quarta-feira, 10 de abril de 2024

XIX. MAIS ERNEST POR DOS PASSOS

 

Hemingway foi atraído até Antibes, mas não me recordo de lá ter estado alguma vez com ele. Sei que não se sentia à vontade, embora adorasse Sara Murphy. Os pescadores nunca gostam muito de nadar. Devia ter-se sentido ridículo ao bronzear-se na praia. Para apreciar a Vila América era preciso entrar no ritual cuidadosamente encenado de Gerald. Hem já era muito diretor de espetáculos para tomar parte na charada de outra pessoa qualquer. 

Hem era nesta altura uma figura do Valhala supremo de Paris literário. Ford Madox Hueffer pediu-lhe ajuda para a publicação de Transatlantic Review. Era amigo de Pound. Almoçava com Joyce. Foi aceite por Gertrude Stein. Estava a pensar num livro sobre touradas para “Querschnitt”, que Picasso devia ilustrar. 

Uma das coisas que nos aproximara, a Hem e a mim, fora o nosso entusiasmo pelas coisas espanholas. A maior parte das minhas paragens em Paris eram etapas, à ida ou à vinda de Espanha. Hem e Hadley tinham desembarcado em Vigo quando trouxeram Bumby outra vez para a Europa, e chegaram a Paris com recordações maravilhosas de Compostela e das Astúrias e das Vascongadas. A mania espanhola de Hem fez crise nos dias quentes de Agosto em que ele assistiu pela primeira vez à “fiesta” de San Firmín, em Pamplona. 

Eu não estive em Pamplona no ano da primeira reunião que ali foi feita, e que deu a Hem a ideia para The Sun Also Rises, mas estava lá no ano seguinte, no mês de Agosto. Instalamo-nos todos no Hotel La Perla. 

Hem era a menina dos olhos de todos. Havia a inglesa insensível, titular, que nós conhecíamos pelo nome de Duff. Hem ainda era casado com Hadley, mas creio que estavam lá as irmãs Pfeiffer, Pauline e Ginny. Havia o oficial do exército inglês que nós chamávamos Chink. Don Stewart estava lá; e Bill Bird e a mulher e um jovem amigo deles chamado George O’Neil. Assim como Robert McAlmon.  

Desde que li o romance não tenho bem a certeza quais os acontecimentos que Hem inventou e quais aconteceram realmente. Era como uma viagem da Cook’s com guia oficial, sendo Hem o mestre de cerimônias. Como espetáculo os San Firmines eram tremendos. Bandas. Procissões. Cohetes. A chegada dos touros, tirar os bois das gaiolas, galopadas pelas ruas. Todas as praças cheias de camponeses ágeis como bailarinos, de boinas azuis. De todas as ruelas os ritmos dos pífaros vascos e tambor, ou o balir das gaitas de foles galegas, ou o matraquear das castanholas. 

Cada grupo pequeno tinha o seu odre de vinho. Se bem me lembro, as turbulências nunca ultrapassavam um certo ponto. Boas maneiras entre as pessoas que creem na dignidade do homem são uma questão de vida ou de morte. 

Toda a gente tinha de ser muy hombre com os touros. Corria-se à frente deles quando eram levados para a arena; tentava-se entrar para o curral quando eles estavam a ser examinados pelos funcionários. Na capea os touros eram soltos sobre o público que enxameava a arena. 

Eram touros novos e não dos mais ferozes, mas rodeados por uma multidão de jovens navarrenses que os atiçavam com casacos e lenços, faziam algumas investidas formidáveis. Um bom número de rapazes ficou ferido, embora me não lembre de ninguém ser morto nesse ano. 

Fazer exibição da minha ignorância da etiqueta taurina perante uma arena cheia de navarrenses aos pulos não era a minha ideia de uma tarde agradável, mas Hem tinha de lá estar com os aficionados. Os seus compatriotas americanos acharam que tinham de mostrar aquilo de que eram capazes. A piada à minha custa foi que, quando me fui embora, depois de repudiar tudo aquilo em alta voz, me encontrei cara a cara com o touro. Este tinha acabado de saltar a barreira e avançava a toda a força do outro lado da barrera. Olhou-me nos olhos e eu olhei-o nos olhos. Demos a questão por arrumada. Não me levou muito tempo a trepar os pontos de apoio da parede até à camada mais baixa dos assentos. A história que eu contei é que andava à procura de um lugar alto donde fazer esboços. 

Foi divertido e comemos bem e bebemos bem, mas no grupo havia demasiados exibicionistas para eu me sentir feliz. O espetáculo de uma multidão de rapazes a tentarem provar que eram muy hombre irritava-me. Era capaz de apreciar uma tourada ocasional como espetáculo, mas todos os dias, durante uma semana, era demais. 

Para Hem era diferente. Tinha uma devoção extraordinária por tudo o que lhe interessasse nesse momento. Quer fossem as corridas de bicicleta dos seis dias ou a tourada ou a pesca às trutas, não se cansava até o fim. 

Ficava preso àquilo como uma sanguessuga, até todas as fases do assunto fazerem parte integrante dele. Metia-se na intimidade dos profissionais e saturava-se até quase rebentar. Exceto no caso de um cientista ou outro, que tenho conhecido a lutar com uma série difícil de experiências, nunca conheci ninguém com esse poder peculiar de adesividade. Alguns dos melhores escritos de Hemingway têm origem nesta qualidade. Quando descreveu o trabalho do matador em Death in the Afeternoon, sabia do que estava a falar. 

Os espanhóis eram ótimos e eu era muito amigo de Hem e de Hadley, mas não poderia ter suportado a parte americana do grupo se não houvesse também uma garota. Estava a descobrir a verdade do velho ditado de Benjamin Franklin: “Um homem e uma mulher são como uma tesoura. Nenhuma das lâminas serve para nada sem a outra”. Nós os dois construímos uma espécie de camarote de teatro donde assistíamos a tudo o que se passava, dentro dos acontecimentos, mas não tomando parte neles. 

Quando ela teve de voltar para a Universidade, resolvi que o que me faria bem seria um grande passeio a pé pelas montanhas. Chink e George disseram que iam também. Eram ambos rapazes robustos e fiquei encantado. Arranjamos uns mapas e organizamos um itinerário através dos Pireneus até Andorra. Bob McAlmon insistiu em ir conosco. 

O infeliz só tinha ideias disparatadas. Tencionava ser muito espanhol e calçar alpargatas. Tentei explicar-lhe que não poderíamos percorrer umas vinte milhas por dia sem umas botas fortes. Acabou por dizer que usaria sapatos de sola de borracha, mas não conseguiu aguentar o nosso ritmo de andamento e ao segundo dia ficou para trás. 

Chink era afinal um indivíduo esplêndido. Escola pública e Sandhurst. Hirto como uma vassoura e pouco falador, mas um bom andarilho que apreciava a paisagem exatamente o gênero de homem seguro com quem se gostaria de subir ao topo de uma montanha. Os ingleses mudam de nome tão facilmente como um caranguejo muda de casca. Nessa altura era o capitão Dorman-Smith, mas, sob outro nome qualquer, alcançou fama como general, na II Guerra Mundial. Chink conhecera Hem na Itália e tinha feito viagens com ele. Quando tentei fazê-lo falar sobre o nosso amigo, só dizia, abanando a cabeça “Era um rapaz prometedor.” Sempre no tempo pretérito. 

