terça-feira, 2 de abril de 2024

V

     Já nos Estados Unidos, Ernest escreve ao amigo Bill Horne que sua família ficou comovida como o diabo com a sua chegada. Nos dois anos e meio que passou longe deles, muita coisa mudou. Agora o pai ri de suas histórias sobre Cognac e Asti, o primeiro, um destilado sofisticado que recebeu o nome de sua cidade de origem, no oeste da França; o segundo, um vinho frisante italiano. Muita coisa mudou mesmo. Ele sente falta das velhas batalhas. Seu pai perdeu o jeito de lutador. O que Marte, o deus romano da guerra, fez? Encerra a carta dizendo que Edgar Rice Burroughs, aquele que perpetuou o Tarzan, o homem macaco, está tentando convencer Ernest a escrever um livro. Caso ele o escreva, não vai mandar uma cópia para o amigo, este vai ter de comprar, porque ele vai precisar que o livro venda.

    Em uma carta a James Gamble, que era o chefe do serviço de rancho da Cruz Vermelha Americana quando Ernest se ofereceu para o rancho de emergência na frente de batalha do Rio Piave, em junho de 1918, ele pede, pelo amor de Deus, que não volte para os Estados Unidos enquanto puder evitar e ele sabe o que está dizendo. Ernest é um patriota e desejoso de morrer por aquela grande e gloriosa nação, mas odeia como o diabo viver ali. Conta que teve uma tempestuosa, mas agradável viagem de volta, com três dias ótimos em Gibraltar, onde pegou uma roupa casual emprestada de um oficial britânico e foi até a Espanha, que tem a mesma agitação frenética de Nova York. Tentaram fazer dele um herói, mas ambos sabem que os verdadeiros heróis estão mortos. Se ele fosse realmente uma peça desse jogo, teria sido morto. Fala ainda que tem escrito coisas muito boas e que isso lhe faz bem. Brinca que está fazendo uma campanha contra a Saturday Evening Post, revista criada por Benjamin Franklin em 1728, pois mandou o primeiro conto há poucos dias. Ainda não escreveu sobre a aventura das glicínias. No dia seguinte irá enviar tantas matérias e tão boas, que terão de comprar alguma coisa em defesa própria. Estas histórias que Ernest menciona ao velho Comandante não foram identificadas e nada do que escreveu foi publicado na revista SEP. Quanto à aventura das glicínias, foi contada em uma história que Ernest intitulou “The Woppia Way”, na qual o protagonista, Nick Neroni, recorda suas experiências de guerra, incluindo beber cerveja em uma trattoria ao ar livre, sob “aquelas grandes flores violeta que cobriam os muros brancos e exalavam seu perfume noite adentro”. Durante suas primeiras semanas na Itália, Ernest e seus colegas motoristas de ambulância “desfrutaram de algumas noites bebendo cerveja sob arbustos de glicínias em uma das ruas secundárias de Schio”.  

Continuando a sua carta, Ernest afirma que está com tantas saudades da Itália que quando escreve saem coisas que só se vê em cartas de amor. Cartas de amor, não ladainha sentimental. 

Conta que a garota, Agnes, ainda está em um lugar esquecido por Deus chamado Torre Di Mosta, depois do Piave, exatamente a vinte quilômetros de San Dona do Piave. Ela está coordenando as enfermeiras de um hospital de campanha e um jardim de infância, e no tempo livre atua como prefeita da cidade. Caso Gamble vá a Veneza, pede que vá ver Agnes e que a senha é Hemingstein. 

Ernest diz que voltou para casa decidido a enfrentar de uma vez a luta pelos pães e esperando encontrar uma situação financeira ruim, mas foi recebido pelo pai com as seguintes palavras: “Nunca estivemos melhor. Tudo vai muito bem. Por que você não me pediu uma grana para ficar lá por um tempo que queria?” 

