Havana – 1948
Em 1920, casou com uma jovem de St. Louis, Hadley Richardson, com quem teve um filho. O casamento foi desfeito em 1927, quando contraiu matrimônio com Pauline Pfeiffer, que escrevia reportagens de Paris para a revista Vogue, e que se tornou mãe de seus outros dois filhos. Em 1940, Pauline divorciou-se dele. A escritora Martha Gellhorn tornou-se sua terceira esposa, sendo suplantada, em 1946, por Mary Welsh, também escritora.
Em princípios da década de vinte, casado com Hadley, viveu em Paris, onde escreveu O Sol Também se Levanta, um romance acerca de sua geração, que lhe trouxe rápida e duradoura fama. Realçou sua posição literária com Adeus às Armas, por ele terminado após o seu regresso aos Estados Unidos, para viver em Key West. Uma Aventura na Martinica era um reflexo dos anos que passou em Key West.
Entre um livro e outro, realizava grandes viagens, pescando makairas e atuns, empreendia safaris de caça grossa, e acompanhava as touradas na Espanha. Ao irromper, naquele país, a guerra civil, lutou ao lado dos legalistas e, depois, escreveu a respeito em Por Quem os Sinos Dobram, o mais lido de todos os seus livros.
(...)
Tinha cabelos castanhos, com reflexos cinzentos, e já grisalhos nas têmporas, bem como um espesso bigode, que lhe ultrapassava os cantos da boca, mas não usava barba. Era um homem imponente, não quanto à altura, pois tinha apenas seis pés e uma polegada [1,83 m], mas quanto ao impacto que causava. A maior parte de suas duzentas libras de peso [90 kg] concentrava-se acima da cintura: possuía ombros vigorosos e quadrados, braços longos e musculosos (o esquerdo marcado por uma cicatriz irregular e ligeiramente deformado no cotovelo), peito largo, barriga um tanto saliente, mas nada de quadris e coxas. Algo se irradiava dele: ele era intenso, eletrocinético, mas controlado, um cavalo de corrida refreado. Deteve-se para falar, em espanhol fluente, com um dos músicos, e logo alguma coisa, nele, me chamou a atenção: contentamento! Santo Deus, como ele se divertia! Eu jamais vira alguém cercado de tal aura de prazer e bem-estar. Ele irradiava isso, e todos os que se achavam presentes se sentiam influenciados. Seu rosto era muito mais expressivo do que eu esperava, a julgar pelas fotografias que vira.
Quando ele se aproximou do bar, saudando os garçons, notei que, em sua testa, bem acima do olho esquerdo, havia uma grande mancha oblonga, que parecia como se um remendo de argila cor de carne houvesse sido lá colocado ao acaso.
– Hotchner – disse ele, apertando-me a mão – bem-vindo ao Salão dos Focas [novato, em gíria jornalística].
Suas mãos eram grossas e fortes, os dedos um tanto curtos, as unhas aparadas rente. (...)
O trio musical, que consistia de um guitarrista grandalhão e feliz, de outro guitarrista de ar sério, que não sorria, e de um cantor magro, que também tocava maracas, pôs-se a executar e a cantar um número animado.
– Camaradas meus – comentou Hemingway. – Estão cantando uma canção que escrevi para eles. Gostaria que Mary estivesse aqui. Ela canta-a melhor. Uma noite estávamos aqui, o bar repleto, todos a divertir-se muito, quando entraram três sujeitos jovens e impetuosos, para tomar um drink no balcão. Tinham todos eles, estampadas, da cabeça aos pés, as iniciais: FBI. De modo que mandei um recado a estes rapazes e, ao soar a meia-noite, eles irromperam no Happy Birthday em inglês, todos os presentes participando da cantoria, e, ao chegarmos ao “Happy birthday, dear FBI”, os três J. Edgars quase afundaram no chão. Deram logo o fora.
Ficamos a beber daiquiris uns após outros, e a falar sobre Havana como lugar para se viver e trabalhar.