Tivemos quase sempre bom tempo. O silêncio e a solidão eram um encanto depois de papaguear em volta das mesas, sob os portales de Pamplona. Lembro-me de uma série de desfiladeiros altos e da paisagem a estender-se de ambos os lados como o panorama pintado que costumavam desenhar durante a música do Reno em Siegfried. As montanhas eram verdes ao norte, para os lados da França, secas e cor de limão, do lado da Espanha. Os homens que encontramos nos trilos a grande altitude eram ou contrabandistas ou funcionários da alfândega. Fazíamos vinte ou trinta milhas por dia. Para os fins da viagem experimentamos tomar uns goles de “brandy” quando começávamos a sentir a fadiga, pela tarde. Consideramos que a experiência fora um grande êxito. 

Ao descermos uma encosta abrupta em direção a Andorra perdemos a estrada e tivemos de seguir o leito pedregoso de uma torrente. A nossa única iluminação vinha das trovoadas. A chuva encharcou-nos. Chegamos à capital cerca de meia-noite, molhados até os ossos. Batíamos os dentes de frio. A cidade estava hermeticamente fechada. Na única estalagem que encontramos aberta, levaram-nos para um quarto mal cheiroso com três camas. 

Estávamos absolutamente exaustos. Doíam-nos as pernas. Os pés estavam doridos e magoados. Tínhamos um sono desesperado. Mal nos estendemos, depois de enfiar roupas secas, os percevejos avançaram como tropas de choque, onda após onda. George e eu deixamo-nos ficar inertes, mas Chink divertiu-me quando se levantou da cama de um pulo, se vestiu com todo o cuidado e ficou sentado solenemente numa cadeira durante o resto da noite. A atitude dele era que não ficava bem a um oficial do exército de Sua Majestade sofrer afrontas dos nativos. Respeitei-o por isso. 

Deve ter sido nos fins desse outono – ou talvez no seguinte?! – que Hem me leu The Torrents of Spring. Começou numa tarde outonal, de sol avermelhado, na “Closerie des Lilas”. Algumas passagens eram realmente divertidas, especialmente quando ele metia os índios de Michigan – Hem tinha jeito para os índios – mas punha-me a mim numa situação embaraçosa. Eu tinha contribuído um pouco para convencer Horace Liveright a publicar In Out Time na América, e Hem considerava-me um bocadinho responsável pelo contrato nitidamente mau que ele assinara, dando a Liveright opção sobre vários livros. 

Ora Scott, que se considerava um descobridor de talentos, e era altruisticamente generoso acerca das obras dos outros, estava a trabalhar como um furão para conseguir que Max Perkins aceitasse Hemingway no Scribner. Scott tinha uma das suas paixões literárias por Hem, o estilista-desportista, o romancista-pugilista. Tínhamos rssolvido, falando uma noite com Hem, que talvez ele viesse a se tornar um Byron moderno. Scott tinha razão. Scribner era o editor digno de Hem, mas como livrar-se do contrato de Liveright? 

Nunca compreendi exatamente qual era a intenção de Hem ao escrever The Torrents of Spring. Escrevera deliberadamente coisas que Liveright, como editor e amigo de Sherwood Anderson não podia, de modo algum, publicar, ou era apenas uma brincadeira cruel do rapaz?É claro que me ri quando ele me leu o livro em voz alta, mas tentei dissuadi-lo da sua publicação, pelo menos por enquanto. Disse-lhe que não era suficientemente bom para se aguentar como obra burlesca, e que In Out Time tinha sido tão bom que devia esperar até ter qualquer coisa de verdadeiramente formidável para se lhe seguir. 

Nessa noite concordou logo que Sherwood Anderson era uma das pessoas que ele não desejaria ofender. Sherwood tinha sido muito bom para Hem quando este era rapaz e trabalhava em Chicago, e nós ambos sabíamos como ele era sensível. Concordei com Hem que Dark Laughter era sentimental e idiota, e que alguém lhe devia chamar a atenção para o fato, mas que não achava que devesse ser Hem a fazê-lo. Hem tinha o hábito desorientador de começar a trautear uma melodia enquanto conversava conosco. 

Quando nos despedimos nessa noite pensei que o tinha dissuadido de publicar Torrents. Suponho bem que eu não tinha na verdade nada com o assunto, mas nessa época, amigos eram amigos. As coisas afinal não aconteceram assim. 

A última vez perfeita em que me diverti com Hem e Hadley na Europa, foi em Schruns, no Vorarlberg Austríaco. Tinham descoberto a prática do ski em Schruns, no inverno anterior. Gerald e Sara foram lá ter conosco. Tudo era fantasticamente barato. Instalamo-nos numa estalagem antiga e maravilhosa, com fogões de porcelana, chamada a Taube. Comemos forellen im blau e bebemos “kirsch” quente. O “kirsch” era tanto que no-lo davam para nos esfregarmos quando voltávamos do ski. 

Era tudo ski e corta-mato. Utilizávamos peles de foca para subirmos. A grande excursão foi até Madlener Haus, num imenso campo de neve, acima da cidade. Era uma espécie de clube de ski, com lareiras imensas e comida quente. As pessoas eram o mais encantadoras que se possa imaginar. Toda a gente exclamava “Grüss Gott”, quando nos encontravam. Parecia que vivíamos num cartão de Natal antiquado. 

Hem atirou-se ao ski de alma e coração. Praticava continuamente. Tinha de ser excelente. Gerald era outro perfeccionista. Acabou por ser uma competição, para ver qual deles seria o skiador completo num prazo de quatro dias. Fizeram ambos excelentes progressos. 

No entanto eu acho que me diverti mais do que os dois, porque desde o princípio compreendi que nunca daria nada naquilo. Demasiadamente desajeitado. Costumava subir às pistas das montanhas com as minhas peles de foca, ofegante e a suar, e a gozar a paisagem. O tempo não estava muito frio. O sol até estava quente. As montanhas nevadas ondulavam com sombras azuis e púrpura. Tinha de se ter cuidado para onde se ia, porque à tarde havia perigo de avalanches. Vi uma quando descíamos de Madlener Haus e fiquei muito impressionado. 

Quando subia sentia-me ótimo, mas ao descer a montanha de ski tive de aperfeiçoar uma tática especial, porque não era capaz de fazer curvas. O melhor que eu fazia era cair. Quando as encostas eram demasiado íngremes costumava sentar-me sobre os skis e transformá-los numa espécie de “toboggan”. Que grande troça me fizeram quando se descobriu à minha chegada a Schruns que tinha feito um buraco no fundo das calças. 

Às refeições ríamo-nos tanto que mal podíamos comer. Toda a gente arreliava as outras pessoas durante essa semana em Schruns. Comemos vastas quantidades de trutas, e bebemos os vinhos e cervejas, e dormimos como arganazes sob os grandes “édredons” de penas. Éramos todos irmãos e irmãs quando nos separamos. Foi um autêntico choque ouvir dizer uns meses depois que Ernest ia deixar Hadley. Quando gostamos de um casal, gostamos de os ver continuar casados um com o outro. 

(...) 

Os períodos melhores desses anos foram passados com Hem e Pauline, em Key West. A época que sobressai na minha memória foi em fins de Abril ou princípios de Maio de 1929. 

Cheguei, penso que no barco dos Mineiros e Pescadores, num farrapo. Quase enlouquecera a tentar trabalhar com os Novos Dramaturgos. Um teatro é uma empresa de colaboração. Em especial se se é o autor da peça que está a ser representada, uma pessoa sente-se responsável pela quantidade de gente formidável que dispendeu dias e noites, de tempo e esforço, numa produção. Mesmo sem ser na Broadway é preciso pagar-lhes. Tinha chegado ao ponto em que empregava o meu dinheiro, ganho com tanto esforço, para manter a maldita peça em cena mais umas semanas. 