Quase ao final, volta a falar de Agnes, dizendo que a Garota não sabe quando volta. Ernest está guardando dinheiro, se é que o amigo acredita, pois nem ele próprio acredita. É o que acontece quando se fica longe dos cavalos e quando os amigos estão do outro lado do oceano. Quando, ainda em Milão, Ernest se recuperou minimamente, foi com Agnes e alguns amigos acompanhar as corridas de cavalo da pista de San Siro, perto de Milão, conforme ela relatou em seu diário. Ernest também se baseou nessa experiência em Adeus às Armas.  

Ernest confidencia, em outra correspondência, a Bill Horne, que Agnes encontra-se em Padova, e de acordo com as últimas recomendação que ela lhe passou, um certo tenente de artilharia, baixinho e muito adiposo, está competindo pela mão e pelo destino dela. Ela havia escrito, no dia 3 de fevereiro, que “O tenentinho de quem falei antes está se apressando desesperadamente – não vá ficar nervoso”.  

Continuando, ele diz que sua Ag não sabe quando volta para casa. E não pode culpá-la, porque ele também não queria. Mas um dos dois terá de cruzar o oceano. Ele não pode e não teria nada quando chegasse do outro lado. Então, acha que isso vai terminar na igrejinha ali da esquina. Horne será o primeiro a ser chamado como testemunha, ou padrinho ou o que corresponder a padrinho na igrejinha. Quando, ele não sabe, já que não pode ser agora.  

Ernest volta a falar que está escrevendo. Jura por Deus, escrevendo. Queria que Bill estivesse ali para dar sua opinião sobre essas coisas. Relata que uma das histórias fez o irmão Jenks chorar, sério, e ele estava bem sóbrio. Talvez tenha sido esse o problema. Mas é sério, está escrevendo coisas que ele não tinha ideia que poderia escrever. Vai conquistar o Post. Diz que aposta com Bill em dinheiro.  

Termina essa carta dizendo que está tão apaixonado quanto antes e espera que Ag continue assim também, porque se ela não estiver, a vida não vale ser vivida. Ag é imensamente desejada pelo pobre amigo Ernie, etc. 

Quinze dias depois, no dia 30 de março, Ernest volta a escrever a Bill Horne. Ele vai, no meio da carta, contar uma triste verdade, da qual ele já suspeitava há algum tempo, desde que voltou e que culminou em uma carta da Ag, recebida naquela manhã.  

Nessa carta, data de 07 março, ela escreve a Ernest terminando o relacionamento. Havia conhecido um oficial italiano, Tenente Domenico Caracciolo, e envolvera-se com ele. Em um trecho da carta, Agnes escreve: 

 

“Estou escrevendo tarde da noite após pensar muito e tenho medo de machucá-lo, mas eu tenho certeza que isso não irá feri-lo de forma permanente.  

Por um tempo antes de você ir embora, eu estava tentando me convencer de que era um caso de amor real, mas nós sempre discordamos nesse ponto e depois eu buscava argumentos que se encaixavam para evitar que você tomasse alguma atitude desesperada. Agora, depois de dois meses longe de você, eu sei que eu gosto de você, mas é mais como uma mãe do que como uma namorada. É certo dizer que eu sou uma garota, mas também sou cada vez menos uma garota a cada dia que passa”. 

 

Ernest, um escritor contumaz de cartas, respondeu a Agnes, mas o conteúdo de sua carta perdeu-se, quando um ciumento namorado dela queimou toda a correspondência enviada por Ernest, uma ação inconsequente que privou o futuro de conhecer mais a fundo os sentimentos de meu amigo. Embora a resposta de Ernest tenha sido destruída, em uma carta ao seu amigo Howell Jenkins, em julho desse mesmo ano, ele escreveu: “Eu a amei outrora e, em seguida, ela me trapaceou. E não a culpo. Mas eu me propus a cauterizar as lembranças com o método da bebida e outras mulheres e agora tudo se foi”. 

No entanto, Agnes não foi esquecida por Ernest, tornando-se sua inspiração para criar a personagem de Catherine Barkley no livro Adeus às Armas, no qual recria a sua experiência na Grande Guerra. 

