Na carta ao pai, datada de 3 de fevereiro de 1922, Ernest conta que Hash e ele estão de volta a Paris depois de três semanas na Suíça, e que estão ótimos e bem de saúde.
Sobre os artigos que tem escrito, diz que muitas das matérias são publicadas no Daily Star, mas por causa do correio essas publicações são muito irregulares. A redação decide quais matérias usar no Daily ou no Weekly, mas a maioria sai no Weekly e, além disso, é mais fácil para o pai procurar. Ernest mandou dez ou doze boas matérias da Suíça e eles devem publicá-las ao longo das três semanas depois da data de envio.
Diz também ao pai que estão instalados confortavelmente no apartamento em Paris e fizeram bons amigos ali. O tempo, no dia da carta, está chuvoso, mas as chuvas são rápidas, é só esperar um pouco sob alguma cobertura e seguir caminho. Nunca se divertiu tanto quanto na Suíça. Escalaram o Dent du Jaman − e fizeram longas excursões. A viagem deles pelo vale do Ródano foi interrompida por uma grande tempestade de neve que bloqueou as estradas. Na primavera, vão para lá de novo e vão caminhar pelo passo do Grande São Bernardo. É tudo muito selvagem e lindo.
O Toronto Star Weekly de 19 de dezembro tem um artigo de Ernest sobre presentes de casamento – (engraçado) e é ilustrado com um cartum.
Este artigo citado por Ernest na carta ao pai chama-se “On Weddynge Gyftes” e foi publicado, na verdade, no dia 17 de dezembro de 1921.
Uma carta à sua mãe Grace foi escrita em dois dias, 14 e 15 de fevereiro de 1922. Nela Ernest diz que Hash e ele já conheceram uma boa quantidade de gente em Paris, e se deixassem todo o tempo deles seria tomado por eventos sociais; mas ele tem trabalhado muito duro e reservam bastante tempo para os dois. É divertido morar naquele antigo bairro de Paris, se divertem muito. Paris é tão linda que satisfaz aquela parte sua que está sempre insaciável na América.
Da janela de sua cozinha, Ernest vê a rue Rollin e as Arènes de Lutèce, antigo anfiteatro romano construído no século I.
Gertrude Stein, que escreveu Three Lives e várias outras coisas incríveis, jantou com eles na noite anterior e ficou até a meia noite. Ela tem uns 55 anos, acha, e é muito grande e bacana. Ela ficou entusiasmada com a poesia de Ernest.
Gertrude, em verdade, tinha acabado de completar 48 anos.
Diz ainda à mãe, que no dia seguinte à segunda parte da carta, vai enviar quatro matérias ao Star e precisa dar duro o dia todo. Hash, que agora é chamada de Binney, vai sair para comprar um chapéu para a primavera e uma pele para usar no pescoço com conjuntos e vestidos assim que ela puder parar de usar o casaco.
Estão morando a apenas dois blocos do Jardin des Plantes, que é o maior jardim zoológico do mundo. Eles têm centenas de animais e pássaros que ele nunca viu antes. Têm cabritos monteses das montanhas Atlas com chifres em espiral de um metro de comprimento e uns pelos engraçados nas patas da frente. Todos os tipos de falcões e águias da América do Sul e da África e todos os animais da África do Sul. Há também uma imensa gaiola de condores que têm cabeças horríveis, sem penas, os olhos vermelhos e as asas negras de mais de meio metro de comprimento. É o maior conjunto de aves e animais que já vi e todas as três gaiolas são externas. Tem também uma casa de cobras que é tão grande quanto o maior prédio do Lincoln Park Zoo, de Chicago.
Na sexta-feira vão tomar chá na casa de Ezra Pound. Ele pediu a Ernest para escrever um artigo sobre o estado da literatura na América para a Little Review.
Se Ernest chegou a escrever o artigo, não foi publicado na revista.
Por fim, Ernest pede desculpas à mãe por escrever essas cartas sem graça, mas ele trabalha tanto para se expressar bem nos seus artigos e nas outras coisas que está fazendo, que fica sem energia e exausto para escrever e então suas cartas ficam muito banais. Se ele só escrevesse cartas, tudo aquilo estaria nelas. Sabe o que Flaubert dizia: “O artista deve viver como um burguês e pensar como um semideus”.
Ernest está parafraseando uma frase de uma carta do escritor francês Gustave Flaubert à sua amante, Louise Colet, em que enunciava seus princípios artísticos.
Em um cartão-postal que Ernest envia a Lewis Galantière no dia 27 de fevereiro de 1922, diz que ele e Ezra Pound estão se tornando ótimos companheiros.
A carta do dia 9 de março de 1922 foi para Sherwood Anderson e Ernest começa dizendo ao amigo que este fala como um homem muito amado por Jesus. Tem muita coisa acontecendo em Paris. Gertrude Stein e Ernest são como irmãos e ele a encontra com frequência. Leu o prefácio que Anderson escreveu para o novo livro dela e gostou muito. A Gertrude adorou.
