arte, e tomou emprestados dois Cézannes, três Van Goghs, dois Van Dicks e um Ticiano. Disse-lhes que era para uma exposição de caridade. Dependuramos todas essas telas em minha sala e, embora eu não tivesse móveis na espelunca, o proprietário ficou tão impressionado com minha “coleção”, que assinou um contrato por um ano.
(...)
Nos meus primeiros anos aqui, quando fiz minha tentativa [de tornar-me escritor], como você diz que deseja fazer a sua, e quando deixei o meu emprego no Toronto Star para participar de tal páreo, sofri bastante. Eu havia, finalmente, abandonado o jornalismo de que vinha me queixando, e estava, afinal, escrevendo todas as boas coisas que eu prometera a mim mesmo. Mas, todos os dias, os manuscritos recusados voltavam através do vão da porta daquele quarto nu em que morava, sobre aquela serraria em Montmartre. Caíam, através da fenda, sobre o assoalho de madeira e, preso a eles, havia aquela mais selvagem de todas as reprimendas: o papelzinho impresso de recusa. É muito difícil de se aceitar, com estômago vazio, o papel impresso de recusa, e havia ocasiões em que eu me sentava na velha mesa de madeira e lia um daqueles frios papeluchos, preso a uma história que eu amava, e na qual trabalhava arduamente, e na qual acreditava, e não podia deixar de chorar.
– Jamais o imaginei chorando – disse-lhe eu.
– Eu choro, rapaz – respondeu Ernest. – Quando a ferida dói demais, eu choro – ajuntou, mexendo, pensativamente, sua bebida. (...) ... deve-se considerar isto como uma norma, que é algo que eu conheço deveras: se a gente foi bastante feliz para viver em Paris quando jovem, então, onde quer que se vá, isso fica com a gente durante o resto da vida, pois Paris é uma festa móvel.
Mais tarde, ao tornar ao quarto do hotel, anotei cuidadosamente essas palavras à margem do meu guia Michelin e, anos depois, quando Mary Hemingway estava à procura de um título para as memórias de Ernest, publicadas, postumamente, em Paris – e que ele deixara sem título – lembrei-me dessas palavras, “uma festa móvel” [“Paris é uma festa” no Brasil], e dei-lhas para o título de seu livro. Elas também aparecem em Do Outro Lado do Rio, quando o coronel se refere à felicidade de uma festa móvel, mas, certamente no léxico de Ernest, Paris e felicidade são sinônimos.
(...)
Sua curiosidade e espírito de pesquisa faziam-no mergulhar numa infinidade de minúcias, as quais fluíam por sua goela abaixo e emergiam, cristalizadas, nas páginas de Death in the Afternoon, em Big Two-Hearted River ou em técnicas impecáveis de pesca submarina ou em suas descrições de caça grossa.
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