Voltando à carta que Ernest escreveu para Horne, no qual conta o fim do relacionamento com Agnes, ele lhe diz que ela não o ama mais. Ela retirou tudo o que disse. Um “erro”, um daqueles pequenos erros. Ernest não consegue brincar com isso e não consegue nem se ressentir, porque simplesmente está arrasado. E o inferno disso tudo é que não teria acontecido se ele não tivesse saído da Itália. Por Cristo, nunca deixe sua garota até se casar com ela. Sabe que o amigo não pode “aprender sobre mulheres comigo” – uma alusão ao poema “The Ladies”, de Rudyard Kiplig, assim como ele não pode aprender com ninguém. Mas o mundo em geral ensina a garota. Não, não vai dizer dessa forma; você faz amor com uma garota e depois vai embora. Ela precisa de alguém com quem fazer amor. Se a pessoa certa aparecer, azar o seu. É assim que é. Bill pode não acreditar em Ernest, como ele mesmo não acreditaria. 

Continuando a desabafar com Bil, diz que amou Ag. Ela era o seu ideal e ele esqueceu tudo sobre religião e tudo o mais, porque ele tinha Ag para adorar. Bom, a queda de ideais destruídos não é uma alegre canção para os ouvidos de ninguém. Mas ela não o ama agora e vai se casar com outro, de nome não mencionado, que ela conheceu desde então. Vai casar com ele tão depressa e espera que depois ele a perdoe e que inicie e construa uma carreira maravilhosa e tudo o mais.  

Mas, naquela situação, Ernest diz não querer uma carreira maravilhosa e tudo o mais. Não foi bem assim, ela não escreveu “e tudo o mais”. Tudo o que ele queria era a Ag e a felicidade. E agora o mundo caiu e ele está escrevendo com a boca seca e um nó na garganta e queria que o amigo estivesse com ele para conversarem. A Doce Criança! Ernest espera que ele seja o melhor homem do mundo. E não consegue mais escrever sobre isso, porque ele a ama demais, maldição. 

E o grande inferno disso tudo, continua, é que o dinheiro, que era a única coisa que impedia que se casassem, agora chega num ritmo impiedoso. Ernest, após retornar da Itália, assinou um contrato com uma agência que organizava palestras e recebia de cinco a quinze dólares por cada uma de suas reminiscências, suas experiências durante a guerra. Se ele trabalhar em tempo integral, consegue ganhar em média setenta por semana e já economizou quase trezentos. Pede a Bill Horne que vá até ele para torrarem tudo. Não quer mais essa porcaria. Tem de parar antes que comece a se sentir amargo, porque não quer isso. Ama a Ag demais. 

Depois que Agnes rompeu o relacionamento com Ernest, ele teve alguns encontros com uma bela garota chamada Kathryn Longwll, retomando o hábito que tinha antes da guerra de passear de canoa pelo rio Des Plaines. Anos depois, Kathryn relembrou que eles iam para a casa dela e liam as histórias que Ernest escrevia, enquanto comiam bolinhos italianos que ele trazia da cidade. Certa vez, Ernest deu de presente a ela sua capa de oficial italiano, mas a mãe dele a pediu de volta.  

Algumas semanas depois, em carta dirigida ao amigo Jim Gamble, Ernest escreve que tem várias boas notícias para repassar-lhe. Primeiro, agora é um homem livre. Toda a confusão das alianças acabou a cerca de um mês e ele se considera um sortudo e tanto, embora, é claro, ele não conseguisse enxergar dessa forma na época. Enfim, está tudo acabado e quanto menos tocar no assunto, como sempre relacionado ao sexo infiel, melhor. Ele amava mesmo a garota, mas sabe agora que a escassez de americanas teve, sem dúvida, muito a ver com isso. E está feliz agora que acabou, mas não se arrepende, porque percebeu que amar faz bem. Teve a sorte de se livrar do casamento, então, por que lamentar? De qualquer forma, sem querer ser filosófico, foi um choque e tanto, porque ele deixou tudo de lado por causa dela, especialmente Taormina. Mais adiante, Ernest escreve que a primeira vez que se é rejeitado deve ser a mais difícil. De qualquer forma, agora é livre para fazer o que quiser, ir para onde quiser e ter todo o tempo do mundo para se transformar em algum tipo de escritor. E pode se apaixonar por quem ele quiser, o que é um privilégio imenso e sem preço. 

