quarta-feira, 3 de abril de 2024

VII

  

Em outubro, Ernest conhece Elizabeth Hadley “Hash” Richardson, quando se hospedam no apartamento de Yeremy Kenley e Genevieve Smith, cunhado e irmã de Bill Smith e Kate, sua esposa. Hadley e Kate estudaram juntas no Mary Institute, em St. Louis. Depois da morte recente da mãe, Hadley passa algumas semanas em Chicago, a convite de Kate. Ernest, que tinha acabado de voltar de Michigan, aceitou a oferta de Yeremya Kenley para se hospedar temporariamente em seu apartamento até encontrar emprego. 

Em Chigaco, Ernest lê um anúncio do Chicago Daily Tribune: “ESCRITOR PUBLICITÁRIO. NÃO É NECESSÁRIO EXPERIÊNCIA. Destacada agência de propaganda de Chicago oferece oportunidade incomum para homens capazes de se expressar por escrito de maneira clara e divertida. Uma verdadeira oportunidade para entrar na carreira publicitária e ser promovido rapidamente de acordo com suas capacidades. Solicita-se idade, formação, experiência (se houver), estado civil, trabalhos mais recentes e qualquer coisa que contribua para conhecer o candidato. Todas as mensagens recebidas são estritamente confidenciais”.  

No dia seguinte à publicação desse anúncio, 29 de novembro de 1920, Ernest envia a seguinte carta: 

“Tribune:  Não tentarei de maneira nenhuma escrever uma carta ardilosa que os envolvesse numa crise de riso tão grande que vocês atribuiriam a mim de imediato o cargo anunciado no Tribune de domingo. / Melhor será tomarem conhecimento dos fatos e julgarem a qualidade de minha escrita a partir de artigos já publicados. / Tenho vinte e quatro anos de idade, trabalhei como repórter do Kansas City Star e como cronista do Toronto Star e do Toronto Sunday World. / Sou solteiro crônico. / Reportagens de guerra são o que mais existe no mercado, é claro, mas a explicação de eu ter me afastado do trabalho em 1918 é que servi ao Exército Italiano por não ter passado nos exames físicos dos Estados Unidos. Fui ferido no dia 8 de julho no rio Piave – duas vezes condecorado e comissionado. Não que isso faça alguma diferença. / Atualmente escrevo artigos de fundo por um centavo e meio a palavra, e me pedem em média cinco colunas por semana. Coisas de domingo, em geral. / Tenho muita vontade de parar de escrever matérias e começar a escrever propagandas. Se desejarem, posso enviar cópias de meus trabalhos publicados no Toronto Star e no Toronto Sunday World para que avaliem a qualidade de minha escrita a partir deles. Também posso fornecer quaisquer referências pessoais ou comerciais que desejarem. / Na esperança de ter superado todas as suas expectativas − / muito atenciosamente.” 

 

Ernest, na verdade, não tinha 24 anos, mas 21. Não menciona que serviu na guerra como motorista de ambulância da Cruz Vermelha Americana. Não se sabe se ele recebeu resposta à sua carta. 

Em meados de novembro e no início de dezembro, ele escreve duas cartas a Grace Quinlan, remetidas conjuntamente. Conta que escreve diariamente para o Star e que está escrevendo uma comédia com Morris Musselman na base do meio a meio. Este vendeu uma peça para um cara e agora está escrevendo sob encomenda. Um sujeito ligou para Ernest querendo que escrevesse uma história de um menino em seis partes para uma seção de meninos e meninas que ele vendeu para mais de duzentos jornais. O cara falou numa grana boa, então deve escrever agora mesmo. 

Morris Musselman, mais conhecido como Morris McNeil, colega de escola de Ernest, escreveu diversos livros ao longo de sua vida e tornou-se roteirista em Hollywood. A comédia que escreveu junto com Ernest, Hokum: A Play in Three Acts, foi registrada por ele em 4 de junho de 1921 e publicada pela primeira vez em 1978 em edição limitada. Nenhuma história de menino que Ernest possa ter escrito para publicação em jornal foi localizada.  