No prefácio que escreveu para Geography and Plays, de Stein, Anderson diz que “o trabalho dela é o mais importante a abrir caminho no campo das letras de minha época” e que ela conseguiu “recriar a vida com palavras”.
Ernest escreve que Joyce publicou um livro maravilhoso. Anderson provavelmente vai recebê-lo a tempo. Enquanto isso, a novidade é que ele e toda a família estão passando fome, mas se pode encontrar a sua tripulação céltica inteira todas as noites no Michaud, onde Ernest e a Binney só podem pagar um jantar por semana.
O livro de Joyce ao qual Ernest se refere é Ulysses, cujos dois primeiros exemplares foram entregues nas mãos de Silvia Beach em Paris no dia 2 de fevereiro de 1922, data de aniversário de quarenta anos de Joyce. O Michaud era o restaurante favorito de Joyce e ficava na esquina da rua Jacob com a rua des Saints-Pères.
Gertrude Stein, continua Ernest a sua carta, diz que Joyce a faz lembrar de uma velha de São Francisco. O filho dessa mulher ficou podre de rico em Klondyke e a velha saía por aí com as mãos entrelaçadas dizendo: “Oh, meu pobre Joey! Meu pobre Joey! Ele tem tanto dinheiro!” Aquele maldito irlandês, eles precisam reclamar de uma coisa ou outra, mas nunca se ouviu falar de um irlandês passando fome!
Pound pegou seis poemas de Ernest e os mandou, com uma carta, a Scofield Thayer, de quem Anderson já deve ter ouvido falar. Pound acha que Ernest é um ótimo poeta. Ele também pegou um conto para a Litlle Review.
Hadley escreveu a Grace Hemingway em 20 de fevereiro, dizendo que “Ezra Pound enviou alguns poemas de Ernest a Thayer, da “Dial”, pegou alguns trabalhos em prosa para a “Little Review” e também pediu a ele para escrever uma série de artigos para a “Dial” sobre as revistas americanas. A primeira contribuição de Ernest para a Litlle Review só apareceu na edição da primavera de 1923: “In Our Time”, e um poema: “They All Made Peace: What Is Peace?”.
Voltando à carta de Ernest para Anderson, ele está ensinando boxe ao Pound sem muito sucesso. Ele costuma conduzir o golpe com o queixo e tem a graça de um lagostim. Tem força de vontade, mas pouco fôlego. Ernest vai naquele mesmo dia à tarde para mais um treino, mas não é muito divertido porque tem que fingir lutar entre um round e outro para suar um pouco. O Pound até que sua bem, e Ernest acha que vai dizer isso a ele. Além disso, é bem esportivo da parte dele arriscar a própria dignidade e sua reputação crítica numa coisa sobre a qual ele não entende nada. Pound é um cara bacana, com sua língua afiada. Escreveu uma bela resenha sobre Ulysses para a April Dial.
Ernest diz não saber qual a influência de Pound sobre Thayer, por isso não sabe se ele consegue convencê-lo a publicar os poemas ou não – mas espera que sim.
Termina sua carta a Anderson dizendo que escreveu uns poemas rimados muito bons outro dia. E que ele e Hash amam a Gertrude Stein.
Ernest diz que a droga da fita da sua máquina de escrever está quase acabando. É uma das coisas que escreve a Howell Jenkins no dia 20 de março de 1922. Diz também que o Star lhe ofereceu 75 pratas por semana quando ele voltar para casa e ele já consegue ganhar isso e até mais pelo espaço – o tamanho da coluna, pela qual já recebe 75 dólares por semana −, então por que diabos ele voltaria antes de seus filhos estarem prontos para ir para a faculdade, exceto para ver os amigos, sendo que eles é que poderiam ir para Paris?
Mais adiante, Ernest conta a Jenkins que ele e Hash se divertem muito. Sempre luta boxe com o Ezra Pound, e ele virou um ótimo golpeador, quase sempre Ernest consegue se esquivas antes que Pound o acerte e quando ele bate muito forte Ernest o joga no chão. Pound é um bom jogador e progrediu muito golpeando com as luvas – qualquer dia Ernest se descuida e Pound vai derrubá-lo no meio das latrinas.
Ernest não escrevinha tanto quanto deveria, porque, por Deus, ele é uma fábrica de escrita todos os dias.
Exatamente um mês depois, dia 20 de abril, ao mesmo Jenkins, Ernest envia um cartão-postal de Gênova, onde acontece uma Conferência Econômica e Financeira entre os dias 10 de abril e 19 de maio de 1922, à qual Ernest vai como jornalista. Ele conta que as bandeiras de todos os países estão do lado de fora da Conference. Ele está ali há duas semanas trabalhando como um condenado.
No final de abril de 1922, Ernest manda um cartão-postal à sua irmã Ivory dizendo que parte no dia seguinte para casa; trabalhou duro, como é de sua índole, e ficará feliz em reencontrar a Hash. A cidade não é nada ruim se não se tem de viver nela e pode-se ir e voltar dela de trem.