Em outra carta ao mesmo amigo, Ernest diz que ainda não tem certeza do que vai fazer no próximo outono. Queria que viesse uma guerra e resolvesse seus problemas. Agora que não precisa trabalhar, não consegue decidir que diabos fazer. Sua família está tentando mandá-lo para a faculdade, mas ele quer voltar para a Itália, quer ir ao Japão e morar um ano em Paris, e fazer tantas coisas que agora não sabe o que diabos vai fazer. Era muito simples quando estavam em guerra. Só havia uma coisa para um homem fazer. Em “Soldier’s Home”, do livro “In Out Time”, a personagem Krebs relembra “os tempos muito distantes em que ele fez a única coisa que um homem deveria fazer, de modo simples e natural”. Ernest diz a Jim que está se dando muito bem com suas histórias. Se Jim quiser. Ele lhe manda algumas.  

Ainda no mês de abril de 1919, Ernest escreve a Lawrey Barnett uma bomba, dizendo que sua família, que Deus a abençoe sempre, o está infernizando para que ele vá para a faculdade. Ela quer que ele se aquiete por uns tempos e o lugar para onde o estão empurrando é Wisconsin. 

No domingo, 15 de junho de 1919, Ernest escreve a Howell Jenkins contando que recebeu no sábado uma carta muito triste de Ag, de Roma. Ela e o major brigaram. Ela está mentalmente transtornada e disse que Ernest deveria se sentir vingado por tudo que ela lhe fez. Pobre garota. Ele está com muita pena dela, mas não pode fazer nada, Ele a amava, ela o enganou. E ele não a culpa. Mas resolveu cauterizar as lembranças dela e queimou tudo com álcool e com outras mulheres, e agora acabou. Agnes está despedaçada e ele queria fazer algo por ela, “Mas está tudo esquecido em meu passado – num tempo e lugar distantes. E não há ônibus partindo da margem de Mandalay”, citando de memória, mais uma vez, Kipling.  

A carta de Agnes não foi preservada. Quando o Tenente Domenico Caracciolo apresentou Agnes à sua família, da aristocracia de Nápoles, ela proibiu o casamento, supondo que Agnes era uma americana aventureira interessada na reputação de um título italiano. 

Cerca de duas semanas depois, escrevendo a Bill Horne, Ernest diz que, desde a última carta ao amigo, passou por um processo de cauterização no qual o conhaque e duas ou três garotas por quem não sente nada, mas sobre quem se atirou violentamente, tomaram o lugar do ferro em brasa. Foi um processo danado de desagradável, mas minucioso. Agora, depois de um mês e meio no norte, “Ag” já não lhe traz mais nenhuma lembrança. Tudo apagado. Então, é finito per sempre.  

Ernest recebeu, no início de julho de 1919 uma notificação do Comando Supremo italiano com a Medalha de Prata. O texto dizia: “Ernest Miller Hemingway/ Tenente da Cruz Vermelha Americana / Oficial da Cruz Vermelha Americana, responsável por dar assistência às tropas italianas envolvidas em batalha, deu prova de coragem e abnegação. / Gravemente ferido por numerosos estilhaços de bomba inimiga, com admirável espírito de fraternidade, antes de buscar socorro prestou generosa assistência aos soldados italianos feridos mais gravemente na mesma explosão e não se deixou transportar para outro local antes que os demais tivessem sido removidos. / Fossalta (Piave), 8 de julho de 1918 / Por mérito militar. 

 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...