Continua Ernest a escrever para Grace Quinlan. Está escrevendo umas coisas publicitárias para a Firestone e também escreveu umas histórias jornalísticas que devem ser publicadas como parte de uma grande campanha publicitária para a Handsen Gloves 

Também estes trabalhos de Ernest não foram documentados.  

Conta ainda que está em um momento ótimo. Hadley Richardson esteve em Chicago durante três semanas e saíram muito e se divertiram demais. Viram todos os espetáculos bacanas, inclusive com Ethel Barrymore. 

No dia 02 de dezembro, Ernest vê mais um anúncio do Chicago Daily Tribune: “Procura-se jornalista – jovens do sexo masculino com experiência como repórter em diários e que tenha escrito editoriais e artigos de fundo; vaga incomum para homem em revista dinâmica em Chicago com cerca de 200.000 leitores mensais, procuramos um jovem incomum; escreva uma carta com formação, experiência, idade e pretensão salarial para início imediato”. 

No mesmo dia, ele escreve ao Tribune. 

 

“O anúncio de hoje parece ser a oportunidade que eu procurava para abandonar a carreira nos jornais e iniciar na área de revistas. / Venho trabalhando com jornais desde 1916 – no Kansas City Star e Times como repórter e no Toronto Star e Toronto Sunday World como cronista. / Atualmente, saí do Toronto e estou escrevendo artigos de fundo assinados para a edição de domingo do Star. Estas histórias tratam de tudo o que é americano com um toque canadense. Eles pagam bem, mas escrever o tempo todo sobre coisas canadenses sem estar no Canadá cansa depois de um tempo”.  

 

Nesta carta, mais uma vez Ernest mente, aqui em relação à sua experiência, embora tenha escrito para o Trapeze, quando ainda estava na escola, em 1916. 

Ernest está trabalhando em uma revista chamada Co-operative Commonwealth, fundada em fevereiro de 1919, segundo escreve à sua mãe às vésperas do Natal, que é o órgão, o órgão de boca, não o órgão de tubo, do movimento cooperativo. Se pelo menos uma parte do que dizem sobre esse movimento for verdadeira, é quelque movimento. A revista tem circulação de 65 mil exemplares e naquele mês oitenta páginas de texto e cerca de vinte de anúncios. A maior parte dos textos foi escrita por Ernest. Também escreve os editoriais e quase todo o resto. Espera ainda escrever tudo. 

Conta que Hash (Hadley) passou por Chicago, vinda de Saint Louis, e passou um final de semana. Chegou num sábado à noite e allezou na segunda à noite. Passaram momentos ótimos juntos. Ela queria muito que ele fosse a um jantar e festa de Ano-Novo no Clube Universitário em St. Louis, mas Ernest não conseguiu negociar as datas. Está tão sem grana que parece uma laranja sem sementes.  

Na antevéspera do Natal de 1920, há uma carta de Ernest dirigida a Hadley Richardson. A carta começa com a resposta dele ao convite que ela lhe fez e que ele havia comentado com a mãe. Na carta que Hadley lhe escreveu no dia 20 de dezembro, ela lhe diz que “Se você quiser realmente saber o que penso, penso que eu ficaria muito mais feliz se você viesse para o Ano-Novo”. Ernest escreve que ficaria muito feliz – e a chama de “Hash querida” −, mas que não passa o Ano-Novo em casa desde 1915, acha ele, e mandou uma boa grana para que as crianças tivessem um Natal decente e agora está quebrado. Ele sabe que é desagradável. Seria mais fácil mentir para ela dizendo que aceitou uma dúzia de convites para passar o Ano-Novo e que acabou descartando todos um minuto depois só para vê-la, mas herdou dela esse hábito de sempre falar a verdade.  