Jack Lawson e Francis Faragoh, que tinham família para sustentar, já se tinham alistado nos estúdios cinematográficos de Hollywood. A orientação do partido dominava The New Masses e ia a caminho de tomar conta dos teatros experimentais. Era uma luta diária para não ter de envergar o colete de forças. Não só precisava de descansar como de voltar ao trabalho consecutivo numas narrativas que eu tentava organizar. Quando entrei para bordo do barco em Nova Iorque, já tinha enviado a minha demissão à direção do teatro. Estava a sacudir dos meus sapatos o pó do teatro. 

Hem tinha-me escrito cartas entusiásticas sobre os vastos cardumes de seríolas e de cavalas, e contando como vivia esplendidamente a comer caranguejos. Charles Thompson tinha apanhado um tubarão de mais de dois metros. As Marquesas pululavam de narcejas. Dizia que a corrente do Golfo estava muito melhor do que quando eu lá estivera no ano anterior, “como nos tempos dos pombos correios e dos búfalos”. 

Hem precisava de pescar e caçar bem. Foi nesse inverno que o pai dele, o Dr, Hemingway, se matou com um tiro. 

Já não sei se fui eu quem primeiro falou a Hem de Key West, ou se foi ele que fez a descoberta por si. Não me cansava de falar do local aos meus amigos desde que o vira no decurso de uma excursão a pé pela península da Flórida. Exausto, cheio de sede e de calor, encontrei-me numa pequena estação ferroviária. Surgiu um comboio [trem]. Perguntei ao revisor para onde ia o comboio. Disse-me que para Key West, e eu disse ótimo, e por milagre tinha dinheiro para o bilhete. Nunca me esquecerei da viagem fantástica através das pequenas ilhas, pelo viaduto de Old Flagler.  

Cayo Hueso, como quase toda a gente lhe chamava, estava ligada a Havana por “ferry-boats”. As fábricas de charutos tinham atraído uma população em parte cubana, e em parte espanhola. Os operários das fábricas de charuto eram pessoas interessantes, bem informadas e muitas vezes surpreendentemente dadas às leituras. A manufatura dos charutos era um trabalho especializado. Tinham o hábito de contratar uma pessoa para lhes ler em voz alta em cada uma das longas mesas, enquanto trabalhavam. Escutavam com avidez não só os jornais socialistas, como também os romancistas espanhóis do século XIX e as traduções de Tolstoi e Dostoievsky. Eram pessoas que tinham ideias formadas sobre as coisas. 

A população de língua inglesa era composta por ferroviários, velhos colonos da Florida, alguns descendentes de habitantes da Nova Inglaterra, de quando aquilo era um porto de pesca à baleia, e pescadores de colônias de brancos, como Spanish Wells nas Bahamas. Não havia vestígios do sotaque arrastado do Sul na sua maneira de falar. A gente lembrava-se de que Key West fora território ianque durante toda a Guerra Civil. 

Havia dois hotéis sonolentos, onde passageiros dos comboios, a caminho de Cuba ou das Caraíbas, se instalavam às vezes. Palmeiras e pimenteiras. As ruas, cheias de árvores, de casas de estrutura de madeira lembravam vagamente a Nova Inglaterra. Os automóveis eram raros porque não havia estrada para o continente, só o viaduto por onde passava a linha férrea de via única. O estaleiro estava fechado. O guarda costumava deixar-nos ir nadar, ao largo dos degraus de pedra, nas águas de um azul profundo da doca interior. Tinha de se ter cuidado com as barracudas. Quanto ao resto era maravilhoso.  

Os espanhóis tinham restaurantes pequenos, mas bons, bem fornecidos de vinho de Rioja. Havia simpáticas criadas de meninos, de cor. Como Hem e Pauline tinham produzido dois rapazinhos, Patrick, que em breve seria conhecido pelo nome de Rato Mexicano, e Gigi, a quem Hem chamava judeu irlandês, isso das amas era muito importante. Parecia que ninguém jamais ouvira falar de leis de caça, ou de lei seca. O sítio convinha perfeitamente a Hem. 

Hem andava sempre com uma multidão de pessoas. Lembro-me de que não estava sozinho quando veio ver a doca dos vapores nessa tarde de sol. Só me deu tempo de deixar a minha mala no Hotel Ultramarino e mudar de roupa, e depois tivemos de ir todos pescar tarpão, porque a maré estava boa.   

Charles Thompson, cuja família era proprietária do principal armazém de ferragens fornecedor da marinha, levava-nos no seu barco a motor. A mulher dele, Lorine, ia também, e Waldo Pierce, com a sua barba e o seu caderno de esboços e a sua caixa de tintas. 

Waldo era originário de Bangor, no Maine. Era um homem enorme, com umas patilhas hirsutas, que parecia um Netuno de uma fonte romana barroca. Tinha sido contemporâneo de John Reed em Harvard. O seu feito lendário tinha sido saltar para o mar, de bordo de um navio que transportava gado, em que os dois tinham vindo da Europa, pouco depois de saírem da Universidade. Ao largo de Sandy Hook, Waldo decidiu que não gostava do tom de voz do terceiro imediato; nadou para a terra; comprou um bilhete de 1.a classe e esperou pelo barco de gado quando ele atracou. Uma história conta que John Reed tinha sido posto a ferros por ter morto o companheiro. Waldo era um pintor muito fluente. A maneira de pintar dele era parecida com a de Renoir. Nunca parava de pintar ou de desenhar, nem de falar também. 

Gostei de toda a gente a bordo, mas a única para quem eu tinha olhos era Katy. Katherine Smith tinha crescido com os Hemingways. As duas famílias iam para a mesma estância de veraneio no norte de Michigan. Hem e Bill, o irmão mais novo de Katy, tinham sido inseparáveis em rapazes. Chamava Wemmage a Hem e tratava-o de uma forma meio afetuosa, meio condescendente, como as garotas costumam tratar um irmão mais novo. Quando Hem trabalhava em Chicago antes de ir para a Itália com a Cruz Vermelha, vivera, como se fosse da família, numa espécie de cooperativa dirigida pelo irmão mais velho de Katy, Y.K. Katy tinha sido amiga de Hadley, e conhecera Pauline e sua irmã Ginny na Universidade de Missouri. Eram todos muito íntimos. Desde o primeiro instante que eu não conseguia pensar em mais nada, senão nos olhos verdes dela. 

Faz muito calor em Key West, no mês de Abril, quando os ventos alísios amainam. Pescamos entre os cais e um vapor branco e velho, que encalhara num rochedo durante um furacão. Waldo pintou-o num quadro que ainda hoje está pendurado no vestíbulo da casa em Steve’s Point. Quando Charles levou o seu iate por uma reentrância da costa, para longe da cidade, fomos invadidos por um incrível perfume de limas em flor ao mesmo tempo que pelos mosquitos saídos dos mangos.  

Hem havia trazido umas garrafas de champanhe que estavam empoleiradas no gelo que mantinha os salmonetes frescos no balde da isca. A regra era que não se podia beber um copo sem que alguém apanhasse um peixe. O sol punha-se numa aguada de tons ocres e rosa garridos. Pescamos até cair o luar. Não tenho a certeza se apanhamos algum tarpão essa noite, mas um ficou fisgado no anzol porque me recordo do arco de luz prateada contra o reflexo da lua sobre a água, quando o peixe saltou. 

O tarpão só parecia morder a isca quando a maré estava baixa, e a água quente, nos canais. Quando eles deixaram de morder e nós tínhamos acabado o champanhe, Charles disse com um bocejo que tinha de ir trabalhar na loja às sete da manhã, e levou-nos para a doca. 

