segunda-feira, 8 de abril de 2024

XIV. HEMINGWAY POR SYLVIA BEACH

         Um livro inspirador que me levou a sonhar muito com a Paris dos anos 1920 foi “Shakespeare and Company” de Sylvia Beach, uma americana amante de livros e que se tornou livreira e editora em Paris. Ernest a conheceu e teve uma amizade significativa, como rememorou a própria Sylvia. Em seu livro “Paris é uma festa”, Ernest recorda que “Sylvia tinha um rosto vivaz e agudo, olhos castanhos vivos como os de um animalzinho e alegres como os de uma menina e, coroando sua testa altiva, cabelos castanhos ondulados que ela penteava para trás e mantinha cortado abaixo das orelhas e na linha da gola da jaqueta de veludo marrom que usava sempre. Tinha belas pernas e era generosa, jovial e interessada; amava brincar e fofocar. Jamais nenhuma pessoa foi mais simpática comigo”.  

A primeira menção que Sylvia faz a Ernest não é de quando o conheceu, mas algo acontecido alguns anos depois disso. Escreveu: 

 

A última vez que levei algum “agoniado” para ver Gertrude foi quando Ernest Hemingway me confessou que queria fazer as pazes com ela, mas não conseguia reunir coragem para ir sozinho. Eu o incentivei e prometi acompanhá-lo à rue Christine, onde Gertrude e Alice moravam então. Como achei melhor que Hemingway fosse sozinho, fui com ele até a porta e ali o deixei, com meus votos de sucesso. Mais tarde. Ele veio me contar que já estava “tudo bem” entre eles de novo. 

Guerras entre escritores espocam com frequência, mas já constatei que elas acabam se dissolvendo na fumaça. 

 

Após mencionar Ernest em alguns contextos relacionados a outros escritores, Sylvia dedica a ele todo um capítulo, o nono, cujo título é “Meu melhor cliente”. Há informações que não correspondem à história de Ernest, ou por lapso de memória de Sylvia, ou por mentira dele. Não importa. O retrato que Sylvia traça de Ernest é bem vivo.  

 

Um cliente de que gostávamos e que não nos dava o menor trabalho era o jovem que se via quase todas as manhãs num canto da Shakespeare and Company, lendo as revistas, os textos do Capitão Marryat ou algum outro livro. Era Ernest Hemingway, que chegou a Paris, pelo que me lembro, em fins de 1921. Era meu “melhor cliente”, como ele se autodenominava – título que ninguém disputava. Grande era a nossa estima por um cliente que não só era visitante regular, como gastava dinheiro com livros, característica muito agradável para a proprietária de uma pequena livraria. 

Não obstante, ele se teria feito apreciar por mim do mesmo modo, ainda que não gastasse um centavo sequer no meu estabelecimento. Ernest Hemingway inspirou-me a mais calorosa amizade desde o dia em que nos conhecemos.  

Sherwood Anderson, em Chicago, entregara aos seus “jovens amigos, o sr. e a sra. Ernest Hemingway” uma carta de apresentação para mim. Ainda a possuo; o texto diz o seguinte: 

 

Escrevo-lhe esta nota para apresentá-la ao meu amigo Ernest Hemingway, que está indo morar em Paris com sua senhora; vou pedir-lhe que a coloque no correio ao chegar à cidade. 

O sr. Hemingway é um autor norte-americano em contato instintivo com tudo digno de nota que se passa por aqui, e tenho certeza de que você vai considerar ambos pessoas encantadoras de se conhecer.  

 

Os Hemingway e eu, entretanto, já nos conhecíamos há algum tempo quando eles se lembraram de mostrar-me a carta de Anderson. Hemingway simplesmente foi até a livraria um dia. 

Olhei para cima e vi um jovem alto e moreno, com um pequeno bigode, e ouvi-o apresentar-se (numa voz muito, muito profunda) como Ernest Hemingway. Convidei-o a se sentar e, deixando-o falar, soube que ele era natural de Chicago e que passara dois anos num hospital militar, recuperando o uso da perna. O que acontecera à sua perna? Bom, ele contou encabulado – como um menino que confessa ter se envolvido numa briga –, fora ferido no joelho, lutando na Itália. Será que eu gostaria de ver? Claro que sim. Assim, as atividades da Shakespeare and Company foram suspensas para ele tirar o sapato e a meia e me mostrar as cicatrizes medonhas que lhe cobriam a perna e o pé. O joelho ostentava os piores ferimentos, mas também o pé parecia ter sido muito machucado, pela explosão de uma granada, segundo ele. No hospital, chegaram a considerá-lo perdido; tentaram até administrar-lhe os últimos sacramentos – substituídos, com seu débil consentimento, pelo batismo, “só para o caso de estarem certos”. 