Ela pode lhe fazer ciúmes – e pode lhe magoar da pior maneira −, pois seu amor por ela é uma fenda na armadura de quando manda o mundo aos infernos, e nesse amor ela pode confiar o tempo inteiro. Ernest detesta pensar em Hadley indo à festa com Dick Pierce − que ela convidou para ir à festa quando Ernest disse que não tinha dinheiro para ir a Saint Louis – em vez de com ele, mas está falido por causa do aniversário do Senhor.  

Continuando a carta, sente-se péssimo, mas já torrou seu cheque do Toronto, só vai receber outro no dia 15 de janeiro e vai passar esses dias todos com seis membros da famille. 

Quando Hadley e Ernest se despediram na estação de trem em Chicago depois da visita dela na primeira semana de dezembro, ele não a beijou como ela esperava, e ela foi embora magoada. Na carta que ela escreve a ele no dia 20 de dezembro, escreve:  

 

“Achei que talvez você não quisesse me dar um beijo de despedida. Fiquei em pedaços – porque com certeza eu não queria ir embora”.  

 

Ernest, respondendo a isso, escreve:  

 

Hash, querida, você com certeza consegue me magoar um bocado quando você quer. Sobre a plataforma e o trem. Deus – achei que amasse você – Se não amasse, jamais poderia ou amaria ninguém. Acho que estava pensando demais em como não queria ir embora – Você não acredita que eu amo você? Não sei como fazê-la acreditar. / Eu não quis dar um beijo de despedida – esse foi o problema – eu queria dar um beijo de boa noite – o que é bem diferente. Não conseguia suportar a ideia de você ir embora logo quando é tão querida e necessária e toma conta de todo meu ser. / Suponha que quando você me diz que Dick é legal e tudo mais eu responda dizendo como é agradável dançar com Maydlyn e como ela parece bonita montada num cavalo etc. – mas quando penso em qualquer pessoa em comparação a você − Você é tão querida e eu te amo tanto – o que importa brincar com eles. / É claro que eu amo você – eu Amo você o tempo inteiro – quando acordo de manhã e tenho que saltar da cama, tomar banho e fazer a barba – eu olho sua fotografia e penso em você – e essa é a hora mais mortal do dia, você sabe – um bom teste de amor para qualquer pessoa. / E à noite – É coisa demais para suportar – Vá – vá à festa com Dick, mas finja que estou aí – / (...) / Boa noite, minha queridíssima Hash. Adoraria abraçá-la e beijá-la para que você não pudesse duvidar do quanto eu quero ou não. / Amo você / Sera [“noite”, em italiano] / Ernesto”.  

 

Rascunho de um telegrama a James Gamble, do final de dezembro de 1920, respondendo ao convite do amigo para irem à Itália.  

 

“Prefiro ir para Roma com você do que para o céu Ponto Mas fali ponto Triste demais para escrever ponto Escrevendo e vendendo ponto mas sem enriquecer ponto Todos os escritores são pobres primeiro ricos depois ponto não sou exceção ponto Nós teríamos dias ótimos juntos ponto Deus como tenho inveja de você / Hemmy”.  

 

Três dias antes de encerrar o ano de 1920, Hadley Richardson é a destinatárias de uma carta de Ernest. Escreve ele: 

 

