terça-feira, 2 de abril de 2024

IV. AS CARTAS DE ERNEST

Embora eu me sentisse desnorteado com tudo o que acontecera, principalmente com a morte de Giacomo em meus braços, fiquei muito feliz por saber que Ernest não havia morrido. Algo acontecera que mudara o passado e, consequentemente, o futuro. 

Logo que voltei ao Brasil e à minha casa, comecei a pesquisar na internet sobre o meu amigo Ernest e fui ficando cada vez mais surpreso com o que descobria e lia. Mas, como uma vida é feita de momentos que se sucedem, decidi descobrir a nova vida que fora concedida a Ernest de forma cronológica, aos poucos, imaginando que ele estivesse me contando em cartas o que lhe ia acontecendo. Conforme lia a sua história, acompanhava em fotos a sua vida, como se eu estivesse vivendo a sua amizade ao longo dos anos, vendo-o amadurecer e envelhecer aos poucos, como sucede na vida real. Esta descoberta paulatina emocionou-me em diversas oportunidades. 

Passei a comprar e a ler obsessivamente livros que falavam de Ernest Hemingway, mas não uma biografia específica. Queria saber como as pessoas que conviveram com Ernest o viam, ou seja, visões pessoais a respeito dele. Também procurei textos em que ele falava de si e de suas experiências. 

Uma das coisas que me chamou a atenção, pesquisando sobre Ernest, foi a aura quase mítica dos anos 1920 em Paris, que não havia antes da minha experiência no tempo. Eu já lera sobre os inúmeros artistas, principalmente norte-americanos, que migraram para a Paris pós-guerra, porém, nunca havia ouvido a expressão “Geração Perdida”, que caracterizou os artistas daquele período. Um livro póstumo de Ernest Hemingway, “Paris é uma festa”, parece ter colaborado para a criação dessa aura mítica.  

Comecei a ler cartas de Ernest, como se estivessem dirigidas a mim, emocionando-me como deve ter emocionado aos seus destinatários. E fui descobrindo o que aconteceu com ele após ser ferido naquele fatídico dia. 

Menos de uma semana após Ernest ser ferido, no dia  14 de julho, um amigo seu, Theodore Brumback, foi visitá-lo no Hospital da Cruz Vermelha Americana, em Milão, para onde fora levado, escrevendo em seguida ao Dr. Hemingway contando sobre o estado de saúde do filho.  

Brumback contou que embora Ernest tivesse cerca de 200 estilhaços de bomba alojados nas pernas, nenhum atingiu acima do quadril. Pouquíssimos estilhaços eram grandes e profundos. Os ferimentos mais sérios foram dois no joelho e dois no pé direito, mas Ernest recuperaria totalmente a mobilidade das duas pernas. Nessa carta, contando como Ernest se ferira, Brumback informou que havia um italiano, entre ele e a bomba, que havia morrido. “Giacomo Ferrini!”, pensei eu. E nem seu nome era mencionado. Sua morte salvara a vida de Ernest, mas ficaria para sempre esquecido. Ao ler isso na carta, chorei a morte do jovem amigo, que para mim havia acontecido há tão pouco tempo. O que ocorreu em seguida, eu não testemunhei, pois havia retornado ao meu tempo presente. 

Recuperando a consciência e vendo mortos e feridos à sua volta, Ernest, mesmo ferido nas pernas, colocou às costas um italiano seriamente atingido pela bomba e carregou-o até o primeiro posto de apoio, sem saber como conseguira fazê-lo. Ele ficou um ou dois dias em um hospital da frente de batalha e depois foi enviado para o Hospital da Cruz Vermelha, em Milão. 

Um exame minucioso mostrou que não havia nenhum osso quebrado em Ernest, que nenhuma articulação fora atingida e que os estilhaços da bomba haviam feito apenas cortes na carne. 

Poucos dias depois, Ernest escreveu pessoalmente à família dizendo ser o primeiro americano ferido na Itália. Na verdade, ele era o primeiro ferido a sobreviver, pois cerca de três semanas antes, um americano, Edward Michael McKey, havia morrido, atingido por uma bomba austríaca, próximo ao local em que estávamos quando o mosteiro nos atingiu. 

