No capítulo seguinte do livro de Sylvia Beach, dedicado aos primeiros exemplares impressos de Ulisses, de James Joyce, a autora, no subtítulo “Minerva-Hemingway”, faz ainda recordação de Ernest.
Ora, não é segredo para ninguém que o herói de Ulisses tem amigos lá em cima, ou melhor, uma amiga – a deusa Minerva, que se manifesta ora com um, ora com outro disfarce. Dessa vez, a deusa assumiu a forma profundamente masculina de Ernest Hemingway.
Espero que as revelações a seguir não causem problemas a Hemingway com as autoridades – que decerto não incomodariam um ganhador do Prêmio Nobel –, mas foi graças a ele que meus exemplares de Ulisses penetraram nos Estados Unidos.
Apresentei a questão a Minerva-Hemingway, que pediu 24 horas e voltou no dia seguinte com um plano. Um amigo seu de Chicago entraria em contato comigo – um certo Bernard B., pessoa muito prestativa, a quem chamo de São Bernardo por causa de seu trabalho de salvamento – para me informar como resolveríamos o problema.
Ele me escreveu contando que seus preparativos já estavam adiantados e que iria mudar-se para o Canadá. Indagou também se eu me disporia a pagar o aluguel de um estúdio em Toronto, no que consenti sem vacilar, é claro. Em seguida, ele me mandou o endereço de seu novo domicílio e orientou-me a enviar todos os livros para lá. Foi o que fiz – e, como Ulisses não estava proibido no Canadá, ele os recebeu em segurança. A missão que Bernard empreenderia então lhe exigiria grande coragem e astúcia: precisaria transpor a fronteira com centenas daqueles livros enormes.
Todos os dias ele tomava a barca com um exemplar de Ulisses enfiado dentro das calças, conforme me descreveria mais tarde. Como aqueles eram os dias de ouro do contrabando de bebidas, avistava-se um bom número de personagens de formas estranhas, mas isso só fazia aumentar o risco de uma revista.
À medida que o trabalho avançava e restavam só as últimas dezenas de cópias, Bernard imaginou que as autoridades portuárias já deviam estar começando a observá-lo com uma certa desconfiança, e receou de que logo decidissem investigar com mais atenção a verdadeira natureza dos negócios – supostamente vender seus desenhos –que o levavam a ir e vir todos os dias. Encontrou um amigo que se dispôs a ajudá-lo e embarcaram ambos – agora com duas cópias cada um, pois precisavam trabalhar rápido – um na frente e outro atrás; deviam estar parecendo um casal em disputa de paternidade.
Que peso nosso amigo tirou dos ombros e da cabeça quando transportou o último de seus grandes tomos para o outro lado! Se Joyce pudesse prever tamanhas dificuldades, talvez tivesse escrito um livro menor.
De qualquer modo, os compradores norte-americanos de Ulisses que receberam seus exemplares estejam cientes de que devem agradecer a Hemingway e seu obsequioso amigo pelo grande pacote que a American Express foi entregar-lhes à porta um dia.
No último capítulo de “Shakespeare & Company”, Silvia narra o seu encontro com Ernest por ocasião da Libertação de Paris durante a Segunda Guerra no subtítulo “Hemingway liberta a rue de l’Odeon”.
Ainda se ouviam muitos tiros na rue de l’Odeon; já estávamos ficando cansadas daquilo quando um dia uma fileira de jipes subiu a rua e parou na frente da minha casa. Ouvi uma voz profunda me chamando: “Sylvia!” – e todo mundo na rua atendeu ao chamado.
“É Hemingway! É Hemingway!”, gritou Adrienne. Desci correndo as escadas e demos um encontrão; ele me abraçou e me girou no ar, sob os aplausos de quem estava na rua e nas janelas.
Subimos para o apartamento de Adrienne e fizemos Hemingway se sentar. Ele estava de uniforme, chamuscado e ensanguentado. Uma metralhadora largada no chão. Ele pediu um pedaço de sabão, e Adrienne lhe deu sua última barra.
Hemingway quis saber se havia algo que pudesse fazer por nós. Pedimos que fizesse alguma coisa quanto aos franco-atiradores nazistas nos telhados da nossa rua, principalmente em cima da livraria de Adrienne. Ele tirou sua companhia dos jipes e levou-a para o telhado. Ouvimos tiros pela última vez na rue de l’Odeon. Hemingway e seus homens desceram e partiram em seus jipes “para libertar”, disse-nos, “a adega do hotel Ritz”.
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