“Queridíssima Hash − / Espero que eu não tenha recebido notícias suas desde o Natal apenas por causa do acúmulo de correspondência nos correios. Seja lá o que aconteceu, não é nada divertido. / As coisas estão todas no ar. Provavelmente devo partir na terça para Roma, não Roma N.Y., a outra Roma, na maior oportunidade da minha carreira. Carreira, uma merda – não tive uma carreira −, mas com essa coisa de Roma, devo ter uma. / Se eu allez para lá, passo por N.Y., via Washington para arrumar o passaporte e saio de lá para St. Louis, depois para Washington. / Eis a chance – 5 meses de escrita em condições Ideais – uma chance que só Deus sabe quando eu terei de novo para fazer ficção dessa maneira – um acordo com a Co-operative de que eles vão dizer que me mandaram para a Europa para estudar o movimento cooperativo no exterior – e colaborar com editoriais para a revista – pagando um salário que a taxa de câmbio tornará suficiente – 30 liras a um dólar aproximadamente. E Roma per se não é tão ruim assim no inverno – o clima se parece com o nosso em outubro – e é uma cidade bastante decente. / Depois em junho eu volto com um trabalho melhor e a vantagem de ter 5 meses com os melhores. Vou conversar de forma inteligente contigo sobre Berenson depois de 5 meses com Jim em Roma − / Eu até poderia conseguir uma graninha do Toronto – mas acho que o ideal é deixar de escrever matérias e agarrar algo maior − / Acho que a proposta é atraente para qualquer um que já se arriscou. / Yen está louco para que eu vá. Diz que se eu não for é porque sou um completo idiota. Meu pai é a favor – o que você acha?” 

 

Ernest não fez essa viagem com Gamble.  

No início de março de 1921, em carta destinada a William Smith, diz que alguns recortes de jornal lhe serão enviados. Neles, Smith verá marcas de azul e preto nas histórias que Ernest escreveu. Em alguns casos, verá o nome do escritor. Pede que preste atenção no estilo delicado, na densidade, na virilidade, na engenhosidade artística dos artigos. E que o amigo veja como os artigos escritos pelo escritor superam os escritos dos outros. Diz que o escritor incentiva a si próprio. Ninguém vai incentivar o escritor.  

Em um telegrama enviado a Ernest por Hadley e datado de 7 de julho de 1921, ela diz: 

 

 “Quero muito ver você, mas tenho medo de dificultar as coisas ainda mais venha sexta à noite vejo você sábado e domingo posso abrir mão saiba que quero muito ver você pode não ser prático por causa da garganta e do trabalho com amor / E.H.R”. No verso do telegrama, Ernest rascunha sua resposta: “Nada melhor que sua vinda. Ponto. Feliz. Ponto. Bill de coração partido por Georges Carpentier. Ponto. Eu não – Ponto. Venha por favor. Ponto. Fique aqui. Ponto. Com todo meu amor. / E.M.H.” 

 

Sobre Hadley, Ernest escreve a 21 de julho de 1921 a Grace Quinlan, supondo que ela queira saber tudo. Conta que o apelido dela é Hash, que é uma excelente jogadora de tênis, a melhor pianista que ele já ouviu e uma figura maravilhosa. Apesar do recorte de jornal prevendo um grande casamento no outono em St. Louis, Ernest diz que eles os enganaram e vão se casar em Bay, em uma igrejinha que tem lá. De fato, uma nota na coluna “Social Items”, do St. Louis Post-Dispatch de 15 de julho de 1921, informou o noivado da srta. Hadley Richardson e Ernest Miller Hemingway foi anunciado no dia anterior, durante um chá oferecido pela sra. George J. Baker, e que o casamento provavelmente aconteceria no outono. Um artigo do “Society News” do St. Louis-Democrat, de 15 de junho, previu que “O casamento será um dos eventos sociais de destaque do outono”. Hadley e Ernest se casam no dia 3 de setembro e, embora o convite de casamento tivesse  como local a Igreja Presbiteriana de Horton Bay, o casamento na verdade aconteceu na Igreja Metodista que ficava perto do armazém de Horton Bay.   