– Um sujeito como eu – disse Hemingway – com o mundo todo para escolher, faz com que os outros fiquem a indagar por que escolhi este lugar. Em geral, não procuro explicar. Complicado demais. Manhãs claras, frescas, em que se pode trabalhar, tendo apenas o Black Dog acordado e os galos de briga a enviar seus primeiros boletins. Em que outro lugar pode a gente treinar galos de briga, fazê-los lutar, apostar naquele que a gente acredita, e fazer tudo isso dentro da lei? Há quem diga que as brigas de galo são cruéis. Mas que outra coisa, com os diabos, um galo de briga gosta de fazer?
(...)
Havia dois Pilares na vida de Hemingway: um, a guerrilheira robusta de Por Quem os Sinos Dobram;o outro, uma lancha-cruzeiro com cabinas, verde e negra, de quarenta pés de comprimento – ambas assim chamadas em homenagem ao sacrário espanhol de igual nome. O barco de longo curso, Pilar, achava-se ancorado no cais de Havana, pronto para fazer-se ao largo, quando lá chegamos. Tinha ele uma ponte de comando superior munida de controles, riggers maiores do que os normais que podiam suportar iscas de dez libras e capacidade para quatro varas de cada vez. Ernest apresentou-me ao barco deixando transparecer o seu antigo carinho por ele. (...)
Os grandes motores foram postos em funcionamento; Ernest subiu à ponte de comando e manobrou-o para fora do porto, passando pelo Morro Castelo e subindo cerca de sete milhas ao longo da costa, até à aldeia de pescadores de Cojimar, que estava destinada a tornar-se a aldeia de O Velho e o Mar. Gregório [tripulante do Pilar desde 1938] preparou quatro linhas, duas com penas, duas com iscas de carne. Eu estava no convés de cima em companhia de Ernest. (...)
Pôs-se, então, a falar do Pilar com extraordinário orgulho: (...)
– De 1942 a 1944, nós o convertemos em barco fantasma e patrulhamos as águas ao largo da costa meridional de Cuba. Anti-submarino. Agia sob ordens do Serviço Secreto da Marinha. Passávamos como barco de pesca comercial, mas mudamos muitas vezes o disfarce do Pilar, para que não parecesse um barco que estivesse pescando demais. Tínhamos trinta e cinco mil dólares de equipamento de rádio na proa; mas tal equipamento era disposto de tal maneira que poderia ser lançado ao mar, caso necessário. Tínhamos metralhadoras, bazookas e explosivos de alta potência, tudo disfarçado em alguma outra coisa, e o plano consistia em colocar-nos numa posição em que pudéssemos receber instruções de algum submarino que subisse à tona. Um submarino que não estivesse alerta poderia ser apanhado por nosso plano de ataque. A tripulação era espanhola, cubana e americana, todos muito bons em suas tarefas, todos corajosos, e acho que nosso ataque, no sentido de capturar um submarino, teria dado certo.
– Mas jamais tiveram oportunidade de experimentá-lo?
– Não, mas pudemos enviar boas informações acerca da localização de submarinos, e o Serviço Secreto Naval reconheceu que havíamos localizado vários submarinos nazistas, que foram, depois, atacados pela marinha por meio de cargas de profundidade e, provavelmente, afundados. Fui condecorado por isso.
(...)
Mas eu não levava em conta uma qualidade de Ernest que eu iria observar e desfrutar durante os muitos anos que se seguiriam: sua soberba habilidade ao dar instruções e a infinita paciência que tinha com seus discípulos.
(...)