Assim, Hemingway foi batizado. E, batizado ou não – e vou dizer isto quer ele me mate ou não –, sempre pressenti que Hemingway era um homem profundamente religioso. Era um grande amigo de Joyce, que uma vez comentou comigo que, a seu ver, havia um engano em Hemingway considerar-se durão e McAlmon tentar se fazer passar pelo tipo sensível. Era justamente o contrário, pensava ele. Portanto, Hemingway, Joyce o desmascarou! 

Hemingway confidenciou-me que, antes de terminar o ensino médio, quando ainda era “um guri de calças curtas”, seu pai morrera subitamente e em circunstâncias trágicas, deixando-lhe uma arma como único legado. O rapaz se vira chefe de família, com a mãe, os irmãos e a irmã na sua dependência. Precisou abandonar a escola e começar a ganhar a vida. Ganhou dinheiro pela primeira vez numa luta de boxe, mas, pelo que entendi, tal carreira não perdurou. Hemingway falou com amargura de sua infância, e não me contou muito sobre sua vida depois que deixou a escola. 

Ele se sustentou com vários trabalhos (até em jornais, ao que me parece), até seguir para o Canadá e alistar-se nas forças armadas. Era tão novo que precisou mentir sua idade para ser aceito. 

Hemingway era um moço de vasta cultura, que conhecia diversos países e várias línguas – e havia aprendido tudo em primeira mão, não em universidades. A impressão que me dava era de que havia ido muito mais longe e mais rápido do que qualquer outro jovem escritor que eu conhecia. Apesar de um certo olhar de menino, possuía uma excepcional sabedoria e autoconfiança. Em Paris, Hemingway empregou-se como correspondente esportivo do Star, de Toronto. Sem dúvida, àquela altura já estava experimentando escrever ficção. 

Ele trouxe sua jovem esposa, Hadley, para me conhecer. Era uma pessoa atraente e de uma alegria encantadora. É claro que levei os dois para conhecer Adrienne Monnier. O francês de Hemingway era extraordinário, e ele de alguma maneira conseguia encontrar tempo para ler todas as publicações francesas, além das nossas. 

O trabalho de Hemingway como correspondente esportivo levava-o a todos os eventos dessa linha, e suas conquistas linguísticas incluíam o jargão da área. Nesse mundo dos esportes, as companheiras de livrarias de Hemingway, Adrienne e Sylvia, jamais haviam penetrado – mas estávamos prontas para sermos esclarecidas, e Hemingway, para nos esclarecer. 

Nossos estudos começaram com o boxe. Certa noite nossos professores, Hemingway e Hadley, foram nos pegar para irmos, de metrô, à região montanhosa de Menilmontant, povoada por operários, esportistas e alguns facínoras. Na estação de Pelleport, subimos os degraus íngremes, com Hadley, grávida de Bumby (John Hadley Hemingway), um pouco ofegante e auxiliada pelo marido. Hemingway nos conduziu até o minúsculo ringue, ao qual, para chegar, precisávamos atravessar uma espécie de quintal. Sentamo-nos nos bancos estreitos sem encosto. 

As lutas e nossa instrução tiveram início. Quando, nas lutas preliminares, os garotos começaram a rodar os braços e sangrar com tamanha profusão que tememos que sangrariam até a morte, Hemingway nos tranquilizou: eram apenas murros e sangramentos de nariz. Aprendemos algumas regras do jogo. Também fomos informadas de que aquelas personagens meio opacas que perambulavam de um lado para outro, mal parecendo ver os lutadores, mas discutindo volta e meia entre si, eram agentes que iam aos ringues para procurar material novo e promissor. 

Quando começou o grande evento, nosso professor ficou demasiado entretido acompanhando os golpes para podermos contar com novas explicações suas, e as pupilas tiveram de se virar sem a sua ajuda. 

