Chegou-me às mãos, enquanto eu procurava conhecer em detalhes a vida de Ernest, um livro de Gertrude Stein, “A Autobiografia de Alice B. Toklas” e encontrei na obra diversas citações dela a respeito Ernest. Diz ela, já quase no final do livro:
“A primeira coisa que aconteceu quando regressamos a Paris foi encontrar Hemingway com uma carta de recomendação de Sherwood Anderson.
Eu me lembro muito bem da impressão que tive de Hemingway naquela primeira tarde. Era um rapaz extraordinariamente bonito, de vinte e três anos de idade. Faltava muito pouco para todo mundo ter vinte e seis. Tornou-se a fase dos vinte e seis. Durante os dois ou três anos seguintes todos os rapazes tinham vinte e seis anos de idade. Pelo visto era a idade ideal para aquela época e lugar. Tinha um ou dois com menos de vinte, George Lynes, por exemplo, mas não fazia diferença, como Gertrude explicou-lhe minuciosamente. Se eram rapazes, tinham vinte e seis. Depois, bem mais tarde, tinham vinte e um e vinte e dois.
Hemingway, portanto, tinha vinte e três, parecia estrangeiro, e com os olhos mais apaixonadamente interessados que interessantes. Sentou diante de Gertrude Stein, prestou atenção e ficou olhando.
Conversaram, então, e cada vez mais, uma porção de tempo. Convidou-a a ir visitá-lo em seu apartamento para dar uma olhada em seu trabalho. Hemingway tinha então e até hoje continua tendo ótimo faro para encontrar apartamentos em lugares estranhos, mas simpáticos, e boas femmes de ménage e boa comida. Esse, que era o seu primeiro, ficava bem perto da Place du Tertre. Passamos a noite lá e ele e Gertrude Stein examinaram todas as coisas que tinha escrito até aquela altura. Começara o romance que era inevitável que começasse, e havia os pequenos poemas subsequentemente publicados por McAlmon na Edição Convênio. Gertrude Stein gostou bastante dos poemas, eram diretos, lembrando Kipling, mas achou o romance fraco. Existe um bocado de descrições nisto aqui, comentou. E descrições não muito felizes. Comece tudo de novo e concentre-se, aconselhou.
Hemingway era na época correspondente de um jornal canadense em Paris. Estava obrigado a expressar o que chamava de ponto de vista canadense em tudo o que escrevia.
Ele e Gertrude Stein viviam caminhando e conversando juntos. Um dia ela lhe disse, olha aqui, você diz que você e a sua mulher têm um dinheiro guardado. É suficiente para vocês levarem uma vida modesta? É, respondeu. Então levem, aconselhou ela. Se você continuar a fazer jornalismo nunca terá tempo para ver nada, só vai ficar vendo palavras na sua frente e isso não serve, bem entendido, é claro, para alguém que quer ser escritor. Hemingway disse que indiscutivelmente queria. Foi fazer uma viagem junto com a mulher e pouco depois apareceu sozinho lá em casa. Veio por volta das dez da manhã e ficou, primeiro para almoçar, aí passou a tarde inteira, jantou conosco e quando já eram umas dez da noite anunciou, de repente, que a mulher dele estava enceinte e acrescentou com grande amargura, e eu, eu sou muito criança ainda para ser pai. Nós o consolamos da melhor maneira possível e mandamos que fosse para casa.
Quando voltaram, Hemingway anunciou que tinha tomado uma resolução. Os dois regressariam para a América, onde pretendia trabalhar muito durante um ano. Com o que ganhasse, somado ao que já tinham economizado, se radicariam em Paris e ele desistiria de seu trabalho como jornalista, dedicando-se exclusivamente a ser escritor. Foram-se embora e bem no prazo previsto voltaram com o filho recém-nascido. O trabalho como jornalista estava encerrado.
A primeira coisa que trataram de fazer quando chegaram foi batizar o menino. Queriam que Gertrude e eu fôssemos as madrinhas e um correspondente de guerra inglês, colega de Hemingway, seria o padrinho. Todos nós tínhamos nascido com religiões diferentes e a maioria não praticava nenhuma, portanto ficava meio difícil saber em que igreja a criança ia ser batizada. Passamos boa parte daquele inverno, todos nós, discutindo o assunto. Finalmente decidiu-se que o batismo teria de ser episcopal, e episcopal ele foi. Como é que deram um jeito com a variedade de padrinhos garanto que não sei, mas a cerimônia foi celebrada na capela episcopal.
Padrinhos escritores ou pintores são reconhecidamente precários. Quer dizer, é certo que não demora muito para haver um esfriamento da amizade. Sei de vários casos desse tipo, os padrinhos do pobre Pablo Picasso nunca mais foram vistos, e com a mesma naturalidade já faz muito tempo que qualquer um de nós viu ou teve notícias do nosso afilhado Hemingway.
