Acordei quando um jovem alto e claro tocou-me. Ele assustou-se ao ver-me, chegando a dar um grito e caindo sentado para trás.
– Mas o que é isso! – gritou a seguir, em Inglês
Eu estava ainda um pouco tonto do transporte temporal e tentava entender o que estava acontecendo. O rapaz vestia um uniforme branco da Cruz Vermelha e, refeito do susto que levara, começou a falar-me num misto de Inglês e Italiano. Murmurei algo em Português, mas ele não entendeu nada. Falei então em Inglês e ele começou a falar comigo na mesma língua.
– Mas que susto você me deu, rapaz!
Após alguns instantes, continuou:
– O que você está fazendo deitado aí no chão? Eu estou recolhendo alguns mortos e feridos, e pensei que estivesse morto!
Gaguejando um pouco, eu lhe disse que havia chegado de uma longa viagem e me sentira um pouco tonto, por isso estava deitado ali. O jovem levantou-se e estendeu a mão para ajudar-me a erguer-me. Notando meu sotaque, embora eu falasse na mesma língua dele, perguntou-me:
– De onde vem você? Pela aparência não é italiano e pela fala não é nem inglês nem americano.
– Sou brasileiro.
– Ah... Brasil... já ouvi falar, mas nunca me atraiu a atenção.
E estendendo-me a mão, apresentou-se:
– Olá, Sou Ernest... e sou americano.
– Olá, eu sou Raul.
– Você veio do Brasil para combater, Raul?
– Não, vim acompanhar de perto a Guerra, para estudá-la.
– Hummm... é repórter, como eu?
– Não, apenas um analista. Você parece bem jovem para ser repórter.
– Tenho dezenove anos, mas já trabalhei alguns meses como repórter do jornal The Kansas City Star, na minha cidade, Oak Park, na América.
Fiquei pensando que o meu primeiro emprego eu o tive já na época da faculdade, aos vinte e um anos. E Ernest, aos dezenove, além de já ter a experiência de repórter, estava trabalhando como motorista de ambulância em plena Grande Guerra. Que coisa extraordinária! Com certeza devia ter muito mais experiência de vida do que eu, seis anos mais velho.
– Sinto inveja de você, Ernest, pois, sendo bem mais jovem, já deve ter feito coisas que eu nunca fiz na vida. Esta viagem à Itália é a minha maior experiência de vida. Nunca saí antes sequer de minha cidade.
Ernest deu uma gostosa gargalhada, jogando a cabeça para trás.
– Por que você está rindo – perguntei-lhe um pouco constrangido –, eu disse alguma besteira?
– Não, Raul, você não disse besteira alguma. Eu é que imaginei o que você pensaria se soubesse que eu, há quatro anos, saí da casa de meus pais para viver a minha vida, ganhar experiência e conhecer o mundo, mas acabei por voltar, pois eu precisava estudar.
– Quinze anos! – exclamei eu, espantosamente admirado. Eu, nessa idade, sentia-me uma criança. Nunca me passou pela cabeça a ideia de sair de casa sem que fosse para uma outra casa, após trabalhar e montar uma para viver, seja casado ou solteiro. Você é, realmente, um rapaz precoce!
Mais uma vez, Ernest deu uma gargalhada, tão espontânea e contagiante, que comecei a rir também, junto com ele. Nas próximas semanas que passamos juntos, essa gargalhada foi um dos aspectos de sua personalidade que mais me marcou.
Dois dias após a minha chegada, estando sempre acompanhando Ernest pelos campos de batalha, resgatando feridos e corpos de soldados mortos, conhecemos um rapazote que vivia em San Donà di Piave, que se tornou nosso companheiro inseparável. Como eu não falava Italiano e nem ele falava Inglês ou Português, era sempre Ernest quem servia de intérprete entre nós, não sem dificuldade, já que o seu Italiano ainda era incipiente, muito rudimentar. Mesmo assim, nos divertimos muito juntos, apesar de estarmos em plena Guerra. Seu nome era Giacomo, rapaz ainda imberbe, de apenas dezesseis anos. Encantador como Ernest, adorava conversar e ouvir a história de nosso amigo norte-americano.
