Em uma de suas peças mais conhecidas, Hamlet, o britânico William Shakespeare apresenta uma de suas mais famosas frases: Há mais mistério entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. O que vou descrever é, para mim, total realidade. Para quem o ler, será fantasia ou loucura.
Estou escrevendo estas primeiras linhas e confesso que nem sei por onde começar. Não sei se começo falando de mim ou de Emanuele Ferrini, um dos maiores cientistas de nosso tempo – ou, devo dizer, do “meu tempo” –, ganhador do Prêmio Nobel de Física há dois anos, aquele que inventou – ou teria inventado, caso tivesse tido oportunidade de viver – um aparelho que permite a volta a um tempo passado, explorando a teoria da dobra temporal.
Já que comecei a falar dele, devo dizer que, durante a minha vida, Ferrini foi uma das personalidades mais cativantes das que ouvi falar. Não apenas um homem notável pela sua inteligência, comparável a Einstein e a Hawks, mas um grande amante da vida e das boas coisas que ela proporciona. Fez fortuna com suas palestras e inventos, e sua figura alegre e jovial, mesmo quando tinha mais de sessenta anos, estampava tanto as publicações ligadas à ciência quanto as de vida social e os ambientes dos famosos. Ele fez fortuna com um sistema de captação de energia motora, energia chamada limpa, colocando painéis no solo de ruas, estradas e calçadas com muito movimento. Uma ideia simples que aproveitava a energia causada pelo atrito de pessoas e veículos com o solo.
Nunca consegui entender como um homem como ele, conseguia conciliar todas as suas atividades com uma vida social tão ativa. Desde criança eu o admirava, admiração essa provavelmente motivada pelos meus pais e por tantas outras pessoas do meu convívio que se encantavam com sua personalidade. Creio ser impossível não o admirar, algo que beirava a idolatria; não à toa, devido ao seu nome – Emanuele, “Deus conosco” –, era conhecido por “Deus”. Além de tantas qualidades, Ferrini era um filantropo, que usava a sua fortuna para ajudar algumas situações humanas de miséria, principalmente na África, e de refugiados, concentrando-se se mais no Oriente Médio, de onde muitos migravam para a Itália, onde ele vivia.
Não compreendo os detalhes técnicos do funcionamento do aparelho temporal inventado por Ferrini, mesmo porque a Física nunca foi o meu forte na escola. Sempre me senti atraído pelas Ciências Humanas, principalmente a Literatura e as artes em geral. Uma das minhas paixões, quase uma obsessão, é a Grande Guerra, a que após aquela desencadeada por Hitler, passou a ser chamada de Primeira. Impressionou-me a mudança de mentalidade do mundo, especialmente na Europa, após os quatro anos de sua duração. A Grande Guerra, aquela que foi considerada na época a “guerra que poria fim a todas as guerras”, parece ter matado a esperança no coração humano, não restando à humanidade senão viver intensamente o presente, o hoje, o aqui e agora, pois não se tinha certeza do amanhã.
Voltando a Ferrini, há anos ele vinha trabalhando no transporte temporal de pessoas e conseguiu êxito. Em diversas experiências, enviou ao passado e trouxe de volta pessoas preparadas para esse fim. Na conseguira transportar ninguém para o futuro, assim como não conseguiu transportar no espaço, isto é, para outro local, senão ao ponto de partida, no caso, o local de sua casa na região do Vêneto, na Itália, às margens do rio Piave. O transporte ao passado mostrou-se tão seguro, que Ferrini, unido a uma grande empresa de comunicações, lançou um concurso mundial para levar um cidadão civil ao passado que este desejasse.
O concurso constava de um texto no qual o concorrente escolhia uma época e explicava a razão dessa escolha, estando limitado, naturalmente, ao local da partida. Ao saber do concurso, escrevi um texto apaixonado sobre a Grande Guerra e enviei-o. Não julgo importante narrar detalhes do concurso, apenas o fato de que eu fui o escolhido, e, como vim a saber mais tarde, não apenas pela qualidade do texto, mas também porque o local onde Ferrini residia e trabalhava fora palco de batalha na Grande Guerra. Também não narrarei detalhes de minha preparação, apenas a insistência para não interferir de forma alguma no passado, pois as conseqüências para o futuro seriam incalculáveis, isso se houvesse essa possibilidade de interferir e mudar algo. Levei comigo uma espécie de tablet a energia solar, com arquivos sobre a época à qual eu seria levado, caso fosse necessária alguma informação que eu não conseguira memorizar durante o período de preparação para a experiência. Nos arquivos havia a relação com pequena biografia de todos os mortos na Grande Guerra, naquele local especialmente. Mas aquelas informações jamais poderiam ser divulgadas a qualquer pessoa daquele período. Eu escolhera o ano de 1918, já no final da guerra, pois seria possível perceber a transformação de mentalidades, o que tanto me interessava. No contrato do concurso, após o meu retorno, eu deveria produzir um texto, preferencialmente um livro, contando a experiência. Tudo deveria ser armazenado naquele tablet.
À hora da partida, Ferrini chamou-me à parte e pediu-me algo pessoal: sem que ninguém o percebesse; que eu filmasse os seus avós paternos, que haviam sido mortos no final da guerra. Sem interferir em nada. Apenas uma lembrança daqueles que ele conhecera de ouvir falar, mas nunca os vira, nem imagem, pois não sobrara fotografias deles, destruídas na guerra.
Fui deitado em uma poltrona que muito se assemelhava a uma cama inclinada e posto para dormir, a fim de não sentir nenhum efeito negativo do transporte pelo tempo. Comecei a sentir uma sonolência me dominar, as vozes foram ficando incompreensíveis e baixas, as imagens, embaçadas, foram sumindo. Adormeci.
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