Mas no início fomos padrinhos atuantes, sobretudo eu. Bordei uma cadeirinha e tricotei uma roupinha de cores alegres para o nosso afilhado. Nesse entretempo o pai da criança se emprenhava muito para ser escritor.
Gertrude Stein nunca corrige nenhum detalhe do que alguém escreve, apega-se estritamente a princípios gerais, à maneira de ver escolhida pelo escritor e à relação entre esse tipo de visão e o resultado final no papel. Quando a visão não fica completa, as palavras se tornam insípidas, é bem simples, não há como se enganar, insiste. Foi por essa época que Hemingway começou as histórias curtas que depois saíram publicadas num volume intitulado In Our Time.
Um dia Hemingway entrou entusiasmadíssimo com Ford Madox Ford e a Transatlantic. Ford Madox Ford tinha lançado a Transatlantic poucos meses antes. Fazia uma porção de anos, a guerra ainda nem tinha começado, que conhecemos Ford Madox Ford, que então se chamava Ford Madox Hueffer. Era casado com Violet Hunt, e Violet Hunt e Gertrude sentaram lado a lado à mesa de chá e conversaram muito uma com a outra. Eu estava junto de Ford Madox Hueffer, simpatizei muito com ele e gostei das histórias que contou de Mistral e de Tarascon e do fato de ter sido seguido por toda parte naquela terra de monarquistas franceses, por causa de sua semelhança com o pretendente ao trono Bourbon. Nunca vi o pretendente Bourbon, mas Ford na época indiscutivelmente poderia ter sido membro da família.
Tínhamos ouvido falar que Ford estava em Paris, mas ainda não tínhamos nos encontrado. Gertrude Stein, porém, já vira exemplares da Transatlantic e achou interessante, mas sem se dar ao trabalho de pensar mais sobre isso.
Hemingway entrou entusiasmadíssimo e disse que Ford queria alguma coisa de Gertrude Stein para o próximo número e que ele, Hemingway, queria que The Making of Americans saísse em capítulos e precisava levar as primeiras cinquenta páginas sem perda de tempo. Gertrude Stein, é claro, ficou simplesmente vibrando de entusiasmo com essa ideia, mas não existia nenhuma cópia do manuscrito além da que tínhamos mandado encadernar. Não faz mal, disse Hemingway, eu copio. E nós dois, ele e eu, copiamos o manuscrito e o fragmento saiu publicado no número seguinte da Transatlantic. Assim, pela primeira vez, um trecho da obra monumental que marcou o início, o verdadeiro início da literatura moderna, foi divulgado e nós ficamos felicíssimas. Depois, quando as coisas se tornaram difíceis entre Gertrude Stein e Hemingway, ela sempre se lembrou com gratidão que afinal de contas tinha sido ele o primeiro responsável pela publicação de um trecho de The Making of Americans. Vive dizendo, mas é lógico que tenho uma fraqueza pelo Hemingway. Afinal, foi o primeiro da nova geração a bater em minha porta e praticamente forçou Ford a publicar o início de The Making of Americans.
Quanto a mim, não tenho tanta certeza assim de que tenha sido Hemingway o responsável por isso. Nunca soube exatamente como é que foi essa história, mas sempre desconfiei que houvesse algo por trás de tudo isso. Pelo menos no meu modo de entender.
Gertrude Stein e Sherwood Anderson são engraçadíssimos em relação a Hemingway. A última vez que Sherwood esteve em Paris os dois conversaram muito a respeito dele. Hemingway tinha sido criado por ambos e se sentiam simultaneamente meio orgulhosos e meio envergonhados da própria cria. Hemingway, a certa altura, quando repudiou Sherwood Anderson e todas as suas obras, escrevera uma carta a ele em nome da literatura americana, que ele, Hemingway, em companhia de seus contemporâneos, pretendia salvar, onde dizia exatamente o que ele, Hemingway, pensava da obra de Sherwood, pensamento que, diga-se de passagem, nada tinha de elogioso. Quando Sherwood veio para Paris, Hemingway naturalmente ficou com medo, Sherwood, claro que não.