Giacomo sempre trabalhara no campo, com seus pais, mas com a Guerra, as terras ficaram sem condições de cultivo devido às batalhas. Sabíamos que, além de ter gostado de nossa companhia, estar com Ernest lhe proporcionava alimento todo dia, que muitas vezes guardava em uma rústica bolsa de pano a tira-colo, que a mãe lhe fizera. Ernest, alguns dias após conhecermos Giacomo, juntou algum alimento e fomos à casa do rapazote para um almoço com sua família. Eram pobres, analfabetos, simplórios, mas extremamente amáveis, nos recebendo com muita alegria e gratidão pelo alimento que estávamos proporcionando ao casal e filhos. Principalmente o pai de Giacomo, contou-nos inúmeras histórias de sua aldeia e família, muitas emocionantes, outras divertidas. Aos poucos, embora eu não dominasse a Língua Italiana, comecei a entender muito do que diziam. Tive a vontade de usar o meu tablet para filmá-los, mas não tive oportunidade. E lamentei muito não fazê-lo, pois, cerca de dois ou três dias depois, estando trabalhando com Ernest na ambulância, um outro jovem apareceu chamando Giacomo, mas não por seu nome.
– Ferrini!
Ao ouvirmos o nome, Giacomo imediatamente virou-se para o jovem e acenou-lhe. Parei estupefato e incrédulo. Giacomo era o avô de Emanuele Ferrini, a quem eu devia a minha presença ali. Infelizmente, não cheguei mais a ver os seus pais e não pude atender ao pedido que “Deus” me havia feito.
Nos vários dias que passamos juntos, Ernest perguntou-me muitas coisas sobre a minha vida, minha família, meu país, mas eu esquivava-me, com medo de trair o meu segredo ou parecer insensato em minhas respostas, já que eu vinha de um tempo futuro à sua realidade. Em compensação, embora Ernest fosse extremamente atencioso às minhas evasivas respostas, nunca me interrompendo, como se eu estivesse a revelar-lhe as histórias mais extraordinárias, eu devolvia-lhe outras perguntas sobre a sua vida, que ele respondia de forma comedida, mas apaixonadamente. Era um grande contador de histórias, embora o fizesse sem rodeios, de forma simples, mas encantadora. Parecia nunca descrever todos os aspectos do que dizia, permitindo a quem o ouvisse imaginar a cena como melhor lhe prouvesse.
Fiquei ainda mais interessado em Ernest e em suas histórias sobre si, pois tive a curiosidade de saber mais sobre a sua vida e soube que o meu amigo morreria em poucas semanas, segundo o histórico das vítimas da Grande Guerra na Batalha de Piave.
Quando eu o reencontrei, após ter essa informação, fiquei a olhá-lo sem nada dizer e lágrimas vieram-me aos olhos. Ernest olhou-me, sorriu, desviou o olhar e voltou a olhar-me, pegando a mirá-lo fixamente.
– Ei, Raul, o que há? Se apaixonou por mim? – e deu sua gargalhada.
Tentei sorrir para disfarçar, mas meu coração estava triste de morte. Ernest estava em pé, com um caderno escolar pautado apoiado na ambulância, escrevendo as suas impressões da Guerra para mandar para um jornal nos Estados Unidos. Parou de escrever e chamou-me e a Giacomo para irmos fazer o nosso trabalho na frente de batalha. No carro, fui-lhe perguntando mais sobre sua vida, pois, ao voltar, queria escrever sobre ele, para que seu nome não ficasse esquecido. Seu corpo poderia não voltar à sua terra, permanecendo sepultado em terras italianas, mas eu resgataria um pouco da história desse jovem extraordinário que perderia a vida na Grande Guerra. Mais um entre tantos jovens, milhares de jovens, milhões, que não conheceriam um futuro, que não realizariam os seus sonhos.
– Ernest, fale-me um pouco de seus pais – eu lhe pedi.
Ele continuou a dirigir a ambulância, permanecendo em silêncio. Momentos depois, respondeu-me:
– Não há muito a dizer, Raul. Minha família é uma típica família americana, comum, igual a tantas outras. Meu pai é médico e deseja que eu siga os seus passos, mas não me atrai nada essa profissão.