Essa última luta acarretou outra – da qual os espectadores tomaram parte. As opiniões sobre a decisão do árbitro dividiram-se, todos se levantaram nos bancos e atiraram-se uns sobre os outros – um verdadeiro bangue-bangue. Diante de tantos socos, chutes, gritos, empurrões para lá e para cá, temi que acabássemos encurraladas e que Hadley se ferisse na refrega. Ouviam-se gritos de “Le flic! Le flic[os tiras, os tiras] mas naturalmente não do guarda cuja presença é obrigatória em todos os locais de diversão franceses – seja a Comédie Française ou um ringue de box em Menilmontant. Ouvimos a voz de Hemingway sobrepor-se ao alarido, exclamando com desaprovação: “Et naturellement le flic est dans la pissotière!” [E naturalmente o tira está no mictório]. 

Em seguida, Adrienne e eu passamos ao ciclismo, sob orientação e influência de Hemingway; não que nós mesmas pedalássemos, mas assistimos, como nosso tutor, ao Six-Jours, a volta de seis dias no Vél d’Hiv, sem dúvida o acontecimento mais popular da temporada parisiense. Os torcedores migravam para o local e lá viviam enquanto durasse a prova, acompanhando com indiferença crescente aqueles homenzinhos simiescos arqueados sobre suas bicicletas, rodando lentamente pela pista ou arrancando de repente, dia e noite, numa atmosfera de fumaça, pó e estrelas teatrais e em meio à algazarra dos alto-falantes. Empenhamo-nos ao máximo para acompanhar as explicações do professor, mas raramente conseguíamos distinguir alguma palavra acima da assuada. Infelizmente, Adrienne e eu só tivemos uma noite para nos dedicarmos a esse esporte, por mais absorvente que nos tenha parecido. De todo modo, o que não teria sido absorvente na companhia de Hemingway? 

Todavia, um evento muito empolgante nos esperava. Havia algum tempo eu tinha a impressão de que Hemingway vinha se dedicando com empenho a alguns contos. Um dia, ele comentou que havia terminado um deles e perguntou se eu e Adrienne nos importaríamos de ouvi-lo. Aguardamos o acontecimento, que nos interessava profundamente, com sofreguidão, pois éramos as duas um pouco como aquelas figuras indistintas que frequentavam o ringue de Pelleport em busca de talentos. Talvez nem soubéssemos muito sobre boxe, mas, quando se tratava de literatura, a história era outra. Imagine nosso júbilo com relação a esse primeiro round de Ernest Hemingway. 

Assim, Hemingway leu para nós uma das histórias de Nosso Tempo. Ficamos impressionadas com sua originalidade, seu estilo tão pessoal, sua consumada habilidade, seu asseio, seu dom para contar histórias e senso de drama, seu poder de criação – eu poderia prosseguir, mas, como Adrienne bem sintetizou: “Hemingway possui o verdadeiro temperamento do escritor” (“Le tempérament authentique d’écrivain”). 

Evidentemente, Hemingway hoje é reconhecido como o pai da ficção moderna. É impossível abrir um romance ou conto na França, Inglaterra, Alemanha, Itália ou qualquer outro lugar sem reparar que Hemingway passou por ali. Chegou até aos livros didáticos, proporcionando às crianças mais diversão do que costumam ter – uma grande sorte para elas! 

Embora a questão de que influências esse ou aquele autor sofreu jamais tenha me incomodado, e o escritor adulto não perca noites de sono divagando a respeito de quem o influenciou, creio que os leitores de Hemingway devem saber quem o ensinou a escrever: foi ele próprio. E, como todos os escritores autênticos, ele sabia que para que a história ficasse “boa”, como dizia, era preciso trabalhar. 

Adrienne Monnier foi a primeira fã francesa de Hemingway e a primeira a publicar um conto seu em francês. “The undefeated” foi publicado em sua revista, Le Navire d’Argent, e chamou muita atenção entre os leitores. 