Como ia dizendo, ele e Gertrude Stein eram engraçadíssimos em relação a Hemingway. Reconheciam que Hemingway se acovardava fácil. Ele é, insistia Gertrude Stein, que nem os barqueiros das chatas do rio Mississippi nas descrições de Mark Twain. Mas que grande livro, concordavam os dois, daria a verdadeira história de Hemingway, não as que ele escreve, mas as confissões do verdadeiro Ernest Hemingway. Seria para um público diferente do que ele tem hoje, mas seria simplesmente maravilhoso. E aí então ambos concordavam que sentiam uma fraqueza por Hemingway por ele ser tão bom aluno. Mas é um aluno péssimo, protestei. Você não compreende, disseram, como é lisonjeiro ter um aluno que faz os deveres sem entender. Em outras palavras, ele requer treinamento e qualquer pessoa que requer treinamento é um aluno dileto. Ambos reconheceram que era uma fraqueza. Gertrude Stein disse mais, sabe, ele é que nem o Derain. Você se lembra do que monsieur de Tuille falou? Quando eu não podia compreender por que Derain estava fazendo aquele sucesso todo, ele disse que era porque parecia moderno mas cheirava a museu. Mas que história e tanto a do verdadeiro Hem, e uma que ele mesmo deveria contar, mas infelizmente jamais terá coragem. Afinal de contas, como ele próprio uma vez disse baixinho, existe a carreira, a carreira.
Mas voltando às coisas que estavam acontecendo.
Hemingway se encarregou de tudo. Copiou o manuscrito e revisou as provas. Revisar provas, como já disse, é que nem tirar pó: descobrem-se valores que uma simples leitura jamais seria suficiente para revelar à gente. Ao revisar essas provas Hemingway aprendeu muita coisa e se encheu de admiração por tudo o que aprendeu. Foi mais ou menos nessa época que escreveu a Gertrude Stein dizendo que fora ela que tivera o trabalho de escrever The Making of Americans e que ele não faria mais do que a sua obrigação se dedicasse o resto de sua vida a se emprenhar em vê-la publicada.
Tinha esperança de realizar essa façanha. Alguém, acho que se chamava Sterne, disse que poderia interessar um editor. Gertrude Stein e Hemingway acreditaram que pudesse, mas Hemingway logo informou que Sterne havia entrado num período em que não se podia mais contar com ele. E acabou-se o que era doce.
Nesse entretempo e até mesmo um pouco antes, Mina Loy trouxe McAlmon lá em casa e ele passou a vir de vez em quando, primeiro com a mulher e depois com William Carlos Williams. E por fim mostrou-se interessado em editar The Making of Americans na Edição Convênio e finalmente editou. Já chego lá.
Nesse meio-tempo, McAlmon editou os três poemas e dez histórias de Hemingway e William Bird editou In Out Time e Hemingway começou a ganhar fama. Ia ficar conhecido como Dos Passos, Fitzgerald, Bromfield, George Antheil e tudo o que era gente, e Harold Loeb estava de novo em Paris. Hemingway tinha-se tornado escritor. Andava também treinando para ser pugilista, graças a Sherwood, e eu já lhe havia contado tudo o que sabia a respeito de touradas. Sempre fui louca por danças espanholas e touradas. Também gostava muito de mostrar a foto em que Gertrude Stein e eu estávamos na primeira fila e alguém aproveitou para bater uma chapa. Nessa época Hemingway andava ensinando não sei quem a boxear. O rapaz não sabia lutar, mas por acaso derrubou Hemingway por nocaute. Creio que às vezes isso acontece. Em todo caso na época Hemingway, apesar de esportista, cansava fácil. Costumava ficar simplesmente exausto vindo a pé da casa dele à nossa. Mas não se deve esquecer o desgaste imposto pela guerra. Mesmo hoje ele é, como diz Hélène que todos os homens são, fraco. Recentemente um de seus amigos robustos comentou com Gertrude Stein: Ernest é muito fraco, toda vez que pratica esporte quebra alguma coisa, quando não é o braço é a perna ou a cabeça.
Nesses primeiros tempos Hemingway gostava de todos os seus contemporâneos, menos de Cummings. Acusava Cummings de copiar tudo, não de qualquer um, mas de alguém. Gertrude Stein, que admirava The Enormous Room, disse que Cummings não copiava, era o herdeiro natural da tradição da Nova Inglaterra, não só pela aridez e esterilidade como também pelo individualismo. Nesse ponto discordavam. Também discordavam em relação a Sherwood Anderson. Gertrude Stein afirmava que Sherwood Anderson tinha verdadeiro gênio para usar uma frase para transmitir uma emoção direta, o que é típico da grande tradição americana, e que realmente, descontando-se Sherwood, não existia mais ninguém na América capaz de escrever uma frase clara e apaixonada. Hemingway não acreditava nisso, não confiava no bom gosto de Sherwood. Bom gosto nada tem a ver com frases, sustentava Gertrude Stein. Também acrescentou que Fitzgerald era o único escritor da nova geração que escrevia com naturalidade.