Através dos anos, com exceção de 1956 e 1957, quando estive vivendo em Roma, eu visitava Ernest, em Cuba, pelo menos uma vez por ano. (...) Havia sempre uma razão de “negócios” para essas viagens a Cuba ou a outros lugares do mundo em que Hemingway se encontrasse, mas sua maneira de tratar de negócios era amplamente tortuosa. Ele concedia, invariavelmente, dois dias para a gente “se acalmar” – eu, da viagem, ele de seu trabalho, ou por não estar trabalhando, ou, então, levado por alguma pressão misteriosa, que ele jamais identificou claramente. Acalmávamo-nos entregando-nos às distrações locais: se em Cuba, a pescar, a atirar nos pombos, a frequentar as competições de jai-alai e a apostar nelas, a proporcionar combates entre os galos de briga de Ernest, e assim por diante; se em Ketchum, Idaho, esse “acalmar-se” consistia em caçar patos selvagens, gansos, faisões, alces, corças, pombas, chukkers, perdizes húngaras, e em prepará-los e comê-los; o “acalmar-se” espanhol consistia em toda a espécie de touradas, visita ao Museo del Prado, viagens, comer, beber e participar do ambiente.
(...)
Escrevia de pé, usando a parte superior de uma pequena estante situadaao lado de sua cama. Metera lá uma máquina de escrever portátil, e as folhas de papel achavam-se espalhadas sobre a estante, de ambos os lados da máquina. Para escrever à mão, usava uma estante de leitura.
(...)
Nessa primeira visita à finca [Finca vigia, a propriedade de Ernest em Havana, na pequena localidade São Francisco de Paula], minha esposa e eu devíamos ficar alojados na casa de hóspedes, mas Mary Hemingway, mulher loura e vivaz, desculpou-se, ao acolher-nos, dizendo que a casa não estava inteiramente preparada.
– Jean-Paul Sartre apareceu aqui ontem, inesperadamente, em companhia de uma amiga – disse ela – e as roupas de cama não foram ainda trocadas.
Quando nos dirigíamos à casa principal, Ernest confidenciou-me:
– Sabe o que Sartre me disse ontem à noite, ao jantar? Que um jornalista criou a palavra “existencialismo”, e que ele, Sartre, nada tinha a ver com ela.
Entramos no living, e Ernest olhou um momento para o teto:
– O Duque e a Duquesa de Windsor estiveram aqui a semana passada, mas pareciam apenas fascinados pelo reboco que está caindo.
Notei que Ernest tinha três longas e profundas cicatrizes no antebraço, e perguntei-lhe o que havia sido aquilo.
– Leões – respondeu ele. – Havia um circo erguido aqui perto, com dois bons leões de cinco anos de idade. Irmãos. Era maravilhoso ouvi-los urrar, pela manhã. Fiz amizade com o treinador. Deixou que eu os adestrasse, e eu lidava com eles com um jornal enrolado, mas a gente tem de ter o cuidado de não voltar as costas.
– Eu tinha imaginado realizar em público um número maravilhoso. O treinador me anunciaria como sendo um ilustre domador del norte, agora afastado da profissão, mas que, devido à sua afición, dedicava aquele número especial ao público cubano. O clímax era quando eu me deitava e ambos os leões colocavam as patas dianteiras sobre o meu peito. Comecei a praticar isso, mas fui arranhado duas vezes no braço, ao adestrá-los.
Disse-lhe que o adestramento de leões era uma tarefa um tanto perigosa para um escritor que desejava continuar a exercer sua profissão.
(...)
Aquela noite, depois do jantar, Ernest mostrou-me a casa. Retirou, de uma estante da biblioteca, primeiras edições de obras com dedicatórias de James Joyce, Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Sherwood Anderson, John Dos Passos, Robert Benchley, Ford Madox Ford, Ezra Pound e muitos outros. Remexeu uma mala cheia de fotografias antigas e álbuns de recortes. Num velho álbum, havia uma sua fotografia com cinco ou seis anos de idade. No verso, escrita por sua mãe, lia-se a seguinte anotação: “Ernest aprendeu a atirar, com o pai, quando tinha dois anos e meio e, aos quatro, já sabia manejar uma pistola”.
Deparamos, também, com a fotografia de uma Marlene Dietrich de aspecto muito jovem, com dedicatória: “Para Ernest, com amor”.
