quarta-feira, 3 de abril de 2024

VIII

  

Ernest sonhava em voltar à Itália, mas Sherwood Anderson (1876-1941), o romancista e contista americano, que foi apresentado a Ernest em 1921, pelo amigo em comum, Yeremya Kenley Smith, depois de sua primeira viagem a Paris naquele mesmo ano, sugeriu a Ernest que se mudasse para Paris com o intuito de buscar uma escrita séria, dando a ele cartas de apresentação para Sylvia Beach, Lewis Galantière, Ezra Pound e Gertrude Stein.  

Já casado com Hadley, em uma carta datada de 8 de dezembro de 1921, Ernest diz à sua família que estão em um hotel um pouco antes de partir para a Europa no navio francês S. S. Leopoldina, partindo de Nova York e chegando a Le Havre, França, no dia 22 de dezembro.   

No dia 20 de dezembro, ainda a caminho da França, Ernest escreve à família dizendo que fizeram uma ótima viagem. Pararam em Vigo, na Espanha, e, de lancha, chegaram à terra. Eles permaneceram na cidade por quatro horas, antes que o navio seguisse viagem para Le Havre. O mar só esteve revolto por um dia. Depois veio um furacão. Agora o tempo estava bem equilibrado. Estava tão quente na Espanha que Ernest passou um calorão mesmo com um único suéter. No porto, enormes cardumes de atum – alguns saltavam de 2 a 2,5 metros para fora da água atrás de sardinhas.  

A Hash é muito popular no navio por tocar piano. Deram um show uma noite – pegaram três mesas do salão de jantar e improvisaram um ringue e Ernest lutou três rounds com Henry Cuddy, um peso médio de Salt Lake City que vai lutar em Paris. Treinaram juntos a bordo e, no 3.o round, Ernest quase o nocauteou. Cuddy quer que ele lute em Paris. Hash ficou no corner de Ernest e o enxugava com uma toalha entre os rounds. 

Quando estavam chegando na costa da Espanha perto do Cabo Finisterra, viram uma baleia. O porto de Vigo é cercado de terra e foi um ótimo esconderijo para submarinos alemães durante a guerra. Ernest praticou sua Língua Franca – a língua internacional do Mediterrâneo, em Vigo e foi intérprete de todos os passageiros. Hash fala francês, então se viraram lindamente. 

Enquanto Ernest está escrevendo a carta para seus familiares, Hash está tocando piano, mas os dedos dela estão muito duros por causa do vento frio do Canal da Mancha. Passaram o dia todo navegando entre a Baía de Biscaia e a costa da França. Deixaram para trás vários navios instáveis, mas o que estão é firme como a rocha. 

Há muita gente divertida a bordo do navio, mas poucas realmente legais. Vão desembarcar em Havre no dia seguinte por volta do meio-dia e chegarão a Paris à noite.  

De Vigo, no mesmo dia em que escreve à sua família, Ernest escreve a Bill Smith falando sobre a cidade. Eis o lugar para um homem. Um porto quase todo cercado por terra e quase tão grande quanto a pequena baía Traverse com grandes montanhas acastanhadas. Um homem pode comprar um barco à vela usado por 5 pratas. A diária no Grand Hotel é uma prata e a baía está infestada de atuns. Eles agem exatamente como lainsteins – sardinhas para os peixes prateados – e as perseguem da mesma maneira. Ernest viu três saltarem no ar de uma vez – um chegou facilmente a 2,5 metros. O maior que pegaram este ano pesava 400 quilos. 

Vigo deve ser quatro vezes maior que Voix e há uns três ou quatro lugares em volta da baía para onde ir com o barco. Deus, que lugar! Pretendem voltar. Córregos cheios de trutas e atuns na baía. Água verde para nadar e as praias são arenosas. Vino custa 2 pesetas o litro, preço do envelhecido por 3 anos, que pode ser reconhecido por um selo azul. O conhaque é 4 pesetas o litro. 