Se não tivéssemos apanhado um tarpão provavelmente eu sentir-me-ia contente do mesmo modo, porque a pesca do tarpão me pareceu sempre um desperdício. Detestava ver os grandes monstros prateados jazendo na poeira do cais. Não servem para comer. Só servem para serem colocados em suportes. Algumas pessoas fazem “bibelots” das escamas secas. É pura vaidade apanhar tarpões. 

Fomos ao restaurante asturiano comer qualquer coisa antes de irmos para a casa. Peixe frito com tomate era a especialidade da casa. Era um encanto poder tagarelar agradavelmente sobre todos os assuntos, sem tropeçar naquele horrível programa do Partido. Nada de tabus. Toda a gente dizia a primeira coisa que lhe vinha à cabeça. Depois das questiúnculas ideológicas do teatro de Nova Iorque, Key West parecia o Éden Celestial. 

Hem era o tipo mais formidável com quem andar, quando tudo corria bem. Essa Primavera foi uma estação maravilhosa para o tarpão. Charles levava-nos a pescar tarpão todas as noites, e pescávamos e bebíamos e falávamos, falávamos, pela noite luarenta fora. De dia, depois de Hem e eu termos deixado de pescar – levantávamo-nos ambos cedo – íamos ao rochedo com Bra. 

Bra era um Conch. Era o que chamavam aos brancos de Spanhish Wells, nas Bahamas. O verdadeiro nome dele era Sanders. Hem, que também se transformara num Conch, como ele, convenceu o capitão Sanders a levar-nos lá. Ninguém ouvira falar de um barco de aluguel. Quinze dólares era considerado um preço razoável para a época. 

Os barcos de pesca eram ainda sumacas, quer tivessem velas ou não. Tinham um depósito com água, construído a meio do barco, para manter os peixes vivos. Key West tinha um frigorífico, mas no mercado do peixe, no cais, tiravam os peixes de um grande barril, com uma rede, quando os comprávamos. Outro tanque enorme estava cheio de tartarugas. A exportação de tartarugas marítimas era uma indústria importante. 

Era sempre fascinante a variedade de animais que se retiravam dos rochedos. Não tendo sido nunca um grande pescador de desporto, gostava de ir com eles para estar na água multicolor. Anunciava sempre que pescava para comer. Se bem que gostasse de competições, como se fosse um cavalo de corridas. Hem ainda não era o desportista profissional que mais tarde se tornou. O meu entusiasmo pela quélidras serpentinas, grandes e pálidas, conhecidas localmente por peixes carneiros, era tão grande, que Katy me começou a chamar de “Peixe Carneiro”. A alcunha manteve-se uns tempos. 

Casámo-nos em Agosto, em Ellsworth, no Maine. Uma das cartas mais simpáticas que recebemos foi a de Hem, que passara o verão em Espanha, atrás dos toros. Disse que estava muito contente por saber que nós, “os dois cidadãos”, estávamos casados. Tinha-lhe escrito a dizer que estava a acabar o primeiro volume da obra que, com surpresa e choque meus, se tinha transformado numa trilogia. “As trilogias são sem dúvida o que é preciso – vê tu o Pai, o Filho e o Espírito Santo – nunca houve nada maior do que isto”. 

Foi esta uma das poucas referências à religião na nossa correspondência. Ernest convertera-se ao catolicismo para casar com Pauline, e por quaisquer artes mágicas tinha conseguido que se casamento com Hadley fosse anulado. 

Na carta fazia um resumo das vidas dos nossos amigos: Don Stewart tinha sido destruído ao assinar um contrato de vinte e cinco mil dólares e ao conhecer os Whitneys. “Confio em que evites semelhante coisa – não assines nada – e faz fogo logo que vejas um olho de um Whitney.” John Bishop estava perdido por ter casado com uma garota com rendimentos pessoais . “Afasta o dinheiro de Katy”. A juventude eterna tinha afundado os Fitzgerald. “Envelhece, Passos. Envelhece, Katy”. O velho Hem sofrera com o fato de o pai se ter suicidado com um tiro. Eu não devia consentir que o pai de Katherine tocasse numa arma. 

Tive de corrigir as provas de Paralelo 42 antes de poder partir, numa viagem triunfante, que andava a projetar, para mostrar a Katy velhos locais favoritos da Europa, e apresentá-la aos amigos. Escrevi a Hem que rezasse por mim, pela minha batalha na defesa dos palavrões. Empatando nessa batalha, conseguimos embarcar no paquete francês Roussillon, no dia 23 de Novembro. 

Eu nunca fora mais feliz, mas a desgraça estava a atingir meus amigos. Canby Chambers fora atacado de paralisia infantil no verão anterior. Restabeleceu-se, mas ficou paralisado, da cintura para baixo, o resto da vida. Antes de partirmos soubemos com tristeza que o pequeno Patrick Murphy estava tuberculoso.  

Em Paris encontramos os Fitzgeralds a viverem perto da Étoile. Era a primeira vez que víamos Scottie. Era uma garotinha esperta e engraçada, o que as amigas de minha mãe costumavam chamar de uma criança à moda antiga, entregue aos cuidados de uma governanta inglesa dominadora que nos horrorizou aos dois. Scott continuava a beber, e Zelda estava longe de se encontrar no seu perfeito juízo; andava obcecada com a ideia de se tornar bailarina do Ballet Russo. Dançava muito bem as danças da moda, mas com a melhor das boas vontades do mundo era impossível começar o treino de ballet na idade dela. Para quem era amigo dos Fitzgerald, estar com eles era absolutamente doloroso. 

Katy e eu andamos nos bateaux-mouches, à luz avermelhada do sol de Inverno. Almoçamos em Sceau-Robinson, e demos uma volta por todos os cafés com Blaise Cendrars, cuja poesia tanto me impressionara nessa altura, e com o cão branco Samoyed que era o seu companheiro inseparável. Cendrars distraía tanto como os seus escritos, mas com cada ano que passava eu ia-me afastando da vie littéraire. 

Jeanne Léger serviu-nos a melhor blanquette de veau que jamais provei. Jeanne era o modelo muito procurado, com quem Fernand casara na sua mocidade. Não viviam juntos, porque Jeanne, embora sendo uma mulher muito bonita e uma cozinheira maravilhosa, tinha um béguin pelos amiguinhos mais desoladores que se possa imaginar, mas cumpriam o resto das obrigações matrimoniais de uma forma francesa, curiosamente formal. 

Hem e Pauline e Ginny Pfeifer apareceram, vindos de Espanha, e fomos todos para a Montana Vermala, perto de Sierre, nos Alpes Suíços, passar o Natal com os Murphys. Gerald e Sarah enfrentavam a sua catástrofe com grande elegância. A teoria então era que, se Patrick fosse mantido a uma altitude conveniente, tinha possibilidade de vencer a doença. Os Murphys estavam decididos a que ninguém tivesse pena deles. 

Estava lá Dorothy Parker, dizendo as suas piadas habituais com os olhos cheiros de lágrimas. Fizemos ski, e rimo-nos como doidos, comendo fondue de queijo e bebendo o magnífico vinho local, à noite, em frente à lareira. O nosso objetivo comum era animar os Murphys. Durante uns tempos deu resultado. 

Depois disso Katy e eu passamos uma semana com Cendrars, numa fria e velha estalagem, na cidade de Montpzier, rodeada de muralhas e fortificações, no Maciço Central. Cozinhavam ganso bravo e veado numa chaminé antiquada, e todos os dias comíamos ao almoço omeleta de trufas.  

Cendrars tinha perdido uma das mãos na guerra. Era de por os cabelos em pé descer com ele de automóvel as estradas da montanha. Guiava com a mão que lhe restava e fazia as mudanças com o gancho, no pequeno carro francês. Visitamos “Les Eyzies” e todas as cavernas pré-históricas ali ao pé. Cendrars fazia todas as curvas sobre duas rodas. 

