quinta-feira, 11 de abril de 2024

XXII. ERNEST POR ADRIENNE MONNIER



            Mais um livro que se tornou para mim uma memória afetiva: “Rua do Odeon”. São as memórias de Adrienne Monnier, livreira e companheira de Sylvia Beach, da “Shakespeare e Cia”. A referência a Ernest se dá ao final da Segunda Guerra Mundial e da ocupação nazista a Paris. É uma cena verdadeiramente cinematográfica! 

 

Hemingway liberta a rua do Odéon 

 

... Mas vocês sabem quem [de todos os nossos amigos americanos] nos visitou primeiro, ao mesmo tempo que a Libertação? ... Ernest Hemingway. Sua chegada à rua do Odéon foi bastante digna de nota para que eu a conte. 

Foi no sábado 26 [de agosto de 1944], dia do atentado fracassado contra o general de Gaulle. Tínhamos saído com a intenção de ir à Notre-Dame, mas os tiros nos pegaram no bulevar do Palais e nos obrigaram a tomar o caminho de volta, uma volta pontuada pelos conhecidos tiros dados dos telhados. 

Nossa rua não era das mais calmas. Ao subi-la num passo prudente e ao longo das paredes, vimos à altura do n.o 12, isto é, da Shakespeare and Company, quatro pequenos carros (não eram jipes), com a inscrição BBC na traseira, em grandes letras brancas; não prestamos muita atenção. 

De volta a nosso quarto andar, ouvimos ao cabo de um instante uma voz que vinha da rua: “Sylvia! Sylvia!”. Corremos para a janela e vimos Saillet diante da porta e gritando, as mãos como cornetas: “Sylvia! Hemingway está aqui!”. Sylvia desceu as escadas de quatro em quatro, e minha irmã e eu vimos embaixo, como se vê um salto de carpa, a pequena Sylvia levantada por dois braços michelangelescos, as pernas batendo no ar. Descemos, por nossa vez, rapidamente a escada. Pois bem, era mesmo Hemingway, mais gigante que nunca, cabeça nua, camisa de manga curta, homem das cavernas de olhar fino e aplicado por trás de plácidos óculos. Estava com um soldado que usava capacete e jaqueta: um francês chamado Marceau, que ele nos apresentou como seu afetuoso guarda-costas. Os quatro veículos eram seus, a divisão Hem, dezesseis homens, americanos e franceses, meio a meio, vestidos com o mesmo uniforme; os franceses, homens do maquis a que ele se juntara, combatendo ao longo da estrada desde a Bretanha. Alguns dias antes, haviam tomado Rambouillet sozinhos; na véspera, havia tomado o Ritz de assalto e, naturalmente, se haviam instalado nos melhores quartos. Por enquanto, com pouca pressa de baixar as armas, vinham purgar a rua do Odéon de seus atiradores dos telhados. Já haviam subido em várias casas suspeitas, que a toda hora os curiosos lhes indicavam. Na verdade, ainda não tinham encontrado nada. Como meu prédio ainda não havia sido visitado, era conveniente que subissem e descansassem.  

Fui em direção aos homens que, de pé junto dos pequenos veículos ou sentados em seu interior, esperavam as ordens de seu capitão, e os convidei a vir beber o vinho que eu havia guardado para eles, como todo francês que se respeita. Mas já tinham feito com que bebessem tanto, que se recusaram, depois de me terem vigorosamente apertado a mão. Só o bom Marceau aceitou acompanhar Hemingway, ele e um jovem americano que veio para nos fazer uma gentileza e como se fosse representante dos outros; contentaram-se em molhar os lábios no vinho. 

Hemingway, com a testa franzida, através do matagal de nossas perguntas e de suas respostas, abria passagem a uma ideia: encontrar um sabão de Marselha para nessa noite lavar sua camisa em seu lavabo no Ritz. Ofereci-lhe, sem hesitar muito, meu último pedaço. (Sejamos francos, era o penúltimo.) 

Uma outra ideia o preocupava: eu, Adrienne, não tinha sido, durante esses anos de ocupação, levada a colaborar um pouco? – nesse caso ele se oferecia para me tirar de qualquer perigo possível. (Evidentemente, devia ele pensar, essa gorda gulosa não pôde suportar as restrições; ela deve ter fraquejado num momento ou outro.) Fiz seriamente meu exame de consciência: claro que não, eu não tinha “colaborado”. Ele levou Sylvia para um canto e lhe repetiu a pergunta: “Você está certa, Sylvia, de que Adrienne não colaborou e não precisa de ajuda?” – “Mas não”, respondeu Sylvia, “se ela colaborou, foi conosco, os americanos”. Hemingway pareceu mostrar algum pesar por não poder ser o Cavaleiro – um ligeiro pesar marcando as ondas em seu bom rosto novamente tranquilizado.  

1945  

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...