terça-feira, 9 de abril de 2024

XVII. ERNEST POR JOHN DOS PASSOS

              Vasculhando sebos à procura de livros de contemporâneos de Ernest que passaram por Paris nos anos de 1920, comprei um livro de memórias editado em Portugal, “Os melhores tempos”, de John Dos Passos, chamado por ele de “uma biografia não oficial”, no qual o autor também dá o seu testemunho a respeito de Ernest, com quem conviveu proximamente. 

 

Já não sei como nos conhecemos [Donald Ogden Stewart e Dos Passos]. Apesar de uma certa obsessão a respeito de posição social, Don conseguia ter graça com quase todos os assuntos. Riamo-nos como parvos sempre que estávamos juntos. 

A minha falta de orientação social parecia-lhe deplorável. Estava decidido a fazer-me conhecer todas as pessoas convenientes. De qualquer modo estou-lhe eternamente grato por me ter apresentado a Gerald e Sara Murphy. 

Deve ter sido em Paris. Eu já tinha perdido bastante de meu apetite pela “Ville Lumière”, embora adorasse os concertos e as galerias e o chá com os Championnières, na rue de Clichy. Em 1922, na Primavera, já eu escrevia a Arthur McComb que conhecia demasiado bem Paris: “Recordações sorriem-me em todas as esquinas. Não sei se estou neste ano, ou no ano passado. Pode-se sempre estar no presente, mas encontrar o passado em todos os cantos, com seu espelho infernal... destesto.” 

Ao encontrar Don Stewart em Paris tive um vislumbre fantástico da cidade, através da comédia de Madison Avenue de Mr. e Mrs. Haddock no Estrangeiro. Quando me levou a visitar os Murphys deu-me acesso a uma coisa muito diferente do amontoado de exilados literários, à volta de Montparnasse, que eu já temia. 

É claro que Hemingway era uma exceção, tal como Cummings era outra exceção. No universo privado que eu estava a organizar para mim, as personalidades literárias em geral, e em especial os exilados de Greenwich Village e os de Paris contavam-se entre as categorias de excomungados. A atitude deles perante a vida dava-me vontade de vomitar. Mas logo que eu me ligava de amizade com um deles, ela ou ele tornava-se uma exceção, única e inatacável. 

Embora Don e Ernest e eu começássemos a dar-nos bastante uns com os outros durante um período em que conheci os Murphys, creio que conheci Ernest no ano em que Ulysses foi publicado, enquanto ele estava em Paris a trabalhar para The Toronto Star. Recordo-me vagamente de tomar uma refeição com ele e com Hadley no restaurante Lippe, antes de ter nascido Bumby, e de Ernest falar maravilhosamente de uma conferência internacional a que assistira recentemente. Quando ele era novo tinha um dos cérebros mais argutos para desmascarar mentiras políticas que jamais conheci. Os seus conhecimentos de box e da gíria dos fora da lei, aprendida em Kansas City e Toronto, davam-lhe um vocabulário direto que marcava as suas histórias. Ficava tudo bem definido. Achava as suas apreciações ácidas de Clemenceau e Lloyd George e Litvinov perfeitamente tonificantes. Concordamos numa admiração comedida de Liebknecht e Rosa Luxembourg. Deve ter-me mostrado um dos curtos artigos que mais tarde apareceu incluído em In Our Time, porque imediatamente o classifiquei como sendo um homem com talento óbvio para manejar a língua inglesa. 

Mais tarde passamos muito tempo a reconstituir esse primeiro encontro, quando nenhum de nós tinha a mínima ideia de que o outro viria a ser o que o pobre velho Sherwood Anderson chamava um “tipo das letras”. O primeiro encontro deve ter sido em Schio, em maio de 1918, quando Ernest tinha acabado de chegar com a Seção 4 da ambulância da Cruz Vermelha, à Itália, e eu me preparava para deixar a Seção 1, em Bassano, numa situação difícil. Fairbanks e eu costumávamos evacuar os feridos para um hospital perto de Schio e deve ter sido numa dessas viagens que tivemos contato com a Seção 4. Ernest e eu lembrávamo-nos um do outro vagamente. 

Foi só em 1924, quando Hem, como quase todos lhe chamávamos, e Hadley viviam na serralheria da rue Notre Dame des Champs, que começamos a desempenhar qualquer papel na vida um do outro. Desde o primeiro instante gostei de Hadley. Bumby tinha chegado. Isto foi durante uma das minhas paragens caprichosas em Paris. 

Hem e eu encontrávamo-nos casualmente na Closerie des Lilas, na esquina de Saint Michel e Montparnasse, para bebermos qualquer líquido inócuo como vermute de “cassis”, enquanto conversávamos sobre a dificuldade de passar as ideias ao papel. Estávamos os dois a ler o Velho Testamento. Líamos um ao outro os melhores passos. A canção de Deborah e as Crônicas e os Reis eram as nossas páginas favoritas. 