– Sabe como nos conhecemos, a Kraut [Alemã], e eu? – indagou Ernest. – Quando jovem, no tempo em que andava “duro”, eu estava viajando de segunda classe no Ile, mas um companheiro meu, que viajava na primeira classe, me emprestava seu smoking de reserva e me fazia tomar as refeições, clandestinamente, em sua companhia. Uma noite, jantávamos no salão, meu companheiro e eu, quando surgiu no topo da escada, de branco, esse espetáculo inacreditável. A Kraut, naturalmente. Um vestido longo e justo, enfeitado de contas brancas, sobre aquele corpo; quanto aquilo que se chama Pausa Dramática, ela pode dar uma lição a quem quer que seja. Ela faz, então, essa Pausa Dramática na escada; depois, desce lentamente, com ar descuidado, ao salão, dirigindo-se ao lugar em que Jock Whittney, penso que era ele, estava oferecendo um jantar festivo. Claro que ninguém no salão, desde sua chegada, levou comida à boca. A Kraut aproxima-se da mesa e todos os homens se levantam, sua cadeira já à espera, mas ela conta os presentes. Doze. Ela, claro, desculpa-se, dizendo que é muito supersticiosa quanto a ser a décima terceira pessoa em qualquer coisa e, dizendo isso, volta-se para ir embora, mas eu, que também me havia levantado, ofereço-me, num gesto cavalheiresco, para salvar a festa, tornando-me o décimo quarto conviva. Foi assim que nos conhecemos. Bastante romântico, hem? Talvez eu deva vender isso a Darryl F. Panic.
(...)
Estávamos na finca havia já três dias, quando Ernest veio com a ideia da substituição de seu artigo sobre O Futuro da Literatura [esta proposta do editor da revista Cosmopolitan foi que levou Hotchner a entrar em contato com Ernest na primavera de 1948]: ao invés disso, ele escreveria dois contos. Algumas de suas narrativas, como, por exemplo, The Short Happy Life of Francis Macomber, tinham sido publicadas na Cosmopolitan, disse ele, e seria melhor, tanto para ele como para a revista, que escrevesse trabalhos de ficção, que eram o seu forte, em lugar de trabalhos de pensamento, que não o eram. Acentuou, todavia, que um artigo não equivalia, quanto ao valor, a dois contos – tendo a revista, subsequentemente, aumentado o pagamento para vinte e cinco mil dólares [o valor do artigo proposto pela revista era de mil e quinhentos dólares].
(...)
Durante toda a primavera de 1949, recebi cartas de Ernest do Gritti Palace Hotel, em Veneza, bem como de Villa Aprile, em Cortina d’Ampezzo, que é uma magnífica região para a prática de esqui, no norte da Itália. Ele escreveu-me que Mary fraturara a perna num acidente de esqui, referindo-se, ainda, a uma grave infecção ocular que o acometera, e devido à qual se achava hospitalizado, mas nada disse a respeito dos contos. Foi durante essa época que me instigou a conhecer Charles Scribner, Junior, tendo-me dito, mais tarde:
– Espero que você goste de Charlie. Ele gostou muitíssimo de você, como gosta de quase todo mundo. Detesta escritores. (...)
A primeira vez que Mr. Scribner e eu nos encontramos foi para discutir uma declaração de caráter médico de Ernest, que ele enviara a Scribner da Itália, a fim de ser divulgada pela imprensa. Ernest insinuava que aquela declaração talvez pudesse dissipar a pressão que se fazia em torno dele.
– Principalmente aqui, no hospital, empenhado em minha luta e sob o assédio dos falcões da imprensa em busca de notícias, como Heitor foi assediado pelos gregos em Tróia.