No mesmo período envia outro cartão-postal, agora para o pai, Clarence. Diz estar feliz em ir embora de Gênova, por mais que o tempo esteja quente e agradável. A imagem do cartão-postal é do velho forte no topo do monte bem acima da cidade.
Entre 10 de abril e 13 de maio de 1922, o Toronto Daily Star publicou 22 artigos de Ernest sobre a Conferência de Gênova, sete deles sem assinatura.
No dia 2 de abril, Ernest conta, em carta à mãe Grace, que voltou na semana anterior a Paris, depois de ter dado tudo o que pode em Gênova.
Diz que estava exausto e bem-acabado por causa do excesso de trabalho e ele e Hadley foram numa excursão até Chantilly e através da floresta até Senlis. Dormiram num hotel em Senlis onde Von Kluck – o general que comandou o Primeiro Exército Alemão durante a invasão de agosto de 1914 na Bélgica e na França, chegando a 25 quilômetros de Paris – ficou em 1914. Como ele tinha ficado lá, os alemães o pouparam quando incendiaram a cidade. É uma cidadezinha antiga e agradável com uma bela catedral e abadia e um velho castelo. Dali andaram pela floresta e os montes até Pont St. Maxense no rio Oise, e depois foram a Compiegne. Iriam a Soissons e depois desceriam, mas começou a chover e Ernest ficou doente, então, voltaram a Paris e ele está de cama há três dias por causa da garganta. Foi uma boa excursão e a floresta é muito bonita nessa época do ano. A região de Senlis é ótima para caça de javali selvagem e veado.
Voltarão para lá quando sua garganta estiver curada.
Ernest diz que se divertiu em Gênova e escreveu e telegrafou boas matérias. Seus primeiros artigos sobre Gênova começaram a ser publicados em 10 de abril. Os artigos que enviei pelo correio são de 22 e 23 de abril.
Talvez ele vá para a Rússia pelo Star em breve, está esperando as orientações.
A viagem de Ernest à Rússia nunca aconteceu.
No mesmo dia em que Ernest escreveu à mãe, também escreveu ao pai Clarence.
A primavera definitivamente chegou em Paris, mas demorou muito. Foi uma mudança e tanto sair do calor de Gênova onde ele não precisava usar casaco.
Está de cama há quatro dias com a mesma boa e velha dor de garganta que já parece ter cumprido o seu ciclo e espera poder sair no dia seguinte. O primeiro de maio foi silencioso por ali, mas os Camaradas atiraram em uns policiais.
Em seu texto não publicado, “Paris, 1922”, Ernest escreveu: “Vi a polícia ameaçar a multidão com espadas enquanto eles voltavam a Paris pela Ponte Maillot no Primeiro de Maio e vi o olhar orgulhoso e assustado no rosto lívido de um garoto de 16 anos que parecia aluno da escola preparatória e que tinha acabado de atirar em dois policiais”.
Trabalhou duro em Gênova, e escreveu algumas matérias muito boas. Conheceu L. George, Primeiro-Ministro Britânico, Chicherin, Comissário para Assuntos Internacionais do governo soviético. Litvinoff, Vice-Comissário para Assuntos Internacionais do governo soviético, e muitos outros. O Star lhe paga 75 por semana mais as despesas. Espera ir para a Rússia em breve. Esperando orientações. Avisará assim que tiver mais detalhes.
O interior, de Paris a Picardy, é lindo. Os campos são cheios de grandes pegas preto-e-brancas que sobem os caminhos abertos pelos arados exatamente como os corvos. Também tem muitas cotovias. E um monte de pássaros comuns que ele não conhece, mas vai visitar o zoológico que fica perto da sua casa para identificá-los. Outro dia viu um cruza-bico.
As florestas são muito selvagens e com poucos arbustos e cobrem todos os montes e cadeias de montanhas. Hash e Ernest fizeram uma excursão de sessenta quilômetros quase toda pela floresta. Florestas de Chantilly, Chatallate e Compiegne. Eles têm veados e javalis selvagens e raposas e coelhos. Comeu carne de javali duas vezes e é bem gostosa. Eles a preparam em um tipo de empadão com cenouras, cebolas e cogumelos e uma fina crosta marrom. Também tem muitos faisões e perdizes. Ernest espera fazer uma bela caçada no outono.
Na excursão, Hash e Ernest foram até o rio Oise e atravessaram florestas no alto das montanhas até o Aisne. Eles trabalham duro para reconstruir as cidades e estão deixando muitas delas horríveis com a nova arquitetura francesa.
De Chamby sur Montreux, Ernest volta a escrever ao pai, no dia 24 de maio de 1922. Explica que a razão pela qual o pai não viu nenhuma de suas matérias no Star é que ele só recebe o Star Weekly e seus últimos dezesseis artigos foram publicados no Daily entre 24 de abril e 8 de maio. Diz que vai mandar alguma coisa de onde está para o Weekly. Elas foram recusadas porque as pautas de Gênova eram diárias e o sr. Bone, o editor geral, acabou não as aproveitando em outro lugar.