No verso da carta, Ernest relata a luta de boxe no navio. Diz que Hash segurou a toalha para ele numa luta de três rounds com o jovem Cuddy – um boxeador de 70 quilos de Salt Lake City – desclassificado dos meio-médios – um carcamano que vai a Paris para lutar – Ele fará três lutas lá e uma em Milão. Ernest e Cuddy treinaram todos os dias durante a viagem.  

Pegaram três mesas do salão de jantar e fizeram um ringue entre as colunas e eles lutaram três rounds com arrecadação destinada a uma moça francesa da terceira classe que tem um bebê e ia chegar à França com apenas 10 francos. O marido, das Forças Expedicionárias Americanas, a abandonou.  

Os passageiros disseram que foi uma luta boa de ver.  

Ernest diz a Bill para pedir a Hash para contar sobre a luta. Se ele contar, Bill pode achar que é invenção.  

Já em Paris, no dia 23 de dezembro de 1921 Ernest e Hadley escrevem uma carta ao casal Sherwood e Tenessee Anderson.  

Lá estão. Sentados do lado de fora do Dome Café, em frente ao Rotonde que está sendo reformado, estão se aquecendo perto de um daqueles braseiros de carvão, e está um frio maldito lá fora, mas o braseiro aquece bastante. Tomaram um ponche de rum, quente, e a bebida desce como Espírito Santo.  

O Café du Dôme e o Café de la Rotonde, no Boulevard Montparnasse, atraíam expatriados, artistas e militantes políticos na década de 1920. Em uma matéria para o Toronto Star Weekly, de 25 de março de 1922, intitulada “American Bohemians in Paris a Weird Lot”, Ernest censura a clientela do Rotonde por ser formada por vagabundos pretensiosos, “a escória do Greenwich Village, em Nova York”.  

Continuando a carta, Ernest diz que quando a noite está fria nas ruas de Paris e estão voltando para casa andando pela Rue Bonaparte, lembram-se dos caminhos pelos quais os lobos se esgueiravam pela cidade e de François Villon e dos cadafalsos de Montfaucon. Que cidade! 

Nesse trecho de sua carta, Ernest se recorda do conto “A Lodging for the Night”, de 1877, escrito por Robert Louis Stevenson, no qual o poeta medieval francês Villon reflete que esse é o tipo de clima “em que os lobos podem enfiar em suas cabeças que podem entrar em Paris novamente”, e é perseguido pela visão dos cadafalsos de Montfaucon, “a grande forca da Paris do Terror”. 

Ernest diz ao casal Anderson que tem ganhado o pão nosso de cada dia naquela máquina de escrever. Espera em uns dois dias estarem acomodados e então mandará as cartas de apresentações que Sherwood lhe dera, como se estivesse mandando uma frota de navios. Anderson havia escrito, em novembro de 1921, uma carta a Lewis Galantière, então funcionário da Câmara Internacional do Comércio em Paris, descrevendo Ernest como “um jovem de extraordinário talento”. Por enquanto, Ernest não havia mandado nenhuma carta porque ele e Bones, apelido de Hadley, têm rodado pelas ruas, dia e noite, de braços dados, olhando os pátios e parando na frente das vitrines das lojas. Teme que os doces acabem matando a Bones. Ela parece uma caçadora de doces. Devem ter sido sempre um desejo reprimido dela, ele acha. 

Hadley tinha um fundo fiduciário que lhe dava três mil dólares por ano, mais do que o suficiente para viverem confortavelmente em Paris. Ernest estava trabalhando como correspondente internacional do Toronto Star. 

