quinta-feira, 11 de abril de 2024

XX. ERNEST POR JANET FLANNER

            Em 1925, Janet Flanner, que chegara dos Estados Unidos a Paris em 1922, após abandonar o seu marido e com o desejo de tornar-se uma escritora de ficção, começa a enviar para a recém-fundada New Yorker textos, segundo lhe pediu o fundador e editor da revista através de sua esposa Jane Grant, com “material anedótico e casual, familiar aos americanos (...) informações sobre os territórios da arte e um pouco sobre moda, talvez (...) deve haver uma porção de conversa sobre pessoas vistas e, em tudo, ele quer o toque de uma personalidade. Na verdade, qualquer uma das suas cartas seria exatamente isso”.  

No prefácio do livro “Paris era Ontem” (1925-1939), que contém a maioria dos textos enviados por Janet aos Estados Unidos, escrito por James Campbell, ele conta que “Janete começou a escrever para o seu país, e, finalmente, para os olhos de mais de meio milhão de leitores, da maneira como escreveria para uma confidente. (...) Flanner escreve, em sua própria apresentação ao Paris era Ontem, que Ross queria saber ‘o que os franceses achavam que estava acontecendo com a França, não o que eu achava que estava acontecendo’. (...) Assinantes da New Yorker pela primeira vez em visita a Paris dificilmente entenderiam o funcionamento da cidade tal como era discutido nos editoriais de Le Figaro; mas se sentiam guiados com segurança, através das obscuridades de Montparnasse e Montmartre, pelo brilho da prosa de Janet Flanner. Ela continuou a transformar em colunas suas cartas de Paris por meio século, até agosto de 1975. 

Naturalmente, falando de Paris, falou de Ernest no período em que ele lá viveu. Na Apresentação a seu livro, Flanner acrescenta lembranças de Ernest que não estão em suas cartas. 

 

Cada um de nós aspirava a se tornar um escritor famoso, logo que possível. Após a publicação, em Nova York, de O sol também se levanta, de Ernest Hemingway, ele se tornou o primeiro escritor americano e expatriado a se tornar famoso, um precursor. Quando lembro a agitação criada por seu estilo pessoal de escrever, o que sobressai em minha memória é o fato de que seus heróis, como o próprio Ernest, eram de uma masculinidade imensa, mesmo em questões pequenas. Em sua escrita, suas descrições da cor da água do mar profundo, ao lado do seu barco, ou das barbatanas das trutas, no lago onde ele pescava, eram como informes da pupila dos seus olhos transferidos para o papel por sua pena. Como um dom especial, Ernest tinha um estilo físico de escrever com seus sentidos que era exclusivamente da sua própria criação literária, mas que logo influenciou a ficção masculina americana. Ele introduzira em seus romances a natureza europeia, em sua grandiosa escala, e depois se apaixonou pelas touradas espanholas e tornou-se amigo de toureiros; mais tarde, na África, aderiu à caça grossa, pela qual tinha uma paixão sangrenta. Numa carta que me escreveu, disse que gostava de caçar porque gostava de matar. Por temperamento, era profissionalmente excessivo, isto como uma forma de generosidade. Casado quatro vezes, ensinou cada uma das suas esposas a atirar e a sobreviver em safáris. Quando, finalmente, matou-se com um tiro, foi o melodrama final da sua existência espetacular. O pai de Ernest também fora um suicida, assim como o meu, tendo ambas as mortes ocorrido mais ou menos no mesmo período da nossa juventude (eu era sete anos mais velha do que Ernest), quando estávamos na casa dos 20 anos. Este foi um episódio de história pessoal duplicada que ele e eu descobrimos por acaso, certo dia, e que discutíamos, com um interesse exploratório, numa tranquila mesa de fundos no café Deux Magots, que ele sempre preferia para conversa séria, como a leitura que fez em voz alta, num sussurro estrondeante, da primeira poesia escrita por ele depois da guerra. Lembro-me de que, como agnóstica, assumi uma visão mais racionalista do que ele quanto ao suicídio, como um ato de busca de liberdade – em minha mente e consciência, era um ato possível e permissível de libertação de qualquer cativeiro humilhante, na Terra, que não pudesse mais ser tolerado com respeito próprio – e nossa conversa terminou com a declaração de que, se algum de nós dois, algum dia, se matasse, o outro não deveria sofrer, mas lembrar de que a liberdade podia ser tão importante, no ato de morrer, como nos atos de viver. Então, anos mais tarde, em Idaho, não acreditei que a morte de Ernest, em consequência daquele grotesco disparo, fosse um acidente, como se noticiou oficialmente, de início, e apenas um ano mais tarde foi negado, em favor da verdade mais profunda. Automaticamente, eu tinha reconhecido naquele tiro fatal seu ato mortal de ganhar a liberdade. Mas sofri profundamente quando os deploráveis atos de seu cativeiro final foram divulgados, como aqueles acessos intoleráveis de sofrimento doentio, num homem que, como eu sabia (porque ele me contara), era um estóico com relação à dor, o que experimentara com frequência em sua vida propensa a acidentes; e, o que foi pior, sua percepção, no final, de suas faculdades vacilantes e da ameaça de perda da razão. Na morte de Ernest, sofri mais porque ele morreu num estado de ruína. (...) 

Ernest Hemingway, claro, estava em constante vaivém, e muitas vezes era visto em companhia de Ezra Pound, estranho amigo para ele, pois Ernest sempre era o campeão esportista em todos os cafés onde entrava, e Pound, com sua barbicha, parecia e era, conscienciosamente, um esteta. Mas Ernest gostava dele e o considerava um excelente crítico literário. Costumavam conversar sobre literatura no café Closerie de Lilas, em frente ao velho salão de danças Bal Bullier. Eu não gostava da arbitrária historicidade de Pound, nem da sua violência condensada, nem das suas flutuantes citações chinesas, como as que marcavam a poesia que ele escrevia para a Little Review, nem da sua pesada, antiga e misturada linguística, como lascas de pedra desbastadas com hauter da velha estatuária da mente erudita. 

 

O SOL TAMBÉM SE LEVANTA (1926) 

 

A publicação aqui do roman à clef de Ernest Hemingway O sol também se levanta agitou Montparnasse, porque, é o que se garante, todos os quatro personagens principais são de lá e facilmente identificáveis [Lady Duff Twysden, Pat Guthrie, Kitty Cannell. Harold Loeb]. A declassée inglesa com um título de nobreza e seu amigo escocês, a americana Frances e seu malfalado Robert Cohn, com sua revista de arte que, como uma nova autoridade disposta a mostrar serviço, deveria endireitar a estética – todos esses personagens podem ser vistos, afirmam, exatamente onde Hemingway tão frequentemente os colocou, no Select. Não estando amorosamente identificado com a história, poderia afirmar-se com segurança que Donald Ogden Stewart é dado como o apreciador dos pássaros empalhados, Bill. Sob o tênue disfarce de Braddocks. Certamente Ford Madox Ford está visível, como o inglês que, como o sr. Ford, dá festas dançantes nos bal musettes atrás do Panthéon.  

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...