Conta também que desde que voltou de Gênova, até irem para Chamby, ficou doente e de cama e não produziu nada.
Ali é incrível. Seu colega Major Dorman-Smith está passando a folga dele com Ernest e Hadley e foram pescar trutas e escalar montanhas e no próximo fim de semana vão caminhar pelo passo de São Bernardo e dali vão entrar na Itália onde pegarão o trem de volta a Paris. Ernest já ganhou todos os quilos que perdeu e está se sentindo bem de novo. Sua garganta ainda incomoda, mas pelo que todos os médicos dizem não há muito a fazer e ela deve incomodá-lo o resto da vida.
No mesmo dia em que escreve a carta ao pai, escalaram o Cape au Moine, uma subida muito íngreme e perigosa de mais de 2.000 metros e foi incrível descer pela encosta coberta de neve – o único esforço era sentar, as cordas faziam o resto. Nos vales mais baixos, os campos estão cobertos de narcisos e bem na linha onde começa a neve, quando escalaram o Dent du Jaman, outro dia, viram duas martas enormes. Elas eram do tamanho de um gambá grande, mas bem mais compridas e delgadas. Ernest pegou várias trutas em um riacho chamado Canal du Rhone, na parte alta do vale do Ródano. Lá se pesca com moscas e as trutas são pescadas ali há dois mil anos ou mais, então elas são bastante ariscas. Ainda não as pegou de jeito e foi pescar quatro vezes. Os riachos das montanhas continuam cheios de neve derretida e muito turbulentos para a pesca, mas tem um riacho ótimo chamado Stockalper que deságua no Ródano uns trinta quilômetros acima do lago Léman e Ernest quer muito ir pescar lá. Dá para pegar salmão, mas está muito agitado.
As credenciais para a viagem à Rússia pelo Star chegaram junto com um cheque gordo, 465,00, pelas despesas e por três semanas de salário a 75 dólares por semana. Veio em muito boa hora.
Termina dizendo que Hadley está ótima de saúde e tão corada e bronzeada quanto uma índia. Ela nunca esteve tão bem. É ótimo ali, onde passaram o inverno e conheceram as pessoas. Escalaram todos os picos mais altos da redondeza e estão prontos para escalar de novo as melhores.
Depois de atravessarem o passo Grande São Bernardo, Ernest e Hadley pegaram um trem para Milão. De lá, no dia 11 de junho de 1922, Ernest escreve para Gertrude Stein e Alice Toklas.
Conta que estão em Milão há quase uma semana apostando nos cavalos com um tremendo sucesso. Ernest levanta bem cedo e estuda a tabela das corridas e então depois que quase quebra a cabeça de tanto pensar, a sra. Hemingway, que já tomou uns três drinques, pega um lápis e marca os vencedores com a mesma facilidade com que se escolhe amendoins. Com a ajuda de sua clarividência alcoólica e de um velho amigo meu que, desconfio, dorme com os cavalos, escolheram 17 vencedores em 21 corridas.
As corridas de cavalo em San Siro, pista que fica perto de Milão, aparecem no conto “My Old Man”, de 1923, e em “Adeus às Armas”.
Narra ainda, na mesma carta, que vieram da Suíça para Milão caminhando pelo passo do Grande São Bernardo. Fizeram 57 quilômetros em dois dias. Não foram direto para Milão por causa do inchaço nos pés da sra. Hemingway quando chegaram a Aosta. Foi uma bela trilha porque o passo ainda não estava aberto e ninguém ainda tinha atravessado do lado suíço para a Itália naquele ano. Foram precisos os esforços conjuntos do Capitão Chink Dorman-Smith e da Sra. H. além de uma dose de conhaque a cada 20 metros para fazê-lo atravessar os últimos quilômetros de neve.
De Milão vão subir a Recoaro e Schio no Trentino e depois descerão ao Piave e a Veneza e então voltarão a Paris.
Ernest planejou essa viagem para mostrar a Hadley vários dos lugares por onde ele passou durante a Grande Guerra. Detalhes dessa viagem estão narradas no artigo “A Veteran Visits the Old Front”, publicado no Toronto Daily Star de 22 de julho de 1922.
Ernest quer estar de volta a Paris mais ou menos no dia 18. Está chovendo muito enquanto escreve, o que deve causar um desastre na trilha; não crê que o gênio alcoolizado da Sra. H. funcione direito numa pista enlameada e sabe que se a coisa ficar feia não vai conseguir nem escolher os cavalos. Mesmo assim, é divertido vê-los correndo com as caudas empinadas e escorregando na lama.
Divertiram-se muito na Suíça. Escalaram umas montanhas com o Chink e depois ele escalou sozinho e quase morreu no dia da Ascensão, 25 de março, atravessando uma corrente forte e intensa demais para ele e os encontrou em Bains des Alliaz, um spa suíço a cerca de seis quilômetros ao norte de Chamby sur Montreux. Beberam 11 garrafas de cerveja cada, enquanto a Sra. H. dormia na relva, depois caminharam para casa na noite gelada com os pés que nem sentiam o chão, mas ainda assim se moviam bem rápido.