– Embora, aqui, seria de grande utilidade para tantos feridos, você não acha?
– Sim, claro, mas não me vejo como médico. Eu gosto mais da área de Humanidades e desejo ser não apenas um repórter, mas um escritor. Aos poucos vou amadurecendo essa idéia.
– Histórias você sabe contar muito bem. Creio mesmo que você deve investir nessa área. Vai fazer sucesso.
“Talvez fizesse sucesso, pensei eu, caso você sobrevivesse a esta Guerra”.
Ernest mais uma vez deu sua gargalhada, dando-me um pequeno e leve soco no braço, agradecendo pelo que eu dissera.
– E tua mãe?
– Minha mãe ama tudo relacionado às artes. Se meu pai quer que eu seja médico, já ela deseja que eu seja músico. Você nem imagina quantas horas eu passei da minha vida estudando violoncelo! Mas ao mesmo tempo em que eu estudava, ficava meditando sobre a minha vida e sobre as pessoas, também em meus pais, que desejavam se realizar em mim. Acho que é essa reflexão que me atrai para escrever. As pessoas são muito mais interessantes que os simples fatos.
– Eu estou percebendo isso, Ernest, desde que te conheci.
– Por que você diz isso, Raul?
– Porque você parece ter uma personalidade e uma paixão pela vida que vai além da tua própria vida. É uma pena que um dia tenha de morrer.
– Não se preocupe com isso, Raul. Ainda tenho toda uma vida para viver e muito a conhecer e a fazer. Nem ao menos me casei e quero ter uma esposa e filhos. Só não sei se conseguirei me fixar em uma cidadezinha qualquer.
Jogou a cabeça para trás e gargalhou. Sorri de sua gargalhada, mas virei o rosto para o outro lado, para que Ernest não visse minha expressão de tristeza ao, mais uma vez, lembrar sua morte próxima.
– Depois que fugi de casa aos quinze anos e retornei, contrariando meu pai, conclui os estudos de Humanidades. Por ser mais alto e corpulento que a maioria dos meus colegas de escola, fiz muito sucesso como jogador de futebol e também como boxeador. Você não imagina o prazer que me dá boxear, testar minha habilidade e meus limites, assim como do meu oponente. Além disso, eu podia escolher as garotas a dedo.
Rimos juntos das conquistas que ele foi-me narrando, seja nos jogos, lutas e garotas. Muitas histórias. Muito bem narradas.
– Mas eu queria muito mais do que isso. Eu queria ganhar o mundo, por isso, logo que me foi possível, eu comecei a trabalhar como repórter diário no Kansas City Star. Aprendi mais a escrever através do trabalho no jornal do que nas aulas do colégio.
– Você fez algum curso técnico para ser repórter?
– Curso técnico? O que é isso?
– Nada... esquece... bobeira minha... Como você aprendeu a ser repórter.
– Aprendi sendo. Tive, é claro, orientação de repórteres mais experientes. O diretor do Kansas City Star dava orientações aos redatores de como escrever. Ele ensinou-me a eliminar o supérfluo do texto, a ser preciso naquilo que se vai narrar, a ser transparente, claro, neutro, a construir frases simples e objetivas, sem floreios, sem empolação. Desde então, tento praticar isso.
– E, pelo visto, está conseguindo. Agora entendo porque tuas narrativas me cativam. Eu adoro ouvir você contando suas histórias.
Novo leve soco em meu braço, uma de suas formas viris de agradecimento.
– Você sendo tão alto e atlético, por que veio trabalhar como motorista de uma ambulância e não como soldado. Pelo que você me disse um dia, você adoraria pegar nas armas.
– Ah, Raul, eu queria mesmo ser soldado! Travar batalhas contra os inimigos, lutar por ideais. Mas fui reprovado numa droga de exame de vista, acredita?! Acho que ficaram com medo que eu confundisse os meus colegas com os inimigos e matasse as pessoas erradas, pondo o exército italiano a perder a guerra.
Dessa vez, gargalhamos juntos.