No Ospedale Croce Rossa Americana, um exame de raio X mostrou que ainda havia estilhaços alojados em seu joelho e em seu pé direitos.  

Em uma carta datada de 4 de agosto de 1918, Ernest relata à família um grande desfile ocorrido no domingo do qual participou, carregado por soldados italiano, uma vez que estava com as duas pernas imobilizadas. Contou, orgulhoso, que a multidão o aplaudiu por cerca de dez minutos sem parar e ele tirou seu quepe e acenou umas cinquenta vezes. Jogaram flores sobre ele, todos queriam apertar as suas mãos e as garotas queriam saber seu nome para lhe escreverem. Diz que o reconheceram como o Herói Americano em Piave. 

Um mês após ser atingido pelos estilhaços da bomba, Ernest continuava no hospital, aguardando a cirurgia no joelho e no pé direitos, já cansado do hospital, mas na esperança de ser operado rapidamente e ter alta, em mais um mês, usando muletas, planejando uma convalescença na Riviera, onde poderia nadar e pescar um pouco. Ele foi submetido à esperada cirurgia no dia 10 de agosto.  

Escrevendo à família no dia 18 de agosto, ainda hospitalizado, Ernest contou que, durante os seis dias em que esteve nas trincheiras, na linha de frente, a menos de 50 metros dos austríacos, sentiu que sua vida era um pouco mágica. Mas ter uma vida mágica, escreveu ele, não é tão importante. Ter uma vida é o que importa mais. Quando li isso, senti como se, de alguma forma, ele intuía que algo extraordinário acontecera naquele dia 08 de julho, quando a sua vida fora cambiada com a de Giacomo. 

Ernest também narra a sensação de quando foi atingido pelos estilhaços do morteiro de trincheira, que lhe deixaram 227 ferimentos. Disse não sentir dor alguma na hora, apenas que parecia que seus pés estivessem dentro de galochas cheias de água quente. Seu joelho estava “agindo de modo estranho”. Quando a bala de metralhadora o atingiu, teve a sensação de uma bola de neve batendo-lhe na perna. Nesse momento ele caiu, mas levantou-se e jogou-se dentro de um abrigo. O italiano ferido que ele carregava às costas sujou-lhe o casaco de sangue e parecia que alguém havia feito geléia em sua calça, abrindo buracos em seguida para que a poupa saísse. O capitão, com quem Ernest já fizera amizade – e ele estava no abrigo desse capitão -, ao ver o seu estado e o sangue que o cobria, principalmente no peito, disse: “Pobre Hem, logo ele descansará em paz!”, achando que morreria. Quando tiraram o seu casaco e a sua camisa, sem que ele estivesse com camiseta por baixo, perceberam que seu torso estava intacto e disseram que provavelmente ele viveria, o que o animou. No entanto, quando tiraram suas calças, embora suas pernas estivessem inteiras, estavam em péssimo estado. Os italianos não entendiam como Ernest havia conseguido andar quase 150 metros, carregando um homem às costas e com tiros nos dois joelhos e dois buracos grandes no sapato direito, sem contar os mais de duzentos ferimentos na pele. Mesmo ferido, o bom humor de Ernest não o abandonou e ele disse ao capitão, em péssimo italiano: “Isso não é nada, capitão. Nos Estados unidos todos fazem isso! Achamos que é melhor não deixar que o inimigo perceba que nos deixou bufando de raiva como um touro!” Depois disso, adormeceu. 

Ao acordar, Ernest foi carregado em uma maca por três quilômetros até uma enfermaria. O caminho foi difícil, pois estava havendo bombardeio; e cada vez que um morteiro se aproximava, os padioleiros colocavam a maca no chão e se deitavam. Ernest narrou à sua família que, nesse momento, seus ferimentos doíam como se duzentos e vinte e sete pequenos demônios estivessem arranhando sua carne.  

