quinta-feira, 18 de abril de 2024

XXVI. EPÍLOGO

 XXVI 

Epílogo 

 

Como disseram em uma conversa Gertrude Stein e Sherwood Anderson, “Mas que grande livro, concordavam os dois, daria a verdadeira história de Hemingway, não as que ele escreve, mas as confissões do verdadeiro Ernest Hemingway. Seria para um público diferente do que ele tem hoje, mas seria simplesmente maravilhoso.” 

Foi justamente isso que eu senti ao acompanhar a vida de Ernest através dos relatos de quem convivera com ele. Foi, de fato, um homem extraordinário, cuja vida competia com sua obra. As pessoas gostavam de acompanhar sua vida e suas aventuras, mas muitas também apreciavam seus livros. O inverso também é verdadeiro. O que foi maior? A vida ou a obra de Ernest Hemingway? Acredito que sua vida confunde-se com sua obra e esta está recheada de experiências de sua vida. Escrevia sobre o que conhecia e conhecia porque vivia.  

Ao longo desse tempo de leitura que me proporcionou acompanhar a vida de meu jovem amigo, até a sua morte, fiquei refletindo muito sobre o que a minha interferência involuntária causou em vidas, particularmente na de Emanuele, que não chegou a existir, e na de Ernest Hemingway, que ganhou uma vida que a guerra lhe teria ceifado. 

Um, Ferrini, politicamente correto, sabia viver a vida mesmo com tantos trabalhos como cientista, dedicava parte de seus ganhos à defesa da ecologia, da saúde da população carente, da educação dos mais pobres; um casamento sólido e fiel de muitos anos. Bebia apensa vinho e em jantares sociais. Sempre elegante e gentil ao falar. 

Outro, Hemingway, aos olhos de hoje politicamente incorreto, um homem desbocado e blasfemo, que matava animais em safaris e em pescas pelo simples prazer de caçar e pescar. Mas, em seu tempo, sua vida fascinava as pessoas ainda mais do que as suas obras literárias. Homem viril, imagem idealizada do macho de sucesso, teve quatro esposas. Bebia além da conta, desde a juventude. Foi-se tornando muito egocêntrico, como se tudo girasse no mundo em torno a si. Aquele jovem alegre e um tanto ingênuo que eu conhecera deixara de existir. 

Pareceu-me, ao ler os testemunhos íntimos de quem o conheceu, que Ernest procurou sempre situações que o deixassem próximo à morte, como se, em seu mais profundo ser, ele soubesse que morreria naquela situação durante a Primeira Guerra. 

Mas eu mudei a história. 

 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...