In Our Time tinha sido publicado, e eu era o seu arauto. O meu ponto de vista era que, baseando as suas frases curtas e tersas na linguagem telegráfica e na Bíblia do Rei Jaime, Hem tornar-se-ia o primeiro grande estilista americano.  

Deve ter sido na Primavera, porque nós estávamos sentados no triângulo de jardim entre as duas avenidas, e eu lembro-me de achar graça ao fato de, apesar do nome, não haver na realidade um lilás em flor na Closerie. 

Depois íamos a pé, devagar, pelo meio da multidão das cinco horas da tarde, até a serralheria, e ajudávamos Hadley a dar banho a Bumby. Bumby era um bebê grande, saudável, sociável, que apreciava o seu banho. Era metido na cama e, quando uma simpática e roliça camponesa francesa chegava, íamos jantar fora. Ajudar a meter na cama os filhos dos amigos, antes de irem todos jantar fora, é uma faceta da sociedade de americanos, recém-chegados à idade adulta, que sempre apreciei. Os homens não são tão egoístas se há mulheres à sua volta. Pelo mesmo motivo a gente nova dos dois sexos não se pode dar muitos ares, se têm crianças de que tratar. 

Desde o princípio que Hem tinha uma horrível tendência para os acidentes. Nunca vi um homem que tantas avarias provocasse na própria carcaça. Foi mais ou menos nesta altura que fechou sobre a cabeça a claraboia da retrete, nas escadas do andar em que habitava, o que lhe causou uma comoção cerebral e laceração do couro cabeludo, que levaram semanas a curar-se. Até morrer, a cicatriz não desapareceu. 

Se não era um acidente, era uma dor de garganta. Era como um daqueles atletas profissionais que, embora fortes como um boi, têm sempre qualquer pequeno padecimento. Hem a fazer boxe foi uma coisa que sempre evitei. Como tinha os óculos para me servirem de desculpa, não tinha necessidade de competir com ele nessa especialidade. 

Eu também não sabia andar de bicicleta. Hem era louco por corridas de bicicleta. Costumava vestir uma camiseta de riscas, como um participante do Tour de France e percorrer de bicicleta os boulevards exteriores, com os joelhos nas orelhas e o queixo no guidão. Parecia-me idiota, mas nessa época, Hem aceitava bem a troça que se fazia dele. 

Tinha uma tendência evangelizadora que o fazia tentar converter os amigos às manias a que se entregava num dado momento. Gostei realmente de ir com ele às corridas de bicicleta dos seis dias. Os Six Jours no Vélo d’Hiver foram divertidos. Os acontecimentos desportivos franceses tinham, para mim, um certo ar cômico que me agradava. Costumávamos comprar, nos quiosques e carrinhos de vendedores ambulantes, numa das estreitas ruas do mercado de que ambos muito gostávamos, uma quantidade de vinho e queijos e pãezinhos estaladiços, um pote de “patê” e talvez um frango assado, e sentávamos na geral. Hem sabia todas as estatísticas e os nomes e as vidas dos corredores, mas tinha tendência para transformá-lo em negócio, ao passo que eu só gostava de comer e beber e apreciar o espetáculo. 

De vez em quando lembrava-se de que eu era um rival das letras e emudecia, ou então avisava-me com rispidez de que não devia escrever nada sobre as corridas de bicicleta. Isso era do domínio dele. Assegurava-lhe que a literatura desportiva não era o meu gênero, e que, além disso, Paul Morand tinha mais do que falado no assunto em La Nuit des Six Jours Talvez fosse por ter lido a descrição de Paul Morand que o espetáculo me agradou tanto. Embora eu tentasse, tanto como Hem, conseguir que, o que punha no papel, saísse diretamente do acontecimento, desconfiava ainda de que, a maior parte das vezes, a vida imitava a arte. 

Hem costumava obrigar a pobre Hadley a passar ali as noites, mas eu escapava-me quando tinha sono e ia para o meu quarto. Desde o princípio que Hem foi duro com as suas mulheres. Contudo estou convencido que era mais para o bem delas do que para as aborrecer. Deixava-as mais capazes de enfrentarem a vida do que quando as tinha conhecido. Na sua juventude, apesar do seu mau humor e das suas fantasias instáveis, tinha um efeito tonificante em todos com quem se dava. Durante o período em que estivemos de boas relações abriu-me os horizontes da vida desportiva de um modo que nunca me teria sido possível fazer sem ele.  

Mesmo nessa altura era um indivíduo com uma maneira de ser caprichosa. Tinha pena de si próprio. Uma das coisas de que mais se lamentava era de não ter frequentado a Universidade. Costumava dizer-lhe que tinha sido uma sorte para ele. Que imaginasse só todos os disparates que não tivera de desaprender. 