– Não conseguindo ir para a frente de batalha, vim para a Itália como voluntário e consegui este trabalho de motorista de ambulância da Cruz Vermelha. Os mortos que vejo, são apenas os italianos; nunca matei nenhum inimigo, mas consigo, muitas vezes, salvar os nossos aliados.
No dia 15 de junho de 1918, o exército austro-húngaro iniciou uma ofensiva às linha italianas, mas uma semana depois, devido à resistência dos italianos, retrocederam para a margem leste do Rio Piave. Na região montanhosa onde nos encontrávamos havia pouco combate e, portanto, pouco trabalho para motoristas de ambulância, como Ernest. Assim, vários motoristas se ofereceram para distribuir provisões nas proximidades da Batalha do Piave. Ernest levou-me e a Giacomo para “partirmos para a ação”. Ficamos hospedados em uma grande casa com quatro dormitórios, dois em cima e dois embaixo. Ernest escolheu um dos de cima para nós. Estávamos a cerca de dois quilômetros da fronteira com a Áutria. Certo dia, uma bomba caiu pelo telhado e destruiu o quarto ao lado do nosso. Os canhões italianos rugiam a noite toda atrás de nós. A nossa “heróica” missão no “front” era distribuir chocolates e cigarros aos feridos e também aos soldados em batalha. Todo dia, de manhã e à tarde, enchíamos uma mochila com charutos, cigarros, chocolates e cartões postais, colocávamos nossos capacetes de metal, que Ernest apelidara de “tampa de lata”, e as máscaras de gás e íamos de bicicleta para as trincheiras.
Ernest estava no comando, procurava fazer bem o seu trabalho e passar força para os amigos e, na medida do possível, alguma alegria. Era um líder nato e fazia o seu trabalho sempre sorrindo para os italianos entrincheirados, que o chamavam de “giovane americano”, o jovem americano.
Estávamos há seis dias nessa atividade, sem maiores problemas, sentindo-nos extremamente úteis em meio a toda a ação da guerra. Lembro-me que, no dia 8 de julho, por volta da meia-noite, estávamos em uma colina em Fossalta, distribuindo chocolates, quando Giacomo pediu a Ernest que lhe jogasse um chocolate, pois os nossos haviam acabado. Apesar do ambiente de guerra, morte e destruição, naquele dia eu estava particularmente feliz por estar partilhando a vida de Ernest e Giacomo. Quando o garoto pegou o chocolate, eu brinquei que iria roubá-lo dele. Rindo, ele tentou fugir em direção a Ernest. Consegui tirar-lhe o chocolate e corri. Giacomo alcançou-me e pulou às minhas costas. Larguei o chocolate no chão, segurei Giacomo pelos braços que me enlaçaram e o ergui um pouco do chão, à frente de Ernest. Nesse instante, um enorme torpedo de trincheira explodiu perto de nós, atingindo Giacomo nas costas, cabeça e pernas, e a mim e a Ernest nas pernas. Caímos os três e a força da explosão nos deixou desacordados por um tempo e cobertos de terra. Quando voltei a mim, olhei para Giacomo, percebendo a gravidade de seus ferimentos. Ele olhava para mim e para Ernest, que, por um instante, esquecemos de nossos inúmeros ferimentos causados pelos estilhaços. Giacomo parecia assustado e incrédulo com o que acontecera com ele. Sangrava muito. Eu olhava para Ernest, como a pedir socorro para o nosso jovem amigo, pois eu me sentia impotente ante a situação. Naquele momento, veio-me à mente que, segundo as informações que eu vira em meu tablet, Ernest morreria em uma explosão, quando estava sobre uma colina em Fossalta. Segundo a informação histórica, a explosão atingira Ernest em todo o corpo, dilacerando-lhe pernas, tronco e cabeça. Mas algo havia acontecido e os estilhaços haviam ferido mortalmente Giacomo, que devido à minha brincadeira, ficara entre o morteiro e Ernest. Mas era impossível. Giacomo seria o avô do Emanuele Ferrini.
– Ernest, por favor... me ajude... Giacomo está morrendo.
Consegui sentar-me e coloquei Giacomo abraçado a mim, procurando protegê-lo. Olhando em seus olhos, percebi que ia perdendo o brilho.
E, de repente, tudo escureceu.