Quando chegaram à enfermaria, esta havia sido evacuada  durante o ataque, fazendo com que Ernest ficasse deitado por duas horas em um estábulo, com o teto arrebentado, esperando uma ambulância. Quando, porém, a ambulância chegou, Ernest pediu que a ambulância socorresse em primeiro lugar os italianos que haviam sido feridos na mesma explosão que ele e só depois que todos tivessem sido evacuados permitiu que a ambulância o socorresse. Após andarem na ambulância por alguns quilômetros, sob ataque inimigo, chegaram a uma enfermaria, na qual vários dos médicos eram seus colegas. Ernest recebeu uma dose de morfina e uma injeção antitetânica, rasparam-lhe as pernas e retiram cerca de vinte e oito fragmentos de bomba de tamanhos variados. Em seguida, capricharam nas ataduras, apertaram-lhe as mãos e iam até beijar-lhe, mas isso ele dispensou. Em sua virilidade e cultura estadunidense isso era expressão demasiada de afeto. Não pude deixar de rir quando li este trecho da carta de Ernest. Ele ficou cinco dias no hospital de campo, até ser transferido para o hospital em Milão. 

Onze dias após esta carta, escrevendo à sua mãe Grace, Ernest contou o estado de suas pernas. Ele não lhe havia escrito antes, por sentir-se desanimado. Narrou que sua perna esquerda estava curada e que conseguia dobrá-la bem, podendo andar pelo quarto e pelo corredor do hospital usando muletas, mas apenas um pouco, pois ainda estava muito fraco. Dois dias antes, haviam-lhe tirado o gesso da perna direita, mas ela ainda estava dura e doía demais devido à operação.  

Vários americanos estiveram no hospital visitando e mimando Ernest. Ele fala, de maneira especial, em alguns, começando por uma senhora Strucke, que há anos morava em Milão e ia visitá-lo umas três vezes por semana na companhia  de sua filha, levando-lhe livros, bolos e doces. Uma doce e amável idosa judia, senhora Siegel, sempre o ia ver. Havia também um senhor Englefield, irmão mais novo de um dos Lordes do Almirantado, que vivia na Itália há cerca de vinte anos e o adotou. Este senhor levava a Ernest muitas coisas, desde água de colônia até jornais de Londres. Ernest menciona ainda um padre católico, que fora missionário na Índia, que o visita com frequência, com quem tem longas e boas conversas. Por fim, fala de alguns oficiais italianos divertidos que aparecem a toda hora. Um deles, o Tenente Brundi, é um artista famoso, conta Ernest, que disse querer pintar um retrato seu. Ernest considera que essa seria uma bela recordação. 

Sobre falar em italiano, diz que o faz como um milanês nativo. Nas trincheiras, ele precisava falar em italiano, já que ninguém falava nenhuma outra língua, e por isso aprendeu bastante e conta que fala com os oficiais por uma hora em italiano. Ele imagina que sua gramática seja pobre, mas tem um vasto vocabulário. Ernest diz ainda que já serviu de intérprete várias vezes naquele hospital. Quando chega alguém e ninguém entende o que essa pessoa quer, a enfermeira a leva até a cama dele e ele resolve tudo. 

Estranha situação em que me encontro em relação a Ernest. Embora o que estou narrando esteja a cem anos de distância no passado, para mim são como estivessem acontecendo neste momento, uma vez que as lembranças que tenho dele têm apenas alguns poucos meses.  

Estou lendo, agora, a carta de Ernest a seu pai, Clarence, escrita no dia 11 de setembro de 1918. Ele conta que está na cama e que provavelmente não sairá do hospital por mais três semanas. A perna esquerda está boa, no entanto a direita ainda está rígida, mas massagem, sol e movimentos passivos estão soltando o joelho. Sorri ao ler estre trecho, pois Ernest desconhecia a palavra “fisioterapia”, tão comum hoje em dia.  

Com seu bom humor, diz ainda ao pai que o seu cirurgião, Capitão Sammarelli, pergunta-lhe sempre se o pai de Ernest, que é médico,  ficará totalmente satisfeito com seu trabalho. Ernest tem uma cicatriz com cerca de 20 cm na sola e um pequeno furo no peito do pé. Isso é o que as balas com cápsulas de cobre fazem.  Seu joelho está lindo, escreve ele, e fala ao pai que nunca poderá usar um kilt, uma saia masculina escocesa, devido ao estado das pernas. Sua coxa esquerda e a lateral da perna parecem cavalos que foram marcados e remarcados por uns cinquenta donos. Tudo isso, para Ernest, são ótimos sinais de identificação.  