Galantière fez reserva para o casal Hemingway no Hôtel Jacob et d’Angleterre, localizado à rua Jacob, n.o 44, na margem esquerda do Sena, próximo à praça St. Germain des Près, a poucos metros do rio. Ernest conta a Anderson que o hotel Jacob é limpo e barato. O restaurante de Pre aux Clercs na esquina da Rue Bonaparte com a Rue Jacob é onde costumam comer. Duas pessoas podem conseguir um jantar de primeira, com vinho e à la carte, por 12 francos. Tomam o café da manhã por aí. O custo médio é de 12,5 francos. Ernest acha que está tudo mais barato ainda do que quando os Anderson estiveram lá. Ernest vai escrever sobre a boa vida que turistas e expatriados tinham em Paris, devido à taxa de câmbio favorável, em uma matéria publicada no dia 4 de fevereiro de 1922 no Toronto Star Weekly, intitulada “Living on $1,000 a Year in Paris”. 

Conta ainda aos Anderson que vieram pela Espanha e sentiram falta de tudo, menos do dia de tempestade. Diz que eles precisam ver a costa da Espanha. Grandes montanhas marrons que parecem dinossauros que caíram de cansaço no mar. Gaivotas seguem o barco pairando no ar com tanta estabilidade que parecem pássaros marionetes manipulados para cima e para baixo por fios. O farol parece uma pequena vela presa no ombro do dinossauro. A costa da Espanha é longa e tem aquele tom marrom antigo. Depois conta que foram de trem pela Normandia, com seus vilarejos e montes de esterco fumacento e longos campos e florestas com o chão coberto de folhas e árvores com os galhos nus até o tronco e uma fileira de campos e torres no alto das montanhas. Estações escuras, túneis escuros e vagões de 3a classe cheios de soldados, mas depois todos acabam dormindo nos seus vagões, se encostando uns nos outros, sacudindo ao balanço do trem, O silêncio é sepulcral e cansativo, e no fim de uma longa viagem você não tem para onde ir a não ser para uma outra cabine.  

Howell Jenkins é o destinatário de uma carta datada de 26 de dezembro de 1921 na qual Ernest conta que Bones e ele estão em uma hospedaria na margem esquerda do rio, atrás da École des Beaux-Arts, e estão bem. O quarto deles parece uma loja de bebidas – Rum, Espumante Asti e Vermute Cinzano enchem uma prateleira. Ernest sabe preparar um drink de rum que deixaria Jenkins encarcerado. 

A vida em Paris é muito barata. O quarto no hotel custa 12 francos, e 12,61 equivale a um dólar. Uma refeição para dois custa entre 12 e 14 francos – uns 50 centavos por pessoa. O vinho é 60 centavos. Um bom Pinard – gíria francesa para vinho tinto de baixa qualidade, especialmente para o tipo de vinho que os soldados franceses bebiam durante a Guerra. Compra rum por 14 francos a garrafa. Vive La France! 

Paris é fria e úmida, mas cheia de gente, alegre e bonita. Há braseiros de carvão na frente de todos os cafés e todo mundo parece estar bem.  

Bones e ele pretendem comprar uma motocicleta com sidecar e vão rodar por toda a Europa no próximo verão. 

Galantière ajudou Ernest a encontrar um apartamento no quarto andar, sem elevador, na rue Cardinal Lemoine, no 74, em um bairro de trabalhadores perto da Place de la Contrescarpe. Em outra carta a Jenkins, de 08 de janeiro de 1922, ele comenta que ele e Hash estão de mudança para esse apartamento. Então, Jenkins pode escrever aos cuidados do Cardeal. Diz também que a diversão deles em Paris não tem preço e que ele tem trabalhado como o diabo. Escreveu um pedaço de seu romance e vários artigos. 

Em junho de 1918, a caminho da Itália para a guerra, Ernest e seu amigo Jenkins, voluntários da Cruz Vermelha Americana, ficaram hospedados no Hotel Florida, no no 12 do Boulevard Malesherbes, nas proximidades da Église Saint-Marie-Madeleine. Escrevendo a Jenkins, Ernest diz ter, outro dia, dado uma volta na Florida e comeu em um lugar perto da Madeleine. Mostrou a Hash a cabeça que foi arrancada quando estavam lá durante o bombardeio de Paris pela artilharia alemã que atingiu a fachada da Madeleine. Os franceses deixaram a escultura sem a cabeça.  

