New York – 1949
Ernest chegou a New York em fins de outubro de 1949, trazendo consigo o manuscrito de Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores. A cidade de New York era, para ele, apenas uma estação de breve permanência, um lugar em que ficava cerca de uma semana, na ida ou na volta de algum lugar importante. Havia sempre, em New York, um grupo de pessoas com o qual ele se punha em contato ao chegar, bem como um grupo periférico, mais amplo, que se punha em contato com ele. Durante anos, seu hotel preferido foi o Sherry-Netherland (ele apreciava a “boa proteção” que lá havia: ausência de seu nome do registro de hóspedes, chamadas telefônicas “peneiradas”, repórteres e fotógrafos despistados); (...)
Ernest sentia-se sempre pouco à vontade em New York, e gostava de nela permanecer menos tempo do que em qualquer outra cidade que frequentava. Mary adorava-a, e eu desconfio que ele a visitava, tão frequentemente como o fazia, como um favor a ela. Não gostava de ópera ou de ballet e, embora apreciasse música, raramente ia, que eu saiba, a concertos musicais de qualquer espécie, quer se tratasse de música erudita ou de jazz. Ia apenas a lutas de boxe que apresentassem pugilistas realmente bons, sendo que, às vezes, fazia uma viagem especialmente para assistir a uma luta de primeira classe, em que estivesse em jogo o título de algum campeão. Do contrário, não. Quando nos Estados Unidos, acompanhava avidamente, pela televisão, os jogos de rúgbi profissionais (os jogos realizados nos Estados Unidos não eram apresentados, pela televisão, em Cuba), mas não ia aos jogos. Adorava basebol, costumava assistir a qualquer partida; não raro, vinha a New York apenas para assistir aos jogos do Campeonato Nacional.
Os únicos bares de que gostava eram o Toots Shor’s, o Old Seidelburg, e o Tim Costellos’s. Perguntei-lhe acerca da história que eu ouvira contar a respeito da ocasião em que ele e John O’Hara tiveram uma discussão sobre a dureza de suas próprias cabeças, discussão essa que terminara abruptamente, tendo Ernest apanhado um cacete que Costello conservava atrás do balcão e, segurando-o com uma das mãos em cada extremidade, partira-o em sois sobre sua própria cabeça. Indaguei de Ernest se a história era apócrifa. Ele riu.
– Boa história para não se negar – respondeu-me.
(...)
A primeira vez que fui a um circo em sua companhia, ele estava tão ansioso por ver os animais, que se dirigiu ao Madison Square Garden uma hora antes da abertura dos portões. Demos a volta, até chegar a uma entrada lateral situada em Fiftieth Street, e Ernest bateu fortemente à porta até aparecer um empregado. Este procurou mandar-nos embora, mas ele tinha um cartão assinado por seu velho amigo John Ringling North, declarando que o portador devia ter entrada livre, no circo, a qualquer hora e em qualquer lugar. Descemos, como sempre fazíamos antes que o circo começasse, e percorremos as jaulas. Ernest ficou fascinado pelo gorila; embora o tratador estivesse nervoso como o diabo e o aconselhasse a não ficar muito perto da jaula, ele queria fazer amizade com o animal. Permaneceu junto à jaula, e pôs-se a falar com o gorila num ritmo staccato, e continuou falando até que o gorila, que parecia estar a escutá-lo, finalmente se moveu, apanhou seu prato de cenouras e despejou o seu conteúdo sobre a cabeça, pondo-se a choramingar – sinal seguro, afirmou o tratador, de sua afeição.
A essa altura, todos os tratadores já se haviam reunido em volta de Ernest, vivamente desejosos de que ele dissesse algumas palavras aos animais que se achavam sob seus cuidados, mas ele lhes disse que o único animal selvagem com o qual estabelecia verdadeira relação, ao falar, era o urso. Ao ouvir tal afirmação, o tratadordos ursos abriu caminho para ele.
Ernest deteve-se diante da jaula do urso polar e observou atentamente seu ocupante, que se movia de um lado para o outro no pequeno espaço.
– Ele é muito perigoso, Mr. Hemingway – disse o tratador. – Acho que seria melhor o senhor falar com este urso pardo, que tem excelente senso de humor.
– Eu poderia ser capaz de entender-me com ele – observou Ernest, permanecendo perto do urso polar – mas já faz tempo que não emprego conversa com urso, e é possível que eu esteja destreinado.
O tratador sorriu. Ernest acercou-se ainda mais das barras da jaula. E pôs-se a falar com o urso numa voz suave, musical, inteiramente diferente da sua “linguagem de gorila”, e o urso deixou de mover-se de um lado para o outro. Ernest continuou a falar, e as palavras, ou, talvez eu devesse dizer, os sons, eram diferentes de tudo o que eu até então ouvira. O urso recuou um pouco e grunhiu; depois, sentou-se sobre as patas traseiras e, olhando de frente para Ernest, pôs-se a emitir uma série de sons através do nariz, o que fazia com que parecesse um cavalheiro muito idoso atacado de forte resfriado.
– Com os diabos! – exclamou o tratador.
Ernest sorriu para o urso e afastou-se, enquanto o urso o seguia com o olhar, perplexo.
– É conversa de índio – disse Ernest. – Sou, em parte, índio. Os ursos gostam de mim. Sempre gostaram.