De qualquer modo não morremos, e dirigimo-nos para o sul, através do Languedoc, até a Espanha. Creio que foi em Cádiz que embarcamos no pequeno vapor espanhol chamado Antonio Lopez, que nos transportou de um modo repousante para Havana, passando pelas Canárias. Foi uma viagem maravilhosa. Tínhamos um camarote grande no convés. E eu diverti-me com as minhas aquarelas e a traduzir para o inglês o livro de Cendrars, Le Panama et Mes Sept Oncles. 

O outro único passageiro que falava inglês era um homem do Departamento de Estado, chamado Loomis. O Sr. Loomis conhecia bem a África e contava histórias muito bem. Sabia histórias de pesadelo sobre os cultos religiosos com vítimas humanas, na República da Libéria, que nos causavam arrepios. Olhava com certo desprezo as liberdades civis nesse país. Sentimo-nos interessados pelo Sr. Loomis, porque, quando lhe perguntamos para que comprara bilhetes de dois camarotes, ele respondeu: “Tenho de ter um sítio para arrumar os meus sapatos, não é verdade? 

Nos meados de Abril tínhamos voltado a Key West, e estávamos a apanhar golfinhos na Corrente do Golfo com o velho Hem, no barco de Bra. 

Nesse Outono acompanhei Hem numa caçada aos alces, perto de Cooke, em Montana. O tio Gus de Pauline forneceu o dinheiro para a viagem. O tio Gus era um homem pequeno e nostálgico, o impulsionador da empresa Hudnut em Nova Iorque. Cheio de dinheiro, e não tendo família chegada, era pródigo com as sobrinhas bonitas e elegantes. Ernest fascinava-o. Caça, pesca, literatura. Queria ajudar Ernest a fazer todas as coisas que ele não fizera, por andar a fazer dinheiro. Foi o tio Gus que financiou os primeiros safaris africanos. 

Partimos com mulas de carga, de um rancho nos arredores, e contornamos a orla de Yellowstone Park. Enquanto os acompanhei, os alces, que têm um olfato particularmente sensível, deram por nós e meteram-se no parque onde estavam seguros. Demasiado míope para me servir de uma espingarda, ocupei-me com a paisagem, e a ver ursos, e castores num lago, e a observar Hem a trabalhar como caçador. Nunca fumava: tinha um olfato perfeito. Cheirava a presença de um alce macho, como o alce cheirava a presença dele. 

Hem já tinha conquistado todo o pessoal do rancho. Estes achavam que Hem era o tipo mais maravilhoso que eles jamais tinham conhecido. Tinha bem a qualidade de chefia. Ocorreu-me que faria um chefe de guerrilhas de primeira ordem. Além disso tinha o sentido de orientação e topografia, que os táticos militares possuem. Sabia que aspecto teria o próximo vale antes de o seu cavalo trepar até o topo de um monte. 

Ao voltarmos para Billings, no “Ford” de Hem, ele virou o carro na valeta. Era uma estrada estreita e ficou encandeado por um automóvel que vinha em sentido contrário. Todos me censuravam, por causa de eu ver mal, mas juro que era Hem quem ia ao volante. É claro que tínhamos bebido muito “Bourbon”. O carro ficou de rodas para o ar. Saímos todos de gatas, de debaixo do veículo, mas Hem passou semanas no hospital de Billings com um braço gravemente fraturado. Era típico de um certo aspecto do caráter de Hem que, quando Archie McLeish se deu ao trabalho de ir tão longe para o ver, Hem tivesse dito aos outros amigos que Archie tinha lá ido só para assistir à morte dele. 

Foi o período da Grande Crise Econômica. A mim não me afetou muito pessoalmente. Katy era proprietária da casa de Provincetown de que nós fazíamos o nosso quartel-general, e eu economizava todo o dinheiro que podia para viagens. Costumava dizer que andara tão falido antes da falência da Bolsa, como depois. Os meus livros não podiam vender-se menos. Foi o que eu vi das vidas das outras pessoas que me fez compreender o fracasso do capitalismo da Nova Era. 

A minha teoria política era que o partido comunista dos EUA tinha o valor de incomodar. Como eu era independente, sem interesses pessoais a defender, cumpria-me apoiar os objetivos do partido que eu aprovasse, até que o público americano tivesse consciência de quanta coisa estava errada no país da liberdade. Continuava a escrever a Hem, e a outros amigos céticos, que estava quase a renunciar a enredamentos radicais, mas surgia sempre a tentação de aderir a mais uma boa ação. Os comunistas são infatigáveis quando pensam que têm alguém preso no anzol. 

(...) 

Pouco depois de Franklin D. Roosevelt ter sido empossado, adoeci com uma nova crise de febre reumática. O Dr. Gantt, com quem tinha cimentado uma forte amizade naquela caminhada de fome através do Cáucaso, tinha voltado para a América, para a Escola Médica de Johns Hopkins, a fim de instalar um laboratório pavloviano e trabalhar com Adolph Meyer, o psiquiatra suíço que dirigia Phipps. Eu tinha trazido Katy para Baltimore para ela fazer operação às amígdalas, e meti-me no leito do hospital que ela ocupara, quando minha mulher o vagou. Ali jazi durante semanas dolorosas, lendo A la Recherche du Temps Perdu. Proust é mesmo bom para se ler quando se tem febre. Nunca tive. Nunca tive paciência para ele quando estava de saúde. 

Os meus amigos congregaram-se à minha volta. Ernest mandou-me mil dólares, da contribuição do tio Gus para a caça em África. Gerald e Sara forneceram a passagem numa linha de navegação italiana, para eu convalescer em Antibes. Horsley guiava o talento médico.  

(...) 

Durante vários Invernos, depois disto, Katy e eu fizemos sempre o possível por passar todo o tempo que podíamos em Key West. Não era bem ao sul do trópico, mas era muito perto. Nenhuma receita médica foi jamais tão agradável de seguir. 

A via férrea tinha falido e agora chegava-se de barco, de um ponto abaixo de Homestead, no continente. Havia três carreiras de “ferry” separadas, e estradas arenosas através das ilhas cobertas de matagal. Levava meio dia e era uma viagem encantadora, com grandes filas de pelicanos a saírem da água, e gaivotas no ar e nas boias, e salmonetes, saltando nos baixios leitosos. 

Hem e eu continuamos a projetar uma viagem a Bimini, mas tinha de ser adiada constantemente por isto e por aquilo. Da primeira vez que partimos, mal tínhamos alcançado as águas púrpuras ca Corrente do Golfo, quando o velho Hem se feriu na perna com um tiro – na parte carnuda, felizmente – ao tentar matar um tubarão que se aproximava de um outro tubarão menor, e que um de nós tentava arpoar. Tivemos de voltar para e levá-lo ao cirurgião do hospital. Katy ficou tão furiosa que quase deixou de lhe falar. 

A perna de Hem ainda não estava boa quando chegou uma encomenda para ele, de Oak Park. Era da mãe. Continha um bolo de chocolate, um rolo de quadros da senhora Hemingway, que ela sugeria que ele exibisse no Salon quando fosse a Paris, e a espingarda com que o pai se suicidara. Katy que a conhecera noutros tempos, explicou-me que a senhora Hemingway era realmente uma senhora muito esquisita. Hem era o único homem que eu conheci que odiava a mãe. 