Ernest diz estar bebendo Rum St, James agora com uma felicidade fora do comum. É um rum genuíno de 6 anos tão aveludado como o queixo de um gatinho. 

O apartamento é um lugar de alto nível e vão se mudar no dia seguinte – mas não vão manter uma casa até voltarem de Chamby Sur Montreaux na Suiça, para onde estão allezando por umas duas semanas para praticar alguns esportes de inverno. Fica nas montanhas acima de Genebra e é um lugar parecido com o do Dilstein – mas com uma clientela mais selecionada.  

Encerrando essa carta, Ernest diz que usa cachecol todo dia. É proprietário de um casaco – feito para combinar com calças e ceroulas – feito em tear irlandês caseiro – por 700 francos. Como ele comprou os francos a 14 por dólar, não é tão caro 

Final de janeiro de 1922. Carta à família. Ernest escreve dizendo que ele e Bones estão vivendo a cerca de 900 metros acima do nível do mar e se divertindo maravilhosamente. Paris tem um clima péssimo e úmido, então foram para os Alpes para se livrarem dos resfriados e ficarem saudáveis. Estão em Les Avants, acima de Montreaux, no lago Genebra, em uma incrível montanha de esportes. Compraram uma passagem de dia inteiro para a pequena estrada de ferro e dali desceram a montanha de trenó e depois pegaram o trem de volta. Com a passagem de dia inteiro pode-se pegar o trem quantas vezes quiser. No trenó só cabem dois por vez e tem um volante e breques e desce a montanha no meio do campo mais selvagem que já viu. Florestas negras de pinheiros e desfiladeiros e a grande montanha Dent du Jaman. A neve tem um metro de profundida, mas nunca se sente frio. Ele só usa suéteres e o ar é revigorante. O trenó atinge a velocidade de 100 km por hora em alguns trechos e não há nenhuma parada até chegar à estação de trem no pé da montanha. Desceram a montanha com Hash dirigindo. Ela acha que é sinal de covardia usar o breque! Ele usa algumas vezes, mas só para ver o jeito como os flocos de neve voam. Nas curvas é preciso equilibrar-se para fora e um bom pedaço da descida é íngreme demais. É o melhor esporte que Ernest já fez.  

Ele diz à família que tem trabalhado muito. No dia em que escreveu essa carta, trabalhou de manhã e escreveu dois artigos para o Star que enviou enquanto Hash estava descendo a montanha com uma moça americana que está lá.  

Entre fevereiro e março de 1922, Ernest escreveu dezenove matérias publicadas no Toronto Daily Star e no Star Weekly, quatro delas sobre o turismo e o inverno na suíça. 

Continuando a sua carta, Ernest conta que estão em um lugar com preços bem parecidos com o do Dilworth e têm direito a duas enormes refeições por dia. Bebem muito leite, o tempo todo, e Hash e ele estão ficando muito bem de saude. Sai-se de Paris às 9 hs da noite e chega-se a Montreaux às dez da manhã seguinte. Montreaux é bem perto de Chateaux Chillon. Ele diz aos pais que eles provavelmente estiveram lá. 

O Château de Chillon fica em uma ilhota rochosa na extremidade do lago de Genebra, perto de Montreux e ficou famoso devido ao poema “The Prisiones of Chillon” (1816) de Lord Byron. Tornou-se uma atração turística no século XIX e entre seus visitantes ilustres estão Charles Dickens, Hans Christian Andersen e Mark Twain. 

Ainda na carta à família, diz que todos eles iriam enlouquecer com a descida da montanha. Também a esqui, escalada e patinação, mas a descida é mais divertida. É muito engraçado assobiar quando se está correndo empurrando o trenó.  

