Acordei em um hospital da Itália, onde eu fora encontrado ferido principalmente nas pernas e um pouco nas costas, por centenas de estilhaços do que parecia uma bomba, mas não havia outros sinais de explosão à minha volta. Inconsciente, fui levado a um hospital em Milão, onde fiquei até que pudesse viajar de volta ao Brasil.
Quis voltar à margem do rio Piave, onde havia os Laboratórios de Emanuele Ferrini para falar-lhe, mas após vários dias disseram-me que não havia ninguém naquele local com esse nome. Havia, sim, uma família com esse sobrenome, mas ninguém com tal nome.
– Impossível! Emanuele Ferrini é um dos mais importantes físicos do mundo, ganhador do Prêmio Nobel há dois anos atrás e inventor do Teletransporte Temporal.
Os médicos e enfermeiros que me trataram olhavam-se, acreditando que eu ficara louco com o meu acidente, inexplicável para eles. Uma enfermeira mostrou-me uma página da internet com a lista de ganhadores do Prêmio Nobel até a última premiação, mas no ano em que Emanuele Ferrini fora laureado, outro nome aparecia.
Aproveitei o notebook que a enfermeira levara até meu leito e pesquisei o nome de Emanuele, porém nada encontrei. Ele simplesmente parecia não existir. Os médicos disseram-me que o trauma do ferimento criara uma situação imaginária, mas que logo eu voltaria ao meu equilíbrio mental.
Pedi à enfermeira que me deixasse com o notebook mais algum tempo, pois precisava me comunicar com minha família no Brasil. Em minha página social, encontrei mensagens de preocupação de familiares e amigos com meu desaparecimento. Escrevi que estava na Itália e que havia sofrido um acidente, mas que em breve estaria de volta, mas precisaria de ajuda, pois não tinha dinheiro algum.
Naturalmente fui bombardeado com perguntas sobre o que eu estava fazendo na Itália, quando fora para lá, que acidente eu havia sofrido e muitos outros questionamentos, que me deixaram atordoados e não interessam narrar aqui. Como é que eles me perguntavam isso tudo se todos sabiam que eu fora o vencedor do concurso internacional que me trouxera à Itália? Algo realmente havia acontecido e eu não compreendia.
Buscando a lista de vítimas fatais na Batalha de Piave durante a Grande Guerra, avistei o nome de Giacomo. Ele havia morrido naquela explosão que me havia ferido. Rapidamente busquei o nome de Ernest, mas não o encontrei.
“Como era mesmo o sobrenome dele?” – tentei lembrar-me, mas tinha dificuldade. Eu o chamara somente de Ernest e pesquisara o seu nome completo apenas uma vez, quando soube que ele morreria. “Acho que começava com ‘Hem...’ mais alguma coisa. Ao digitar “Ernest Hem” na página de busca, apareceram milhares de páginas com o nome “Ernest Hemingway”. “Sim era esse o seu nome: Ernest Hemingway”.
Cliquei em “imagem” e abriu-se uma página com dezenas de fotos de um homem, em várias etapas de sua vida, geralmente barbado, mas em uma delas pude reconhecer o jovem Ernest. Não era possível! Ele não morrera na Grande Guerra. Senti-me tonto e larguei o notebook ao meu lado na cama. A enfermeira entrou no quarto em que eu estava e percebendo minha palidez e semi-inconsciência, tirou-me o notebook e chamou um médico.
Minha família entrou em contato com o Consulado Brasileiro em Roma e, com muita dificuldade, conseguiu trazer-me de volta ao Brasil. Minha história acabou aparecendo nos meios de comunicação pela curiosidade que despertava nas pessoas e na falta de respostas coerentes às perguntas que me eram feitas. Todos acreditavam que eu havia perdido a razão. Contei o que havia acontecido, mas ninguém acreditava, mesmo porque nunca existira um físico chamado Emanuele Ferrini, nem Teletransporte Temporal, nem concurso, nem nada do que eu afirmava. Não havia passaporte, não havia passagem para a Itália, embora eu tenha sido encontrado lá.
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