Embora Ernest gostasse de ver fitas de cinema em seu living room, em Cuba, as únicas películas que ele ia ver, em New York, eram as baseadas em seus romances e contos, ocasiões em que ele se impunha uma atitude de espírito dura. Durante dias, antes de dar o passo arriscado, falava sobre o seu incômodo dever de assistir a tal filme, pondo-se a mover-se em volta do plano como um caçador que cerca sua presa, antes de decidir-se a matá-la. Tomou sua decisão, quanto a Adeus às Armas, depois de um almoço, certo dia, no Le Veau d’Or, após ter-se lamentado, por um espaço de três dias, ser obrigado a “correr tal risco”. Tratava-se do filme de David O. Selznick, estrelado por Jennifer Jones e Rock Hudson. Ernest ficou apenas trinta e cinco minutos no cinema. Depois, caminhamos pela Fortyninth Street e subimos a Fifth Avenue em silêncio. Finalmente, disse-me:
– Você sabe, Hotch... A gente escreve um livro como esse e o aprecia através dos anos e, de repente, vê acontecer-lhe uma coisa assim: é como se a gente mijasse na cerveja do próprio pai.
Vimos O Sol Também se Levanta no dia anterior ao início do Campeonato Nacional de Basebol, para o qual Ernest fizera uma viagem especial. Quando Mary lhe perguntou que tal achava o filme, respondeu:
– Qualquer filme em que Errol Flyn é o ator principal é, ele próprio, o seu pior inimigo.
O único filme em que o próprio Ernest teve algo a ver foi O Velho e o Mar. Ele próprio preparou o script e, depois, passou semanas junto da equipe de filmagem ao largo do litoral do Peru, a pescar grandes makairas que jamais eram apanhadas na hora exata para as câmeras de technicolor; de modo que, como todos os filmes de makairas, elas acabaram sendo peixes de borracha, num tanque de Culver City. Ernest permaneceu sentado, entorpecido, durante todo esse filme.
– Spencer Tracy parecia um ator gordo, muito rico, fazendo o papel de pescador – foi o seu único comentário.
(...)
Mas voltemos àquele dia de outubro, em 1949, em que Ernest se registrou no Sherry-Netherland, trazendo consigo o seu Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores. (...)
Ernest estava sendo muito bem tratado quando lá cheguei. No centro da sala-de-estar, havia uma mesa redonda, sobre a qual se viam dois baldes de prata cheios de gelo, cada qual contendo uma garrafa de Perrier-Jouet, uma enorme lata azul de caviar beluga, uma bandeja de torradas, uma tigela de cebolas muito bem cortadas, uma tigela de fatias de limão, uma bandeja de salmão defumado e um pequeno vaso, contendo duas rosas amarelas. Em volta da mesa, achavam-se Marlene Dietrich, Mary Hemingway, Jigee Viertel, Charles Scribner, Senior e George Brown.
(...)
Reservamos mesas no “21”, e Ernest conduziu-me então ao quarto de dormir, onde abriu sua velha e judiada pasta de couro e entregou-me o manuscrito do livro.
– Oh, como eu gostaria que você fosse conosco! – exclamou ele. – Este irá ser um outono divertido. Uma de minhas garotas de Veneza me escreveu que estará de partida para Paris. Será preciso manobrar a coisa, e se você estivesse lá com as provas, sempre poderíamos arranjar uma conferência. E, quando não estivéssemos em conferência quanto ás provas, poderíamos estar em conferência em Auteuil. Georges poderia encarregar-se das formalidades... não este George, mas o Georges barman do Ritz. Você o conhece? Bem, ele tem muita classe quanto a isso, e nós poderíamos cuidar do trabalho externo, sendo que eu observaria e controlaria os acontecimentos, e poderíamos estabelecer uma banca de trabalho e agir partindo daí. Com os diabos! Quanto mais penso nisso, tanto mais deprimido me sinto, por estarmos empreendendo esta divertida viagem de outono, enquanto você ficará atrás de uma mesa de trabalho na English Avenue e, o que é mais, sentado numa escrivaninha Hearst.
Disse isso e pôs-se a cofiar, pensativo, os bigodes.
– Bem, Papá – respondi. – Como Mr. James Durante diz, “são as condições que prevalecem”.
– Condições, rapaz, somos nós que a fazemos. Eis como vamos agir – ajuntou, apanhando o manuscrito e retirando um monte de páginas do fim do livro. – Agora, você leva isto ao redator-chefe e diz-lhe que está tudo aí, exceto os últimos capítulos, que vou levar comigo, pois que precisam ser cuidadosamente revistos.
Quando entreguei o manuscrito a Herbert Mayes e lhe disse isso, ele quase pulou de sua cadeira:
– Os últimos capítulos! Santo Deus, você sabe muito bem que não se pode confiar nele. Como ele bebe! Aqui estamos nós, a enviar para a tipografia a terceira parte, e não teremos o final! Você terá de acompanhá-lo! Agarre-se a ele! Não o perca de vista! Precisamos ter aqui estes capítulos a primeiro de janeiro!
Ao voltar mais tarde, aquela noite, ao Sherry-Netherland, Ernest estava sentado numa poltrona, usando uma viseira branca de tênis, a ler um livro. Quando entrei no aposento, ele indagou, sem erguer os olhos do livro:
– Quando partimos?
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