Os leitores de Hemingway em geral eram conquistados logo no primeiro contato. Nunca me esqueço do entusiasmo de Jonatham Cape com relação ao seu primeiro Hemingway. O sr. Cape, editor do Coronel Lawrence e de Joyce na Inglaterra, perguntou-me, numa de suas visitas a Paris, que norte-americano deveria publicar. “Aqui está: leia Hemingway!”, respondi – e foi assim que o sr. Cape tornou-se seu editor inglês. 

Hemingway era sério e competente em tudo o que fazia, mesmo quando se tratava de cuidar de um filho. Após uma breve visita ao Canadá, Hadley e Hemingway voltaram com mais um “grande cliente”, John Hadley Hemingway. Fui visitá-los certa manhã e o vi dar banho em Bumby; fiquei impressionada com sua perícia no manejo do bebê. Hemingway estava orgulhoso com razão e perguntou se eu não achava que ele tinha futuro como babá. 

Bumby já frequentava a Shakespeare and Company antes de dar os seus primeiros passos. Segurando o filho com cuidado, apesar de às vezes de ponta-cabeça, Hemingway continuava a ler os últimos periódicos – o que lhe exigia alguma técnica, devo dizer. Quanto a Bumby, estava tudo bem, desde que ele estivesse com seu adorado papa. Seus primeiros passos foram na direção do que ele chamava de “Silver Beach’s”. Ainda posso vê-los, pai e filho, subindo a rua de mãos dadas. Bumby, depositado sobre um banco alto, ficava observando seu velho muito sério, sem jamais demonstrar a menor impaciência, esperando para ser tirado finalmente de seu poleiro; às vezes, devia parecer uma longa espera. Depois, partiam – não para casa, pois tinham de ficar fora do caminho de Hadley enquanto a casa era arrumada, mas para o bistrô dobrando a esquina; ali, sentados à mesa, com os respectivos copos à sua frente (o de Bumby era uma granadina), discutiam todas as questões do dia. 

Naquela época, todo mundo já fora à Espanha, e as impressões variavam. Gertrude Stein e Alice B. Toklas tinham achado o país muito divertido. Outros iam assistir a alguma tourada, ficavam chocados e saíam antes do fim. O espetáculo era descrito dos pontos de vista moral e sexual e como um esporte multicolorido, pitoresco e coisa e tal. Os próprios espanhóis costumavam achar perturbador tudo o que os estrangeiros diziam dos touros e, ademais, inconsistente tecnicamente. 

Hemingway, ao contrário dos demais, dispôs-se a compreender e escrever sobre os touros da sua maneira séria e competente de hábito. Assim, encontramos, em Death in the afternoon, um tratado completo sobre as touradas, reconhecido pelos meus amigos espanhóis, os mais difíceis de agradar, como excelente. E uma das melhores literaturas de Hemingway está nesse livro. 

Os bons escritores são tão raros que, se eu fosse uma crítica, só procuraria assinalar o que acho que os torna confiáveis e agradáveis. Afinal, como se poderia explicar o mistério da criação? 

Hemingway é capaz de aceitar qualquer crítica – de si próprio. Ele é o seu crítico mais severo – mas, como todos os demais escritores, é hipersensível às críticas alheias. É verdade que alguns críticos têm uma terrível capacidade de perfurar suas vítimas com suas canetas aguçadas e deliciam-se em vê-las estrebuchar. Foi o que Wyndham Lewis conseguiu fazer com Joyce. E seu artigo sobre Hemingway, intitulado “The dum box” [O boi taciturno] – lido por seu criticado, lamento dizer, na minha livraria –, despertou-lhe tamanha cólera que ele decepou, de um só golpe, três dúzias de tulipas que eu ganhara de presente de aniversário. Em consequência, o vaso derrubou seu conteúdo sobre os livros – após o que Hemingway sentou-se em minha mesa e preparou um cheque, nominal a Sylvia Beach, num valor que cobria duas vezes o montante dos estragos.  

Como livreira e bibliotecária, eu talvez prestasse mais atenção aos títulos do que as outras pessoas, que simplesmente vão entrando livro adentro sem antes tocar a campainha. Na minha opinião, os títulos de Hemingway deveriam ganhar o primeiro prêmio em qualquer concurso. Cada um deles é um poema, e o misterioso poder que exercem sobre os leitores contribuiu para o sucesso de Hemingway. Seus títulos têm vida própria e vêm sempre enriquecer o vocabulário norte-americano. 

 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...