Gertrude Stein e Fitzgerald são muito estranhos na relação que mantêm entre si. Gertrude Stein tinha ficado impressionadíssima com This Side of Paradise. Leu quando saiu e antes de conhecer qualquer escritor da nova geração americana. Disse que considerava o livro como a primeira manifestação pública da nova geração. E nunca mais mudou de opinião. Acha que isso se aplica também a The Great Gatsby. E que Fitzgerald continuará a ser lido quando a maioria de seus contemporâneos famosos já estiver esquecida. Fitzgerald vive dizendo que acha que Gertrude Stein diz essas coisas só para irritá-lo, deixando-o na ilusão de que está falando sério, e acrescenta com seu jeito inconfundível, e o fato dela fazer isso é a coisa mais cruel que já viu. Os dois, porém, sempre se divertem muitíssimo quando se encontram. E a última vez que se encontraram divertiram-se muito com eles mesmos e com Hemingway.
Houve, então, McAlmon. McAlmon tinha uma qualidade que atraía Gertrude Stein: profusão. Podia escrever sem parar, mas ela reclamou que o que ele escrevia não tinha graça nenhuma.
Houve também Glenway Wescott, só que Glenway Wescott jamais interessou Gertrude Stein. Tem um certo caldo, mas é ralo.
E assim então começou a carreira de Hemingway. Durante um certo tempo passamos a vê-lo com menos frequência, mas depois recomeçou a ir lá em casa. Vivia contando a Gertrude Stein as conversas que posteriormente usou em O Sol Também se Levanta e os dois comentavam horas a fio o caráter de Harold Loeb. A essa altura Hemingway estava preparando um volume de contos para apresentar aos editores americanos. Uma noite, quando já fazia algum tempo que não aparecia, surgiu acompanhado de Shipman. Shipman era um rapaz divertido que acabaria herdando alguns milhares de dólares quando atingisse a maioridade. Na época ainda era menor. Mais tarde compraria a Transatlantic Review, pelo menos era o que Hemingway dizia. Ia financiar uma revista do movimento surrealista quando ficasse maior, dizia André Masson. Ia comprar uma casa no campo quando ficasse maior, dizia Josette Gris. Mas, para falar a verdade, quando atingiu a maioridade ninguém que o conhecera antes parecia saber que fim levou tal herança. Hemingway veio com ele lá em casa para conversar sobre a compra da Transatlantic, trazendo também junto, falando nisso, o manuscrito que tencionava mandar para a América. Entregou-o a Gertrude Stein. Tinha acrescentado aos contos uma pequena lista de reflexões onde dizia que The Enormous Room era o maior livro que já tinha lido. Foi então que Gertrude Stein disse: Hemingway, não se faz literatura com comentários.
Depois disso passamos bastante tempo sem ver Hemingway, e aí fomos visitar alguém, logo depois da publicação de The Making of Americans, e Hemingway, que estava lá, aproximou-se de Gertrude Stein e começou a explicar por que não havia escrito nenhuma resenha sobre o livro. No mesmo instante, uma mão pesada lhe caiu no ombro e Ford Madox Ford disse, rapaz sou eu que quero falar com Gertrude Stein. Ford então disse a ela, quero lhe pedir licença para dedicar-lhe o meu novo livro. Posso? Gertrude Stein e eu ficamos tremendamente satisfeitas e comovidas.
A partir de então, durante alguns anos, Gertrude Stein e Hemingway não se viram. E aí ouvimos dizer que estava de volta a Paris e falando a uma série de pessoas que gostaria muito de se encontrar com ela. Vê se não volta para casa de braços dados com Hemingway, eu lhe dizia quando ela saía para dar um passeio. Dito e feito. Um dia terminou voltando com ele.
Os dois sentaram e conversaram um bocado de tempo. Finalmente escutei ela dizer: Hemingway, afinal, você é noventa por cento rotariano. Não dá para reduzir para oitenta?, retrucou ele. Não, disse ela pesarosa, não dá. No fim das contas, como ela sempre diz, ele tinha e, devo dizer, ainda tem, momentos de desprendimento.
A partir daí se encontraram com bastante frequência. Gertrude Stein sempre diz que gosta de vê-lo, é tão maravilhoso. E se ao menos contasse um dia sua verdadeira história. Na última conversa que tiveram, acusou-o de não só ter matado uma porção de rivais como de ter colocado uma pá de cal em cima. Eu nunca, protestou Hemingway, matei ninguém a sério, a não ser um sujeito que não prestasse mesmo e merecesse morrer, mas se matei mais alguém foi sem querer e, portanto, não me considero culpado.
Foi Ford que uma vez, falando de Hemingway, disse, ele vem, senta aos meus pés e me elogia. Me deixa nervoso. Hemingway também disse uma vez, eu reduzo a minha chama, que já é pequena, cada vez mais e aí de repente se dá uma grande explosão. Se na minha obra houvesse explosões, seria tão eletrizante que ninguém iria aguentar.
No entanto, por mais que eu fale, Gertrude Stein sempre diz, sim, eu sei, mas tenho uma fraqueza por Hemingway.
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