No artigo “The Luge of Switzerland”, publicado no Toronto Star Weekly, de 18 de março de 1922, Ernest registra a popularidade do trenó entre expatriados britânicos de Bellaria, próximo a Vevey, cerca de oito quilômetros a noroeste de Montreux. 

Hash pede a Ernest que, na carta que está escrevendo aos familiares, conte sobre o apartamento deles em Paris. É o local mais gostoso que já viu. Alugaram com mobília por 250 francos por mês, cerca de 18 dólares, e tem uma femme du ménage, empregada doméstica, que prepara o jantar toda noite. 

Eles contrataram Marie Rohrbach, apelidada Marie-Cocotte, uma camponesa forte de Mur-de-Bretagne, que vivia em Paris com o marido Henri “Ton-ton”, no número 10 bis da Avenue des Gobelins. Hadley, posteriormente, lembrou-se que “a grande qualidade desse apartamento era que com ele vinha Marie-Cocotte, nossa cozinheira, que limpava vários objetos, carregava água, fazia as compras, explicava os modos e costumes franceses e, nos últimos anos, era babá de Bumbie”.  

Voltando à carta e ao comentário de Ernest sobre o apartamento e Marie-Cocotte, diz ele que é o jeito mais confortável e barato de viver. Bones tem um piano e eles colocaram todas as fotografias nas paredes; têm lareira e uma beleza de cozinha e uma sala de jantar e um quarto grande e um toucador e espaço de sobra. Fica no alto de uma colina na parte mais antiga de Paris. A melhor parte do Quartier Latin. Bem atrás do Pantheon e da Ecole Polytechique. Há uma quadra de tênis bem em frente, do outro lado da rua, e uma linha de ônibus que faz ponto final na praça da esquina, então dá para ir a qualquer parte de Paris. Estavam indo muito bem em Paris, mas o tempo estava tão ruim que ficaram felizes em viajar para Les Avants, de onde escreve. Custa apenas 7 dólares a passagem de Paris. Dois dias antes de viajarem, mudaram-se para o apartamento e desempacotaram tudo, assim, quando voltarem a Paris, terão seu canto e nada para desempacotar. Para essa viagem, compraram só duas mochilas e uma mala grande. Ernest mandou fazer umas roupas íntimas para Bones no melhor alfaiate de Paris e elas vestem muito bem. Ela tem um longo suéter branco de gola rolê e um gorro de lã branco com listas laranja.  

Diz ainda à família que todos ficariam impressionados de ver como ambos ficaram aquecidos mesmo fazendo tanto frio. Não usam casacos desde que chegaram ali e nenhum dos homens usa chapéu. É o lugar mais saudável e bacana que a família pode imaginar.  

Ainda em Les Avants, Suíça, por volta do dia 25 de janeiro de 1922, Ernest escreve à sua irmã Marcelline, por ocasião do aniversário dela. Conta que a Suíça é um lugar ótimo. Pede a ela que leia os artigos sobre esse país no Toronto Star. Ali onde estão, está abarrotado de ingleses, com quem tomam chá. A Hash está falando inglês como eles e sempre puxa no sotaque para dizer coisas como “Encha-me a banheira, Ahthuh, porque a temperatura está caindo e estou saindo para o cinema”. Eles têm um trenó com direção, dois freios de mão e um pedal de freio e sobem a montanha em um trenzinho parecido com a locomotiva Peto-Walloon, subindo, serpenteando, subindo, serpenteando, até tomarem a estrada para o inferno e passar por cima de tudo, quando o trem para e tem-se que entrar em outro que anda sobre rodas dentadas até o topo da montanha. Ali empurraram o trenó na estrada e desceram uma rampa que fez o coração de Ernest bater no céu da boca por sete quilômetros. Tudo isso no meio de uma floresta bem fechada de pinheiros, em estradas incríveis. Chegaram a cinquenta quilômetros por hora e Hash, que agora é conhecida como Binney, e ele se revezaram na direção. Um dirige e o outro breca. O nome da montanha é Sonloupe e dela vêm o Dent du Jaman, o Dent du Midi, a Watterhorn, a Jung Frau e outros picos cobertos de neve. 