Ernest narra que pode sair às ruas todos os dias com uma bengala ou uma muleta, mas ainda não pode calçar sapatos no pé direito. Ele, que era segundo-tenente, foi promovido a primeiro-tenente e, com isso, está usando duas faixas douradas em cada manga. Para ele foi uma surpresa, pois não esperava nada parecido.  

Às irmãs Marcelline e Madelaine, na carta escrita no dia 21 de setembro, Ernest conta que ainda está no hospital, há quase três meses, e que deverá ficar ali por mais três semanas, o que faz dele uma autoridade em hospitais.  

Sobre Milão, diz que sai e caminha pela cidade quase todas as tardes e que já conhece a parte antiga, o que o torna apto para, após a guerra, dirigir uma charrete de turistas.  

Com certeza, Ernest tem orgulho ao dizer às irmãs que foi promovido a Primeiro-Tenente e que está ansioso para voltar ao front. Não sabe o que vai fazer, após ser promovido, mas que terá voz de comando em um posto do front em algum lugar.  Em seguida, o “Velho Mestre”, como se refere a si às irmãs, lista os títulos e outras coisas que tem o Tenente Ernesto Hemingway: Proposto Al Medaglia D’Argento, (valore) proposto per Croce D’Guerra Ferito Da Prima Linae D’Guerra; Promotzione por Merito D’Guerra. Traduzindo, ele diz às irmãs: “o velho e bacana cão de caça é um Primeiro-Tenente indicado à medalha de prata por valor militar, indicado à Cruz de Guerra, ferido nas linhas de frente e promovido por mérito. 

Poucos dias depois, Ernest, tem dez dias de licença de convalescença, para descansar do tratamento com choques elétricos na perna feitos em Milão e fica na cidade de Stresa, a noroeste de Milão, no lago Maggiore. Dali, foi de trem em um passeio até o topo dos quase mil e quinhentos metros do Monte Mottarone, de onde teve uma vista da fronteira com a Suíça, o que narra rapidamente ao pai em um cartão postal. Quando voltar ao hospital em Milão, continuará o tratamento com os choques elétricos. 

Em uma carta à família, ainda em Stresa, Ernest conta que conheceu no hotel o Signor Bellia, de Turim, um dos homens mais ricos da Itália, que ali estava com a esposa e as três filhas. O casal Bellia o “adotaram” e refere-se a si mesmo como o pai e a mãe italianos de Ernest. O casal, junto com as filhas, leva-o a todos os lugares e não o deixa gastar um centavo sequer. 

No mesmo hotel, o meu amigo conheceu o Conde Giuseppe Greppi, um diplomata e membro da alta sociedade italiana, com quase 100 anos de idade, que o apresentou a umas cento e cinquenta pessoas. Ernest comenta que o homem está bem conservado, nunca se casou, vai dormir à meia-noite e bebe champanhe.  

Eu soube, lendo um comentário sobre o livro que Ernest escreverá – Adeus às Armas, e publicará em 1929 -, que ele inspirou-se no Conde Giuseppe Greppi para compor a personagem do velho e sábio Conde Greffi. O Grande Hotel em Stresa será usado como cenário em vários capítulos do mesmo livro. Já a experiência com os choques elétricos, Ernest usará no conto In Another Country, que publicará em 1927.  

Ernest desabafa com a família que tem medo de não ser mais útil após a guerra e diz que, no momento, tudo o que conhece é a guerra. Todo o mais parece sonho. Ele fala italiano o dia todo e escreve duas a três cartas por dia em italiano, sentindo que tem facilidade com a língua tanto quanto com o inglês. Quando iniciou o seu trabalho voluntário na Itália, aprendeu o italiano do front, a língua das trincheiras e do campo. Após três meses em Milão, em contato com oficiais italianos, aprendeu o italiano “ousadamente educado”. Assim, consegue paquerar e pescar em italiano com facilidade.  