A declaração dizia: “É certamente estranho, embora não o seja de maneira particular, creio eu, que as pessoas nos julguem impostores. Não permiti a entrada de fotógrafos, nem de quaisquer repórteres, porque me sentia por demais fatigado e empenhado em minha luta e, ainda, porque meu rosto estava incrustado como uma lâmpada de flash após ter sido usada. Tinha uma infecção por estreptococo, uma infecção por estrafilococo (provavelmente mal escrito), além de erisipela, treze milhões e meio de unidades de penicilina, mais três milhões e meio quando ela começou a ceder. Os médicos, em Cortina, achavam que a infecção poderia penetrar no cérebro e causar meningite, já que o olho esquerdo estava inteiramente atingido e fechado de modo tão completo cada vez que eu o abria, mediante aplicação de ácido bórico, uma grande parte das pestanas se desprendia.
Aquilo podia ser devido à poeira de estradas rurais, ou a fragmentos de cartuchos [Ernest referia-se a fragmentos de cartuchos de espingarda, em suas caçadas de patos selvagens. Durante o tempo em que esteve hospitalizado, a erisipela afetou-lhe ambos os olhos, estendendo-se por outras partes do rosto. Quando seus olhos incharam e se fecharam por completo, os médicos foram de opinião que aquilo talvez pudesse ser-lhe fatal].
Ainda não posso barbear-me. Tentei-o por duas vezes, mas aparecem vergões e manchas, e a pele se descasca como selos postais. De modo que, uma vez por semana, passo pelo rosto uma máquina de cortar cabelo. Parece, assim, que não estou barbeado, mas não que eu esteja usando barba. Tudo o que disse acima é verdadeiro e exato, e você pode comunicar a quem quer que seja, inclusive à imprensa”.
Ernest regressou a Cuba ali pelo verão de 1949 e, em fins de julho, telefonou-me, a fim de me comunicar que o plano das duas histórias para a Cosmopolitan havia tomado outro rumo. Sugeria-me, pois, que eu o visitasse em setembro. (...)
Indaguei se podia levar-lhe algo.
– Bem, sim – respondeu ele. – Se puder, traga-me uma lata de caviar beluga de Maison Glass, e uma máquina de escrever Smith-Corona portátil, tipo paica. Quanto às histórias, creia que tenho uma bela surpresa para você. Tenho trabalhado de modo mais ardente do que a grelha que torrou San Lorenzo.
A surpresa era que Ernest começara uma das histórias que prometera à Cosmopolitan, originalmente intitulada A Short Story, quando se achava hospitalizado na Itália. Disse-me que a começara para fazer frente às despesas de seu enterro iminente. À medida, porém, que ele melhorava, a narrativa aumentava, tudo indicando, agora, que se converteria num romance. Ernest chamava-a de Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores.
– Todos os meus livros começaram como contos – comentou. – Jamais me sentei para escrever um romance.
Estávamos a bordo do Pilar, quando me deu para ler os primeiros capítulos. Ele achava-se sentado a meu lado, a ler por sobre os meus ombros. Era-me impossível fazê-lo, com ele a respirar em meu ouvido, e eu apenas percebia vagamente o que estava lendo. Nos anos subsequentes, eu iria constatar que todos os seus trabalhos em andamento me seriam mostrados dessa maneira. Embora não fosse fácil, aprendi, depois, a alhear-me do autor que se debruçava sobre o meu ombro. Naquela ocasião, porém, Ernest me distraía por completo a atenção com suas reações ante o manuscrito – rindo diante de certas passagens, fazendo comentários acerca de outras, como se se tratasse do livro de outra pessoa. Ele começou a guardar as folhas datilografadas (encarava sempre as páginas de um manuscrito em andamento como se fossem as Jóias da Coroa), mas perguntei-lhe se podia lê-las uma segunda vez – e, assim, mais tarde, consegui lê-las realmente.
(...)
Gregório ancorou o barco a várias centenas de jardas da praia. A água, agora, estava muito agitada, mas o Kawama Club não dispunha de ancoradouro, de modo que tivemos de nadar até a praia. Mary pode emprestar um maiô de Geraldine, mas Ernest me olhou de alto a baixo, os olhos contraídos, e abanou a cabeça.