Hem tinha uma vista excepcionalmente boa. A acuidade fria do caçador. Nessa época parecia-me que ele via as coisas e as pessoas sem a cor do sentimento ou da teoria. Tudo tinha uma luz branca, clara e fria, a luz que impregna os seus melhores contos, “Uma Casa Limpa e Bem Iluminada” por exemplo. 

Tinha os mesmos olhos argutos para a pintura. Talvez que Gertrude Stein, que não era nada desajeitada nesse capítulo, o ajudasse a desenvolver essa habilidade. Com uma rápida vista de olhos observava a excelência da cor e do desenho. A Escola de Paris já estava cheia de extravagâncias capazes de fazerem vomitar um gato, mas Hem nunca se deixou enganar pelo que era de qualidade inferior. Quer fosse em política ou obra literária ou pintura, salvava uma situação disparatada com um palavrão a propósito. 

Lembro-me bem de ele comprar “A Herdade” de Juan Miró – creio que foi o último quadro “objetivo” que Miró pintou – porque tive de andar a correr de um lado para o outro a pedinchar dinheiro. Estávamos constantemente a pedir dinheiro uns aos outros. Hem tinha descoberto que poderia comprar o quadro por dois ou talvez três mil francos (muito pouco em dólares ao câmbio corrente) e estava num frenesi, com medo de que outra pessoa o arrematasse. Levou o quadro em triunfo para a serralheria. Continua a ser um dos melhores de Miró. Quanto valerá agora?! Pintura era uma coisa em que geralmente estávamos de acordo. 

Os entusiasmos de Hem eram contagiosos. Embora eu tivesse uma inibição inveterada contra o jogo a dinheiro, ele até me conseguiu levar às corridas de cavalos. Hem afirmava estar a ganhar grandes quantias, e uma Primavera segui-o até Longchamps e Auteuil. Os meus olhos, como de costume, prendiam-se mais ao espetáculo do que ao dinheiro. Foi Degas que me ensinou a apreciar corridas de cavalos e “jockeys”. 

Quem nos dava sugestões gratuitas para as apostas era Harold Stearns. Harold era um tipo extraordinário. Tendo ganho fama com os artigos em The New Republic e outros jornais liberais, e editado uma das primeiras e mais bem sucedidas coleções de pontos de vista sobre a civilização americana, veio para Paris. 

Em Paris deixou de escrever e deixou tudo mais. Até a sua procura de mulheres e bebidas parecia ter falta de convicção. Ainda havia nele um certo encanto pálido. Era um conversador que entretinha. Vivia uma existência patética de parasita de bares, conseguindo ganhar dificilmente a vida com a venda de conselhos sobre cavalos aos turistas americanos que encontrava nos diversos bares que frequentava. 

Havia uma corrida importante numa das pistas, e Harold pôs tudo em pratos limpos acerca de um certo cavalinho que tinha poucas probabilidades de ganhar a corrida. As apostas, trinta contra um, ou coisa parecida. Nunca levava nada a um amigo pelas informações, e desta vez jurou por tudo que era sagrado que íamos fazer uma autêntica limpeza. 

Hem e eu juntamos várias centenas de francos e dirigimo-nos para as pistas. Harold tinha combinado com um servente para nos deixar ver o cavalo particularmente. Era um baiozinho escuro, bonito, nervoso. O “jockey” confiou-nos que ia apostar nele todas as suas economias. Sorrimo-nos para o cavalo, fizemos-lhe festas no nariz e falamos muito na linguagem pedante usada nas corridas de cavalos, em inglês e em francês. Quando chegamos às bilheterias do parimutuel, as vantagens eram enormes. Já estávamos a planear gastar uma parte dos lucros numa refeição muito fina no restaurante Foyot. 

O cavalo lá a saltar, saltava, mas no fosso recusou-se, atirou com o “jockey” por cima das orelhas e pôs-se a percorrer a pista a galope em sentido contrário. Antes que o apanhassem já tinha saltado muitos obstáculos para trás. A corrida foi uma desgraça. Quase morremos de rir. Regressei a Paris com a minha convicção de que jogar era uma loucura, ainda mais fortalecida. Na próxima vez que Harold nos viu no Henry’s Bar, fingiu não nos ver. 

Nenhum de nós podia dar-se ao luxo de uma perda de dinheiro daquelas, mas nunca deixamos de rir. Hem ou tinha abandonado o lugar de correspondente ou estava para abandonar. A vida era-lhe difícil, ao tentar manter-se com o que escrevia. A edição de In Our Time que Robert McAlmon publicara em Dijon tinha-lhe trazido aplausos nos círculos recherchés, mas nenhum dinheiro. A sua principal fonte de rendimento era escrever poemas obscenos para uma revista alemã chamada Der Querschnitt. Fizemos todas as piadas possíveis em volta desse nome. 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...