Foi no primeiro dos barcos chamados Pilar, de Hem, que finalmente fomos às Bahamas. O luxuoso acampamento de pesca de Cat Cay tinha falido no colapso da primeira prosperidade da Flórida, e ainda estava fechado. Havia alguns iates e pescadores desportivos, mas a pequena ilha de Bimini estava muito longe do mundo. Havia um cais e algumas barracas nativas debaixo dos coqueiros, e uma loja que tinha ao lado uma espécie de bar, onde à noite bebíamos rum, e uma magnífica praia muito larga do lado da Corrente do Golfo. Havia uma residência oficial e alguns bangalós queimados pelo sol, com janelas de rede contra as moscas da areia, nas dunas. Katy e eu ocupamos um deles durante uma semana para deixarmos  mais espaço para Hem no Pilar. 

Tínhamos começado a chamar a Hem de Old Master porque ninguém o conseguia impedir de dar ordens, ou às vezes o Mahatma, por ter aparecido num barco a remos com uma toalha enrolada na cabeça para se proteger do sol. Tinha mais momentos de rabugice do que nos tempos antigos, mas era divertidíssimo quando queria. A vida ainda nos parecia a todos enormemente cômica. Ninguém se zangava sem que uma nova piada nos não pusesse de bom humor. Bebíamos bastante, mas alegremente. Fazíamos tudo com grandes gargalhadas. 

Se não me engano esta viagem a Bimini foi a primeira em que o Old Master foi realmente pescar atum. Tinha andado a ler o livro de Zane Grey sobre a pesca do atum nos Sete Mares (e é um livro surpreendentemente bem escrito) e queria superar Zane Grey. 

Tínhamos apanhado uns peixes pequenos de barbatanas amarelas, assim como alguns golfinhos cor do arco-íris, ao atravessarmos a Corrente do Golfo, vindo da parte superior do Canal do Falcão. Era na Primavera e os sabichões diziam todos que havia atum. 

Katy e eu estávamos encantados com a ilha. Nunca nos fartávamos de percorrer a praia e observar os caranguejos terrestres a correrem como cavalos de corrida no meio dos cocos caídos. Tomávamos muitos banhos na ressaca confortável da grande praia. Hem fazia troça da nossa coleção de conchas. 

Tínhamos arranjado um simpático negro, que contava histórias, dono de um pequeno barco a vela, que nos levava a passear nas águas margosas do Grande Banco das Bahamas, e a pescar chocos nos baixios entre os bancos de coral. O Mahatma fazia troça de nós, por gostarmos de andar juntos, de barco a remos; dizia que as pessoas faziam isso antes de se casarem, depois não. 

Os negros de Bimini eram muito divertidos. Faziam canções sobre todos os incidentes do dia. Todas as pequenas tarefas, como içar um barco para a praia, era um acontecimento coral. Era a primeira vez que qualquer de nós ouvia. 

Fizemos logo canções sobre o velho Hem. Quem me dera lembrar-me dos versos. Todas as minhas recordações dessa semana estão misturadas com a melodia daquelas cantigas de Bimini.  

Enfim, enquanto Katy e eu andávamos francamente a explorar a paisagem e a andar de barco e a remar e a entretermo-nos com o folclore – tudo ocupações de que não gostavam os pescadores sérios – o Old Master andava a cruzar o mar alto. Tinha trazido os acessórios necessários para a pesca do atum e andava a passear as linhas de pesca com aquela sua persistência impaciente e implacável. 

Estávamos em terra quando o Old Master apanhou o seu primeiro grande atum. Tinha sido fisgado no anzol, de manhã cedo, por um homem chamado Cook, que era guarda em Cat Cay. Devia ser um peixe enorme, porque logo que mergulhou levou a linha toda. As mãos de Cook estavam todas cortadas quando a entregou a Ernest, que apareceu no Pilar ao princípio da tarde. Hem continuou a deixar que o peixe se cansasse, puxando pela linha, no barco de Cook, e mandou o Pilar buscar-nos, para que presenciássemos o desporto. Não me lembro de quem ia ao leme, mas nós navegamos encostados enquanto a batalha prosseguia. 

Entre os donos de iates que se tinham reunido havia um senhor que tinha um grande iate branco chamado Moana. William B. Leeds, de uma família famosa do circuito internacional, tinha convidado o Old Master para tomar uma bebida em seu iate, uns dias antes. O Old Master viera encantado com a hospitalidade de Bill Leeds, mas ainda mais encantado com o fato de Leeds possuir uma pistola-metralhadora. Naquela altura uma pistola-metralhadora era o que o Old Master mais desejava no mundo. 

Desde rapaz que gostava de armas de fogo, mas agora estava particularmente interessado numa pistola-metralhadora como forma de combater tubarões. Bimini estava infestada de tubarões nessa época. Até nos incomodavam na praia quando tomávamos banho, mas em especial tinham o hábito exasperante de cortar a linha de pesca no momento em que íamos meter o peixe no barco. O Old Master tentou acertar-lhes com a espingarda, mas a não ser que se lhes dê um tiro no cérebro minúsculo, uma bala de espingarda não causa grande impressão num tubarão. Na noite antes de apanhar o atum, tinha tentado toda a espécie de expedientes, enquanto tomavam “rum collins”, para conseguir que Leeds se separasse da sua pistola-metralhadora. Sugeriu que lutassem por ela, ou que jogassem “poker” por ela, ou que fizessem tiro ao alvo por ela. Creio que até propôs comprá-la. Mas Leeds não largava a pistola-metralhadora, que, disse-mo mais tarde, lhe tinha sido dada pelo filho do inventor, que era muito amigo dele. 

Era ao fim da tarde quando Katy e eu chegamos ao local da batalha. Ao anoitecer o atum começou a enfraquecer. O Old Master estava a recolher a linha. Toda a gente estava atenta, mas o atum estava ainda preso no anzol. Sentíamo-nos muito excitados por assistirmos ao fim da tourada. Havia um círculo de espectadores de barcos, à volta, incluindo Leeds com a sua pistola-metralhadora, na lancha do Moana. 

Escurecia. O vento amainava, mas uma borrasca de aspecto desagradável amontoava-se no horizonte. À luz do fim do crepúsculo o Old Master puxava pelo peixe, centímetro por centímetro. Ainda ninguém o tinha visto. Nós, os restantes, acocorados no topo da cabina do Pilar, espreitávamos para dentro da água com as nossas lanternas elétricas. 

Vimo-lo de repente, escuro, prateado e imenso. Quatrocentos quilos, quatrocentos e cinquenta quilos, quinhentos quilos, adivinhavam as pessoas em murmúrios. Só sabia que era um peixe muito grande. Movia-se lentamente. Parecia derrotado. O homem do gancho precipitou-se e falhou. O brilho prateado desapareceu. O carreto guinchou quando o peixe mergulhou. 

As pragas que soltou o Old Master foram sibilantes e ditas em voz baixa.  

O peixe levou metade do carreto; então o Old Master começou a recolher a linha outra vez. Não parecia que aquilo estivesse bem. Uma pessoa sugeriu que o peixe estava morto. Bill Leeds tinha mantido os tubarões à distância com a pistola-metralhadora, mas agora deixou de fazer fogo com receio de um ricochete acertasse em alguém. O Old Master recolhia a linha sem parar. 

As nuvens de tempestade cobriam um terço do céu estrelado. Relâmpagos tremeluziam na orla das nuvens. A maior parte dos barcos pequenos regressara à terra. 

Leeds, da sua lancha, convidava-nos a que nos abrigássemos no seu iate, mas o Old Master recolhia a linha com teimosia. 