Em outra carta à família, Ernest fala sobre a guerra e sobre a morte, para que seus familiares saibam como ele se sente em relação a isso. Morrer, escreve ele, é muito simples. Viu a morte de perto e sabe o que ela é. Se ele tivesse morrido naquele dia, isso teria sido muito fácil para ele. Talvez a coisa mais fácil que já tivesse feito. Mas as pessoas que estão em suas casas não percebem isso, por isso sofrem mil vezes mais. Quando uma mãe traz um filho ao mundo, ela sabe que um dia ele vai morrer. E a mãe de um filho que morreu pelo seu país deveria se sentir a mulher mais orgulhosa do mundo, e a mais feliz. É melhor morrer no período feliz da juventude não desiludida, sair numa rajada de luz, do que ter o corpo gasto e passado, e as ilusões despedaçadas.  

Lendo este trecho da carta de Ernest e sabendo o que lhe teria acontecido se eu não tivesse voltado ao passado, fico me perguntando se, de alguma forma, seu espírito tinha a noção de que a sua vida teria terminado na guerra. Eu, ao procurar pela primeira vez, na internet, o nome Ernest Hemingway, li rapidamente, que ele se envolveu em outras guerras e revoltas e, por fim, com o corpo “gasto e passado”, se suicidou. Parece que, mesmo vivendo intensamente a segunda oportunidade de vida que teve, sempre procurou a morte. 

De volta a Milão, ele recebeu uma licença para sair do hospital no dia 24 de outubro de 1918, data em que o exército italiano lançou a que seria sua última ofensiva contra o exército austro-húngaro, na Batalha de Vittorio Veneto. Depois disso, o Império Austro-Húngaro iniciou, no dia 1.o de novembro, as negociações de armistício, encerrando oficialmente as hostilidades na frente de batalha italiana no dia 04 de novembro.  

A Primeira Guerra Mundial, iniciada no dia 28 de julho de 1914, após o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando da Áustria, herdeiro do trono da Áustria-Hungria no dia 28 de junho de 1914, terminou no dia 11 de novembro de 1918. Foi a primeira guerra chamada “mundial”, embora centrada mais na Europa, pois teve como palco os oceanos Pacífico, Atlântico e Índico, a Ásia, a África, o Oriente Médio e as costas das Américas do Sul e do Norte, além da própria Europa. As grandes potências mundiais de então se organizaram em duas alianças opostas: de um lado, os aliados, com base na Tríplice Entente – Reino Unido, França e Rússia −, e, de outro, os Impérios Centrais, a Alemanha e a Áustria-Hungria. Da primeira, morreram cinco milhões de militares e seis milhões de civis; da outra, quatro milhões de militares e a mesma quantidade de civis. Como resultado imediato dessa guerra, após o seu desfecho, o mapa mundial foi transformado. Tiveram fim os impérios Alemão, Russo, Otomano e Austro-Húngaro; foram criados novos países na Europa e no Oriente Médio; colônias alemãs e regiões do antigo Império Otomano foram transferidas para outras potências.  

Ernest foi, “como um foguete” para o front. Trabalhou duro, dia e noite, no local onde acontecia o piro combate das montanhas. Acabou desenvolvendo icterícia – uma doença que causa deficiência hepática, provocando o amarelecimento da pele e do branco dos olhos causada pelo excesso de bilirrubina no sangue −, o que o fez voltar para o hospital e ficar acamado novamente. Apesar disso, ele conta que teve a satisfação de fazer parte da ofensiva e, depois, poder descansar no hospital e terminar o tratamento da perna.  

No livro Adeus às Armas, a personagem Frederic Henry desenvolve icterícia e compara a doença a levar um chute nos testículos.  

Os planos de Ernest para o final de 1918 é conhecer um pouco a Itália e a Áustria, pois acredita que não voltará à Europa por muitos anos, imaginando que dalí a um ano deve começar de novo na guerra de verdade, a guerra para tornar o mundo seguro para si, e seus planos são impressionar a família e se tonar um homem muito ocupado por muitos anos. Assim, esperando que sua pensão se acumule em alguns milhares de liras e ele possa levar seus filhos para ver os campos onde as batalhas foram travadas.  

Em uma carta escrita em novembro de 1918 à sua irmã Marcelline, a quem Ernest chama carinhosamente de Ivory, há uma pequena menção a um amor por uma enfermeira da Cruz Vermelha, mas nada além disso.  