Conta ainda que comem bem e estão fortes como cabritos monteses. Estão lá há dez dias e vão ficar mais uns dez e depois voltam para o apartamento em Paris. É um lugar ótimo. A mão de Ernest dói demais para datilografar, senão ele escreveria mais a respeito. Tem trabalhado muito e escrito algumas coisas boas. As cartas de apresentação de Sherwood Anderson não lhes fizeram mal nenhum. Aquele país é o melhor que já esteve para quem quer simplesmente viver. Diverte-se tanto na natureza o tempo todo, que não se pensa em nada, não se preocupa, não se faz nada exceto trabalhar uns quatro dias por semana pela manhã e engolir ar na descida de trenó. 

Da Suíça, ainda, no dia 27 de janeiro de 1922, Ernest escreve uma longa carta para a amiga Katharine Foster Smith – a irmã de Bill Smith e uma das amigas mais próximas de Ernest antes dele se casar com Hadley, que estudou com esta e apresentou um ao outro em Chicago, no outono de 1920 −, falando em detalhes sobre a sua vida na Europa. Eis os fatos crus. Hadley e ele têm um apartamento em Paris na Rue du Cardinal Lemoine, 74, pelo qual pagam 250 francos por mês. Fica no topo de uma montanha bem alta na parte mais antiga de Paris e bem acima de um lugar ótimo chamado Bal au Printemps que é uma espécie de Frau Kunts francês. Ouvem do apartamento o acordeão ao som do qual eles dançam, mas não atrapalha. Têm uma Femme du Menage que ele chama de feminine menagerie que vai pela manhã, faz o café, arruma e limpa as coisas e vai embora, depois ela volta, prepara e serve o jantar. Ela cozinha as melhores refeições que Ernest já experimentou e ele inventa os menus, ele e a Bones, a partir de tudo o que já ouviram falar ou que já comeram e ela prepara tudo maravilhosamente. Eles a contrataram pela recomendação de que o marido dela é um grande gourmet e gourmond também, e Ernest acredita. O apartamento é maior do que o que tinham em Chicago e muito confortável, com uma lareira e uma enorme cama francesa, uma boa sala de jantar, um toucador e uma cozinha com uns 3.000 potes e panelas pendurados na parede. Mas no momento não estão no apartamento. 

Estão na Suíça para praticar esportes de inverno. A Suisse é um país incrível – ele pede à amiga que leia os seus artigos no Toronto Star – e Ernest está fazendo amizade com uns jovens ingleses e praticando as mais incríveis corridas de trenó que se possa imaginar. As estradas são de ferro com mais ou menos um metro de neve compactada e se desce dando um berro, a descida pode durar metade do dia, aí se pega um trem e sobe de novo. Têm um trenó para duas pessoas com direção e dois freios e quando se freia incluindo para fora, ele desliza e levanta uma nuvem de gelo. Deus! Esse país tem tantas florestas quanto as grandes cordilheiras e matas e todas as montanhas têm manchas de florestas em seus flancos. 

Hash, lá, tornou-se Binney, variante de Bones, e está ficando tão saudável e forte quanto um cabrito. O nome do trenó é Theodore e eles se revezam na direção. Estão num chalé administrado por um suíço que fala inglês de nome Gangwisch e o café da manhã é servido na cama e ainda têm direito a duas enormes refeições, a senhoria é uma cozinheira de alto nível e comem coisas como rosbife, couve-flor cremosa, batatas fritas, sopa e depois mirtilo com creme de chantili por duas pratas ao dia. É praticamente nada, capaz de fazer um homem cantar o Exército e a Marinha para sempre, três vivas para o vermelho, o branco e o azul! – escreve Ernest, inspirado na letra de “Columbia, the Gem of the Ocean” canção popular americana. 