Espera vê-las, Gertrude e Alice, em breve.
A Harriet Monroe, editora da Revista Poetry: A Magazine of Verse, de Chicago, Ernest escreve uma pequena carta no dia 16 de julho de 1922, dizendo estar muito feliz porque os poemas serão publicados na Poetry e pede desculpas por não ter escrito antes. Está enviando mais alguns que talvez possam ser usados.
No post scriptum diz ter conhecido em Paris um jovem, Ernest Walsh, que diz ser amigo dela. Ele ficou bastante doente, mas agora está bem melhor.
Ernest Walsh (1895-1926) iniciou correspondência com Harriet Monroe em agosto de 1921, enquanto estava hospitalizado com problemas pulmonares resultantes da queda de um avião do exército dos EUA durante treinamentos militares. Seus ferimentos foram agravados por uma tuberculose, que ele havia contraído antes e da qual nunca se recuperou completamente. Monroe publicou quatro poemas de Walsh na edição de janeiro de 1922 do Poetry. Depois que sua doença foi diagnosticada como incurável e que ele foi liberado do hospital, ela o ajudou a obter uma pensão como veterano ferido de guerra e deu a ele cartas de apresentação a Pound e outros escritores de Paris. Com Ethel Moorhead (1869-1955), Walsh fundou uma pequena revista, The Quarter, em 1925, que publicou “Big Two-Hearted River” de Ernest, na primeira edição.
Na edição de janeiro de 1923 da Poetry, foram publicados seis poemas de Ernest, sob o título de Wanderings: “Mitrailliatrice”, “Oily Weather”, “Roosevelt”, “Riparto d’Assalto”, “Champs d’Honneur” e “Chapter Heading”.
Na carta a Monroe, Ernest acrescenta uma Autobiografia:
“Nascido em Oak Park, Illinois. / Endereço permanente Rue du Cardinal Lemoine, 74, Paris V. e.m. // Ocupação – No momento, na Russia como correspondente do Toronto Star. (o passaporte está três semanas atrasado, mas o de Max Eastman chegou ontem, então o meu deve estar a caminho. Litvinoff me prometeu em Gênova que não haverá problemas) / Poemas etc. publicados no Double Dealer”.
Aconselhado por Sherwood Anderson, Ernest enviou trabalhos para o Double Dealer (1921-1925), pequena revista publicada em Nova Orleans por Julius Weis Friend com o objetivo declarado de reverter a “estagnação artística” que atingia o sul desde a Guerra Civil dos EUA. A fábula “A Divine Gesture”, de Ernest, foi publicada na edição de maio de 1922, e seu poema “Ultimately”, na edição do mês seguinte. De acordo com observações de Hanneman em Ernest Hemingway: A Comprehensive Bibliography, a Double Dealer foi a primeira revista norte-americana a trazer uma contribuição de Ernest desde a revista para a qual ele escrevera no colegial, Tabula.
Em um cartão postal de 4 de agosto de 1922, remetido para Howell Jenkins, Ernest diz que voaram de Paris para Estrasburgo em 2 horas e meia – seriam 10 horas de trem! Sobrevoaram o Vosges e atravessaram o Reno entrando na Alemanha. Com 850 marcos a um dólar, duas pessoas conseguem passar um dia inteiro com um dólar. A cerveja custa 10 marcos o caneco. Aqui há cegonhas nos telhados das casas.
Esta viagem é descrita por Ernest em “A Paris-to-Strasbourg Flight Shows Living Cubist Picture”, publicado no Toronto Daily Star de 9 de setembro de 1922. O jornal também publicou duas matérias de Ernest sobre a superinflação do marco alemão após a Primeira Guerra Mundial, “Germans Are Doggedly Sullen or Desperate Over the Mark”, no dia 1.o de setembro, e “Crossing to Germany Is Way to Make Money”, no dia 19 de setembro. Em novembro de 1923, a taxa de câmbio atingirá um trilhão de marcos por dólar.
De Triberg, na Floresta Negra, Ernest escreve à família no dia 25 de agosto de 1922.
Hash, ele e Bill Bird da Consolidated Press e a esposa fizeram um passeio pela Floresta Negra e se divertiram muito. Como o marco continua caindo, eles têm mais dinheiro agora do que quando começaram a viagem há duas semanas, e se ficassem lá muito tempo, se manteriam com nada. Economia é uma coisa maravilhosa.
Foram várias vezes pescar trutas e Hash pegou três enormes na primeira pescaria dela. Pegaram dez num só dia e seis no outro e ele pegou cinco no rio Elz usando moscas. Ernest ainda tem suas velhas iscas McGintys e parece que elas são apreciadas internacionalmente.
No final de setembro de 1922, Ernest viajou para Constantinopla a serviço para o Toronto Daily Star para cobrir a última ofensiva turca na Guerra Greco-Turca (1920-1922). O jornal publicou dezenove matérias escritas por ele entre 30 de setembro e 14 de novembro de 1922. Suas experiências também aparecem em trabalhos posteriores, incluindo três capítulos de In Our Time, “Introduction by the Author”, depois publicados como “On the Quai at Smyrna”, “A Natural History of the Dead” e “As Neves do Kilimanjaro”.