Mais uma vez, escrevendo a Ivory, Ernest fala sobre o seu futuro imediato na Europa e sobre o futuro um pouco mais distante. Como ainda não pode trabalhar e não querendo viver às custas da família, quer ficar na Europa descansando durante todo o verão para estar em forma para o outono, quando pretende retornar aos Estados Unidos.  Diz que vai trabalhar como um cão, já que pretende prosperar. Ernest não é claro em relação a esse trabalho de cão, mas diz que tem muitas razões para isso, todos os tipos de segredos, mas nada muito venerável, nada definido, mas quer surpreender todo mundo. 

Ao pai, escreve que, ao voltar, terá de trabalhar duro pelos próximos anos e levará um bom tempo até que possa ver a Europa novamente. Como, enquanto está na Itália, tem o privilégio de viajar de trem de graça e garantidas todas as mordomias de um oficial reconhecido pelo governo italiano e pelo povo, quer conhecer o máximo possível da Itália. Não seria justo, diz ele, não aproveitar.  

Em outra carta, ainda em novembro de 1918,  Ernest fala a sua irmã Marcelline a respeito do seu amor e, pela primeira vez, cita a forma carinhosa como a trata, Ag. Diz a Ivory que ama muito essa sua garota e que ela o ama também. Na verdade, ele a ama mais do que qualquer coisa ou qualquer pessoa no mundo ou do que o próprio mundo. A seguir, fala de sua mudança, interior e exterior. Diz à irmã que ela não o reconheceria, caso o visse ou conversasse com ele. Lembrando de algumas fotografias que tiraram antes de Ernest partir para a guerra, conta que a mostrou a Ag e ela não o reconheceu, o que prova que ele mudou um bocado. Diz estar verdadeiramente mais velho. Por isso, quando diz que está apaixonado por Ag, isso não significa que tem um caso com ela, mas significa que a ama. Ele sempre imaginou como seria encontrar a garota que se amará de verdade para sempre, e agora ele sabia. Além disso, ela o ama – o que já é um milagre por si só. Pede a Ivory que não diga nada aos velhos, pois ele está fazendo uma confidência à irmã. Ele não se julga um tolo e acha que pode se casar agora, mas quando se casar, saberá com quem está casando e se a família não gostar, pode lamentar, porque nunca voltará para casa. Mas não pretende se casar pelos próximos dois anos. 

Na mesma carta, pergunta quem diabos está dando todas as suas cartas para serem publicadas. Quando escreve para a família, não está escrevendo para o jornal Chicago Herald Examiner, ou seja lá para quem for, mas para a família. Alguém muito atrevido as está publicando e vai parecer que ele quer dar uma de herói. Ele fala que ficou furioso quando soube que estavam usando suas cartas no Oak Leaves.  

Voltando ao assunto de sua amada, diz que a patroa está no front, no bairro invadido, medicando pessoas em uma ambulância e terrivelmente só. Vão fechar o hospital americano em breve e ele terá de morar em um hotel. No dia 21 de novembro de 1918, Agnes von Kurowsky, a amada Ag, viajou para assumir um novo posto em um hospital de campanha em Treviso, próximo a Pádua. O hospital americano estava para ser fechado, com o final da guerra, o que de fato ocorreu no dia 1o. de maio de 1919.  Ernest precisa continuar os tratamentos mecânicos na perna, se quiser melhorar algum dia. Mais dois meses assim e depois de algumas semanas quer se mandar de volta para os Estados Unidos.  

Na noite de Ação de Graças de 1918, Ernest conta à família que sua perna machucada é pior do que um barômetro, doendo a cada mudança de temperatura, o que faz com que ele sinta se vai nevar com dois dias de antecedência. Na mesma carta, conta que sua namorada está no fronte e que ele se sente muito sozinho, pois há apenas três seres humanos americanos na cidade e não há nada para se fazer. Vai à ópera no Scala, de Milão, onde já viu Aída, Ghismonda, Moisés, Barbeire di Seville e Mephistofele, com regência de Toscanini, e que verá em breve La Nave de D’Annunzio.  Seu joelho está bem melhor e já pode dobrá-lo um pouco. 