Prosseguindo na carta a Grace Quinlan, Ernest escreve que depois do casamento vão viajar por aí por umas três semanas e voltar para Chicago – no apartamento de Kenley Smith – onde devem ficar até novembro, ele acha, e depois allez para a Itália por um ano ou talvez dois.  Andou guardando grana e comprando dinheiro carcamano desde que voltou de Petoskey e recentemente ganhou uma quantia do Rei, então está se estabelecendo muito bem assim. Ernest recebia uma pensão vitalícia de cinquenta liras por ano. Planejam ir para Nápoles e lá ficar até esquentar na primavera. Vão morar em Capri, acha, e depois sobem para Abruzzo. Provavelmente Capracotta – há um ótimo rio de trutas por lá, o Rio Sangro, além de quadras de tênis, e fica a 1.200  metros acima do nível do mar – ela não encontraria lugar mais bonito no mundo. Já recebeu todas as notícias sobre os preços e tudo o mais do seu grande amigo Nick Neroni, que ele conheceu na guerra. Neroni acabou de chegar aos Estados Unidos, vai ficar com Ernest e contar-lhe tudo. Vai retornar à Itália no outono e deixar tudo arrumado para ele e Hadley. Conta ainda que não acertaram a data do casamento, mas vai ser no início de setembro – na primeira semana. Não pode convidar muita gente porque vão se casar no norte para fugir desse tipo de coisa, mas insiste que Grace vá.  

Ernest está com um emprego bom agora – talvez esteja fazendo besteira em jogá-lo para o alto e ir para a Itália, mas vai ter dinheiro suficiente para ficar dois anos lá – e com esse tempo para escrever, talvez ele consiga chegar a algum lugar.  

À mesma Grace, no final de julho, Ernest escreve outra carta dizendo que sabe como ela se sente por ele estar se casando – porque teoricamente ele ainda é muito novo e poderia parecer extremamente engraçado ele se casar e horrível ser domesticado, entrar numa rotina de ganhar dinheiro, ter filhos, etc. Mas há uma boa chance de não ser nada disso – Há uma boa chance de ser apenas duas pessoas que se amam e que são capazes de ficar juntos, entender uma à outra, se divertirem juntas, se ajudarem no trabalho e tirarem um do outro aquele tipo de solidão que acompanha a gente mesmo quando estamos no meio de uma multidão de pessoas que gostam da gente. Acha que o casamento pode ser uma coisa terrível – mas Hash e ele vão tentar. 

No início de agosto de 1921, em carta à sua mãe, Ernest conta que Hadley passou uma semana com ele e agora está no norte, em Wisconsin. Só vai vê-la de novo em 1o de setembro. O casamento é no dia 3. Ele e Hash não vão morar na casa de Kenley no outono – eles vão ter que entregar o apartamento, o que resulta numa tarefa nova para ele. Está procurando algum lugar para ficarem por três meses. Acha que vai conseguir encontrar logo, só precisa pensar nisso. 

A irmã de Ernest, Marcelline, sua querida Ivory, em agosto de 1921 ficou doente e precisou sair do emprego como orientadora em um acampamento e foi para a casa de uma amiga em New Hampshire para repousar, pois, segundo sua mãe, estava “com os nervos estraçalhados”, o que a impediu de ir ao casamento do irmão. Antes da cerimônia, no dia 11 de agosto, Ernest escreve a ela em sua nova máquina de escrever, com a qual tem dificuldades e comete erros. Ele pede à irmã que entenda os erros, pois a máquina é uma Corona barulhenta, o presente daquela que, ele está sempre dizendo ela, num lapso temporário de bom senso, vai assumir o difícil papel de sra. Hemingstein. A Corona, na verdade, é muito pequena para as mãos de Ernest que, todos os dias, acariciam as maiores máquinas do mercado. Então, pede-lhe que perdoe a quantidade de erros que estragam aquela maravilhosa melodia.  

Escreve ainda que o epistoleiro se tornará marido e mulher dia 3 de setembro em Horton Bay, Michigan, já que ainda não compreendeu todo o horror que é o casamento, que era totalmente visível na cara do Blights. Então, se ela quiser vê-lo sucumbir no altar e talvez precisar ser carregado até lá numa cadeira pelos padrinhos, é melhor fazer seus planos para estar no local naquela data. É um sábado.  