Por fim, num grande movimento de água prateada e de espuma, o atum veio à superfície a dez ou quinze metros à popa do barco. Os tubarões não lhe haviam tocado. Vimos-lhe todo o seu grande comprimento muito liso. O Old Master recolhia a linha rapidamente. Então, de repente, surgiram eles. À luz das nossas lanternas víamos os tubarões a avançarem pela água escura. Como torpedos. Como lanchas rápidas. Um atacou. Outro. Outro. A água estava escura de sangue. Quando o atum foi içado para dentro do barco, pela popa, não restava nada senão a cabeça, a espinha e a cauda. 

Levar-me e a Katy para bordo do Moana foi vitória autêntica para o velho Hem. Andara a tentar a conquista de Leeds por causa daquela pistola-metralhadora, e talvez também por pensar que Leeds era tremendamente rico. Katy antipatizara com o pobre Leeds e declarou que preferia morrer a ir a bordo do iate dele. Havia no grupo um espanhol velho, oleoso e bastante esquisito, que nós chamávamos Don Propina. Tínhamos os dois antipatizado com ele. No entanto, Ernest venceu. A borrasca soprou com tanta força que não havia nada a fazer senão procurar refúgio no iate. Subimos a escada do portaló sob as primeiras bátegas horizontais de chuva, e sentamo-nos, molhados e a tremer de frio, sob os canos de ventilação do bar. Como castigo por sermos tão pedantes, apanhamos os dois uma constipação. 

Leeds, hospitaleiramente, deu-nos um camarote para dormirmos. Fomos cedo para a cama, por isso não sabemos como aquilo aconteceu; mas, de manhã cedo, quando com um sol lindo, nos afastamos do iate, o Old Master tinha a pistola-metralhadora segura com amor debaixo do braço. 

Deve ter sido um empréstimo, porque Bill Leeds mais tarde disse-me numa carta que só dera a metralhadora de presente a Hem quando o Old Master ia partir para a guerra civil em Espanha. Leeds concordou que o que tínhamos presenciado fora uma ante-estreia de O Velho e o Mar, embora as histórias que o nativo das Canárias contou a Hem em Havana tenham certamente desempenhado o seu papel. Ninguém teve nunca muita sorte ao tentar encontrar a origem de uma história de pesca.  

Quando Katy chegou [a Los Angeles], depois de um período doloroso tendo assistido ao funeral do pai em Columbia, no Missouri, eu já estava convalescente [reumatismo outra vez]. Estava farto de Hollywood. Talvez eu tivesse sorte por a minha contribuição para O Diabo é uma Mulher ter sido dada de um leito de dor, porque se eu tivesse sabido mais acerca do que estava a ser filmado, certamente que teria lutado. Embarcamos no barco da “United Fruit”, através do Canal do Panamá até Havana, e passado pouco tempo estávamos instalados numa casa agradável, conhecida pelo nome de bangaló Brown, que Pauline nos arrendara em Key West. 

Foi provavelmente na Primavera seguinte que Hem e Waldo e eu alugamos um barco de Bra para irmos às Dry Tortugas. São as ilhotas mais ocidentais de uma fila de ilhas de coral que constituem as Floridas Keys. Tínhamos feito a longa e agitada viagem, através dos bancos, esperando apanhar um dos cardumes de grandes cavalas que se movimentam a oriente e a norte do Golfo do México na Primavera. Não tínhamos apanhado muitos peixes grandes. 

Waldo instalou um cavalete num vão do enorme forte de pedra, e pintou. Eu tinha a minha cama de campanha e o meu livro de apontamentos noutro canto sombreado. O sol estava muito quente e os ventos alísios eram frescos. O local era enorme e estava inteiramente vazio. Estávamos sempre à espera de ver o velho doutor Mudd a sair de um dos túneis. Nenhum ruído senão gritos impertinentes das andorinhas-do-mar. A água era incrivelmente límpida, deliciosa para nadar. Não vimos tubarões nem barracudas, só uma grande variedade de peixes de recife: anjos-do-mar, peixes de cauda amarela, e toda a espécie de seres minúsculos, parecidos com pedras preciosas, de que não sabíamos os nomes, em cardumes debaixo das rochas de coral. Passaram dois dias; foi uma das vezes em que compreendi o significado da expressão “dias de halcíones” [dias calmos, tranquilos, de felicidade]. 

Ernest tinha trazido Arnold Gingrich, que estava justamente a lançar a revista Esquire. O homem estava em transe. Era um mundo com que nunca sonhara. Andava mordido pelos mosquitos, meio enjoado, chamuscado pelas queimaduras de sol, atônito, meio assustado, meio satisfeito. Era tão divertido ver Ernest pescar um editor como vê-lo pescar um merlim. 

Gingrich nunca deixava de olhar, fascinado, para o velho Hem. Hem enrolava a linha no carreto, docemente, dando à presa muito tempo. O editor estava pescado. Claro que imprimiria tudo o que Hemingway quisesse mandar-lhe, mil dólares por cada golpe. (Nessa época nunca nos ocorreu que alguém recebesse mais do que isso. Vivíamos fora do mundo das agências e dos opulentos almoços de Nova Iorque). Ernest estava a praticar as habilidades que mais tarde aplicaria à alta finança literária. Domesticou Gingrich tão bem, que até lhe vendeu umas coisas minhas. 

Entretanto Bra passava o tempo a dragar conchas. Tinha aparecido turistas em Key West. Bra descobrira, com espanto, que os turistas compravam as grandes conchas cor-de-rosa, recortadas nos bordos. Tinha a proa do barco cheia delas. Na noite antes de regressarmos a Key West fez-nos um dos melhores guisados de mariscos que eu jamais comi. Isso, e peixe frito, temperado com uma mistura de salmoura e lima, que ele chamava Old Sour, constituíram um banquete real. Empurrávamos tudo com um excesso de “rum Barcardi”.  

Tínhamos o barco preso a um molhe em frente do forte. Enquanto comíamos e bebíamos, duas sumacas cubanas, que tinham andado a pescar no mar alto, acostaram ao molhe. Era uma tripulação simpática, esfarrapada, e curtida pelo sol. Passamos-lhes púcaros de “Bacardi”. O espanhol de Hem tornou-se notavelmente fluente. De dentro da sua barba, Waldo fez ouvir aquela mistura de francês, italiano e mau castelhano que lhe servira durante anos nas suas viagens pelos países mediterrânicos. Bra, que desdenhava das línguas estrangeiras, tornou-se simpático com grunhidos e encolher de ombros. Gingrich ficou sentado, mudo e de olhos muito abertos, enquanto nós saltávamos de uns barcos para outros, palrando como um bando de macacos. 

Houve feitos de força, histórias de peixes enormes fisgados no anzol e perdidos, de crocodilos avistados no Golfo, e de cobras cascavéis com muitos metros de comprimento, nadando para o mar. A noite caiu sem vento nenhum. Não havia lua. Os nossos amigos empurraram os barcos para longe do molhe, ancoraram a uma centena de metros, e foram deitar-se. Nós afastamo-nos do molhe para apanharmos a brisa que houvesse. As estrelas pareciam enfeites de árvore de Natal, em cachos por cima de nós, e refletidas no mar. Os três pequenos barcos pareciam suspensos no meio de uma enorme esfera cor de anil e salpicada de estrelas. 

Fazia muito calor na cabina. Pesados, do calor e do “Bacardi”, suávamos nos beliches estreitos. O sono veio num clarão de calor. 

Fomos despertados por alguém que batia no convés. Era o homem de idade, grisalho, que era o capitão de uma das sumacas. “Amigos, para despedirnos”. De olhos vermelhos, as nossas cabeças pesadas como chumbo, trepamos para a coberta.  