No dia 26 de setembro de 1922, Ernest envia de Milão um cartão-postal a Howell Jenkins dizendo que passou pela cidade no Simplon Orient rumo a Constantinopla para o Star.
O Simplon Express era um trem de luxo que fazia a rota entre Paris e Constantinopla pelo túnel Simplon, conectando a Suíça à Itália, e começou a operar na primavera de 1919.
A Gertrude Stein, aproximadamente no dia 27 de setembro, Ernest envia um cartão-postal com a cena do Boulervard Dondoukoff, em Sófia, capital da Bulgária, dizendo que estava partindo para Constantinopla. Tempo bom e quente. Trem está seis horas atrasado e cada vez mais atrasado. Diz a Gertrude que ela devia fazer essa viagem um dia de Ford.
Em 1917, Gertrude Stein comprou uma caminhonete Ford que ela usava para transportar suprimentos médicos para a American Fund for French Wounded. Especialmente equipado com uma carroceria, o carro foi apelidado de “Auntie”. Em 1920, como precisava de um carro “civil” depois da guerra, ela comprou um Ford de dois lugares; desprovido de conforto, o carro ficou conhecido como “Godiva”.
Voltando a Paris de Constantinopla, Ernest escreve, no dia 27 de outubro de 1922, uma carta a John Bone, editor-chefe do Toronto Star, enviando anexo o relatório de despesas da viagem, autoexplicativo, mas Ernest diz que há um ou dois itens que talvez exijam esclarecimento.
Narra ao editor-chefe que a taxa de $30,00 por um visto para entrar no Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos foi paga num posto de fiscalização. Eles se recusaram a respeitar o seu visto de retorno e nesse caso ou ele pagava a taxa tripla na fronteira, ou teria confiscada sua certidão de nascimento etc. e teria de voltar para Sofia para arrumar outro visto.
O telegrama, cuja cópia Ernest encaminha, não está cobrado no relatório porque foi enviado em circunstâncias inusitadas. Ele estava em Adrianópolis e todos os cabos haviam sido cortados e não havia como despachar o que lhe pareceu uma matéria muito boa que tinha em mãos.
Em reportagem à Toronto Daily Star, Ernest descreve como a concessão à Turquia da cidade de Adrianópolis junto com o resto da região oriental da Trácia, no acordo em Mudania no dia 11 de outubro de 1922 acarretou uma evacuação em massa de refugiados civis e a fuga das tropas gregas, que cortaram os cabos de telégrafo por onde passavam.
Voltando à carta de Ernest ao editor-chefe do Toronto Star, ele diz que a única maneira era fazer a matéria chegar a Constantinopla com a ajuda de alguém. Ele não tinha dinheiro suficiente para ir a Constantinopla, pagar pelo telegrama e voltar, e como ele estava com uma febre de 39, estava mais disposto a ficar em casa. Acabou encontrando um carabiniere italiano que prometeu pedir ao coronel dele, que estava voltando para Constantinopla às 5 da manhã do dia seguinte, são doze horas de viagem de trem, para enviá-lo.
Para resolver o problema de como pagar pelo telegrama, Ernest pediu para enviá-lo a cobrar para Frank Mason da International News Service em Paris com instruções para retransmiti-lo para o sr. Somerville em Londres. O I.N.S. tem uma conta com a Eastern Telegraph Company.
O escritório de Mason o retransmitiu imediatamente, mas o roubaram e reescreveram como puderam. Ernest precisava aproveitar a oportunidade de mandá-lo, mas depositou mais confiança na honestidade de Mason do que ele merecia.
De qualquer forma, Ernest tirou isso a limpo com Mason. Foi um problema pessoal e uma questão de ética. Naturalmente, não tem sentido pagarem por algo que plagiaram. Mason não permitiria que Ernest pagasse uma vez que ele roubou a matéria, de todo modo. Mason garantiu a Ernest que certificou-se de que não restou nenhuma cópia com o serviço da I.N.S. no Canadá antes de fazer o envio. Ernest indignou-se à toa. Legalmente, claro que Mason tinha o direito de reescrever o telegrama, considerando-se o modo como foi enviado a ele, mas, eticamente, e a ética domina a profissão por ali, foi uma jogada lamentável.
Porém, a história não é exatamente esta. Antes de deixar Paris para ir a Constantinopla, e violando o seu acordo de exclusividade com o Star, Ernest fez um acordo secreto com Mason para telegrafar com notícias para a I.N.S., que fazia parte do império editorial de William Randolph Hearst, que as publicaria sob o pseudônimo de “John Hadley, correspondente da I.N.S.”. Hadley não aprovou esse acordo fraudulento. A explicação inverídica que Ernest dá nesta carta é uma resposta a um telegrama de John Bone de 6 de outubro afirmando que outras agências de notícias haviam publicado as mesmas reportagens que Ernest enviou para a Star.