– Hotchner, seria inútil uma troca de calças. Eu transportarei a minha.
Julguei que ele pretendesse colocar um par de calças num saco à prova d’água e rebocá-lo até a praia – mas isso seria a maneira mais fácil.
As mulheres mergulharam e puseram-se a nadar. Ernest havia apanhado um calção e uma camisa, e enrolou-os firmemente, colocando dentro uma garrafa de bom clarete, pois que não confiava no vinho do Kawama Club, e, depois, os atou com o seu cinto de couro Gott Mit Uns. Desceu pela escada do barco e entrou, com cuidado, na água. Segurando a pequena trouxa com a mão esquerda, que ele mantinha erguida sobre a cabeça, para conservá-la seca, pôs-se a nadar vigorosamente contra a mar revolto, mantendo a parte superior do torso fora da água e empregando apenas o braço direito e as pernas para locomoção. Aquilo era uma notável exibição de equilíbrio e vigor; eu nadava a seu lado e, mesmo usando ambos os braços, parecia-me árduo prosseguir.
Cheguei à praia poucos instantes antes de Ernest e, enquanto me achava de pé, vendo-o vencer as últimas jardas, o braço esquerdo inflexivelmente erguido, segurando as calças secas e enroladas como um galhardete tubular no topo de um mastro musculoso, ele era um deus marinho imortal, sem relação alguma com Oak Park, Illinois, mas Poseidon a emergir de seu reino aquático. Saiu do mar a escorrer água, sorrindo, feliz, para as suas calças secas, sem estar, sequer, sem fôlego.
Ernest telefonava-me com frequência acerca de Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores.
– Tenho trabalhado muito – disse-me ele, certa feita. – Black Dog também está cansado. Ele ficará contente quando o livro estiver terminado e eu também. Mas, por Deus, sentirei falta dele durante algum tempo. Acabo de escrever um capítulo deveras estupendo – diz, modestamente, o autor. – Apanhei a coisa toda, para confranger-lhe o coração, em duas páginas. Ontem, Roberto fez a conta do que já escrevi. Ele detesta contar, mas conta com exatidão e, com o que escrevi esta manhã, a coisa chegar a 43.745 palavras. Isto, como você sabe, se refere apenas ao que se tem como certo. Acho que devia chegar a sessenta mil palavras, ou pouco menos.
Quanto ao dinheiro, rogo-lhe o favor de me avisar. Devíamos fazer um contrato, antes de terminar. É, na verdade, o melhor livro que já escrevi, creio eu, mas sou suspeito, claro, para dizer isso. Tenho apenas de completar mais dois turnos, e pretendo dar a coisa por encerrada.
A resposta da Cosmopolitan acerca do contrato foi a de que Ernest era um amigo tão antigo e precioso da organização Hearst, que devia estipular seu próprio preço. Quando lhe dei, por telefonema, essa notável informação, ele me telefonou a respeito. Queria saber qual o preço máximo que a jamais pago pela publicação de um romance em capítulos.
– Setenta e cinco mil dólares, respondi-lhe.
– Okay – disse ele. – Acho que devo pedir que acrescentem dez mil dólares a essa quantia. (...)
Embora eu não soubesse na ocasião, pois que não o conhecia há muito tempo, esse uso um tanto frequente do telefone era bem raro em Ernest. Mais tarde, explicou-me que havia apenas umas poucas pessoas com quem ele se sentia à vontade ao telefone. Marlene Dietrich era uma delas. Toots Shor era outra. Em geral, Ernest acercava-se do telefone com sombria desconfiança, espreitando-o, virtualmente, por trás. Apanhava-o nas pontas dos dedos e levava o fone ao ouvido, como para verificar se alguma coisa palpitava no interior do aparelho. Quando falava ao telefone, sua voz se contraía e o ritmo de suas palavras mudava, como o falar de um americano muda quando conversa com um estrangeiro. Ernest voltava, sempre, fisicamente exausto, suando, de uma conversa telefônica, e procurava tomar uma bebida forte. (...) Gostava de telefonar para Marlene Dietrich porque, como dizia, eles se amavam muito e sempre contavam um ao outro tudo o que acontecia sem jamais mentir, exceto quando necessário e, mesmo assim, apenas numa base temporária.