O homem apontou. Recortado na faixa violeta a oriente, vimos um homem na proa da sumaca, a sacudir um líquido qualquer num grande garrafão de vidro. Iam partir para Havana com a primeira brisa. Queriam dar-nos a honra de uma bebida de adeus, antes de partirem. 

Toda a gente subiu para as pranchas estreitas do cais. É claro que não havia gelo. Era uma gemada quente, feita com uma espécie de aguardente barata que cheirava a álcool de madeira. Obedientes, estendemos os púcaros de lata. Estávamos a sofrer as consequências de uma bebedeira. Sentíamo-nos enjoados. Tínhamos vontade de vomitar. Não podíamos insultar os nossos amigos. Pensamos que íamos morrer, mas eles eram nossos amigos, e bebemos. 

Foi então que Ernest foi buscar a espingarda e desatou a dar tiros. Nesta altura havia um crepúsculo prateado. Sentia-se o sol arder, abaixo do horizonte. Deu um tiro numa lata de feijão que flutuava entre o barco e a costa. Atiramos-lhe mais latas para o ar. Deu tiros em bocadinhos de papel que os cubanos espetaram em pauzinhos, nos barcos a remos. Deu tiros em várias andorinhas-do-mar. Deu um tiro num mastro que estava na extremidade do molhe. Acertava em tudo que lhe indicávamos. Atirou sentado. Atirou em pé. Atirou deitado de barriga para baixo. Atirou de costas, com a espingarda entre as penas. 

Pelo menos que nós déssemos por isso, não falhou nenhum tiro. Por fim acabaram-se-lhe as munições. Bebemos o resto do ponche dos pescadores. Os amigos apertaram-nos a mão. Os amigos acenaram-nos. Levantaram a âncora e içaram as velas sujas das suas sumacas e seguiram para leste, a curta distância uma das outras, quando o primeiro sopro dos alísios aliviou o ar pesado. 

Regressamos a Key West. Havia uma ondulação grossa sobre os bancos de areia. O vento que havia instalou-se na popa. As conchas de Bra tinham começado a apodrecer e cheiravam pestilentamente. O ponche assentou mal. As nossas caras estavam verdes. Os nossos lábios, frios. Ninguém chegou a vomitar, mas éramos uma tripulação pálida e silenciosa, quando chegamos a sotavento das primeiras manchas de mangues, já perto de Key West. 

As complicações que surgem entre um homem e os seus amigos são muitas vezes pura e simplesmente o resultado de nos tornarmos adultos. As pessoas que continuam a sentir-se felizes uma com a outra, um homem e uma mulher, por exemplo, conseguem cultivar entre si uma região privada de infância perpétua. Crescer significa excluir muita coisa. 

Tomemos as nossas profissões. Poucas pessoas escolhem a carreira que seguem. De certo modo a carreira é que nos escolhe. Uma carreira significa a exclusão de todas as outras carreiras maravilhosas que podíamos ter seguido.  

A jovialidade é deitada fora. Invenções e descoberta na vida adulta provêm principalmente da aplicação de pressentimentos e aptidões desenvolvidas nas brincadeiras da infância. As pessoas que realizam coisas no mundo conseguem, de qualquer modo, conservar vivo dentro de si esse poder de brincar, mas na maioria das pessoas sobrevive, se sobrevive, numa concha cheia de espinhos.  

À medida que um homem amadurece, abandona possibilidades com cada ano que passa. Da mesma forma abandona amizades. Numa era como a nossa, em que os credos políticos levam os homens ao massacre e à imolação, as opiniões políticas tornam-se uma questão de vida ou de morte. Diferenças de opinião que, quando os homens e as mulheres tinham ainda vinte anos, eram motivo para discussões alegres e afetuosas, fermentam recriminações e violência quando atingem a casa dos trinta anos. 

Numa época em que o significado dos “slogans” políticos se vira ao contrário, de anos a anos, uma pessoa que tente conservar um espírito interrogador, fazendo coincidir cada “slogan” com a sua aplicação na vida real, cada rótulo com a própria coisa, tem de suportar que velhos amigos se transformem em não-amigos e até inimigos. 

Acrescente-se a isto as qualidades especiais do genus irritabile vatum. Os homens de letras sofrem de vaidade, mais do que os homens vulgares. São gente egoísta. As amizades entre eles são precárias. São um pouco como touros. O touro que era manso e brincalhão quando era vitelo, ao crescer fura-nos as tripas à mínima coisa. 

Ernest e Pauline compraram uma linda casa antiga, de estuque e tetos altos, em Key West. Pauline continuava a ser divertida como sempre, Gigi e o Rato Mexicano eram lindos, mas as coisas tornavam-se cada vez menos seguras entre mim e Ernest. Pode ter sido tanto culpa minha como dele. Katy e eu atribuímos aquilo a fumaças literárias. O famoso autor, o grande pescador desportista, o poderoso caçador africano: tentávamos fazer troça dele para que não exagerasse. Fazíamos o jogo até certo ponto, em especial nas noites em que ele tinha dores de garganta e se metia na cama antes do jantar, e nós trazíamos-lhe todos bebida, e jantávamos em bandejas no quarto dele. Chamávamos-lhe le lit royal. Nunca conheci um homem atlético e vigoroso que passasse tanto tempo na cama como Ernest. 

Havia épocas em que as nuvens se desfaziam e era tudo como antigamente. Aqueles longos almoços vínicos que comemos com Claude Bowers no Bottin, em Madrid. 

Eu tinha conhecido Claude Bowers como amigo de infância de Pax Hibben, nos maravilhosos jantares de Sheila Hibben, em Nova Iorque. Agora Claude era embaixador e político profissional, e tudo aquilo que Hem e eu desconfiávamos; mas era também um esplêndido historiador e um companheiro franco e receptivo. Gostava de se escapar ao palavreador diplomático e sair furtivamente da embaixada para se encontrar conosco no Bottin, uma antiga casa de comidas em Madrid, então desconhecida dos americanos. 

Claude tinha uma boa cabeça para a política espanhola – e para o vinho espanhol – mas nunca conseguiu aprender a língua. Os quadros de Goya eram sempre “Goyos” para ele. Hem discursava sobre touros e os quadros e o caráter espanhol. Eu exibia o que sabia de política. Era no começo da Segunda República. Todos os meus amigos eram republicanos. Todas as minhas esperanças estavam postas no florescimento do idealismo espanhol do Século XIX, que tanto me impressionara quando pela primeira vez visitei Madrid. Nunca conseguimos ensinar os verbos a Claude, mas os seus comentários sobre os políticos eram argutos e perspicazes. Hem não tomava parte nessas discussões. O seu partidarismo era para vários toureiros. Estes almoços foram a última vez em que Hem e eu conseguimos falar das coisas espanholas sem nos enfurecermos.  

Katy e eu chegamos a Key West um belo dia, e descobrimos que um idiota de um escultor tinha feito um busto de Ernest. No vestíbulo da frente estava o molde de gesso desse busto. Era horrível. Parecia feito de sabão. Soltamos uma grande gargalhada quando o vimos. Não conseguíamos imaginar que Ernest o tomasse a sério. Nesse inverno apanhei o hábito de tentar acertar-lhe na cabeça com o meu chapéu do Panamá, quando entrava a porta da casa. Ernest apanhou-me um dia a atirar o chapéu, lançou-me um olhar irado e tirou o chapéu da cabeça do busto. Ficou rabugento o resto do dia. Ninguém disse nada, mas depois disso as coisas nunca mais se recompuseram. 

 

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BIBLIOGRAFIA

  BIBLIOGRAFIA   (por ordem de citação)     Hemingway, Ernest.  As Cartas de Ernest H emingway: volume I,           1907-1922 / editado por ...