Ainda na carta a Bone, Ernest diz que ficou preocupado com os artigos que enviou para ele pelo correio de Constantinopla e espera que todos tenham chegado. A sra. Hemingway escreveu-lhe todos os dias por duas semanas e só chegaram três cartas, e todas foram enviadas para o mesmo endereço. Algumas das cartas voltaram para ela e outras estão começando a retornar agora. Quando esteve em Adrianópolis, houve uma interrupção de uns oito dias nas entregas do correio. É muito difícil confiar no serviço postal porque antes de as cartas da sra. Hemingway pararem de chegar Ernest recebeu seis cartas dela que chegaram perfeitamente.
Quanto ao salário, Ernest esteve fora de Paris entre 25 de setembro e 21 de outubro. Espera que os artigos estejam satisfatórios. Depois que teve aquela febre, ficou deprimido em relação ao seu trabalho e quando ficou tão mal a ponto de não poder ir ao destroier para Mitilene, tudo ficou pior ainda. Mas a Trácio o encorajou. Enfim, se os artigos não estiverem bons, pode ajustar o salário de acordo.
No dia 3 de novembro de 1922, Ernest manda um cartão-postal para Gertrude Stein com imagem da Vue de Scutari au Bosphore, em Constantinopla, embora esteja em Paris a quase 2 semanas, dizendo que está feliz por ter voltado daquele lugar. Paris está fria e chuvosa. Pergunta a ela quando sai o livro e porque não voltam para animar a cidade. Deixou de lado tudo o que tinha para fazer e dormiu o dia todo. Dormir é muito bom. Acaba de descobrir. É um jeito ótimo de passar o inverno.
O livro a que Ernest se refere é Geography and Plays, de Gertrude, lançado em 15 de dezembro de 1922. Ela e Toklas ficaram em Saint-Rémy até março de 1923.
Carta a Harriet Monroe de 16 de novembro de 1922. Ernest diz-lhe que se tem perguntado quando ela usará os seus poemas, já que a Three Mountains Press lançará em breve um livro, editado por Ezra Pound, com textos de Ernest e ele gostaria de usar os poemas que estão com ela, caso Monroe dê a permissão de republicá-los.
Os seis poemas de Ernest que foram publicados na edição de janeiro de 1923 da Poetry também foram incluídos em seu livro Three Stories and Ten Poems publicado em Paris no verão de 1923 pela Robert McAlmon’s Contact Publishing Company. A contribuição de Ernest à série “Inquest”, de Pound, foi In Our Time, coletânea de textos curtos em prosa, publicado em 1924 pela Three Mountains Press.
Na mesma carta, diz que Paris está bastante tranquila no momento. Dave O’Neil, de St. Louis, que, acredita, Monroe conhece, está na cidade com a família e provavelmente ficará por ali alguns anos. Ele diz que ficará para sempre, mas isso geralmente significa dois anos.
O sr. Walsh estava na Alemanha da última vez que Ernest ouviu falar dele. Conta que acaba de voltar de Constantinopla, então não sabe nenhuma novidade sobre o sr. Walsh. Encontrou Padraic Colum uma noite, mas não comentou o assunto com ele.
Conta ainda que Gertrude Stein desceu para St. Remy, em Provença, e diz que só voltará a Paris depois do Natal. Receberam dela um melão-casaba enorme e doce pelo correio. Era quase tão grande quanto uma abóbora. Gertrude está trabalhando num livro novo.
Hueffer [Ford Madox Ford] chegará no dia seguinte para passar um mês. Ele está morando na fazenda dele na Inglaterra. Joyce está em Nice, doente. Ele tem passado maus momentos por causa dos olhos. Frank Harris está tentando convencer Sylvia Beach, que publicou Ulysses, a publicar a autobiografia dele. Ela não quer, mesmo que Ernest diga a ela que é a melhor ficção já escrita.
A nova publicação de T. S. Eliot, The Criterion, que é trimestral, parece ter inspirado a Dial e a última edição está muito boa. Mas isso já é fofoca americana, não parisiense.
Chegou a época de beber ponche quente de rum, comenta Ernest no final da carta a Monroe, e jogar damas. Parece que o inverno vai ser bom. Os cafés ficam bastante cheios durante o dia por causa das pessoas que não têm aquecimento em seus quartos nos hotéis. Isto está parecendo a coluna social do Petoskey Evening Resorter, conclui Ernest. E talvez ela ache essa fofoca entediante.
Em 21 de novembro, Ernest foi novamente para a Suíça para cobrir a Conferência de Paz de Lausanne, convocada para solucionar as disputas territoriais no centro da Guerra Greco-Turca. Ele foi enviado por Frank Mason da INS e Charles Bertelli do Universal News Service, empresa do grupo Hearst, para enviar matérias por telégrafo sobre a conferência.
No dia 25 de novembro, Ernest manda um telegrama a Hadley, que ficou em Paris dizendo que está doente e esgotado e que logo melhora. A viagem foi linda, muito sol, clima bom. Repete que está muito doente e que há uma boa chance de voltar para casa.