Ernest pede, pelo amor de Deus, que Ivory vá ao seu casamento, que esteja lá. Uma bela seleção de jovens rapazes estará presente. Depois de citar vários nomes, pede-lhe que vá de uma vez e sem pensar muito. Responda logo afirmando que estará lá. Pode contar com ela, não pode? Ele diz que fará de tudo para que o casamento seja o mais divertido possível para a irmã. Será mesmo um evento de alto nível. Hash está em ótima forma. Ela está treinando no norte de Wisconsin e a imprensa diz que ela nunca esteve melhor. Ernest está se exercitando todos os dias no Ferretti Gymnasium com um grupo de colegas muito competentes, e Nate Lewis, um lutador peso médio, diz que o deixará tão em forma como nunca esteve na sua carreira.  

Ao final, diz a Ivory, falando sério, vá a este casamento. Por favor, por favor, por favor! Ela precisa ir. Se ela não for, ele cancela. A data é 3 de setembro, às 4 da tarde.  

Cerca de duas semanas antes do casamento, escrevendo à sua amiga Grace Quinlan, Ernest responde a uma carta dela do dia 10 de agosto, na qual ela diz que conheceu Gordon Shorney – um colega de turma de Ernest que se formou em 1917 −, que havia dito que Ernest havia se casado com uma enfermeira que conheceu na França em um “romance de guerra”. Sério que eles acham que ele havia se casado na França? Deus, pede a Grace, conte-me tudo. O que ele fez depois, a abandonou? Grace pensou que ele era um bígamo? Pede mais uma vez que lhe conte tudo, pois está tremendamente interessado. 

Ernest diz que deve sair de Chicago dia 27 de agosto e chegar ao norte na manhã seguinte, provavelmente  indo direto para o Sturgeon  para os últimos três dias da temporada de pesca. Eles fecham dia 1o de setembro e faz tempo que Ernest não pesca, que está morrendo, louco por uma pescaria. Depois ele volta e fica de prontidão até o dia 3, quando acontecerá o grande casamento. Será uma ocasião e tanto, vai ter uma turma ótima por lá. Não muitas pessoas, mas muitas pessoas de quem Hadley e ele gostam. 

Em determinado momento da preparação do casamento de Ernest e Hadley, a lista de convidados chegou a 450 pessoas. Ernest e Hadley escolheram Horton Bay para evitar a pompa de uma cerimônia em St. Louis ou em Oak Park. No entanto, a mãe de Ernest, Grace,  convidou as famílias locais para ajudar a lotar a igreja, mas muitas eram “tímidas para aparecer” e não mais do que trinta pessoas compareceram à cerimônia.  

Entre o meio e o final de agosto, Ernest escreve para seu amigo William Smith dizendo que tem uma passagem e um leito no trem, saindo de Chicago na noite de sábado, dia 27, chegando a Boyne Falls domingo às 5:50 da manhã, acha. Pergunta ao amigo se pode ir buscá-lo. Pede que convide algumas pessoas para o casamento e mande os nomes completos para o endereço de Hash, para ela mandar a eles os convites de verdade. E se o amigo lembrar de mais alguém que Ernest convidaria, faça o convite em seu nome como diria Jesus. 

Na última carta de Smith a Ernest, ele havia perguntado que tipo de “fornecedor evangélico” Ernest gostaria que realizasse o casamento, acrescentando que um bom “fornecedor que conheça a cerimônia de alianças é raro”. Ernest responde em sua carta que há um prelado episcopal em Petoskey que deve se responsabilizar pela união, mas pergunta que raio é essa coisa de serviço de aliança?  Não precisa lhe responder, explique quando Ernest chegar. A dúvida de Ernest sobre as alianças deve-se ao fato que a tradição de troca de alianças pelos noivos terem sido criadas na década de 1920, pela crescente indústria de casamentos.  

 

 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...