No livro Adeus às Armas, Frederic Henry e Catherine se hospedam em um chalé no alto de uma montanha perto de Montreux e se divertem praticando esportes de inverno, e as personagens Sr. e Sra. Guttingen guardam forte semelhança com os Gangwish. 

Narra ainda que estão lá há dez dias e devem voltar a qualquer hora dessas. A viagem para Paris dura um dia inteiro e querem viajar durante o dia para poder olhar a paisagem. Ernest está começando a sentir falta de Paris e vai ficar feliz em voltar. Mas divertiu-se muito na Suíça, só que Paris, essa cidade, pega no sangue. Que Katherine não pense que ele não sabe escrever, porque ele sabe, mas esta é uma maldita máquina de escrever francesa e o teclado é uma droga para trabalhar. Ela ficaria maluca com esse país, parece que é o único lugar que realmente presta para viver. Parece tão engraçado, lamentam tanto pelos judeus chegando e arruinando a baía e ali tem-se um país que tem uma baía praticamente intacta. Florestas enormes, bons rios de trutas, estradas maravilhosas e milhares de lugares para ir, ao contrário de Boyne e de Voix. Se os caras estivessem ali, fariam daquele um lugar épico.  

No dia anterior a esta carta, a Binney e Ernest fizeram uma excursão ao topo da montanha passando pelo meio da floresta de pinheiros altos, como se estivessem nos corredores de uma catedral, as árvores são muito altas e quase não há vegetação rasteira como as florestas costumavam ser depois que se atravessa o Sturgeon rumo ao Black. Quando estavam subindo a encosta da montanha, faziam rolar rochas para baixo; elas começavam pulando como coelhos e depois iam reduzindo a altura até chegar ao pé da montanha, se arrebentando na estrada. Achavam que elas iam se arrebentar nos trilhos. Na floresta tem veados e lobos e todo tipo de aves exóticas. Todos os pássaros são desconhecidos para Ernest, exceto os enormes corvos que balançam no alto dos pinheiros e observam tudo o que o que se faz. Tem uns pássaros engraçados, marrons e cinzas, também. Todos os pássaros suíços parecem ter corcunda. 

Binnes e Ernest referiram-se um ao outro como Binney macho e fêmea. O ditado favorito deles é que Binney fêmea protege o menor. A destinatária da carta é chamada de tia Katherine do pequeno Binney e o Harrison Williams de tio Harrison do pequeno Binney. Eles se divertiram muito juntos e Kate precisava ver a Binney fêmea virando a direção do trenó na descida do col du Sonloup. Nossa, ela é uma pilota e tanto. 

Conta ainda que vão descer até Montreux, a cidade onde fica o Château Chillon, para beber chá e ver um filme. No dia anterior, viram um filme de esquiadores e todos eles eram mostrados em silhueta negra e a Binney fêmea disse: “Queria poder ver os rostos, assim eu saberia se tenho algum interesse pessoal neles” e Ernest disse “Você não está vendo as pernas?” e a fêmea diz “Sim, mas um nariz muitas vezes vale mais do que duas pernas”. Só conta isso para dar a Kate uma idéia da atmosfera entre os dois. 

Ao final da carta, Ernest diz a Kate, a quem chama de “de minha boa e velha Butstein”, que ela precisa experimentar aquilo tudo antes de morrer. Qual o propósito de tentar viver num lugar maldito como a América quando existe Paris e Suíça e Itália. Meu Deus, a diversão que se tem ali! Quando as pessoas lhe mentirem e disserem que a América é linda ou tão divertida quanto ali, ela deve responder com uma gargalhada. Ali é tão lindo que chega a doer de um jeito que paralisa o tempo todo, e quando se está com alguém que se ama a beleza se torna uma espécie de felicidade tremenda. É tão lindo, e eles se divertem tanto. 

 

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BIBLIOGRAFIA

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