OS TREZE ÚLTIMOS ANOS DE VIDA
Um livro com quase trezentas e cinquenta páginas intitulado “Papá Hemingway”, de A. E. Hotchner, publicado no Brasil em 1967, encontrei em um sebo e comprei-o via internet. Hotchner foi amigo pessoal de Ernest durante mais de uma década e todo o livro é memória dessa amizade. Naturalmente, o livro todo tem de ser lido, mas me aventuro a selecionar algumas passagens que me chamaram a atenção, permitindo-me conhecer não um Hemingway idealizado, mas o homem real, com todas as suas qualidades positivas e negativas, como fui percebendo nas leituras anteriores. Creio que se tivesse optado por ler uma biografia oficial ou me atido apenas aos documentários de televisão, jamais eu teria uma visão de Ernest humano que as leituras anteriores me proporcionaram. Tendo eu nascido em outra época, é claro que minha visão de mundo é muito diferente da visão do meu amigo que viveu a maior parte de sua vida na primeira metade do século XX. Houve momentos em que me irritei com o Ernest que foi sendo revelado por quem o conheceu intimamente. Lamento apenas não dispor em tradução para o Português de textos escritos pelas suas quatro esposas a respeito do marido. Eu teria, assim, o conhecimento de como era Ernest na intimidade do lar, como esposo e pai. Mas tenho de me resignar com o mercado editorial brasileiro.
No prefácio ao seu livro, escrito em Roma em 1965, Hotchner escreve com o coração a razão de ser de sua obra.
No dia 2 de julho de 1961, um escritor que muitos críticos consideram o maior escritor deste século (XX), um homem cujo gosto pela vida e pela aventura era tão grande quanto o seu talento, um vencedor do Prêmio Nobel e do Prêmio Pulitzer, um soldado da fortuna que tinha um lar nas Montanhas Sawtooth, em Idaho, onde caçava no inverno, um apartamento em New York, um iate especialmente aparelhado para pescar no Gulf Stream, um apartamento à sua disposição no Ritz, em Paris, e no Gritti, em Veneza, um casamento sólido, nenhuma enfermidade física séria, bons amigos em toda parte – naquele dia de julho, esse homem, inveja de outros homens, levou uma arma à cabeça e suicidou-se.
Como pôde tal acontecer?
Por quê?
Fui seu amigo íntimo por catorze anos, até o dia de sua morte. Conhecia sua vida: as aventuras, as conversas, os sonhos e desilusões, os triunfos e malogros desse homem único, complicado, dotado de senso de humor, ardente, amante de entretenimentos, que foi Ernest Hemingway, mas não sei responder a essas perguntas. Ninguém sabe.
Mas, para falar de sua vida, devo, inevitavelmente, referir-me à sua morte e aos acontecimentos que a precederam. Ponderei longa e gravemente sobre isso: se essa parte de sua biografia deveria ser aqui incluída, ou se algumas partes deveriam ser suprimidas, ou generalizadas e disfarçadas. Mas, no fim, guiei-me pelo que o próprio Ernest me disse, quando perguntei a mim mesmo se ele deveria ter sido tão franco e aberto ao referir-se a Scott Fitzgerald.
– A vida de todo homem termina da mesma maneira – disse-me Ernest. – Apenas os pormenores de como viveu e morreu distinguem um homem de outro.
Disse-me, ainda, que, para ele, havia somente uma maneira de explicar as coisas: contar ao leitor toda a verdade a respeito delas, sem ocultar nada; contar ao leitor como a coisa realmente aconteceu, o êxtase e a tristeza, o remorso e como estava o tempo e, com um pouco de sorte, o leitor encontrará o seu caminho até o âmago da própria coisa.
Foi o que procurei fazer, sem ocultar nada – e isso foi o mais próximo possível a que consegui chegar do POR QUÊ.
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