Mais tarde, quando vim a conhecer Marlene muito mais, ela me disse:
– Jamais pedi conselhos a Ernest, propriamente falando, mas ele sempre lá está para a gente conversar, para escrever cartas e, tanto em sua conversa como em suas cartas, encontro coisas que posso usar para resolver quaisquer problemas que eu possa ter. Ele, não raro, tem-me ajudado sem sequer saber quais os meus problemas. Diz coisas notáveis, que parecem ajustar-se automaticamente a problemas de todos os tamanhos.
Há poucas semanas, por exemplo, falei-lhe por telefone. Estava sozinho na finca; tinha terminado o seu trabalho daquele dia e queria conversar. A certa altura, perguntou-me quais os meus planos de trabalho, se é que eu tinha algum, e respondi-lhe que acabara de receber uma oferta muito vantajosa de um night club de Miami, mas que estava indecisa se devia ou não aceitá-la.
– Por que a indecisão? – indagou ele.
– Bem – respondi – sinto que deveria trabalhar. Não devia desperdiçar meu tempo. Isso é mau. Creio que um aparecimento em Londres e outro, anualmente, em Las Vegas, é mais do que suficiente. Contudo, talvez eu esteja apenas mimando a mim mesma, de modo que estou procurando convencer-me a aceitar tal oferta.
Fez-se silêncio por um momento, e pude ver, mentalmente, o belo rosto de Ernest mergulhado em reflexão. Finalmente, ele disse:
– Não faça o que você sinceramente não quer fazer. Jamais confunda movimento com ação.
Nessas cinco palavras, ele me deu toda uma filosofia.
Eis aí o que há de maravilhoso nele: ele se ajoelha diante dos problemas de seus amigos. É como uma rocha situada algures, algo constante e firme – aquele certo alguém que todos deviam ter e que ninguém tem.
Creio que a coisa mais notável em Ernest é ter ele encontrado tempo para fazer as coisas que a maioria dos homens somente sonha em fazer. Ele teve a coragem, a iniciativa, o tempo, a alegria de viajar, de assimilar tudo, de escrever, de criar, em certo sentido, tudo o que viu. Existe nele uma espécie de tranquila mutação de estações, cada uma delas passando por sobre a terra, desaparecendo debaixo dela e ressurgindo numa espécie de ritmo, reavivada e cheia de renovado vigor.
Ele é delicado, como o são todos os homens de verdade; sem ternura, um homem é desinteressante.
– O que há a respeito da Kraut e de mim – disse Ernest, depois de lhe haver contado o que Marlene disse dele – é que temos estado apaixonados desde 1934, quando nos conhecemos no Ile de France, mas jamais fomos juntos para a cama. Surpreendente, mas verídico. Vítimas de uma paixão não sincronizada. Nas ocasiões em que eu não estava amando, a Kraut achava-se mergulhada em alguma atribuição romântica, e, nas ocasiões em que Dietrich estava à superfície, a andar com aqueles olhos maravilhosamente perscrutadores, eu me encontrava submerso. Houve uma outra viagem no Ile, anos mais tarde, quando algo poderia ter acontecido – a única vez em que isso poderia ter ocorrido – mas eu, havia pouco, tinha amado aquela insignificante M..., e a Kraut estava ainda um tanto apaixonada por aquele igualmente insignificante R.... Éramos como aqueles dois jovens oficiais de cavalaria que tinham perdido todo o seu dinheiro no jogo, mas que estavam ainda resolvidos a continuar jogando.
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