O Toronto Daily Star publicou duas matérias de Ernest sobre a Conferência de Lausanne, uma delas sobre o chanceler russo Georgy Chicherin, no dia 10 de fevereiro de 1923.
Uma carta a Hadley do dia 28 de novembro de 1922, apresenta tanto ela quanto Ernest enfermos, ele em Lausanne. Ele começa dizendo que lamenta muito que ela tenha se sentido tão assustadoramente mal e doente. Ele teve a mesma coisa, escarrando uma coisa verde com manchas pretas que saía de seu peito e uma tosse dolorosa, cabeça pesando e usando milhões de lenços e ele só tinha quatro. Com certeza tem sido péssimo para eles, os pequenos. Fica feliz que Letícia, uma amiga de Hadley de St. Louis, tenha cuidado dela, mas sente que ele deveria ter feito isso e, caramba, queria muito estar com ela, sua pobre e querida Poo.
Diz que parece que é a primeira vez que tem de escrever uma carta em dias. Nunca almoça antes das duas e janta sempre as sobras e os três lugares onde pode ir ficam a 3 quilômetros uns dos outros subindo ou descendo a montanha, sempre dá medo de estar perdendo alguma coisa em um lugar ou outro e todo mundo fala francês e os russos ficam a quilômetros de distância e ele é apenas um bonequinho de cera. Conta que Mason é muquirana com ele então não tem dinheiro para pagar táxis e tem de pegar ônibus e andar. E eles ainda esperam que ele cubra o que acontece até meia-noite todas as noites e começando às 9 da manhã.
No domingo anterior Ernest deu um tempo e fez uma viagem de carro (grátis) até o Chateau D’oeux, ou seja lá como se escreve, e de lá a Aigle passando por Diablerets e pelo velho Dent e então até Montreux, onde desceu do carro e pegou um bondinho para o alto da montanha e jantou com Gangwisch. Estava escuro e não tinha nevado, exceto em Rocher du Naye e no Dent, mas não havia nem sinal da neve no ar e nevou à noite. Até Lausanne ficou cheia de neve que agora derreteu um pouco e virou uma mistura de pedra e lama, mas lisa e bonita de olhar em todos os montes e montanhas. No Grand Hotel em Les Avants há boa comida, pessoas, música, etc. E no Narcissus tem comida barata, uma cerimônia de funeral e essas coisas.
Está cansado disso – é tão difícil. Todos os outros estão com dois homens ou um assistente e eles esperam que Ernest cubra tudo sozinho – e pelo salário minúsculo do Mason. É quase impossível porque as coisas acontecem ao mesmo tempo em locais distantes e tudo mais.
O salário inicial de Ernest na INS, de 60 dólares por semana mais despesas, era menor do que o pago pelo Star, de 75 dólares por semana mais todas as despesas pagas, e ele subestimou tanto os esforços quanto os custos desse trabalho em Lausanne. O salário e as despesas são o tema central do que foi encontrado da correspondência entre Ernest e Mason.
Ernest diz a Hadley que estava louco para que ela fosse até ele e que ainda está, mas se ela disser que está muito mal para viajar, ela sabe. Mas pede por favor que saiba que a quer e não está tentando adiar. Enquanto escreve a carta, deveria estar com os russos. Mas algo do tipo acontece toda vez que começa a escrever uma carta, então eles que vão para o inferno. A menos que Mason lhe pague muita grana, Ernest vai largar o trabalho em algum momento daquela semana, e se Mason lhe pagar muita grana, Hash tem de ir até ele, doente, curada ou de qualquer jeito. Ela pode ir de avião. Já pensou nisso? Por que ela não faz isso? Daí não terá de passar por Vallorbe ou coisa assim. Pede a ela que dê uma olhada nos vôos. Ela também pode ir por Bale. Dizem que é fácil.
E as cartas de Ernest desse período chegaram ao fim. Infelizmente, aqui no Brasil, só foram publicadas as com data até 1922. Há outros volumes, que não me chegaram às mãos. Lendo estas cartas, tive a sensação de conviver com Ernest todos esses anos, na intimidade de sua vida, viajando com ele e Hadley, conhecendo as pessoas que ele conheceu, partilhando suas angústias e alegrias, amores e desamores. Senti-me ao seu lado durante a recuperação no hospital de Milão, no retorno à casa paterna, em seu casamento e volta à Europa. Fui acompanhando seus primeiros passos como escritor e seu amadurecimento. Continuo a achar que ele, até este período das cartas, com 23 anos, foi muito mais maduro e experiente do que eu, aos 26 anos, em qualquer dimensão da vida.
Ao terminar de ler esse volume de cartas do meu amigo Ernest, deitei-me na minha cama, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, recordando tudo o que vivi ao lado dele e tudo o que vivenciei nessa leitura. Adormeci feliz como se tivesse acabado de ler a carta de um amigo que está distante me colocando a par de sua vida atual.
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