Em dezembro de 1918, Ernest escreve à família, planejando o seu retorno aos Estados Unidos. Ele reservou uma passagem de navio para o dia 4 de janeiro, via Gênova, Nápoles e Gibraltar, devendo estar em casa em meados ou fins de janeiro. 

Ele conta que foi com um amigo a Treviso, a cerca de oitenta quilômetros de Torreglio, onde está hospedado, para ver a garota, Agnes von Kurowsky, que está em um hospital de campanha. O amigo de Ernest, uma enfermeira amiga de Agnes, a própria Agnes e Ernest vão juntos ao local onde se deu a batalha de Piave, na qual Ernest foi ferido. Andaram pela ponte suspensa e viram as trincheiras da linha do  front austríaco, e com a luz da lua e lanternas enxergaram as casas minadas pelo bombardeios durante a Batalha do Piave. 

Voltando a Torreglio, Ernest queria ficar mais tempo ali e vadiar um pouco, pensando que talvez não tenha outra oportunidade por muito tempo. Mas, ao mesmo tempo, sente que está na hora de voltar e ficar com a família por um tempo e depois voltar ao trabalho.  

Termina a carta dizendo que foi feito para ser um daqueles escritores selvagens, para aproveitar a vida, mas Deus não lhe permitiu nascer rico e, assim, vai ter de se virar e quanto mais cedo, melhor. 

A um amigo, escreve dizendo que volta aos Estados Unidos no belo navio Giussipe Verdi, no dia 4 de janeiro. Diz que não pode esperar até o verão e que precisa reiniciar depressa a batalha pela sobrevivência. A este amigo, ele fala mais sobre Agnes, o que não acontece quando escreve para a família. Fala do tipo de namorada que tem. Conta que ultimamente tem enchido a cara, cerca de 18 martínis por dia.  E que há poucos dias saiu do hospital sem licença, pulou de caminhão em caminhão por mais de trezentos quilômetros até o front, para visitar uns camaradas. É a mesma viagem sobre a qual escreveu para sua família, porém com mais detalhes. Foi com um amigo, em um carro oficial, até Treviso, para ver Agnes. Ela ficou sabendo das suas bebedeiras, mas ao invés de lhe dar um sermão, disse-lhe: “Rapaz, nós seremos parceiros. Então, se você beber, eu também vou. A mesma quantidade.” E ela entornou muito uísque e outras coisas piores, e nunca tinha bebido nada antes além de vinho, e Ernest sabia muito bem a opinião dela sobre biritas. Isso o fez perceber que ela é uma garota e tanto e que agradece a Deus por ter ficado todo quebrado, pois só assim ele a pode conhecer. 

Conta, ainda, que vai para os Estados Unidos e começar a trabalhar para a firma. Agnes diz a ele que podem se divertir muito sendo pobres juntos, o que tiram de letra, porque já foram pobres sozinhos, isso por alguns anos e sempre mais ou menos felizes, e podem ir levando. Por enquanto, tudo o que Ernest precisa fazer é conseguir o mínimo para sustentar os dois e economizar o suficiente para seis semanas mais ou menos, no Norte, e chamar esse amigo para ser seu padrinho. Afinal, Ernest diz que só tem mais uns cinquenta anos de vida e não quer desperdiçar nenhum deles, e que cada minuto longe daquela garota é desperdício. 

A outro amigo, Ernest fala de seu retorno à sua terra, dizendo que o “Geusippy Verdy”, que supostamente navega para os Estados Unidos, carregará o que resta da carcaça do velho mestre de volta ao seu torrão natal. O êxodo acontecerá em 6 de janeiro, partindo de Nápoles. Na verdade, Ernest deixou a Europa no Giuseppe Verdi no dia 4 de janeiro de 1919. Conta que no sábado anterior escreveu uma carta para a senhorita G.S. De Longe dizendo que sairia uns dias e deixou Milão, a mesma história que escreveu à família e ao outro amigo. Essa senhorita De Long estava no comando do Hospital da Cruz Vermelha em Milão e era conhecida entre os pacientes como “Gumshoe Casey”. Ela serviu de modelo para a autoritária Miss Van Campen em Adeus às Armas 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...