O próximo livro que li para conhecer mais a Ernest foi um com suas memórias de Paris, publicado postumamente, em que o meu amigo aparece em toda a sua humanidade e grandeza. Difícil selecionar algumas partes do livro “Paris é uma Festa”. Teria de reproduzi-lo todo aqui, do começo ao fim, o que é impossível. Estando escrito e publicado, o melhor a fazer é lê-lo, para tornar-se um amigo ainda mais íntimo de Ernest, como aconteceu comigo enquanto o lia.
Sua quarta esposa, Mary Welsh, em uma nota introdutória à obra, conta que Ernest começou a escrever “Paris é uma Festa” em Cuba, no outono de 1957, trabalhou nele em Ketchum, Idaho, no inverno de 1958-1959, levou os originais para a Espanha, quando estiveram lá em abril de 1959, levou-o de volta a Cuba e mais tarde, no fim do outono daquele ano, de novo para Ketchum. Terminou de escrevê-lo na primavera de 1960, em Cuba. Algumas revisões finais foram feitas em Ketchum, no outono de 1960. A obra cobre o período de 1921 a 1926, em Paris.
Acompanhei todos os passos de Ernest em Paris, à medida que ele escrevia sobre a sua vida na cidade-luz, senti-me como se lá eu estivesse. Frequentei os mesmos bares e restaurantes que ele, conheci as mesmas pessoas. Mas, como já disse, não há como selecionar aqui um trecho ou outro de Paris é uma Festa, pois tudo nele é Ernest. Optei, então, por transcrever uma passagem em que ele conversa com Gertrude Stein, que lhe fala da “geração perdida”. Essa expressão, sem a vida de Ernest, teria se perdido na história. Antes de minha volta ao passado, nunca eu a ouvira, mas com a mudança que ocorreu na história, tornou-se mundialmente conhecida, popularizada por ele em seus livros “O Sol Também se Levanta” e “Paris é uma Festa”.
“Foi quando minha mulher e eu regressamos do Canadá e passamos a morar na Rue Notre-Dame-des-Champs, sendo Miss Stein e eu bons amigos ainda, que ela me fez a observação sobre a geração perdida. Tinha tido algum contratempo com o arranque do velho Ford modelo T que dirigia então. O rapaz que trabalhava na oficina mecânica e tinha combatido no último ano da guerra não se mostrara competente no conserto do Ford de Miss Stein, ou talvez não lhe tivesse dado prioridade sobre outros veículos. Seja como for, ele não tinha sido sérieux e fora severamente repreendido pelo patron da garagem, diante do protesto de Miss Stein. O patron dissera ao jovem: − Vocês todos são uma génération perdue.
− É isso mesmo que vocês são. É isso o que vocês são – disse Miss Stein. – Todos vocês, essa rapaziada que serviu na guerra. Vocês são uma geração perdida.
− Você acha? – perguntei.
− São – insistiu ela. – Vocês não têm respeito por coisa alguma. Vocês bebem até morrer...
− O tal mecânico estava bêbedo? – perguntei.
− Evidentemente não.
− Já o viu bêbado alguma vez?
− Não. Mas seus amigos são bêbedos.
− Tenho ficado bêbedo algumas vezes – disse. −Mas jamais estive aqui nesse estado.
− Evidentemente, não. Não disse isso.
− O patron do rapaz é que estava provavelmente bêbedo às onze horas da manhã – disse eu. – É por isso que diz frases tão encantadoras.
− Não discuta comigo, Hemingway – retorquiu Miss Stein. – Não adianta nada. Vocês são todos uma geração perdida, exatamente como o dono da garagem disse.
Mais tarde, quando escrevi o meu primeiro romance, procurei contrabalançar a citação que Miss Stein fizera do dono da garagem com outra do Eclesiastes. Naquela noite, caminhando de volta para casa, pensei no rapaz da garagem e me perguntei se ele teria sido transportado alguma vez num daqueles veículos, convertido em ambulância. Lembrei-me de como costumavam queimar os freios descendo estradas de montanha com uma carga completa de feridos, engrenados em primeira e, finalmente, até mesmo na marcha a ré. E de como os últimos modelos T foram jogados despenhadeiro abaixo, quando substituídos por grandes Fiats com boas caixas de mudança e freios de metal. Pensei em Miss Stein e em Sherwood Anderson, em egoísmo e preguiça mental versus disciplina e pensei também: “Veja só quem chama os outros de geração perdida!” E então, quando me aproximei do Closerie des Lilas, os refletores iluminando meu velho amigo, a estátua do Marechal Ney com sua espada desembainhada, as sombras das árvores batendo no bronze e ele sozinho ali, sem ninguém atrás dele, lembrei-me de seu fiasco em Waterloo e concluí que todas as gerações eram perdidas, por alguma razão, sempre tinham sido e sempre haveriam de ser. Parei no Lilas para fazer companhia à estátua e beber uma cerveja gelada antes de ir para casa, para o apartamento sobre a serraria. Mas sentado ali com a cerveja e contemplando a estátua, lembrando-me dos muitos dias que Ney tinha combatido pessoalmente com a retaguarda, na retirada de Moscou, quando Napoleão já tinha ido embora de carruagem com Caulaincourt, pensei na cálida e afeiçoada amiga que Miss Stein tinha sido e nas belas coisas que dissera de Apollinaire e de sua morte no dia do Armistício de 1918, com a multidão gritando à bas Guillaume e Apollinaire, no delírio, pensando que estavam gritando contra ele. Prometi-me fazer tudo para servir Miss Stein e ajudá-la a obter reconhecimento pela boa obra que produziu, enquanto eu pudesse, com as graças de Deus e de meu amigo Ney. Mas que fossem para o inferno sua conversa mole sobre a tal geração perdida e todos os rótulos sujos e fáceis. Quando cheguei à minha casa, atravessando o pátio e subindo as escadas, vi minha mulher, meu filho e o gato F. Puss, todos felizes, ao pé da lareira. Então disse à minha mulher:
− Você sabe que Gertrude é boa, apesar de tudo?
− Sem dúvida, Tatie.
− Mas diz muita besteira de vez em quando.
− Nunca me dirige a palavra – disse Hadley. – Sou apenas uma esposa. Quem conversa comigo é a companheira dela.”
Lendo o que Ernest escrevera sobre a geração perdida a partir do comentário Gertrude Stein, confesso que tive certa dificuldade para entender concretamente o seu significado, embora compreendesse que uma geração sempre parece perdida para a anterior. Resolvi ler “O Sol também se levanta” e chamou-me a atenção, durante toda a leitura, como as personagens são pessoas vazias, sem perspectivas, mutiladas pela vida, incapazes de amar. “Poderíamos ter sido felizes juntos”, diz Brett ao final do romance. A última frase dessa personagem ao narrador dá o sentido a todo o livro e, a mim, a compreensão do que significa a expressão “geração perdida”: uma possibilidade que não se cumprirá. Entre tantos diálogos estéreis que revelam a miséria interior das personagens, é a única fala significativa.
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